Amores, im/permanência e maturidade

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Inspirada estreia solo de Carolinaa Sanches (vocalista dos grupos Caburé Canela e Pisada da Jurema), “Curva de rio” chega às plataformas de streaming dia 8 de abril (sexta-feira)

Curva de rio. Capa. Reprodução

Após disponibilizar dois singles, a cantora Carolinaa Sanches lança no próximo dia 8 de abril (sexta-feira), o álbum “Curva de rio”, sua estreia solo – ela integra os grupos Caburé Canela e Pisada da Jurema, além de ser artista visual e uma das gestoras da editora artesanal Grafatório, cujas obras-primas lançadas garantem a felicidade de quem ama livros.

O trabalho reafirma seu talento e maturidade artística. “Curva de rio” abre com “Cantar” (Carolinaa Sanches), o segundo single apresentado ao público, que conta sobre o mágico, difícil e sagrado ofício do verbo que lhe empresta o título. Ela se acerca de gerações distintas de cantores, nas presenças da veterana Alzira E., além de Gustavo Galo (da Trupe Chá de Boldo) e Isabela Lorena, também da Pisada da Jurema.

“Quando você chegou/ eu quis comemorar/ eu quis dançar até o amanhecer/ eu quis beijar você”, segue “Instante” (Carolinaa Sanches/ Layse Moraes), segunda faixa do álbum. A esta altura o ouvinte já está envolvido e bem poderia ser ele, ela, qualquer um de nós, devolvendo à Carolinaa a declaração. Cantada a seis vozes – além de Carolinaa e a parceira, Caruh Spisla, Francesco Mugnari, Guilherme Kirchheim e Mariana Franco –, um clima samba-jazzy se instala, no diálogo entre contrabaixo (Mariana Franco), teclado (Lucas Oliveira) e bateria (João Bolognini).

“Curva de rio” é delicado, bonito, gostoso de ouvir. Um alento nestes tempos trevosos. Letras inteligentes dialogam com melodias que convidam à dança. Carolinaa Sanches literalmente põe o coração na voz. “Cartas claras sobre a mesa/ desfrutar dos nossos sóis/ e a gente de peito aberto/ cada vez chega mais perto/ de entender o que é nós”, como diz na letra de “Nós” (Carolinaa Sanches), canção de amor que se equilibra entre o xote e o jazz, pontuada pelos contrabaixos de Mariana Franco (que também canta na faixa), a bateria de Paulo Moraes e o clarinete de Pedro José – os três, seus colegas de  Caburé Canela.

Ao longo do disco, Carolinaa revela-se, desnuda-se, derrama-se, entrega-se por completo. “Entre uma palavra e outra/ entra uma palavra noutra/ nenhuma boca chama assim meu nome/ nenhuma boca deixa em chama assim”, começa a letra de “Primeira primavera” (Carolinaa Sanches/ Barbara Blanco), cantada em dueto com Fernanda Branco Polse. Sim, o amor (e suas declarações) permeia(m) “Curva de rio” – um rio que transborda amores –, mas aqui o mais universal (e manjado) dos temas de música e poesia é cantado de forma extremamente original.

Se “amar é um elo entre o azul e amarelo”, como diria o conterrâneo Paulo Leminski – ele curitibano, ela londrinense –, a cantora e compositora dialoga com o universo do poeta em “Profundo amarelo” (Carolinaa Sanches), outra faixa em que baixo e clarinete se destacam. Versos como “não fosse tanto era quase/ não fosse isso era menos” invertem o título do famoso livro do artista multimídia (antes de o termo ser inventado), o que ela também é, mantendo o diálogo, o respeito e fazendo merecida reverência.

Em “Órbita” (Carolinaa Sanches), a canção mais experimental do disco, ela canta, em quarteto com Pedro José, Mariana Leon e Mariana Franco: “sentir seu coração/ faz-me entrar em outra constelação / e mesmo sem entrar em órbita/ eu já consigo tirar meus pés do chão/”. O ouvinte é tripulante da nave musical, viagem sem volta tanto a quem já conhecia a artista dos grupos que ela integra quanto àqueles a quem será apresentada por este lançamento.

Primeiro single lançado, em fevereiro passado, e primeira faixa a ganhar videoclipe, “Petricor” (Maria Thomé), literalmente o cheiro da chuva, é canção ensolarada – e não reside aí nenhuma contradição –, espécie de arco-íris do disco. O baião, de autoria da percussionista da Caburé Canela, reafirma a estreita ligação de Carolinaa Sanches com a cultura popular nordestina, algo percebido ao longo de todo “Curva de rio”.

O inspirado disco termina com “É” (Carolinaa Sanches), canção de despedida com os dois pés nos terreiros das religiões de matriz africana, infelizmente ainda alvos de tanta discriminação e violência. A faixa reflete sobre o individual e o coletivo, reivindicando o respeito aos seres humanos, mais que independentemente de suas diferenças, mas para além e também por causa delas. É faixa quase exclusivamente feminina, a que comparecem Thais Hamer (alfaia e voz), Maria Thomé (tambor de mão e voz), Edna Aguiar (voz), Guilherme Kirchheim (voz), Isabela Lorena (voz), Naná Souza (voz), Thunay Tartari (voz) e Mariana Franco (voz). “Junto ser único”, palavra de ordem.

Carolinaa Sanches não anda só; além de aqui e acolá seus colegas de bandas comparecerem, ao álbum plural se fazem presentes mais de 20 artistas, entre autores, intérpretes e instrumentistas. Artista de raro talento, em seu solo ela está muito bem acompanhada, como a subverter o dito popular: Gabriel Kruczeveski (flauta transversal, efeitos, violão e voz), João Bolognini (bateria), Lara Moratto (flauta transversal), Lucas Oliveira (teclado), Maria Thomé (tambor de mão, caxixi, zabumba, triângulo e voz), Mariana Franco (contrabaixos, violão e voz), Paulo Moraes (bateria) e Pedro José (clarinete, viola caipira e voz) formam sua banda base.

Essa soma de talentos e a entrega de cada um/a a cada nota, garantem uma diversidade de timbres que mantém o disco distante de qualquer sintoma de monotonia. “Curva de rio” foi gravado em Londrina, no Toqô Estúdio, por Gabriel Kruczeveski, que assina também sua mixagem e masterização. A direção musical é de Mariana Franco. A capa é assinada pela própria Carolinaa Sanches, sobre foto de Paula Viana.

Carolinaa Sanches resume o conceito por trás do título do disco: “A princípio pensava na curva de rio como um espaço onde as “coisas” param. No meio do processo fui entendendo que as coisas param por um tempo, pois o rio está sempre em movimento e as leva para outros lugares. Então as coisas passam pela curva. As “coisas”, nesse trabalho, dizem respeito mais às “pessoas” mesmo. Como é um trabalho que envolve muitos anos, envolve diferentes amores em que me inspirei para as músicas, e também, foi um álbum construído a muitas mãos. Tenho pensado que a curva sou eu. O espaço que permitiu que outras acessassem e conhecessem essa parte do rio. Aceitando a impermanência e também a permanência das relações. A curva de rio pode ser vista de cima e também de dentro, mergulhada nos amores profundos, que mesmo que findem, ficam”.

“Curva de rio” tem patrocínio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Londrina). Ouça sem moderação!

A cantora, compositora e artista visual Carolinaa Sanches. Foto: Paula Viana

Serviço: “Curva de rio”, álbum de Carolinaa Sanches. Disponível nas plataformas de streaming na próxima sexta-feira (8). Siga a cantora nas redes sociais e plataformas digitais: instagram, spotify, youtube, deezer e apple music. Faça a pré-save:

Palco Mundo e a alegria do reencontro com a boa música

O Gabriel Grossi Quarteto. Foto: Zema Ribeiro

O baixista Nema Antunes dedicou seu show a seus pares de instrumento Arthur Maia (1962-2018) e Mauro Sérgio, falecido ano passado, vítima de covid-19. Com ele, no palco, um sexteto formado no Maranhão, para a apresentação, incluindo dois integrantes do Quarteto Buriti – de que o contrabaixista Mauro Sérgio, ex-professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, fez parte: Ronald Nascimento (bateria) e Daniel Cavalcanti (trompete e flugelhorn), este também professor da Emem. Ao piano, Marcelo Carvalho, autor de um dos números instrumentais do roteiro, gravado por Nema em “Plúmbeo”, seu disco mais novo. O grupo se completava com Israel Dantas (guitarra), Ricardo Mendes (saxofone) e Renato Serra (teclado) e demonstrou, ao longo da apresentação, que a prática leva à perfeição, tal a qualidade da performance.

Era o show de abertura do Palco Mundo 2022, projeto que integra o circuito Lençóis Jazz e Blues Festival, normalmente realizado em paralelo ao evento, no segundo semestre, com apresentações em Barreirinhas e São Luís. Nenhuma das seis atrações do line up dos dois dias do evento é novidade na produção de Tutuca Viana: todos já se apresentaram em edições anteriores do LJBF. Mas valeu a pena o reencontro de artistas com a plateia, sentimento recíproco traduzido em palavras ouvidas tanto no palco como entre o público.

Os artistas celebravam esse reencontro, após dois anos de lives e esporádicas apresentações presenciais. Não sei se isso potencializou a ranzinzice do repórter, cada vez menos tolerante com aqueles que vão a teatros para ver o show através da tela do smartphone ou que aproveitam qualquer intervalo para ver ou ouvir, obviamente sem fones de ouvido, para azar da vizinhança, o último vídeo do tik tok ou a última mensagem de áudio enviada no grupo da família. Depois não me venham reclamar de Zé da Chave, que obviamente chegou na metade da primeira apresentação, instalou-se na frisa mais próxima à direita do palco e atacou com seu molho.

A apresentação seguinte era do gaitista brasiliense Gabriel Grossi, acompanhado por Eduardo Farias (piano e teclados), Michael Pipoquinha (baixo) e Sérgio Machado (bateria), outro super grupo.

O show foi pautado no repertório de seu disco mais recente, “Re disc cover”, um trocadilho esperto que joga com o fato de ser um disco de releituras de clássicos do pop rock das décadas de 1960 a 90 e sua redescoberta, seja por um público mais jovem, seja por amantes da música instrumental brasileira com pouca relação com bandas como Oasis, Nirvana, Queen e Jackson 5, entre outras – em maio do ano passado ele conversou com Gisa Franco e este repórter, no Balaio Cultural, da Rádio Timbira AM, sobre o álbum.

Grossi se entrega completamente no palco, entre despir o repertório das letras que estamos acostumados a cantar e vesti-lo com sua gaita, quase à beira do esgotamento físico: seu rosto se avermelha, os joelhos dobram, e entre um solo e outro dos músicos que lhe acompanham, muitos goles d’água, para dar conta do recado. De “Isn’t she lovely”, de Stevie Wonder, passando por “Smells like teen spirit”, do Nirvana, “Wonderwall”, do Oasis, “Ben”, do Jackson 5, “Message in a bottle”, do Police, e “Another one bites the dust”, do Queen. Ao reafirmar o prazer de estar em São Luís e falar da força da cultura do Maranhão, lembrou-se que a ilha do amor é também a Jamaica brasileira, antes de atacar de “Redemption song”, de Bob Marley.

Foi o grande show da noite, numa noite de três grandes shows. A quinta-feira seria encerrada com a apresentação do majestoso Filó Machado, setentão paulista mais conhecido e respeitado fora do Brasil, como tantos de nossos gênios. Cantor, compositor, arranjador e multi-instrumentista, apresentou um show autoral, em que prestou homenagens a “Vadeco” (o título da música remete a seu professor de violão), e lembrou a importância do aprendizado oferecido pela experiência de tocar na noite, em bares e boates.

“Se eu não tivesse tido essa experiência, agora eu estaria nervoso, me perguntando o que fazer”, disse, senhor da situação e arrancando risos e aplausos da plateia. Quando um roadie assomou ao palco para corrigir uma sobra de frequência no violão de Felipe Machado (seu neto, que cantou dois bonitos sambas autorais), ele tornou a divertir o público: “eu sou curioso. Eu fiquei vendo aqui e até esqueci de vocês”, disse, para mais gargalhadas. E continuou, num jogo de melismas e onomatopeias repetido pelo público, elogiado pelo artista. Nessa brincadeira, cantou sem o microfone, sempre acompanhado pelo público, e assim, desceu do palco e deu uma volta ao redor da plateia até retornar para junto do grupo que o acompanhava, que se completava com o mesmo baterista de Gabriel Grossi, Sérgio Machado (seu filho), Fábio Leandro (piano e teclados), Carlinhos Noronha (baixo) e Jota P (saxofones).

A programação do Palco Mundo continua hoje (25), a partir das 19h, com apresentações de Gabriela Marques, Bebê Kramer e Arismar do Espírito Santo. A entrada é gratuita e as pulseiras de acesso ao teatro podem ser retiradas na bilheteria, desde as 14h de hoje, sugerindo-se a troca por um quilo de alimento não perecível. A arrecadação será doada à ONG ludovicense Pouso Obras Sociais.

Uma lufada de alegria, beleza e inteligência

[Com as bênçãos de Celso Borges e Otávio Rodrigues, baita honra e enorme responsabilidade ter recebido o convite para escrever o release oficial deste disco lindo, que chega às plataformas no próximo dia 30]

Maestro Tiquinho em sessão de gravação de "Trombonesia". Foto: Paola Vianna
Maestro Tiquinho em sessão de gravação de “Trombonesia”. Foto: Paola Vianna

O apelido no diminutivo usado como nome artístico não traduz, de cara, a grandeza de Marco Aurélio de Santis. Maestro Tiquinho, como acabou ficando conhecido no meio musical, é um desses arquitetos da música popular brasileira cujo nome quase nunca figura nas placas de inauguração das obras, mas está lá para quem quiser ver e ouvir. Fossem os meios de comunicação mais dispostos ao aprofundamento e os ouvintes em geral mais curiosos, o trombonista seria merecidamente mais conhecido.

De Chico Science a Gal Costa, passando por Chico César e Zeca Baleiro, além de Elza Soares, Marcelo Jeneci, Jorge Benjor, Seu Jorge, Gilberto Gil, João Donato, Tom Zé, Erasmo Carlos, Nando Reis, Skank, Tião Carvalho e Papete, entre outros, além de bandas que integra/ou – Professor Antena, Clube do Balanço, Karnak e Funk Como Le Gusta –, pelo leque é possível perceber a abrangência de seu trombone elegante.

"Trombonesia". Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera
“Trombonesia”. Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera

Tiquinho acaba de lançar o aguardado e merecido disco solo de estreia, “Trombonesia”, título que evoca o encontro de seu conteúdo: o trombone do mago com a poesia, pelas vozes dos dub poets André Abujamra, Celso Borges, Chico César, Fernanda Takai e Zeca Baleiro, convidados mais que especiais que contribuem para o brilho e a brisa dessa tertúlia poético-musical. O álbum foi realizado através do Edital de Apoio à Criação Artística – Linguagem Reggae – da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

““Trombonesia” não é apenas o nome do álbum, mas uma palavra que nasce para unir sons, artes e estilos, sem usar de estereótipos ou padrões definidos”, afirma ele, ao mesmo tempo ourives e alquimista. Produzido por BiD, gravado ao vivo no estúdio Space Blues por Alexandre Fontanetti, e mixado por Victor Rice, todos magos em seus ofícios, o disco é arejado e ensolarado, com ecos de nomes como Don Drummond, Joseph Cameron, Nambo Robinson, Rico Rodriguez e Vin Gordon, para citar alguns de seus colegas de instrumento, em cujas fontes certamente Tiquinho bebeu para embriagar-nos.

Se aqueles foram fundamentais para o que acabamos por chamar de “clima” ou “mística natural” do reggae jamaicano, Tiquinho navega com desenvoltura por estes m/ares, aproximando Jamaica e Brasil – o sopro do paulista de Bauru nos leva a voar e pousar precisamente em São Luís do Maranhão, não à toa alcunhada Jamaica brasileira.

Mas tudo isto é pouco para tentar entender, explicar, rotular ou traduzir sua sonoridade (o que, na verdade, é tarefa impossível): ao mesmo tempo você está em um clube de reggae, em uma festa de sound system, em um baile black. O tempo é tema recorrente no repertório e os tons afogueados do projeto gráfico (de Gian Paolo La Barbera) ajudam a entender imediatamente que a coisa é quente.

Tiquinho assina todas as composições e arranjos do disco, em que é acompanhado por Edu SattaJah (contrabaixo elétrico e acústico), Rogério Rochlitz (piano acústico, órgão Hammond e piano elétrico), Che Alexandre Caparroz (bateria) e Simone Sou (percussão em “Oriente-se”). Em tempos de “duelo de eu e ego” (como salienta Chico César no canto falado de “Oriente-se”) “Trombonesia” é uma lufada de alegria, beleza e inteligência, estes ingredientes de brasilidade que alguns tristes andam querendo caçar nestes tempos de trevas – que Maestro Tiquinho e suas boas companhias teimam em iluminar. Para sorte e felicidade nossa! Jah bless!

Serviço: lançamento de “Trombonesia“, disco solo de estreia de Maestro Tiquinho. Dia 30 em todas as plataformas digitais.

Um encontro provocativo

A louca do sagrado coração. Capa. Reprodução
A louca do sagrado coração. Capa. Reprodução

 

O encontro de dois dos maiores gênios em suas respectivas áreas não tinha como dar errado. É o que percebemos mais uma vez ao longo de A louca do sagrado coração [Veneta, 2019, 200 p.; R$ 89,90; tradução: Letícia de Castro e Rogério de Campos], delirante história em quadrinhos de Alejandro Jodorowsky e Moebius (Jean Giraud, 1938-2012).

Na lista de fãs da dupla estão os Beatles John Lennon e George Harrison, o Stone Mick Jagger e os cineastas Federico Fellini e George Lucas, entre muitos outros.

Em geral soa clichê dizer que uma hq tem tons cinematográficos, mas é impossível fugir dele quando se trata da união do cineasta chileno com o quadrinista francês.

A louca do sagrado coração foi originalmente publicada em três partes ao longo da década de 1990, quando Moebius já era “não apenas o grande nome dos quadrinhos franceses, mas provavelmente o mais cultuado e premiado quadrinista do mundo”, como relembra o tradutor Rogério de Campos em Escândalo sagrado, prefácio rigoroso e vigoroso. Quando de sua morte, dele disse o jornalista Jotabê Medeiros: “ele inventou a imaginação dos autores que inventaram a ficção visual da minha época, nada menos que isso“.

Só agora lançada no Brasil, a trama tem elementos de suspense, policial e comédia. Após um divórcio, um renomado professor de filosofia da Sorbonne ingressa numa aventura que inclui reencarnações divinas, bombardeios americanos (sob o pretexto de combater o narcotráfico sul-americano), ayhauasca, feitiçaria e crises de diarreia que, além de humanizar o catedrático, leva o leitor a gargalhadas ao longo de toda história.

A louca do sagrado coração. Reprodução
A louca do sagrado coração. Reprodução

A louca do sagrado coração. Reprodução
A louca do sagrado coração. Reprodução

Moebius viria a influenciar boa parte da ficção científica produzida após ele, e Jodorowsky é um cineasta ambicioso, entre obras realizadas e abortadas (Duna, o “maior filme de ficção científica jamais realizado”, que “seria estrelado por Orson Welles, Salvador Dali, Mick Jagger”, entre outros; “o Pink Floyd faria a trilha sonora” do “projeto que nasceu e morreu em meados dos anos 1970”, como também relembra Rogério de Campos. A louca do sagrado coração é um ótimo exemplo de como juntar um traço sóbrio e elegante a uma história instigante e cheia de reviravoltas, que prende a atenção do leitor.

A louca do sagrado coração é outro livro “publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação 2019 Carlos Drummond de Andrade do Instituto Francês do Brasil”, “com o apoio do Ministério francês da Europa e das Relações Exteriores”, a exemplo de Travesti, que marca outro encontro da pesada: o quadrinista francês Edmond Baudoin com o escritor romeno Mircea Cărtărescu.

O título antecipa o recheio satírico em que sobram críticas à academia e principalmente à igreja. Não é um álbum recomendável para caretas, reacionários, mau-humorados ou para quem acha que livros são “um montão de amontoado de muita coisa escrita”, mesmo em se tratando de uma história em quadrinhos.

Alma e sentimentos

Uma irmã. Capa. Reprodução

 

Uma irmã [Une soeur; tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2018, 212 p.; R$ 55,00; leia um trecho] é uma metáfora para falar de amizade e das descobertas da adolescência. O francês Bastien Vivès conta a história de Antoine e Hélène, que se encontram durante um período de férias e passam a fazer tudo juntos – apesar de Titi, irmão mais novo dele.

É um período de grandes curiosidades e descobertas, em que álcool e fumos (no plural) se juntam ao desejo de desobediência aos pais, aventuras em que o par de protagonistas mergulha junto, com mais ou menos experiência.

Antoine e Hélène são, um para o outro, o grande achado daqueles dias, iniciados com uma tragédia e encerrados com outra. Entre os dois adolescentes, lições de companheirismo, confiança e cumplicidade.

Belo e delicado, o traço de Vivès tem um quê de abstrato, como se o autor quisesse captar e passar aos leitores a alma e as sensações de seus personagens – no que atinge seu objetivo. É uma graphic novel bastante sensual, nunca vulgar.

Os sentimentos que povoam os personagens de Vivès são absorvidos por seus leitores, comovidos cúmplices.

Os personagens gigantes de um quadrinhista idem

Duas vidas. Capa. Reprodução

 

Tragicomédia é o termo que bem poderia definir Duas vidas [Les deux vies de Baudouin; tradução de Fernando Scheibe; Nemo, 2018, 272 p.; leia um trecho], nova graphic novel de Fabien Toulmé, autor da ótima Não era você que eu esperava [Nemo, 2017, 254 p.] – sua estreia, em que transforma um drama particular em matéria-prima de uma baita hq, citada sutilmente neste volume mais recente –, mas a palavra não aparece na capa ou na ficha catalográfica do álbum.

Francês com passagem pelo Brasil (morou em João Pessoa), Toulmé abandonou a profissão de engenheiro civil para se dedicar exclusivamente aos quadrinhos. Seu traço tem influência confessa de Hergé, o pai de Tintim.

Como a profissional do autor, uma guinada na vida é o mote de Duas vidas, para o qual escolheu uma epígrafe de Confúcio: “Você tem duas vidas. A segunda começa quando você percebe que só tem uma”.

O drama acompanha o reencontro dos irmãos Baudouin e Luc, cujos estilos de vida são absolutamente distintos. O primeiro enterrou o sonho de ser líder de uma banda de rock para se dedicar a um seguro (e monótono) emprego em um grande escritório de advocacia. O segundo viaja pelo mundo inteiro, levado pelo ofício da medicina. O recurso do flashback ajuda o leitor a entender a formação de personalidades tão diferentes, diante da relação com o pai.

De passagem por Paris, Luc ajuda Baudouin a elaborar uma lista de coisas que deseja fazer antes da morte que se avizinha com a descoberta de um câncer terminal. O sofrimento é amenizado por doses de bom humor na medida exata. A viagem agora é em busca do tempo perdido e de perceber o que realmente vale a pena na vida, emoldurada por traços e cores de amor e altruísmo. A habilidade de Toulmé na condução da trama deixa o resenhista absolutamente tranquilo em relação a qualquer possibilidade de spoiler.

Há quadrinhistas que sabem apenas desenhar. Definitivamente não é o caso de Fabien Toulmé, sempre além, com seus personagens, que se agigantam diante das peças que a vida lhes prega.

A poesia indo além

Paulo Leminski dizia que a pessoa que não escreve um verso, mas não consegue dormir sem ler umas páginas de Fernando Pessoa ou outro poeta de sua preferência, é tão poeta quanto quem escreve. Muita gente desiste da poesia às vezes pela forma como ela é enfiada goela abaixo, sobretudo nas escolas, sendo associada, no imaginário popular (preconceituoso), quase sempre a professores/as chatos/as, por detrás de grossas lentes, isso sem falar na “utilidade” da poesia.

Caco Pontes comanda o Baião de Spokens no Teatro Oficina, durante a gravação do dvd. Foto: Mundo em Foco

Mas poesia pode ser outra coisa, poesia deve ser outra coisa, poesia precisa ser outra coisa. Um bom exemplo é o Baião de Spokens, idealizado e capitaneado pelo ator e poeta Caco Pontes (autor, entre outros, do ótimo Sensacionalíssimo, com poemas baseados em notícias de jornais sensacionalistas, editora Kazuá, 2013), projeto multimídia que agrega diversos nomes de várias áreas e já teve várias apresentações em festivais, feiras e mostras.

#Opendrive. Capa. Reprodução

Gregário por natureza, o projeto chega ao disco, recheado de parcerias e participações especiais. Disco é modo de falar, evocando o conceito de álbum: o trabalho do Baião de Spokens é lançado (também) em pendrive, mesclando diversos suportes, com a mídia permitindo ao proprietário/colecionador/usuário salvar seus próprios arquivos além do disco, livro e dvd (com a videoperformance de show gravado ao vivo no Teatro Oficina, enquanto Silvio Santos não lhe veda com suas torres e a “força da grana que ergue e destrói coisas belas”), uma sacada-trocadilho inteligente com o título do trabalho: #Opendrive.

Além de parceiros, participações especiais, linguagens e suportes, #Opendrive também é ponto de encontro de várias referências, da vanguarda paulista ao Nordeste de Luiz Gonzaga (evocado, além de musicalmente, nas xilogravuras do projeto gráfico de Daniel Minchoni), passando pela Bossa nova e pelo rap, afinal de contas, abreviatura de rhythm and poetry.

Melô do pendrive, que abre o disco com a participação especial de Sandra X (voz), dialoga com o rap e o canto-falado de Linton Kwesi Johnson. Réu, com a participação especial de Alzira E e Iara Rennó evoca Itamar Assumpção, melodicamente, no jeito em que o canto é entoado e no sample de Vinheta I (Itamar Assumpção), que abre Beleléu, leléu, eu (1980), disco de estreia do tieteense.

Sophia Lacoste evoca outra obra-prima oitentista, Clara Crocodilo (1980), citada nominalmente, e sua ficção científica. “São Paulo, 25 de abril de 2037”, começa Arrigo Barnabé, convidado especial da faixa, ao lado de Suzana Salles (Isca de Polícia), outra vanguardista paulistana-paranaense.

O nosso bem, com Alice Ruiz, é pura doçura, poemúsica escrito a quatro mãos com o anfitrião. Sinhá D’Oyá é candomblé elétrico, na melhor levada “tecnomacumba”, com a guitarra sempre em pirueta de Kiko Dinucci.

A viola caipira de Daniel Viana ponteia a introdução de Osso, com participação de Gustavo Galo (Trupe Chá de Boldo), coautor da faixa, uma equação de nossos tristes tempos sob o domínio de golpistas: “ói/ a vida aqui/ tá osso/ (…)/ muito carnê/ & pouca carne/ muito negócio/ & pouco ócio”. Gustavo Galo assina ainda, em parceria com Caco Pontes, Osso – Parte 2 (O preço do terço), faixa que se ouvirá mais à frente.

Mariposas suicidas é uma distopia (no fim das contas muito próxima de nossa realidade, como toda distopia) em que o planeta gira e pira, enquanto seres humanos “vivendo seus próprios dramas/ e a caça de insetos/ outra prestação se dando por vencida/ muriçocas temerosas zunido orelhas”.

Com João Sobral, Evoluo indo “desjustapõe” a evolução, entre encontros e despedidas, fluxos, chegadas e partidas, esta “arte do encontro” chamada vida. Firmino Chão, com Lirinha, trocadilha o nome nordestino com a firmeza sertaneja, o nordestino é “antes de tudo, um forte”, seu Euclides, seu Belchior.

Orecular, com Dani Nega, dialoga com as pistas, “poesia pra/ rimar_comer / viver_sentir / obrar_morrer/ …cantar…/ (desconstruir)/ e o que mais tiver de ser”, então, por que não?, dançar.

O Baião de mashups encerra o disco como propõe o título da faixa: remixa e liquidifica Luiz Gonzaga (Baião, parceria com Humberto Teixeira), Caetano Veloso (que cita Gonzagão em You don’t know me, do antológico Transa, de 1972) e João Gilberto (em seu baião autoral Bim bom).

Eis um ótimo exemplo de que poesia sempre pode ser bem mais.

Ouça #Opendrive:

Modelo vivo, de Laerte, o último grande trabalho de Toninho Mendes

Modelo vivo. Capa. Reprodução
Modelo vivo. Capa. Reprodução

 

Falecido em janeiro passado, Toninho Mendes “nos anos 1980, elevou as expressões gráficas do underground ao palco principal da cultura e mudou a história dos quadrinhos nacionais. Um mundo de referências anárquicas passava a contaminar o jornalismo, as HQs, o debate comportamental e político”, como anotou em seu obituário o jornalista Jotabê Medeiros.

A Circo Editorial, fundada por Toninho Mendes na década de 1980, publicou nomes como Angeli (Chiclete com banana), Laerte (Piratas do Tietê), Glauco (Geraldão) e Luiz Gê, entre outros. Sua última grande contribuição para a cultura nacional foi a organização de Modelo vivo [Barricada, 2016, 88 p.; R$ 49,00], mais recente álbum de Laerte.

Os tempos são outros – ou serão os mesmos? – e por isso é importante ver as coisas em perspectiva: Modelo vivo é uma antologia que demonstra a importância de Laerte não apenas para os quadrinhos nacionais. Seus mais de 40 anos dedicados ao traço demonstram que o humor pode sintetizar cenários, traduzir conjunturas e ainda fazer rir – não o riso fácil e inconsequente.

A obra se completa com uma série de ilustrações de corpos nus, algo deixado em segundo plano por Laerte ao longo de sua trajetória. “Desenhar gente é uma das maneiras mais fecundas de fazer desenhos, porque nos usamos inteiramente na ação de desenhar”, afirma no texto de apresentação de Modelo vivo. “Fiz isso menos do que gostaria”, continua.

Os desenhos a que Laerte se refere foram feitos ao longo de um curso livre organizado por ela e seu filho Rafael Coutinho, em 2013 – a cartunista é vista em ação no ótimo Laerte-se, documentário de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, disponível no Netflix.

O advento das redes sociais facilitou bastante a vida de quem deseja acompanhar o trabalho de artistas que admira. Laerte continua colaborando com a Folha de S. Paulo. Para quem, ainda assim, ainda não conhece o trabalho da cartunista, Modelo vivo é uma boa porta de entrada.

O álbum passeia sobretudo por esta produção mais underground, reunindo tiras e HQs publicadas em revistas e fanzines como Cachalote (1994, editada por Laerte, Adão Iturrusgarai e Miriam Lust, que depois daria nomes ao álbum de Rafael Coutinho, filho de Laerte, com roteiro de Daniel Galera), Circo (1987), Geraldão (1988 e 89), Chiclete com banana (1988 e 89) e Piratas do Tietê (1991), além de uma inédita, realizada em 2000.

Para quem conhece (e acompanha) o trabalho de Laerte, algumas histórias soarão clássicas, como A volta dos palhaços mudos, Penas, Aquele cara e O míssil, na qual a colaboração de Toninho Mendes é creditada. As duas últimas, atualíssimas, dialogam com o estado policialesco do Brasil sob o golpe desde 2016.

Toninho Mendes não imaginava que a organização de Modelo vivo seria seu último grande trabalho, mas não poderia haver despedida em melhor estilo: “o melhor de” Laerte, uma artista ainda absolutamente necessária.

Autobiografia do criador

Incrível, fantástico, inacreditável. Capa. Reprodução
Incrível, fantástico, inacreditável. Capa. Reprodução

 

A ideia é ao mesmo tempo tão extraordinária quanto óbvia: uma biografia de Stan Lee em quadrinhos. Escrita pelo próprio, com Peter David e Colleen Doran. Trata-se de Incrível, fantástico, inacreditável: a biografia em quadrinhos do gênio que criou os super-heróis da Marvel [Amazing, fantastic, incredible: a marvelous memoir; tradução: Maurício Muniz; Novo Século Editora, 2016, R$ 59,90].

É o próprio Stan Lee, tornado personagem, quem narra seus feitos, sem medo de soar imodesto. Pelo contrário: não teme afirmar ter sido fundamental para a revolução no universo não apenas dos quadrinhos, mas de toda a cultura pop do planeta no século passado.

Lembra a infância difícil, quando se manifesta o interesse precoce por literatura, alguns subempregos no começo da adolescência, a passagem pelo exército – já na condição de escritor – e a paixão avassaladora pela futura escritora Joan Lee, autora de O palácio do prazer, com quem está casado desde os 25 anos.

Suas aventuras pelo mundo das HQs começa com o convite para escrever um roteiro do Capitão América. Nunca mais a nona arte foi a mesma. Tanto que, anos depois, a concorrente DC Comics convidaria Stan Lee para re/fazer seus personagens a seu modo.

O começo não foi fácil: comumente visto como arte menos importante, autoridades americanas, à época, relacionavam histórias em quadrinhos ao uso de drogas e durante algum tempo certo bom mocismo acabou por censurar muitas histórias. Quem ousou peitar as autoridades foi justamente Stan Lee, que após a encomenda de uma agência do próprio governo americano, não achou justo deixar de publicar uma série de histórias que versava justamente contra o uso de drogas.

Incrível, fantástico, inacreditável é uma verdadeira declaração de amor a super-heróis como o Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, O Incrível Hulk, Thor, O Homem-Formiga e sua companheira Vespa, O Homem de Ferro, Conan, o Bárbaro, O Justiceiro e os X-Men, entre outros que, de tão populares, são por demais conhecidos até mesmo por quem não se interessa por quadrinhos, além de nomes importantes para o desenvolvimento e/ou consolidação de vários destes personagens, como John Romita, Steve Ditko e, entre outros, Larry Lieber, classificado pelo próprio Lee como “um dos heróis desconhecidos dos quadrinhos. Um incrível escritor, criador de layouts, desenhista. Ele faz seu trabalho de maneira linda e eficiente. Em sua carreira, ele escreveu e desenhou quase todo tipo de quadrinho com louvor. Pra ser justo, acho que às vezes eu tinha que fazer força pra não favorecê-lo frente a outros profissionais por ser meu irmão”.

A biografia vai tão a fundo que resgata episódio pouco conhecido: o beatle Paul McCartney procurou Stan Lee para que fosse produzido um gibi sobre o lançamento de Seaside woman, canção de sua banda Wings, cantada por sua esposa, Linda McCartney, sob o pseudônimo de Suzy and The Red Stripes, apelido de Linda na Jamaica, graças a uma versão reggae de Suzie Q e Red Stripe a cerveja mais popular da terra de Bob Marley. Linda faleceu antes de o projeto se concretizar. Em 1977 Stan Lee lançaria um gibi protagonizado pelo Kiss.

Imodéstia e bom humor caminham em paralelo nesta obra fundamental também para a compreensão da indústria em torno destes seres dotados de superpoderes. Quando lembra de uma máquina de escrever quebrada em meio a uma briga qualquer com a esposa, da qual sobraram peças para todo lado, arremata: “foi antes de existir o Ebay. Pena. Eu poderia ter leiloado as partes por muito dinheiro”.

Cifras monumentais giram em torno de Stan Lee, que lembra que, após uma longa batalha judicial, o Homem-Aranha dirigido por Sam Raimi no cinema, em 2002, foi orçado em 139 milhões de dólares, tendo rendido mais de 800 milhões no mundo inteiro – há uma cena do filme em que ele aparece, puxando uma menina para longe dos destroços de um prédio. Desde 1989 ele fez mais de 20 aparições em filmes baseados em personagens que criou ou ajudou a criar.

Conduzida como se fosse uma palestra em que remonta sua vida e obra – e Stan Lee já deu várias voltas ao mundo fazendo isso –, ele deixa ainda preciosos conselhos para quem quiser se aventurar (literalmente) por este universo. Os adjetivos do título ainda são poucos para classificar esta HQ que já nasce antológica.

Uma obra-prima

Frida Kahlo: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?. Capa. Reprodução
Frida Kahlo: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?. Capa. Reprodução

 

É uma verdadeira obra de arte a graphic novel Frida Kahlo: para que preciso de pés quando tenho asas para voar? [Frida Kahlo: pourquoi voudrais-je des pieds puisque j’ai des ailes pour voler?, tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2016, 128 p.; veja as páginas iniciais], de Jean-Luc Cornette (texto) e Flore Balthazar (desenho e cores).

A HQ biográfica acompanha Frida, seu marido Diego Rivera, então um muralista mais conhecido que ela, e Leon Trotsky, de quando o casal recebe no México o intelectual marxista forçado ao exílio até sua morte, menos de quatro anos depois.

A rima é pobre, mas Frida sempre usou suas cores para superar suas dores, e uma palavra-chave deste álbum – como de resto em qualquer relato biográfico acerca da pintora – é traição, no amor, na amizade e na política.

Mulher livre, Frida viveu um polígono amoroso que é aqui exposto sem escamoteação, tampouco sem tirar a atenção para aquilo que verdadeiramente importa: sua obra, sua força, sua atualidade.

Num contexto de criação da Quarta Internacional, da perseguição a Trotsky pelo NKVD (o Comissariado do Povo para Assuntos Internos, na sigla em russo, espécie de Ministério do Interior) e de discussões acerca do rótulo de surrealista que André Breton quis impor à protagonista, o enredo de Frida Kahlo é urdido com bom humor.

Um glossário de perfis, por Jean-Luc Cornette, acompanha a trajetória dos personagens após 1940, ano da morte de Trotsky. Também ao fim do volume, as referências apontam, entre livros, filmes, reportagens, museus, exposições e murais de Diego Rivera, obras “que foram essenciais para nós e nos permitiram realizar esta graphic novel com o maior rigor possível”, no dizer dos autores.

A quem conhece minimamente a biografia de Frida, ao menos a partir do filme homônimo [2002], de Julie Taymor, baseado em Frida: a biografia [Globo, 2011], de Hayden Herrera, esta HQ não acrescentará novidades. Mas merece ser contemplada como obra-prima que é. Aposto que Frida aprovaria a bela homenagem.

Jornalismo com J maiúsculo

Reportagens. Capa. Reprodução
Reportagens. Capa. Reprodução

 

A nanobiografia do autor, ao fim do volume, afirma: “formou-se em jornalismo, mas deixou a profissão para se dedicar às histórias em quadrinhos”. A bem da verdade, ele não deixou a profissão: Joe Sacco [Malta, 1960] tornou-se talvez o mais importante autor de jornalismo em quadrinhos e este Reportagens [Quadrinhos na Cia., 2016, 199 p.; tradução de Érico Assis; leia um trecho] é prova inconteste.

Aliás, Journalism é o título original deste álbum, que reúne verdadeiras lições de jornalismo – e geopolítica – em um gênero em geral tido como menor, menos sério ou menos importante. O próprio Sacco assina uma “saraivada introdutória para achacar todos aqueles que se opõem à legitimidade dos quadrinhos como forma eficiente de fazer jornalismo” – lição número um.

Seu trabalho é tão profundo quanto reportagens que se utilizam apenas de palavras e fotografias – aliás, seus quadrinhos deixam no chinelo muitos jornalistas acostumados (viciados) aos ares-condicionados de confortáveis redações e/ou ao copia e cola de releases e opiniões prontas dos patrões.

Joe Sacco não vai apenas para a rua, como é necessário para o bom e velho jornalismo, não apenas enfia os pés na lama: ele vai literalmente para o meio do olho do furacão, retratar dramas humanos em zonas de guerra.

Reportagens é uma coletânea de trabalhos de menor extensão publicados por ele mais ou menos recentemente em revistas e jornais como Boston Globe, Details, Guardian Weekend, Harper’s Magazine, New York Times Magazine, Virginia Quarterly Review e XXI.

O jornalista-quadrinhista é objetivo sem se tirar de cena – por vezes as reportagens têm um quê de making-of (além de um texto ao final de cada uma, detalhando pormenores de suas feituras e opiniões do autor sobre o próprio trabalho, um interessante exercício de autocrítica, inclusive).

O ponto em comum destas reportagens é a violência. O modus operandi militar – igual em qualquer parte do mundo – é alvo de Julgamentos de guerra, que se passa no Tribunal Penal Internacional, em Haia. O preconceito contra imigrantes africanos em Malta – terra natal de Sacco – é retratado em Os indesejáveis. Kushinagar retrata fiel e cruamente as injustiças, desigualdades sociais e a fome na Índia.

Se há quem ainda torça o nariz para o jornalismo em quadrinhos – gênero ainda pouco explorado no Brasil –, há quem reconheça Joe Sacco como um dos maiores correspondentes de guerra de nossos tempos, ele, autor também de Notas sobre Gaza [Companhia das Letras, 2010, 432 p.] e Palestina [Conrad, 2011, 328 p.], temas e geografias que também frequentam Reportagens.

Diante de pautas tão densas e cruéis é impossível falar em ludicidade – mesmo em se tratando de histórias em quadrinhos. Sacco não perde o bom humor e, aqui e ali, tira onda de seus interlocutores, fazendo com isso, críticas a funcionários públicos corruptos e coronéis – tenham os nomes que tiverem em outros países e línguas.

A hq da hq

Sopa de salsicha. Capa. Reprodução
Sopa de salsicha. Capa. Reprodução

Sopa de salsicha [Quadrinhos na Cia., 2016; leia um trecho] é um hilariante making of. A autoficção, hoje tão comum na literatura brasileira, é o mote desta nova graphic novel de Eduardo Medeiros: a história é a de sua busca pela história a contar.

Cheio de referências, sobretudo dos universos dos quadrinhos e da música, o álbum tem como personagens o cantor americano Michael Bolton [When a man loves a woman, que ele cantarola aqui e acolá], espécie de conselheiro onírico de Eduardo, os gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon [10 pãezinhos] e Rafael Albuquerque, entre outros.

“Nós odiamos Porto Alegre”, “eu odeio reggae” e “eu odeio Bob Marley”, apesar dos dreadlocks que usa, podem causar, à primeira vista, má impressão, mas no fundo, o autor-personagem é gente boa e a ele, de algum modo, nos afeiçoamos e compadecemos. Ele se muda com a esposa da capital gaúcha para Florianópolis e repassa ao longo das 165 páginas da hq sua própria vida, em busca de uma boa história para contar. E nos conta várias.

Por exemplo, sua aversão por banheiros sujos. Sua aversão por bananas – fruta onipresente nas receitas de Aline, a Baixinha, sua esposa, a quem o livro é dedicado. No fundo, é tudo como diz o título de uma das mais conhecidas canções de Michael Bolton: quando um homem ama uma mulher.

A vida a dois, em si, com suas dores e delícias, também é matéria-prima para a busca de Eduardo Medeiros. Os momentos em que um segura a barra do outro em momentos de guinadas (sempre acompanhadas de um temporário desemprego) são comoventes. E uma simples saída (entre escolher roupa, regar plantas, tirar a roupa do varal e isso tudo levar quase uma hora) pode se tornar uma tortura – e resultar em ficarem em casa. De artistas ou não, que casal nunca?

Sopa de salsicha é também o retrato da falta de glamour da vida de artistas do desenho, que, sem conseguir sobreviver exclusivamente de sua arte – qualquer semelhança com outras expressões artísticas não é mera coincidência –, precisam encarar frilas os mais variados, em nome das contas pagas no fim do mês – o que às vezes deixa o trabalho autoral, leia-se, o trabalho artístico, em si, em segundo plano.

“O que importa é que eu tô feliz com minha jornada até aqui”, diz o autor-personagem num quadro. Certamente os leitores também, quer já o conheçam ou não de Friquinique [Beleléu], A história mais triste do mundo [Stout Club] e Open bar [Stout Club].

Segundo álbum de Tom Zé é relançado

Tom Zé. Capa. Reprodução
Tom Zé. Capa. Reprodução

 

Em Tom Zé ou Quem irá colocar dinamite na cabeça do século [documentário, Brasil, 2000, de Carla Regina Gallo Santos], o compositor baiano, que venceu o Festival da Record de 1968 com São Paulo, meu amor (São São Paulo), revela a frustração com o comentário de Edu Lobo: “a música de Milton Nascimento é música em qualquer lugar”, teria dito o filho de Fernando sobre o preterido.

Tom Zé revela ainda que trabalhou a partir de então para se autossabotar. O mais tropicalista entre os tropicalistas, após a estreia no mesmo ano do disco-manifesto do movimento, lançou, dois anos depois, um álbum intitulado simplesmente Tom Zé [RGE, 1970], onde afirma que “as melhores ideias deste disco devem ser divididas com os meus alunos de composição da SOFISTÍ-BALACOBADO (muito som e pouco papo) e com Augusto de Campos”, grifo dele, em texto reproduzido na contracapa do álbum, que a Som Livre, braço fonográfico das organizações Globo, recoloca no mercado 46 anos após seu lançamento.

Ia na contramão da declaração no documentário, pois o segundo disco ganha em sofisticação e traz algumas de suas músicas mais marcantes. Uma pena o relançamento não trazer, no encarte, informações sobre os instrumentistas que participaram das gravações.

O autor de Dulcinéia Popular Brasileira, Qualquer bobagem (com Os Mutantes), O riso e a faca, Jimmy, renda-se (Jimi renda-se) e Jeitinho dela, para citar apenas faixas deste disco de 1970, deve muito a relançamentos. É por demais conhecida sua redescoberta, a partir do interesse do talking head David Byrne por seus discos, encontrados por ele por acaso em sebos cariocas, na década de 1990, especialmente Estudando o samba [1975], que desencadeou relançamentos nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop – a reboque, no Brasil, pela Trama. Tom Zé deixava o ostracismo por que passou boa parte das décadas de 1980 e 90 para reocupar definitivamente seu devido lugar na MPB, embora a sigla não seja suficiente para comportar-lhe.

De Com defeito de fabricação [1998] para cá, Tom Zé lança discos regularmente, com motes interessantes e sintonizado com a geração (Y) mais jovem, o que faz dele um dos compositores mais interessantes, geniais e joviais do Brasil. Em 2016 completa 80 anos de idade – e nem vou falar aqui de sua vitalidade no palco.

Antes tarde do que nunca, Tom Zé tem três músicas na trilha sonora da novela global Velho Chico – o que não deixa de ser sinônimo de sucesso: Dor e dor, Senhor cidadão e Um oh! e um ah!.

Sobre Tom Zé, o disco ora relançado, restam ainda três curiosidades: a burrice dos censores da ditadura militar brasileira alcançou a segunda faixa, Guindaste a rigor. Tom Zé foi obrigado a gravar “assopro de coca-cola” em vez de “arroto”, como dizia a letra original; a contracapa traz a seguinte cobrança: “aproveito a ocasião para informar que a Prefeitura de São Paulo não me pagou até agora o prêmio de primeiro lugar (São Paulo, meu amor) do Festival da Record de 1968 e até começou a dizer que não assumiu esta obrigação”.

A terceira é a seguinte: procurado por Homem de vícios antigos para uma entrevista sobre o relançamento e sua importância, o compositor afirmou, através de sua produção, não ter sido comunicado sobre o assunto pela Som Livre.

Ouçam Tom Zé em Guindaste a rigor:

Esfregando genialidade na cara da humanidade

Mate minha mãe. Capa. Reprodução
Mate minha mãe. Capa. Reprodução

 

O que quer alguém que já venceu o Oscar, o Pulitzer e o Obie Awards ao se meter e fazer uma graphic novel? Esfregar sua genialidade na cara da humanidade? “O que é que pode fazer um homem comum neste presente instante?”, hein, meu caro Belchior?

O melhor a fazer é deleitar-se com o exagerado talento de Jules Feiffer, 87, esfregado em nossa cara página a página, quadro a quadro de Mate minha mãe [Companhia das Letras/ Quadrinhos na Cia., 2015, 160 p., leia um trecho].

50 tons de cinza (e marrom) que realmente valem a pena, trama bem urdida, nada a ver com o soft pornô, best seller em livrarias e cinemas – refiro-me à coloração desta obra-prima de Feiffer, ser incomum e raro (redundo?), avalizado na contracapa por Neil Gaiman, Art Spiegelman, Chris Ware e Stan Lee. Querem mais?

Com talento mais que comprovado em outras áreas, Feiffer, escritor e cartunista com mais de 35 livros publicados, estreia em grande estilo com esta graphic novel policial, recheada de música. Não à toa, suas personagens cantam e dançam (às vezes literalmente), equilibrando-se na corda bamba entre o rabisco e a obra de arte.

Assistente de Will Eisner na adolescência, Feiffer, de cara, agradece a mestres que dão pistas das referências encontradas em Mate minha mãe: os quadrinhistas Milton Caniff e o próprio Eisner, os romancistas Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James M. Cain e os cineastas John Huston, Billy Wilder e Howard Hawks.

Dividida em dois atos, a história se passa nas décadas de 1930 e 40. Pode soar clichê, mas parece impossível fugir da comparação dos quadrinhos com o cinema (noir): os diálogos rápidos, os capítulos curtos, a agilidade das personagens, saltando fora dos quadrinhos, os núcleos se cruzando: cinco mulheres e um alcoólatra arremedo de detetive.

Blues, bom humor, ironia: Feiffer tira um sarro de Hollywood, onde se passa a segunda parte da história, com uma personagem transgênero desfilando entre as estrelas, em determinado momento convertidas em atrações para soldados em guerra.

Gênio!

Dinheiro não traz felicidade

O quadrinista Marcello Quintanilha é um especialista em retratar dramas humanos, de gente comum. Poderia ser a vida deste resenhista, ou a do leitor, tão reais são suas personagens.

Ele foi premiado recentemente num dos maiores festivais de quadrinhos do mundo, em Angoulême, na França, por sua trama policial Tungstênio [Veneta, 2014, 184 p.], seu álbum anterior.

Talco de vidro. Capa. Reprodução
Talco de vidro. Capa. Reprodução

Artista completo, Quintanilha assina roteiro e desenhos, tanto naquele quanto no drama psicológico Talco de vidro [Veneta, 2015, 160 p.], em que aborda a inveja e a mesquinhez, sentimentos sórdidos que levam à tragédia.

A HQ conta a história de Rosângela, dentista niteroiense sempre acostumada a ter tudo: seu primeiro consultório montado foi presente do pai e, bem casada, recebeu do marido – com quem tem dois filhos –, de presente (surpresa!), em sua casa de praia, um carro zero quilômetro.

Mas a protagonista de Talco de vidro não está satisfeita e, infeliz, sente inveja do sorriso da prima pobre. Não lhe inveja morar no subúrbio ou ir às festas espremida num Fiat 147 a serviço da família inteira – obviamente maior que a lotação do veículo.

A história mergulha na mente doentia de Rosângela, cuja vida entra em franca decadência, entre o fim do casamento, a vida desregrada que passa a ter, sob olhares moralistas, e a depressão, até o trágico desfecho.

Entre as belas paisagens do Rio de Janeiro, seja de bairros de classe média alta ou da periferia, o fosso que separa as parentes que protagonizam a graphic novel, o que o traço de Quintanilha faz é representar sentimentos bastante comuns, quase sempre escondidos, por vergonha ou por conta das regras do jogo chamado vida. Quem tem dinheiro para comprar tudo tem inveja daquilo que o dinheiro não pode comprar.

Mas engana-se quem fizer julgamentos antecipados atribuindo qualidade apenas ao traço do autor: seus diálogos e narrativa são tão bem construídos que, arrisco dizer, sobreviveriam como obra literária, sem o suporte das imagens. Certamente é justo neste casamento, que se fortalece a cada lançamento de Quintanilha, que reside a força que lhe garantiu sucesso internacional: é dos poucos quadrinistas brasileiros com projeção fora do país desenhando gente comum – mesmo quando “diferenciada”.

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