“Meu caso de biógrafo da família”

O último pau de arara. Capa. Reprodução

“O último pau de arara” [Grafatório, 2020, 172 p.; R$ 79,90], novo livro de Jotabê Medeiros, bem poderia ser um roteiro dos irmãos Coen e, se digo isto, não é pela inevitabilidade do clichê, mas pela habilidade do próprio autor em jogar com seu ofício – o universo da cultura pop sempre foi seu ganha-pão – ao contar a história de alguém que, embora o respeitasse, nunca ligou muito para isso, tratava quadrinhos com desprezo e nunca foi ao cinema.

O livro é um misto de biografia de João Francisco de Medeiros, seu pai, autobiografia, autoficção e ensaio sociológico sobre migrações internas, muito mais comuns no Brasil de outrora, mas ainda presentes, sobretudo no recrutamento de trabalhadores em situações análogas à escravidão. Há alguma doçura na forma como são narrados certos episódios de violência, e não são poucas as cenas de fúria incontida de seu pai, jamais soando condescendente. “Essa é uma obra de fricção. Espremida entre a memória e a vontade de contar”, diz em boutade, em que anuncia também um escancarar de intimidades, também nunca soando vulgar.

Aos três anos de idade, em 1965, o 11º filho do “Paraíba”, o primeiro homem entre 15 filhos, viajou de Sumé até a nascente Cianorte, no Paraná, em um caminhão de sal. Dessa viagem clandestina vem o título do livro, emulando o sucesso de Fagner, de autoria de José Cândido, Venâncio e Corumba.

A partir de remontar fragmentos da trajetória de seu próprio pai, Jotabê Medeiros remonta a trajetória de sua enorme família – e a sua: o paraibano do interior que se muda muito cedo para o Paraná, em busca de melhores condições de vida, forma-se em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina e depois se muda para São Paulo, onde viria a se tornar um dos maiores jornalistas culturais do país – isto não é ele quem diz no livro, sou eu quem digo novamente, aqui e agora –, autor das festejadas e honestas biografias de Belchior (2017) e Raul Seixas (2019).

O jornalista é hábil em contar uma história que nos prende a atenção, mesmo em não se tratando de um protagonista de vida pública – o autor não nos poupa mesmo de suas dúvidas durante o processo de feitura do livro: seria seu próprio pai um personagem biografável? Embora aqui e acolá falemos dele no passado, como o faz também o autor, João Francisco de Medeiros está vivo – sofreu um AVC e teve uma perna amputada nos últimos anos – e completará 103 no próximo abril.

Baseado na própria memória, em conversas com familiares, viagens e rara documentação, Jotabê Medeiros não se deixa vencer pelas lacunas, urdindo texto delicioso, como é de seu feitio, histórias que se entrecruzam, como os constantes escambos que seu pai acabou tornando meio de vida. Em meio a tudo isso há um belo tributo ao irmão apelidado Jack, batizado em homenagem a Jackson do Pandeiro, ídolo de sua mãe – a ele o autor dedicou “Belchior: Apenas um rapaz latino-americano”: o irmão faleceu justo na semana em que o biógrafo viajaria a Santa Cruz do Sul, nos rastros do biografado então desaparecido. Com a mudança de planos e a ida ao velório do irmão, Belchior faleceu em sequência e aquela biografia foi finalizada com o relato de seu velório, entre a Sobral natal e Fortaleza.

A realçar a delicadeza e elegância do texto de Jotabê Medeiros, o estonteante projeto gráfico da Grafatório – marca da pequena casa editorial de Londrina/PR –, com xilogravuras de Luiz Matuto. A tiragem limitadíssima de 750 exemplares foi possível graças a um financiamento coletivo. Os que contribuíram já recebemos um pdf por e-mail, no que adiantei a leitura, na certeza de que relerei tão logo me chegue às mãos o exemplar impresso – a pindaíba, a pandemia e o capricho editorial acabaram atrasando um pouco as coisas, mas de mais longe já viemos, como quem desce de Sumé à Cianorte num caminhão de sal.

Leia um trecho de “O último pau de arara”.

Dançando “Eva”

Nina Santes é a estrela do próximo vídeo da série “Dançando as canções do álbum Eva”, de Ligiana Costa. Foto: divulgação

Certa vez galhofei numa rede social: “no jornalismo, só não confie em uma coisa: prazo”. Obviamente era uma piada, sem graça, até, reconheço. De lá para cá, muita coisa mudou, e há muito mais do que desconfiar, não no Jornalismo, aquele que ainda merece esse nome, ainda mais com letra maiúscula, mas no entorno, no submundo do que se disfarça de e colabora para levar fascistas ao poder.

Não sou exemplo, absolutamente, no cumprimento de prazos. Um amigo me pergunta, por exemplo, se já escrevi a resenha dum disco que me entregou. Às vezes leva meses maturando, fico ouvindo o disco repetidamente no som do carro, enquanto me estresso com motoristas mal educados no trânsito de São Luís, mas não só. Costumo sentar para escrever com o texto quase pronto na cabeça, sai de uma sentada – às vezes interrompida por um ou outro afazer doméstico, método que só fui aprender depois que nasceu José Antonio.

Às vezes sequer consigo escrever e não tem nada a ver com o disco, livro, filme ou o que seja ser ruim ou não merecer atenção de minha parte. Tem mais a ver com não querer dizer qualquer coisa de qualquer jeito. Não parece, mas resta em mim certo capricho, a despeito de não passar roupas há quase dois anos.

Ano passado, a cantora Ligiana Costa lançou o ótimo “Eva – Errante voz ativa”, um disco só de vozes, um dos grandes álbuns do pandêmico 2020, sobre o que demorei a escrever. Outro dia ela me botou em contato com um assessor, que tem me enviado sistematicamente releases sobre a nova ideia maravilhosa da cantora: oito bailarinas gravaram, em suas casas, durante o isolamento social, performances para as faixas do disco.

O resultado é muito interessante, reapresentando-nos “Eva” sob nova perspectiva. Um disco feito majoritariamente por mulheres, sobre mulheres – agora também dançado por mulheres –, mas não apenas para mulheres.

Tenho acompanhado os vídeos quando publicados e no mais recente, Rosa Antuña dança “Ná”, com que Ligiana homenageia Ná Ozzetti – já é o quarto vídeo e só agora consegui escrever, para tornarmos ao nariz de cera com que abro o texto. Na próxima segunda-feira (11), estreia a performance de Nina Santes para “Lilith e Eva” (Ligiana Costa/ São Yantó).

Também me chamou bastante a atenção o videoclipe solar em que Grécia Catarina performa “Nice”, declaração de amor de Ligiana à sua companheira, música que abre o disco – minha faixa predileta de “Eva”, confesso – e inaugurou a série.

Todos os vídeos podem ser assistidos nos perfis da cantora no youtube e instagram.

A política do luto e da merda

TEXTO E ILUSTRAÇÃO: CESAR TEIXEIRA*

Agora que o Menino Jesus de barro foi despejado dos presépios natalinos pelo Ano Novo, o Brasil se benze para continuar aguentando um inquilino indesejável, modelado em bosta, que já pensa em se recandidatar em 2022 sem ter realizado qualquer gesto democrático como “presidente”. Ao contrário, abusou dos seus dotes de malfeitor para cometer inúmeros crimes que continuam impunes e vão ficando por isso mesmo.

Bolsonaro elogiou um torturador em pleno Congresso Nacional e persiste debochando de pessoas torturadas durante a ditadura civil-militar deflagrada em 1964, enquanto chora a derrota do seu “amigo” Donald Trump (ex-presidente do país que apoiou o golpe) e lança farpas contra a China, maior parceiro comercial do Brasil.

O falso Messias, vale repetir, elegeu-se à custa de milícias digitais, de acordos partidários espúrios e de uma facada de mentira, fora a contribuição dos patos e bonecos infláveis da Fiesp, com digitais do Tio Sam – mesmas armas que patrocinaram o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Não era à toa que se esmerava em aparecer na imprensa mundial ao lado de Trump em jantares e reuniões politicamente inúteis para o Brasil

Todavia, Bolsonaro não almejava ser apenas Presidente da República. Esse cargo ele abandonou antes mesmo de assumi-lo. Seu sonho de infância é tornar-se um Duce ou Führer latino-americano, ou pelo menos um caudilho meia-sola, mantendo como bunker o Gabinete do Ódio, que pode mudar de endereço e possui franquias em todo o País. Na pressa de alcançar a glória, feriu pelas costas a Constituição Federal, participando de atos que fazem apologia à ditadura e interferindo politicamente na Polícia Federal para proteger a família.

No início da pandemia pelo Covid-19 buscou privilegiar a elite empresarial e expor trabalhadores ao risco de contágio. Depois teve a cara de pau de “receitar” cloroquina (não recomendada pela Anvisa) no tratamento dos infectados. Regozija-se em transformar o luto em política de Estado, indiferente à saúde pública e ao “direito à vida”, expressão maior inscrita na Carta Magna, no Código Civil Brasileiro e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário.

O “presidente” chegou a indispor empresários e escalafobéticos fogueteiros contra o STF, visando aumentar a pressão sobre governadores e prefeitos para afrouxarem o isolamento e o lockdown. Cometeu crime de responsabilidade previsto na Lei nº 1.079/50 (Lei do Impeachment), de acordo com o Art. 4º, ao atentar contra a Constituição Federal e especialmente contra o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais, bem como a segurança interna do país (incisos III e IV).

É crime a “propaganda pública de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social”, conforme o Art. 22 da Lei de Segurança Nacional, ironicamente criada para enquadrar opositores do governo.

Bolsonaro estimulou a invasão da Amazônia por garimpeiros e madeireiros, minimizando o desmatamento e os grandes incêndios; desmontou os mecanismos institucionais de defesa da floresta, além de desprezar o apoio internacional. Uma verdadeira tabelinha com seu infralegal ministro Ricardo Salles, que propõe “deixar passar a boiada”, sem qualquer respeito por seus habitantes indígenas e ribeirinhos, muito menos pela fauna e pela flora. Trata-se de crimes previstos na Lei 9.605 (artigos de 29 a 53), da legislação ambiental.

Aqueles que o elegeram, tal como os ratos do Congresso empenhados no “toma lá, da cá” antes repudiado pelo “presidente”, também são cúmplices das suas caneladas, sem falar na caterva de magistrados coniventes. Por último, no calor da guerra ideológica dos imunizantes, o Messias tem influenciado negativamente a população, espalhando a lorota de que a vacina chinesa contém microchips que podem controlar a mente e transformar a pessoa num jacaré.

Declara repetidamente que não vai se vacinar. Nem precisaria. Bolsonaro já é um camaleão, sobretudo das palavras e dos atos – com todo respeito aos animais da família chamaeleonidae da ordem squamata. O sujeito é capaz de instantaneamente mudar o tom de suas bravatas toda vez que está chegando ao fundo da latrina política em que se meteu.

Enfim, Bolsonaro se assemelha a um produto falsificado por contrabandistas e estelionatários. Não serve como presidente, como capitão e muito menos como jogador de futebol, já que ele só faz gol contra o povo brasileiro, apontando arminha, na ânsia de proteger a prole criminosa com suas asas de galinha pelada. Pelo seu incompatível “histórico de atleta”, certamente não pulou as sete ondinhas de merda do Ano Novo.

*Cesar Teixeira é jornalista e compositor maranhense

Das praças às telas: RicoChoro ComVida terá três edições virtuais em 2020

[release]

Apresentações musicais ocorrerão em formato talk show; diálogo de grupos de choro com artistas de vertentes distintas da música popular está mantido nas lives do projeto

O Quarteto Crivador. Da esquerda para a direita: Marquinho Carcará, Rui Mário, Wendell de la Salles e Luiz Jr. Maranhão. Foto: divulgação

Num ano atípico como 2020, o público de São Luís foi privado ao que já estava acostumado no segundo semestre: os tradicionais saraus do projeto RicoChoro ComVida na Praça, que percorrem diversos logradouros públicos da capital maranhense.

Mas os chorões e choronas apreciadores da iniciativa, além de curiosos em geral, não ficarão órfãos: RicoChoro ComVida na Praça terá edições em formato online, uma espécie de live talk show, com apresentação de Ricarte Almeida Santos e produção de Girassol Produções Artísticas, realizadas com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, administrados pela Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma).

RicoChoro ComVida, portanto, este ano não será na praça, mas online: três saraus manterão a proposta do projeto, de estimular o diálogo entre o choro e outras vertentes da música popular brasileira, através do encontro de um grupo de choro e cantores e cantoras, de gêneros e gerações distintas.

As lives serão gravadas nos estúdios da TV Guará e ainda não têm data para ir ao ar. No formato de talk show, Ricarte Almeida Santos conversará com os grupos e artistas convidados, numa espécie de entrevista musicada, bastante dinâmica.

Na primeira live, o Quarteto Crivador – formado por Marquinho Carcará (percuteria), Luiz Jr. Maranhão (violão sete cordas), Rui Mário (sanfona) e Wendell de la Salles (bandolim) – recebe como convidados Dicy e Josias Sobrinho; na segunda, é a vez do Regional Caçoeira – Tiago Fernandes (violão sete cordas), Wendell Cosme (cavaquinho e bandolim), Lee Fan (flauta e saxofone), e Wanderson Silva (percussão) – dialogar musicalmente com Elizeu Cardoso e Regiane Araújo; e por último, Anastácia Lia e Neto Peperi serão recebidos pelo Choro da Tralha, formado por João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta), Gabriela Flor (pandeiro) e Gustavo Belan (cavaquinho).

Os grupos – O Quarteto Crivador, que leva o nome de um dos tambores da parelha do tambor de crioula, e o Caçoeira, nome de um instrumento de pesca, têm em seu DNA musical a mescla do choro com gêneros da cultura popular do Maranhão. O Choro da Tralha formou-se para tocar no sebo e botequim homônimo, recentemente fechado, temporariamente, em razão da pandemia. Apresentava-se aos domingos, mas acabou conquistando outros palcos. Sua sonoridade e formação remetem aos primeiros regionais surgidos no Brasil.

Os convidados – Homens e mulheres de gerações distintas e enorme talento, conheça um pouco do perfil dos artistas convidados das lives de RicoChoro ComVida em 2020.

Dicy iniciou sua trajetória musical cantando na igreja, na infância. Integrou o trio vocal Flor de Cactus, que acompanhou Wilson Zara na noite imperatrizense. Artista engajada, tem um disco solo gravado, “Rosa semba”.

Josias Sobrinho é um dos grandes mestres da música popular brasileira produzida no Maranhão. Figurou no repertório do antológico “Bandeira de aço” (Discos Marcus Pereira, 1978), lançado por Papete, considerado um divisor de águas da música produzida por aqui.

Elizeu Cardoso é um artista plural: professor de geografia, escritor, locutor e programador de uma webrádio, o cantor e compositor é dos artistas que melhor faz a ponte entre a música popular produzida no Maranhão e as raízes ancestrais africanas.

Regiane Araújo tem formação em Ciências Sociais e é uma artista que dá voz a denúncias sociais. Participou do Festival BR-135 e recentemente foi selecionada pelo Conecta Música para a produção de um videoclipe. O videoclipe de sua música “Tirem as cercas” é sucesso de público e crítica.

Anastácia Lia é um dos grandes talentos de sua geração, transitando com desenvoltura por diversas vertentes musicais. Nasceu em berço musical, sendo descendente de fundadores da Turma do Quinto. Atualmente é intérprete da Favela do Samba e uma das organizadoras do anual Encontro Nacional de Mulheres na Roda de Samba. Artista engajada, tem na música um instrumento de combate ao racismo e outras formas de discriminação.

Neto Peperi é ex-vocalista e cavaquinhista do grupo Espinha de Bacalhau, lendário nas noites de São Luís. Cantor e compositor inspirado é um dos mais talentosos representantes do gênero que por aqui consagrou nomes como Cristóvão Alô Brasil, Cesar Teixeira e Zé Pivó, entre outros que costuma incluir em seu repertório.

Raul Seixas terá tributo no ano em que a Terra parou

[release]

Cantor Wilson Zara realizará show em homenagem ao artista baiano em formato live, no próximo dia 15

Divulgação

Era uma vez um baiano que acabou ganhando o apelido de Maluco Beleza, por conta do título de um de seus inúmeros clássicos. Esse roqueiro, fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, previu “O dia em que a Terra parou”, canção que dá nome a seu álbum lançado em 1977.

Raul Seixas (1945-1989) não viveu para ver a pandemia de covid-19 fazer o planeta parar, não por um dia, mas por quase um ano. 2020 foi o ano em que ninguém pode dizer que não cumpriu a lista de resoluções de ano novo por pura falta de vontade. Muitos planos, quase todos, tiveram que ser adiados.

Foi assim também com o já tradicional “Tributo a Raul Seixas”, show anual realizado pelo cantor maranhense Wilson Zara, que desde 1992, quando estreou “A hora do trem passar”, em Imperatriz/MA, presta-lhe as devidas homenagens, sempre por volta da data de seu aniversário de falecimento, em 21 de agosto.

Mas o Tributo vai acontecer, se não nos moldes a que os fãs-clubes – de Raul Seixas e Wilson Zara – estão acostumados, do jeito que o ano e a pandemia permitem: no próximo dia 15 de dezembro (terça-feira), às 19h, em uma live transmitida a partir dos estúdios da TV Guará, raulseixistas de toda parte – graças à transmissão pela internet – poderão acompanhar o desfile de clássicos e lados b, num longo passeio pela vasta obra de Raulzito.

Além de músicas já citadas ao longo deste texto, Wilson Zara e banda – Mauro Izzy (contrabaixo), Moisés Profeta (guitarra), Marjone (bateria), Dicy e Heline (vocais) – passearão por repertório que inclui “Ouro de tolo”, “A maçã”, “Sessão das 10”, “Rockixe”, “Eu nasci há 10 mil anos atrás”, “Meu amigo Pedro”, “Gitâ”, “Sociedade alternativa” e “Cowboy fora da lei”, entre muitas outras. Um show que certamente vai deixar satisfeitos todos os que gritam “toca Raul!”.

Serviço – Realização da Zarpa Produções, o “Tributo a Raul Seixas” tem patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc. A transmissão da live acontece dia 15 de dezembro (terça-feira), às 19h, a partir dos estúdios da TV Guará, pelo site da emissora, além de seus perfis no youtube e instagram, e pelo perfil de Wilson Zara no facebook. A TV Guará apresentará o show em sua programação em data a ser confirmada posteriormente.

Do bar ao vinil

[release]

Ao longo de um ano de “Vinil & Poesia”, a dj Vanessa Serra reuniu a nata da música e poesia produzidas no Maranhão; o resultado pode ser conferido no elepê que leva o nome do projeto

Vinil & Poesia. Capa. Reprodução

Em dezembro do ano passado, em casa de nome mais que apropriado, o Cazumbá Lounge, na Lagoa, a dj Vanessa Serra estreou seu projeto “Vinil & Poesia”, aliando duas paixões.

Já era uma dj consagrada, apesar do pouco tempo de estrada. Jornalista de formação e produtora de profissão, só começou a levar a discotecagem a sério em 2016. Sem firulas, como escrevi em seu release oficial, que tive a honra de escrever a pedido.

Não me peçam impessoalidade: fui o primeiro a subir àquele palco, recitando Paulo Leminski e Marcelo Montenegro, dois poetas de minha predileção, e é impossível não lembrar disso com emoção.

Além dos vinis de seu ofício, Vanessa Serra havia levado uns livros, priorizando autores e autoras maranhenses, instigando o público a participar. O que no início tinha jeito de brincadeira, tomou ares sérios, mas não ficou algo careta. Às quartas-feiras, a tertúlia semanal começou a receber poetas e músicos como convidados, para canjas ao vivo, durante o set da dj.

Aí veio a pandemia. O isolamento social. O lockdown. As inúmeras lives que foram/fomos inventando e reinventando para suportar a saudade da vida social, de ir ao bar, de jogar conversa fora, de ouvir boa música nas companhias de amores e amigos. Entre elas o “Vinil & Poesia”, que Vanessa Serra nunca deixou de fazer, mesmo quando foi obrigada ao formato online.

Somente recentemente, com a liberação de eventos de pequeno porte, observadas as normas de segurança sanitária vigentes, ela voltou a realizar o evento ao vivo, a partir do Cazumbá Lounge.

O projeto já era vitorioso ao estimular o diálogo entre música de qualidade e tirar a poesia do lugar solene da página do livro e levá-la ao bar, para ser dita e ouvida por gente atenta, curiosa e esperta. Gente antenada, enfim. Mas uma vitória de um a zero é menos gostosa que uma goleada e Vanessa Serra marca mais um golaço: 14 participações de artistas nas noites do “Vinil & Poesia” estão registradas em um disco de vinil. É luxo só, como diria o poeta.

“Vinil & Poesia” é uma realização de VS Comunicação e Cultura, com patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc. Gravado no estúdio Zabumba Records, reúne uma constelação de primeira grandeza da música e poesia produzidas em terras maranhenses.

Na ordem de aparição, Lúcia Santos diz seu poema “No umbigo da noite insana”; Célia Leite zabumba em “Pedras de cantaria” (parceria dela com Jorge Passinho, que faz participação especial na faixa); Mano Borges evoca os ares oitentistas da intensa produção musical maranhense daquela década em “Duas ruas desertas”, de sua autoria; “De São Marcos a São José” nos conduz, pelo sotaque, ao Vale do Pindaré, na parceria de Eloy Melônio e Josias Sobrinho, cantada por este; “Esse tu” é mais uma delicada amostra da parceria profícua de Celso Borges e Nosly, que a interpreta; “Tanto fogo” (Jorge Passinho/ Inaldo Lisboa/ Maninho Quadros), interpretada por Dicy, com participação especial de Santacruz, mete o dedo em ferida atualíssima da tragédia brasileira; César Nascimento cantando o xote “João do Vale, minha homenagem”, de sua autoria, fecha o lado A do disco.

O lado B abre com a voz de Celso Borges em seu poema/toada hi-tech “Tambor de crioula”; “Chovia no canavial”, com que Zeca Baleiro presenteou o projeto, ganha interpretação especial do grupo As Brasileirinhas; o multifacetado Jorge Thadeu comparece com “Guajajara”, de sua autoria; “Ventre livre”, de Luís Du Rosário, é a bela estreia em disco de um artista que não encarou a música como profissão, apesar do imenso talento; Gerude relê o clássico “Jamaica São Luís”, parceria sua com Cyba Carvalho; Betto Pereira comparece ao disco para além da embalagem: canta o reggae “Nação vibration”, parceria sua com o jornalista Gilberto Mineiro; e Tutuca Viana fecha o álbum com a balada “Luz de neon”, que escreveu em parceria com João Marques.

A riqueza deste álbum está no atrito entre poesia e música, para além da leitura de poemas com fundo musical e da pergunta mofada “letra de música é poesia?”, num diálogo estimulante entre gêneros, gerações e a diversidade da cultura popular do Maranhão, ao mesmo tempo plural (pela variedade) e singular (certas coisas só existem por aqui).

“Aqui conseguimos reunir um belo roteiro de canções… Acordes e versos, palavras e tons, memórias profundas, alimento para a alma da gente… “Vinil & Poesia”, de fato, é uma imensidão de sentimentos… É coletividade, pertencimento, entrega e amor”, sintetiza a jornalista, dj e produtora Vanessa Serra em texto na contracapa do elepê.

Ela assina a concepção do projeto e direção geral, que tem direção técnica de Maurício Capella (companheiro de arte e vida), direção artística de Luiz Cláudio, direção musical de João Simas, produção executiva de Suzana Fernandes e produção técnica de Joaquim Zion (seu padrinho no ofício da discotecagem). As artes de capa, contracapa e encarte são de Betto Pereira e o projeto gráfico é de Eric Félix. O álbum é dedicado “à memória, vida e obra de Raimundo Nonato Rodrigues de Araújo (Maestro Nonato), Nonato Buzar, Papete e Gérson da Conceição”.

Muita gente procura o bar para espairecer e vai ao lugar certo. Outros afogam mágoas e também não estão no lugar errado. Alguns, no dia seguinte, querem esquecer o que fizeram. Vanessa Serra eterniza um momento bonito e importante, de um projeto frequentado por “gente fina, elegante e sincera”. Agora, mesmo quem não sai à noite, não frequenta bares ou não curte um drinque, pode levar “Vinil & Poesia” para casa. A inscrição “volume 1”, que lemos na capa do disco, já nos leva a responder, como naquele velho rock: mais uma dose? É claro que eu tô a fim.

Serviço – A live de lançamento de “Vinil & Poesia”, com a presença dos artistas que participam do álbum, será realizada dia 16 de dezembro (quarta-feira), às 20h, com transmissão simultânea pelos perfis da dj Vanessa Serra no instagram e youtube. O projeto é uma realização de VS Comunicação e Cultura, com patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc.

A mortalha do amor

Se algo acontecer… te amo. Frame. Reprodução

Vez por outra o noticiário chama atenção para episódios ultraviolentos, como as infelizmente costumeiras chacinas em escolas dos Estados Unidos (mas não só). É este o mote do delicado “Se algo acontecer… te amo” (“If anything happens, I love you”, 2020, 12 minutos), curta-metragem de animação escrito e dirigido por Will McCormack e Michael Govier, disponível em streaming na Netflix.

Um casal faz uma refeição numa mesa comprida, cada qual numa ponta. A cena revela o esfriar do relacionamento e o consequente distanciamento de marido e esposa após terem perdido o amor comum, a filha, como saberemos adiante, para a facilidade do porte indiscriminado de armas de fogo, infelizmente não mais um privilégio norte-americano.

A partir daí, “Se algo acontecer… te amo” corre em feedback e não tem um final feliz: triste e comovente, é impossível para o espectador não se emocionar ao descobrir a origem do título do filme (o deste texto é verso de “Pedaço de mim”, de Chico Buarque, que ali também canta que “a saudade é o revés de um parto/ a saudade é arrumar o quarto/ do filho que já morreu”), mas também se propõe a refletir sobre a violência, esta chaga de nosso tempo, infame, triste, doido e doído. No fundo, é sobre superação, mas engana-se quem imaginar encontrar a água com açúcar típica de quem tenta vender fórmulas para quem deseja ser feliz – como se elas existissem.

Do nascimento da filha, ao aniversário de 10 anos, passando por boas lembranças entre viagens, brincadeiras, objetos e um gato, a força de “Se algo acontecer… te amo” reside também na ausência de diálogos – tudo se resolve no traço dos animadores Youngran Nho (que assina a direção de animação), Haein Michelle Heo e Julia Gomes Rodrigues e na música.

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Veja o trailer:

Vale mais do que pesa

Meu nome é ébano – A vida e a obra de Luiz Melodia. Capa. Reprodução

Nada há de surpreendente ou revelador, ou novidade qualquer desconhecida do fã médio de Luiz Melodia em Meu nome é ébano – A vida e a obra de Luiz Melodia (Tordesilhas, 2020, 301 p.; R$ 55,00), biografia escrita pelo jornalista Toninho Vaz, autor das biografias também insossas de Paulo Leminski (2001) e Torquato Neto (2005) – enormes e complexos personagens que poderiam redundar em livros idem, mas ficam a meio caminho.

A narrativa é linear, para não dizer preguiçosa, começando com a construção da casa da família no morro de São Carlos pelo pai de Luiz, Oswaldo Melodia, de quem ele viria a herdar o sobrenome artístico – embora nunca tenha encarado uma carreira profissionalmente, Oswaldo era compositor, autor, por exemplo, do choro Maura, gravado por Luiz –, e termina com a morte, em 2017, aos 66 anos, em decorrência de complicações de um câncer na medula.

Em meio a tudo isso, histórias conhecidas por todos: alçado ao estrelato pela gravação de Pérola negra por Gal Costa, em 1971, antes mesmo de seu disco de estreia (1973) – fundamental em qualquer coleção de MPB que se preze –, que acabaria batizado por aquela música; a descida do morro de São Carlos, no bairro do Estácio, para o asfalto; a reconhecida elegância de filho de costureira interessado por moda; a insubordinação aos ditames da indústria fonográfica – “como pode um negro que não canta (apenas) samba?”, perguntavam-se os tecnocratas do setor, à época –, o que acabou lhe valendo a pecha de “maldito” da MPB, ao lado de nomes como Jards Macalé, Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção, cuja relação com Melodia é pobremente relatada na obra, apesar de o primeiro assinar o texto da quarta capa.

Vaz relembra, por exemplo, que Macalé compôs Negra melodia em homenagem ao amigo, mas sequer cita a participação de Luiz Melodia em Doce melodia, homenagem de Sérgio Sampaio a ele gravada por ambos em Sinceramente (1982), último disco lançado pelo capixaba em vida; ou Quem é cover de quem?, com que Itamar Assumpção homenageou-o no primeiro dos três volumes de Bicho de 7 cabeças (1993), em que era acompanhado pela banda exclusivamente feminina Orquídeas do Brasil. A música é uma brincadeira com a semelhança física e a fama de malditos de ambos. Citação da participação de Melodia em Vida cigana, do maranhense Adler São Luiz, nem em sonho.

Entre outros deslizes, imprecisões e incorreções, um apêndice com a discografia, ao fim do volume, opta por citar o intérprete (Luiz Melodia) em vez dos compositores registrados pelo biografado em seus álbuns, o que pode causar certa confusão na cabeça do leitor mais desavisado ou mesmo cooperar para a manutenção do quase anonimato de nomes como Getúlio Cortes (de quem Luiz Melodia regravou os “sucessos de Roberto Carlos” Negro gato e Quase fui lhe procurar), Zé Keti (Diz que fui por aí), Cartola (Tive sim) e Ismael Silva (Contrastes) ou mesmo de um mais conhecido Cazuza (Codinome Beija-flor). Lembrando que, dono de uma dicção completamente particular na história da música popular brasileira, Luiz Melodia apropriava-se de tal modo do que interpretava que parecia mesmo ser o compositor de tudo aquilo que cantava.

A cobertura da morte de Luiz Carlos dos Santos (7/1/1951-4/8/2017), nome de batismo de Luiz Melodia, pela imprensa também foi abordada por Vaz em sua biografia. Não comparece às páginas do livro o obituário escrito para o portal UOL pelo jornalista Jotabê Medeiros, um dos mais completos publicados à época – talvez por vaidade, para evitar citar a “concorrência”: Medeiros, sabemos, é autor das biografias de Belchior (2017) e Raul Seixas (2020), a cujas referências bibliográficas comparece o Solar da Fossa (2011) de Vaz.

O grande trunfo de Meu nome é ébano é o mergulho no conceito e produção da espaçada discografia de Luiz Melodia. Alguns capítulos são batizados por discos como Maravilhas contemporâneas (1976), Mico de circo (1978) e 14 quilates (1997) e descrevem bastidores de composições, gravações e lançamentos. Por sua indiscutível grandeza, Melodia merecia mais.

Eu voto. E digo em quem.

Interrompemos nossa programação para transmitir a propaganda eleitoral gratuita. Neste caso, gratuita mesmo!

Como de praxe, eleição após eleição, este blogue/iro tem lado. E declara.

Aprendi a lição com a revista Trip, desde sempre uma de minhas prediletas, que li com muita assiduidade entre o fim da década de 1990 e os anos 2000. A revista foi a primeira a recusar propaganda de tabaco em suas páginas, iniciando uma campanha que culminaria com a proibição da propaganda de cigarros no Brasil, contribuindo para a redução do consumo e, consequentemente, de doenças como o câncer de pulmão, para o qual perdi minha avó no último dia 25 de outubro. E a Trip também estampou em capas sua posição a favor do estatuto do desarmamento, legislação que, conforme estudos, ajudou a preservar vidas ao longo de cerca de década e meia de vigência, que só viria a ser fragilizada com a chegada dos neonazistas milicianos ao poder central.

Jornalismo imparcial é quimera. Voltemos a 2018, para um exemplo recente: na segunda-feira (8 de outubro) após o primeiro turno das eleições, quando se definiu a disputa entre Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (então no PSL) no segundo turno, o jornal O Estado de S. Paulo tacou “uma escolha muito difícil” em título de editorial. Posavam de “isentões”, mas obviamente tinham lado. Sabiam exatamente o que estavam fazendo. E talvez daqui a 50 anos publiquem uma nota, dizendo-se arrependidos do que fizeram.

No pleito que se avizinha, domingo que vem (15), feriado da Proclamação da República, aniversário de minha irmã, sairei de casa com uma máscara escrito “fora Bolsonaro!” para votar em Rubens Jr. (65) para prefeito e em Emílio Azevedo (40021) para vereador.

Ambos são combatentes de primeira hora do bolsonarismo e é preciso superar esta tragédia que se abateu sobre o Brasil começando por suas bases. Um recado primordial a ser dado já neste domingo é o início do enfraquecimento eleitoral da familícia.

Rubens Jr. foi ótimo parlamentar em seus mandatos e tinha tudo para ter sido um também muito bom secretário de Estado de Cidades, não tivesse a pandemia atrapalhado seus planos – o programa Nosso Centro é o exemplo mais visível de suas ideias para uma cidade patrimônio, que conjugue em sua paisagem monumentos, casario, história e, principalmente, sua gente. Tem por candidato a vice-prefeito Honorato Fernandes (PT), combativo vereador, que não se encastela em seu gabinete, mas vive a cidade – antes da pandemia, vez por outra nos encontrávamos em eventos prosaicos, nada a ver com aquelas aparições de vereadores “típicos” que o fazem apenas para parecerem populares. Este é popular de verdade!

Emílio Azevedo é jornalista de profissão, comprometido desde sempre com o combate à desinformação, modus operandi de Jair Bolsonaro se eleger e governar. Sua trajetória jornalística e política se confundem, tendo sido um combatente da oligarquia Sarney – o movimento Vale Protestar, de que ele foi uma das principais lideranças, deu na criação do jornal Vias de Fato (de que fui colaborador entre 2009 e 2016) e, em sequência na Agência Tambor, experiência coletiva de webrádio com pautas populares e progressistas.

Escolheu como motes de campanha o combate ao bolsonarismo e o voto livre, contra a lastimável e desavergonhada prática de compra de votos, que infelizmente ainda acaba por conduzir e reconduzir alguns edis ao prédio da Rua da Estrela, na Praia Grande. Angariou apoios importantes durante a campanha bonita, aguerrida e propositiva. Nomes como Cesar Teixeira (autor do samba-jingle de campanha), Ed Wilson Araújo e Flávio Reis votam e pedem votos para Emílio Azevedo.

Declarados os votos, repito o que já disse a alguns interlocutores mais próximos: há tempos eu não via uma campanha com tantos bons candidatos. Ou seja: São Luís terá uma câmara municipal ruim se o povo quiser – ou a prática viciosa da compra de votos não permitir.

Voto em Rubens Jr. (65) para prefeito e em Emílio Azevedo (40021) para vereador. Para a câmara municipal, torço também pelas eleições de Ademar Danilo (65444), o mandato coletivo de Carla Rose Tássia (13013), Creuzamar (13000), Natanael Jr. (23023), Rafael Silva (40221) e Wesley Sousa (36000) – nomes que, uma vez lá, podem dar uma sacudida na casa e consequentemente na ilha. É justamente do que a casa e a ilha precisam.

Gigi Moreira (31/1/1957-10/11/2020)

O artista em seu habitat natural, o palco. Foto: reprodução/ Facebook.

Nunca esquecerei a ocasião em que o percussionista e compositor Erivaldo Gomes me disse: “Gigi Moreira era pra ser nosso Tom Zé”. Referia-se à genialidade da música de Gislenaldo Machado Moreira (31/1/1957-10/11/2020), falecido hoje, após alguns dias internado no Hospital de Cuidados Intensivos (HCI), na capital maranhense – chegou a ser intubado por sequelas da covid-19.

Piauiense de nascimento, Gigi chegou à São Luís ainda na infância. Era graduado em Educação Física (Ceuma) e tinha pós-graduação em Gestão Cultural (Estácio São Luís). Servidor da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) desde 1981 estava à disposição da Secretaria de Estado de Esporte e Lazer (Sedel), onde ocupava o cargo de Chefe do Departamento de Lazer.

Era um artista múltiplo: ator, diretor, cantor e compositor. Foi no campo das artes que deixou sua mais profunda contribuição ao Maranhão. Foi um dos fundadores do Grupo Independente de Teatro Amador (Grita), do bairro do Anjo da Guarda, onde morava, um dos mais longevos em atividade no Maranhão, encenando a Via Sacra pelas ruas da área Itaqui-Bacanga há cerca de 40 anos. O velório acontece esta tarde no Teatro Itapicuraíba, sede do grupo, no Anjo da Guarda.

“A Secma e o secretário Anderson Lindoso prestam condolências aos familiares e amigos do artista nesse momento de tristeza”, manifestou-se a Secma em nota de pesar publicada em seu site.

“O Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal do Maranhão manifesta o seu mais profundo pesar pelo falecimento do artista Gigi Moreira por todas as contribuições culturais ao nosso Estado”, afirmou outra nota de pesar, distribuída pelas redes sociais.

Era um amigo querido, mais um a que a pandemia de covid-19 obrigou a nos virmos com menos frequência do que gostaríamos. Um de nossos últimos encontros presenciais foi por ocasião do lançamento do “Frevo desaforado”, de Joãozinho Ribeiro, que congregou uma constelação de artistas na Galeria Valdelino Cécio, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), pouco antes do carnaval. Com seu habitual sorriso estampado, Gigi Moreira deu sua canja. De outra feita dividimos algumas cervejas na calçada do Botequim da Tralha – também antes da pandemia – ocasião em que conversamos sobre amenidades, projetos e a tragédia que é o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.

Em 2009 estivemos juntos no Fórum Social Mundial, em Belém/PA. No Acampamento Balaiada, Gigi Moreira foi um dos artistas maranhenses a emprestar sua voz para denunciar ao mundo o golpe judiciário então em curso que acabaria por cassar o mandato do então governador Jackson Lago (1934-2011).

Gigi sempre teve lado e nunca escondeu. O assassinato do artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô, espancado até a morte por policiais militares, em 22 de março de 2007, instituiu o Dia Estadual de Combate à Tortura, celebrado a todo 22 de março, no Maranhão, por iniciativa da então deputada estadual Helena Heluy (PT).

Em 2008 o bloco tradicional Pau Brasil, do Anjo da Guarda, prestou merecidas homenagens a “Linguafiada”, um dos pseudônimos com que Gerô assinava seus cordéis. O samba-tema, na oportunidade, tinha melodia de Gigi Moreira e Wilson Bozó e letra deles e Ribão, Jeovah França, Josias Sobrinho e este que vos perturba.

Ouçam “Salve Gerô!”:

Agroecologia em tempos de pandemia

Rodada de oficinas debateu conhecimentos e práticas agroecológicas junto a famílias de agricultores/as maranhenses

Orientações na plantação de mandioca durante oficina comunitária em Mirindiba, Codó. Foto: Acervo Cáritas Brasileira Regional Maranhão
Oficina comunitária em Guarimanzal, Belágua. Foto: Acervo Cáritas Brasileira Regional Maranhão

“Agroecologia em tempos de pandemia” é o apropriado tema de uma rodada de oficinas que mobilizou 19 comunidades no Maranhão entre os meses de agosto e setembro passados, com assessoria da Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Em um dia e meio de programação em cada uma das oficinas, foi possível aos participantes ter uma formação básica sobre agroecologia e uma visita de campo, com orientações técnicas acerca da atividade produtiva desenvolvida pelo grupo.

Agentes da Cáritas e técnicos agrícolas estiveram nos municípios de Água Doce (comunidades Rancho da Folha e Jabuti), Aldeias Altas (comunidade Gostoso), Amarante (comunidade Água Preta), Belágua (comunidades Guarimanzal e Estiva dos Cangatis), Benedito Leite (comunidade Forquilha), Codó (comunidades Mirindiba e São Benedito dos Colocados), Lago da Pedra (comunidade Nova Unha de Gato), Marajá do Sena (comunidade Água Branca), Riachão (Assentamento Alegre), São Raimundo das Mangabeiras (Assentamento Nova Descoberta) e Vargem Grande (comunidades Riachão, Riacho do Mel, Sororoca, Piqui da Rampa e Cooperativa Agroextrativista dos Pequenos Agricultores de Vargem Grande–Coopervag).

Entre as atividades desenvolvidas pelos grupos produtivos estão plantio de melancia e mandioca, melhorias em casa de farinha, hortas comunitárias, criação de peixes e aves e o beneficiamento de polpa de frutas.

“Entre os conhecimentos e práticas agroecológicas discutidas com as comunidades estão o uso de plantas para a fabricação de defensivos naturais, a fabricação de ração artesanal utilizando insumos da própria produção, como folhas e cascas de mandioca para alimentação de peixes e pequenos animais”, relata Ivo Rodrigues, um dos oito técnicos agrícolas que ministrou o conteúdo das oficinas. “Discutimos também questões ambientais, econômicas e sociais, conflitos nos territórios e a importância de eles estarem organizados em associações e produzindo alimentos de forma agroecológica para permanecerem no local, resistindo às ofensivas de latifundiários e do agronegócio”, completou.

Mais de 200 pessoas participaram do processo formativo, que integra o acompanhamento e formação dado pela Cáritas às comunidades, através da parceria com a Fundação Interamericana (IAF). A metodologia levou em conta as normas de segurança sanitária impostas pela pandemia da covid-19 – a maioria absoluta das atividades aconteceu em local aberto, observando-se o uso de máscaras, álcool em gel e distanciamento social.

Todos os grupos incluídos neste processo formativo foram beneficiários de repasses do Fundo de Crédito Rotativo, efetuados desde março do ano passado. Esse conjunto de ações integra o convênio entre as duas instituições para o “Fortalecimento e ampliação das ações da Rede Mandioca no Maranhão”.

“Esse conjunto de ações e estratégias desenvolvidas junto às famílias de agricultores/as, extrativistas, quilombolas, posseiros e assentados tem como horizonte maior a valorização da agricultura familiar associada a ações de economia solidária no campo, trazendo alternativas de trabalho, renda, segurança alimentar e melhorias nas condições de vida dessas famílias, além de contribuir para movimentar a economia local. Com essa formação, esperamos que estes segmentos assimilem novas práticas produtivas, que respeitem e valorizem o meio ambiente e proporcionem um alimento saudável para suas famílias e os demais consumidores da produção da agricultura familiar”, afirma Lucineth Cordeiro Machado, assessora regional para a economia solidária na entidade.

“Há poucos dias nós tivemos uma oficina sobre agroecologia. Quero destacar a importânciaque foi esse projeto para nossa comunidade, para os membros do projeto. Ela trouxe algo que veio nos conscientizar, trazer conhecimento de algo que nós já queríamos trabalhar aqui há muito tempo, mas não conhecíamos o caminho a ser seguido, que era o combate ao agrotóxico. Com essa oficina as pessoas ficaram conscientizadas, animadas, já aprenderam a fazer seus defensivos, todo mundo alegre e satisfeito. O resultado é que com essa oficina, com o conhecimento, a gente vai combater as pragas de outra forma. A gente vai ter uma alimentação saudável, proteger mais o meio ambiente como um todo, as águas que estavam sendo poluídas pelo agrotóxico. Foi um momento muito rico, muito importante, que nos deixou uma grande esperança, a gente só tem muito a agradecer, por que trouxe esse conhecimento que a gente estava precisando: as pessoas trabalhavam com agrotóxico não por maldade, mas por falta de conhecimento. A gente trabalhou na teoria e na prática e eu acredito que daqui pra frente a nossa comunidade vai mudar em muitas coisas, principalmente na proteção ao meio ambiente e na nossa alimentação”, declarou dona Expedita, membro da Rede Mandioca e articuladora do projeto IAF, na comunidade Água Preta, no município de Amarante.

A reflexão de dona Expedita faz todo sentido. A pandemia de covid-19 é um chamado à população mundial à reflexão: a agricultura industrial tem adoecido gerações, gerado impactos e desequilíbrios ambientais e é o pequeno produtor quem põe alimento saudável e a preço justo na mesa do brasileiro. Repensar as formas de convivência com a natureza e a própria alimentação é um caminho que precisa urgentemente ser levado em consideração por todos.

[A convite do Secretariado Regional da Cáritas Brasileira no Maranhão escrevi a matéria acima, também publicada no site do Secretariado Nacional da entidade e no JP Turismo, Jornal Pequeno de ontem (6), gracias, Gutemberg Bogéa!]

Gabriella Lima lança quarto single/vídeo de “Bálsamo”

A cantora e compositora Gabriella Lima em locação do videoclipe. Foto: Leonor Patrocínio

Há seis anos Gabriella Lima chegou a Paris, com a pretensão de permanecer por três meses em imersão artística. Foi ficando, após conhecer o Cabaret Aux Trois Mailletz, com quem assinou um contrato de artista residente – por lá já cantaram, entre outras, Elza Soares e Nina Simone.

A cantora e compositora paulistana acaba de lançar o single e videoclipe Máquina de ilusão (Gabriella Lima), quarto de Bálsamo, disco que tem previsão de lançamento para o início do ano que vem, com produção de Alê Siqueira.

O videoclipe, dirigido por Chico Gomes, com coreografia de Fábio Aragão, foi gravado em Lisboa. Na faixa autoral ela é acompanhada por Thiago Barromeo (guitarra e contrabaixo), André Lima (teclados) e Zé Luís Nascimento (percussão).

Ela comenta o trabalho, no material de divulgação distribuído à imprensa: “Queria abrir uma discussão sobre as desilusões amorosas, sobre o fim das relações. Mas não com uma abordagem triste. Afinal, acabar não significa que deu errado. Existe uma confusão em associar o sucesso de uma relação à durabilidade. Não importa o tempo que durou, a relação foi uma parte da nossa vida que constitui quem somos hoje. Essa aceitação evita a insistência em uma relação que não funciona mais. A ilusão de que se tentar mais um pouco, poderia funcionar. Pura ilusão”, arremata.

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Veja o videoclipe de Máquina de ilusão:

Aniversariantes do dia

Trago ao blogue este quadro do Balaio Cultural, programa que apresento aos sábados com a queridamiga Gisa Franco, na Rádio Timbira AM (1290KHz).

Fariam aniversário hoje:

Joseph Goebells (1897-1945), ministro da propaganda de Adolf Hitler na Alemanha nazista, cuja frase “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade” ajuda a compreender um pouco o atual triste estado de coisas brasileiro;

O compositor Nelson Cavaquinho. Foto: reprodução

Nelson Cavaquinho (Nelson Antônio da Silva, 1911-1986), gênio, cujos versos “o sol há de brilhar mais uma vez/ a luz há de chegar aos corações/ do mal será queimada a semente/ o amor será eterno novamente” nos ajudam a ter esperança de um país e uma sociedade melhores;

e Moa do Katendê (Romualdo Rosário da Costa, 1954-2018), capoeirista baiano, brutal e covardemente assassinado por um bolsonarista após o primeiro turno das eleições de 2018.

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Ouçam Juízo final (Nelson Cavaquinho/ Élcio Soares), com Nelson Cavaquinho:

Ouçam Badauê (Moa do Katendê), com Caetano Veloso:

Réquiem para Maria

Maria Lindoso com o neto e o bisneto. Fotos: Zema Ribeiro

Houve um tempo em que os cromos dos álbuns de figurinhas não eram autocolantes. Lembro-me que endureci um calção limpando cola dos dedos. Não lembro que idade tinha o guri que eu era, mas tinha especial apreço pelo calção azul e vermelho costurado por minha avó, Maria do Rosário Lindoso (8/12/1939-25/10/2020), com quem morei até os sete anos de idade, em Rosário/MA.

13 anos depois de Antonio Viana, meu avô, vovó faleceu, vítima de um câncer de pulmão – foi fumante por mais de 60 anos de vida. Tinha também mal de Alzheimer. Teve seis filhos, pois não fazia distinção da última, adotada: Solange (minha mãe), Sérgio, Silvio, Sara, Susalvino e Silvandira, por ordem de data de nascimento.

Perdi as contas de netos e bisnetos que deixa e, dos primeiros, ao menos a safra inicial de meia dúzia, todos íamos comprar-lhe doses de cachaça (escondidos de vovô), com que costumava se aquecer para os banhos de cuia no tanque, boca da noite. Além de dar os primeiros tragos em hollywoods, carltons, plazas, frees, derbys e que tais, atendendo à sua outra ordem: “menino, vai acender um cigarro pra mim”.

Faleceu justamente no dia do encerramento dos festejos de Nossa Senhora do Rosário, santa padroeira de sua cidade natal e que lhe batizou, ela, nascida, afinal de contas, num dia de Nossa Senhora da Conceição. Não era uma católica fervorosa, mas tinha lá seu altar particular, com umas imagens, diante das quais vez por outra acendia velas e rezava.

Tampouco era politicamente correta e divergíamos em muitos temas, diante dos quais eu geralmente calava, a fim de evitar atritos e não soar desrespeitoso. Lembro-me que no último passeio que fizemos juntos, ela reclamou por eu estar servindo o churrasco à minha companheira, e não o contrário. Dissemos qualquer coisa e tentamos acreditar que tais comentários se deviam a um abismo geracional (embora gente – parentes, inclusive – mais jovem que nós mantenha esse tipo de pensamento e postura).

Mesmo com a vida quase nunca sendo fácil, deixou valorosas lições de honestidade, em espécies de ditados que eu mesmo só ouvi de sua boca. “Homem que é homem caga na mão e come”, dizia, ensinando que problemas têm que ser enfrentados e resolvidos, não adianta ficar choramingando pelos cantos. Ou: “quem não tem, não tem raiva”, advertindo que a inveja, a cobiça e a ganância não são boas conselheiras.

Foi apresentada ao bisneto José Antonio antes de ao diploma de jornalismo, que ela nunca deixou de me cobrar. O homem formado, no fundo, nunca deixou de ser o menino de calça curta e tênis conga, como fotografado a seu lado, um dia, provavelmente o da cerimônia de formatura do ABC, no gramado em frente ao jardim de infância em que aprendi a ler – ao lado da igreja da matriz –, derrubado pela insensibilidade dos gestores públicos.

O mesmo menino que nunca esquecerá o quintal onde tanto brincou, cheio de plantas, cuidadas com extremo zelo, os pés de abacate dos quais ela me enviava os frutos, sabedora do quanto os aprecio, ou do prejuízo nos camarões frescos que me mandava descascar: o ingrediente para a torta sempre acabava em menor quantidade, pois eu já ia me pagando o trabalho com uma porcentagem do aferventado.

Bença, vó!

Chico da Ladeira (6/12/1949-24/10/2020)

[Faleceu ontem (24) em São Luís, o compositor Chico da Ladeira, em decorrência de falência múltipla dos órgãos; na singela e merecida homenagem prestada pelo Balaio Cultural, que produzo e apresento com Gisa Franco, aos sábados, na Rádio Timbira AM, citei, de memória, perfil escrito por Cesar Teixeira e publicado no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, em fevereiro de 2004, que reproduzimos a seguir]

CHICO DA LADEIRA: MEMÓRIAS DE UM EMBAIXADOR

A verdadeira história de um compositor que ajudou a Flor do Samba a conquistar vários títulos no Carnaval, posou ao lado de Garrincha para uma foto, e é capaz de fazer embaixadas com tampinhas, moedas e copos, não só para beber, mas para mostrar a todos os malabarismos que os artistas maranhenses fazem para sobreviver e serem notados.

POR CESAR TEIXEIRA*

O compositor Chico da Ladeira em janeiro passado, durante gravação no estúdio Zabumba Records. Foto: Suzana Fernandes

Na rua Antônio Rayol (antiga São João), subindo a ladeira tangente à Fonte das Pedras, o encontramos na casa nº 240, sóbrio. Fala mansa, de bermudas e sem camisa, exibe uma enorme cicatriz na barriga proeminente. “Não foi nada. Uma operação que fiz há quinze anos. Tiraram só uma úlcera do estômago, a vesícula biliar e o apêndice”.

Francisco de Assis Vieira é conhecido entre os sambistas da cidade, ratos de praia e boêmios em geral como Chico da Ladeira, apelido que recebeu da tia Dodoca. Em 1979, em parceria com Augusto Maia, compôs um samba bastante difundido como “Haja Deus” e considerado um hino daquela agremiação carnavalesca.

“Haja Deus, quanta beleza
a Flor do Samba vem mostrar.
São festejos e motivos
da cultura popular”

A popularidade de Chico, entretanto, vem do tempo da bola de seringa na praça do Mercado Central e das peladas no Portinho, na Maravalha, ao lado de Japi, Djalma, Pindura, Bacurau e Dalmir, entre outros militantes. Logo conquistaria uma vaga nos desafiados da Ponta d’Areia, sempre regados pela chuva etílica que desabava no bar de Dona Nazaré, fazendo curva com o vento.

Os craques Chico da Ladeira e Garrincha, em Imperatriz/MA. Foto: Acervo Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante

Foi várias vezes contratado para integrar seleções do interior do Estado, durante campeonatos regionais. Numa das viagens, em Imperatriz, encontrou-se com Garrincha, ex-craque do Botafogo convidado para fazer uma exibição pública, em fins dos anos 60, na inauguração do estádio Frei Epifânio d’Abadia, jogando pelo Cruzeiro, um time local.

A habilidade de Chico com a bola o levou a ser aspirante de times maranhenses como o Ferroviário e o Vitória do Mar, além do Bola Sete, de futebol de salão, na década de 70.

TESOUROS DA JUVENTUDE

Chico lembra da infância, meticuloso, como quem junta pedaços de um filme. “Toquei sino na igreja de Santana, de calça curta engomada e conga, de manhã cedo. Era só pra paquerar as meninas”. Não fez nem o primário, mas aprendeu a ler e a escrever pegando bolos de Dona Risoleta, na rua das Crioulas.

Tinha outras virtudes: era um exímio driblador de bondes e empinador de papagaios, disputando com Alvinho e Ratinho. Vez por outra, retirava das prateleiras do Lusitana e da Loja 4.400 um pouco da mais-valia, transformando gêneros juvenis de primeira necessidade em justiça social. “Eu não tinha medo de nada”.

Entre 14 e 15 anos, para garantir os ingressos do estádio Nhozinho Santos e dos cinemas Éden, Rival e Rialto (gostava de filmes de cow-boy e karatê), carregava sacolas no Mercado Central, e sacrificava dois ou três meses consertando malas de papelão na Casa Santo Antônio, rua da Paz, depois abandonava o serviço. “Era só pra comprar uma calça e uma camisa”.

Foi o futebol, inicialmente, que lhe trouxe algumas doses de vantagem na vida. Recorda que começou a beber tardiamente, aos 18 anos, e, junto com os companheiros de bola, garantia cachaça e mulher na Zona sob o patrocínio de China, pandeirista que vivia na pensão Crás, e sustentava um time amador do mesmo nome. “Lá tinha até karaokê”, acrescenta.

Chico também costumava, na praia ou no bar, exibir-se descalço, fazendo pezinho – embaixadas – com um limão, suspendendo copo e colocando na nuca uma tampinha ou moeda (oferecida por algum incrédulo), que acabava no bolso para completar a próxima cerveja.

O SAMBA NO PEITO

Chico da Ladeira em reprodução da página do Guesa Errante com o perfil escrito por Cesar Teixeira

Aos poucos ele foi deixando a bola, e, adúltero, mergulhou noutra paixão há muito cultivada: o samba. Não era para menos. A casa onde nasceu, em 6 de dezembro de 1949, e na qual vive até hoje, era um terreiro de bamba. Lá foi sede dos Fuzileiros da Fuzarca (fundado em 1936), e depois do bloco Os Lunáticos.

Por ali passaram figuras relevantes do samba maranhense, como Mascote e o náufrago de águas temperadas Cristóvão Colombo.

Chico não viu a batucada dos Fuzileiros na casa da rua São João, pois o bloco se mudou para a São Pantaleão em 1942, quando ainda não era gente, mas chegou a ser baliza de Os Lunáticos, cujos refrões mexiam sua cabeça. O bastante para arriscar-se a fazer o primeiro samba –“Topless” – para um bloco de brincadeira que criou com outros jovens:

“…que coisa louca, que coisa louca,
é tanto peito que me dá água na boca”

Tudo culpa do pai adotivo, o bicheiro Arnaldo Ewerton Vieira, e dos muitos tios, como Raimundo Ewerton de Souza (Diquinho), poeta e compositor inspirado “que faleceu cuspindo o fígado”, lembra Chico. Depois das lunáticas reuniões, os ensaios passaram a ser na casa de Dona Preta, algumas casas acima.

Com 16 anos, Chico da Ladeira apresentou-se na Rádio Gurupi, cantando uma música de Roberto Carlos, e foi premiado com um kit: tênis Ki-Chut, escova e pasta de dentes.

Seu talento como compositor, porém, só foi descoberto em 1978, quando fez “O Circo” para a Flor do Samba, convidado por Augusto Maia, que depois seria seu parceiro. O tema baseava-se no tradicional refrão circense: “Ô raia o sol, suspende a lua/Olha o palhaço no meio da rua”.

Em 1980, mudou-se temporariamente para a escola Unidos da Camboa, onde compôs “Sonhos”, junto com Zé da Conceição, parceiro predileto: “São dias zodiacais/o destino não se muda/as cartas não mentem jamais”. Com Zé, também fez um samba para a Unidos da Senzala, do município de Pinheiro. Mas logo voltaria para a Flor, e novos sucessos ajudaram a escola a vencer na passarela.

“De Saint Louis a São Luís, enfim uma só Paris”, foi o samba-enredo de 2002, com letra e música de sua autoria. Este ano anunciou “Os Sete Pecados da Capital”, em parceria com Augusto.

FORA DO ESQUEMA

Chico da Ladeira admite que sua popularidade também lhe valeu um emprego de contínuo nas Centrais Elétricas do Maranhão, de onde foi demitido após a privatização da empresa. “Eu e mais de 2 mil pessoas”. Com a grana da indenização, comprou um apartamento no Ipem-Bequimão, que lhe rende de aluguel 150 reais por mês. “Muita gente pensava que eu ia torrar em cachaça”.

A esse preconceito ele atribui o fato de não ter sido ainda apoiado pelas instituições culturais do Estado. “Os órgãos deveriam procurar mais os artistas. Fico com vergonha. Outro dia fui na Gerência de Cultura pedir ajuda pra publicar um livreto de poesia e disseram: – Aqui tu não pode subir, Fulano não deixa!”.

Seus poemas, apesar de sufocados pela precária convivência com os livros, são farpas da experiência humana acumuladas no pâncreas de quem tem que transformar sentimentos em flanelinha para enxugar a sujeira de uma sociedade conservadora. Em “Corvos e Gaviões” vomita:

“É melhor ser coveiro
do próprio cemitério
que abraçar os homens
dos três poderes
onde o mar vira inferno”

Chico, no fundo, é o mesmo moleque, aguardando a hora de driblar o destino e marcar mais um gol. Se tivesse nascido no Cantagalo, talvez ocupasse lugar de honra entre sambistas. Aqui os artistas da gema são condenados a andar de costas para a história. Por isso, quem vê o compositor descendo manhoso a ladeira que o popularizou, imagina que está subindo.

*CESAR TEIXEIRA é jornalista e compositor

*

Bonus track: em janeiro o poeta e jornalista Celso Borges e o percussionista Luiz Cláudio levaram Chico da Ladeira ao Zabumba Records e registraram sua voz para um disco. Com a pandemia de covid-19 o projeto foi adiado.

Ouça uma das composições de Chico da Ladeira registradas na ocasião: