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Cardume de talentos

Baiacu. Capa. Reprodução

 

O espírito libertário da poeta Hilda Hilst ronda a Casa do Sol, em Campinas/SP. O espírito libertário de Hilda Hilst e de seus 150 ou 160 cachorros, ninguém sabe ao certo.

A Casa do Sol abrigou uma residência artística, capitaneada por Angeli e Laerte, dois de Los Tres Amigos, grupo de quadrinhistas que a seu modo reinventou o panorama das HQs no Brasil entre o final da década de 1970 e início da de 80, com revistas como Chiclete com Banana e Piratas do Tietê, na ativa até hoje – Glauco, el tercer amigo, foi assassinado, junto a seu filho Raoni, em 2010.

A residência artística reuniu, além dos pais de Bob Cuspe e Muriel, artistas dos traços e das letras. 10 participaram da residência, e a eles se somaram os editores e outros escritores e poetas. A escalação completa: André Sant’Anna, Anna Cláudia Magalhães, Bruna Beber, Daniel Galera, Diego Gerlach, Fabio Zimbres, Gabriel Góes, Guazzelli, Ilan Manouach, Juliana Russo, Laura Lannes, Mariana Paraizo, Mateus Acioli, Paula Puiupo, Pedro Franz, Powerpaola, Rafael Sica e Zed Nesti.

Esse timaço deu na Baiacu [Todavia, 2017, 320 p.; R$ 84,90], bonito livro (ou revista?), batizada pelo peixe (venenoso) que “tem essa propriedade de inchar e ficar maior e assustar o tubarão que vem devorá-lo”, como afirma Laerte no editorial, um texto adaptado da abertura da residência artística, em 2017. “Mas o baiacu tem uma outra coisa, que é maravilhosa. O bicho faz uma mandala. No fundo do mar. Ele fica raspando a barriga na areia, horas e horas… Depois, visto de cima, é uma mandala, um círculo perfeito, com linhas geométricas indo para todos os lados. E ele faz aquilo por quê?… Por tesão”, continua.

Ou seja: a revista (ou livro?) já transpira arte desde o batismo, desde a capa (de Zed Nesti).

Na Baiacu a noção de autoria está diluída: são poucos os trabalhos assinados. É claro que há um índice ao final e você não é obrigado a lê-la (ou lê-lo?) na sequência. É possível saltar artistas, ir direto ao/à seu/sua predileto/a. Ou tatear às escuras: ler sem saber quem desenha ou escreve (é claro que, por exemplo, Angeli e Laerte, entre outros/as, têm traços característicos), tentando adivinhar.

Há cadernos de esboços, estudos, Mauricio de Sousa desquarado, ilustrações da casa, prosa, poesia. Arte e ficção dialogam e, imitando a vida, debatem, aqui e ali, o Brasil contemporâneo. A função da arte (ou sua inutilidade), o deslumbramento de novos ricos, o empoderamento de mulheres, negros/as e homossexuais, a violência, o Brasil sob a égide do golpe político-jurídico-midiático e machista que toma o país de assalto há quase dois anos, ideais de consumo como sinônimo de felicidade (enquanto humanos perdem empregos para máquinas), a própria dificuldade com os processos criativos ao longo da residência, direitos humanos, drogas, religião, vasto leque, sem abrir mão da ironia e do bom humor.

Gerações e vozes distintas numa encruzilhada artística cada vez mais rara. Não é todo dia que se vê um livro (ou revista?) tão volumoso(a), com (tanto) conteúdo (de qualidade), se inchando contra o vazio, o mau gosto, o bom mocismo, a isenção e nossas tristes mazelas. O agradecimento a Toninho Mendes, entre muitos/as outros/as, é mais que justo.

E a Baiacu ainda traz encartado o hilariante zine Pirarucu, argumento e arte de Diego Gerlach, complemento à altura, outro peixe poderoso, tirando onda com a residência, o ofício do artista de quadrinhos, o governo ilegítimo, sem poupar sequer o editor André Conti.

Após a/s leitura/s, a pergunta que não quer calar é: terá a revista (ou livro?) uma segunda edição? Quando?

Violência: ficção, realidade e atualidade

Nunca se chegou a um consenso sobre o cangaço: bandidos ou heróis? O que é mais interessante notar é o fascínio que o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, exerce até hoje, passado tanto tempo de sua atuação e dizimação.

Jurados de morte. Capa. Reprodução

Uma das histórias de Jurados de morte [Dupla Criação/7 Cores Gráfica e Editora, 2017, 26 p.; pedidos pelo e-mail teclandocomadupla@gmail.com ou telefone (98) 3227-7688] parte da sobrevivência inusitada de Cara de Cão, um cangaceiro cujo nome, pelas mãos e imaginações de Iramir Araújo e Beto Nicácio, autores da HQ, remonta a Cara de Cavalo, da icônica bandeira “seja marginal, seja herói” do artista plástico pré-tropicalista Hélio Oiticica.

Araújo e Nicácio, com anos de relevantes serviços prestados aos quadrinhos no Maranhão – convém lembrar que hoje, 30, celebra-se o Dia do Quadrinho Nacional –, atuam em todas as frentes: no mercado publicitário, na produção e publicação e na crítica, tendo mantido durante muito tempo colaboração com veículos de comunicação da ilha.

Esta Jurados de morte, lançada em dezembro passado na Comic Con Experience 2017, em São Paulo, tem os componentes de um bom faroeste: ação, violência, bom humor. Na primeira história, um grupo de cangaceiros é chacinado pela polícia – os macacos, como eram comumente chamados –, com apenas Cara de Cão sobrevivendo, no que reside o elemento surpresa da trama. Araújo e Nicácio partem de um elemento histórico (o cangaço) para sobrepor sua ficção.

Na segunda, uma trama em que a honra dita o preço da vida e esta flerta o sobrenatural. A história se passa em uma cidade do interior do Brasil, em que os poderes econômico e político têm estreitas relações. A revista não traz a típica advertência, mas bem poderia: “qualquer semelhança é mera coincidência”. À guisa de apresentação, troçam Araújo e Nicácio: “não duvide se lhe dissermos que as duas histórias desse volume nos foram contadas tal como as narramos, com um ou outro exagero ou uma ou outra omissão. Não duvide se lhe afirmarmos que, por as termos revelado, estamos, também nós, jurados de morte”.

Em ambas não fica delimitada sua localização no tempo – a do cangaço, obviamente, é mais fácil imaginar. Mas histórias como as de Jurados de morte podem acontecer em qualquer tempo e lugar: é que temas como a violência continuam atuais e reais, mesmo quando tratados sob as tintas da ficção.

Jornada poética

Como falar com garotas em festas. Capa. Reprodução

 

Como falar com garotas em festas [How to talk to girls at parties; Quadrinhos na Cia., 2017, 80 p.; R$ 44,90; leia um trecho] não é, ao contrário do que o título porventura possa sugerir, um manual com fórmulas para serem seguidas à risca ou com desconfiança, tampouco um guia politicamente incorreto.

Em primeiro lugar, é o encontro de três artistas geniais, que dispensam apresentações: Neil Gaiman [Sandman e Coraline, entre outros], autor do conto, e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá [10 pãezinhos, Daytripper e a adaptação aos quadrinhos de Dois irmãos, de Milton Hatoum, entre outros], responsáveis pela adaptação da história aos quadrinhos.

É redundante dizer que uma graphic novel é cinematográfica, já que os conceitos se confundem um tanto entre a sétima e a nona artes. Além do mais, Como falar com garotas em festas ganhou também adaptação para a telona, com direção de John Cameron Mitchell e elenco com Elle Fanning e Nicole Kidman, que estreia este ano (ainda sem data para chegar ao Brasil).

É um álbum sobre amor e amizade, as confusões destes e outros sentimentos no período turbulento chamado adolescência. Enn e Vic são amigos na Londres dos anos 1970, durante a explosão do punk rock. Um é tímido e não tem sorte com as garotas; o outro é bonitão e espalhafatoso e sempre desperta a inveja do amigo.

O traço de Moon e Bá já é um clássico há tempos e a atmosfera do conto de Gaiman o envolve em poesia, não que eles não já tivessem, mas aqui a questão é particular e direta. Numa casa, em uma festa a que o par de amigos chega por acaso, Enn conhece Triolet, a “garota-poema”. “Você não consegue ouvir um poema sem que ele te transforme”, ela lhe diz em determinada altura.

Há várias metáforas colocadas: nada é apenas o que parece ser e perde quem se contentar com a/s aparência/s, do título ao caderno de rascunhos ao final do volume (que permite perceber detalhes do processo de desenvolvimento da obra).

A hq aborda esse turbilhão de sentimentos adolescentes com um pé na ficção científica, como se a adolescência não fosse um período complicado por si só. Um período de descobertas, experiências, aventuras. De quebrar a cara. De transição. De diversão e de começar a se preocupar com novas responsabilidades. No texto de Gaiman e no traço e nas cores de Moon e Bá tudo se torna mais poético e com poesia é menos duro seguir a jornada.

Anacronismo para retratar o Brasil

Mensur. Capa. Reprodução

 

O bullying transformou o protagonista de Mensur [Quadrinhos na Cia., 2017, 208 p.; R$ 54,90; leia um trecho] em Gringo. Filho sem pai de uma dona de casa, ele ganhou o apelido na escola. São seus dramas que o leitor acompanha ao longo das páginas da nova graphic novel de Rafael Coutinho, que já dispensa apresentações.

A luta de espadas que dá título ao álbum se parece com a esgrima, mas tem o claro objetivo de produzir ferimentos no rosto do oponente e estas cicatrizes serão motivo de orgulho para seus praticantes. Era uma prática de estudantes universitários alemães no século XV e o autor traz para o Brasil, entre Caxambu, Ouro Preto e São Paulo, cidades que dão nome às partes do livro.

Engana-se, no entanto, quem acredita que espadas ferindo rostos são a maior violência nas páginas de Mensur. É uma obra de ficção, mas Rafael Coutinho retrata um Brasil violento e desigual, em que tudo, por mais grave que seja, é banalizado e dado como absolutamente normal – vide a sequência de golpes perpetrados no ambiente político.

Gringo é ao mesmo tempo um personagem anacrônico e um brasileiro comum. E ao mesmo tempo também, para alguns, um herói. Lida com fantasmas do passado, busca tornar-se um ser humano melhor, valoriza a palavra e a honra – instituições que em geral funcionam mal, como tantas no Brasil –, busca ganhar a vida honestamente, mesmo em subempregos, apaixona-se e tem o CPF negativado apesar de já ter pagado a fatura – experiências comuns de tantos brasileiros comuns.

O letramento de Mensur utiliza a caligrafia do autor em resultado charmoso. Rafael Coutinho não se limita ao quadrinho: por vezes determinadas cenas – e particularmente as “danças” dos espadachins – escorrem, tornando-se páginas inteiras, transformando-as em verdadeiras obras de arte – o que de resto, Mensur é, desde a capa.

Jornalismo desglamourizado

Tabloide. Capa. Reprodução

 

“Ninguém vai acreditar nisso!”, adverte o fotógrafo Horácio. “Por isso mesmo é que vamos publicar!”, retruca a jornalista Samantha Castello. A ilustração da quarta capa de Tabloide – A dama dos afogados [Veneta, 2017, 136 p.], de L. M. Melite, dá uma preciosa pista de onde o leitor vai se meter ao acompanhar as aventuras da dupla nesta graphic novel patrocinada pelo Programa de Apoio à Cultura paulista.

Baseado em fatos reais, afirma a ficha catalográfica, Tabloide é o mergulho na aventura em geral sem glamour de fazer jornalismo. Samantha está acima do peso, é desbocada, nem sempre higiênica, por vezes escatológica e comumente descrente. Mas não calcula nem freia seus ímpetos quando o objetivo é conseguir uma informação para a qual em geral seus pares não estão dando muito valor. Sensacionalismo? Quiçá.

Tabloide se desenrola a partir da investigação do assassinato de uma transexual em circunstâncias inusitadas: vestida de noiva, dentro de um carro popular, em uma represa que funciona como cemitério de automóveis, destino de fraudes em seguros.

Assombrada por seus próprios fantasmas, Samantha conduz o leitor por aventuras que passam por situações de trabalho escravo e tortura, temas infelizmente ainda bastante atuais no Brasil sob a égide dos golpistas.

A protagonista não hesita em brigar – literalmente, se necessário – para cumprir seu ofício, consciente de seus dilemas éticos. Polêmica, é uma grande personagem no traço apenas aparentemente desleixado do autor. No meio de tudo há uma reprodução fac-símile de Tabloide, com “jornalismo sádico” por subtítulo e uma coleção de manchetes pra lá de inusitadas. Nada é mera coincidência.

Lennon no divã

Lennon. Capa. Reprodução

 

Como grupo ou individualmente a vida e a obra dos Beatles são por demais conhecidas em sucessivas edições, umas bem cuidadas, outras meros caça-níqueis. Até hoje, qualquer lançamento ou relançamento envolvendo os fab four rendem cifras incalculáveis, seja na música, literatura, teatro, cinema.

A graphic novel Lennon [tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2017, 151 p.; R$ 39,80; leia um trecho] aborda a trajetória de John Lennon sob um ponto de vista inusitado: sucessivas visitas do astro a uma analista.

Lennon se reencontra e enfrenta fantasmas do passado, desnudando-se no traço elegante de Horne Perreard e roteiro de Eric Corbeyran, baseados no texto original de David Foenkinos, autor do livro que deu origem à HQ.

Nada é novidade para beatlemaníacos médios – ok, a expressão é uma contradição em termos –, mas mesmo para estes, vale a pena conferir Lennon, narrado em primeira pessoa e de forma quase linear.

John Lennon revela a importância de Lewis Carrol para seu processo criativo, quando os desenhos de Perreard dão conta do onírico do autor, revela a podridão, mais que o glamour, do showbiz, e é ultrarromântico ao abordar o encontro de seu protagonista com Yoko Ono.

Em 18 sessões, um monólogo – só Lennon fala, nunca há a interferência de sua analista – dá conta da biografia daquele que, ao lado de Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, formou o mais importante grupo musical de todos os tempos e revolucionou para sempre a música pop.

Mesmo sem acrescer novos dados à biografia do ídolo, Lennon teria fecho perfeito se acabasse na 18ª. sessão. O epílogo é óbvio ao encerrar o álbum com o assassinato de John Lennon, quebrando o ritmo a que o leitor se acostuma logo nas primeiras páginas.

Tragédias brasileiras

Hinário nacional. Capa. Reprodução

 

Radicado há anos na Espanha, o quadrinhista brasileiro Marcelo Quintanilha talvez seja quem melhor retrata, no campo das graphic novels, o Brasil real e profundo. Após o policial Tungstênio – vencedor do prêmio Angoulême, o mais importante dos quadrinhos, em 2016 – e o “drama classe média” (embora estas aspas reduzam bastante a questão, reconheço) Talco de vidro, ele volta à carga com Hinário nacional [Veneta, 2016, 128 p.; R$ 54,90].

O livro já provoca desde o título, que subverte a “coleção ou livro de hinos religiosos”, atrelando-o a hinos de clubes de futebol cantados a plenos pulmões em estádios lotados ou não e o clássico junino Olha pro céu (Luiz Gonzaga e Peterpan), que se configuram personagens importantes na trama.

O enredo entrelaça vários dramas em torno do mesmo tema: o abuso sexual. Da namorada que cede a ver filmes de ação (que o namorado prefere) em vez de filmes mais românticos (sua própria preferência) a relação entre colegas de escola (“eu tô acostumada”), os clichês machistas e homofóbicos repetidos ad nauseam, o taxista que “graceja” e a passageira que interrompe a corrida pelo meio do caminho, além do drama de um motorista de ônibus acidentado, cuja memória fragmentada faz questão de lembrar que é ele quem manda em casa.

Quintanilha, em suas ficções, é um perfeito tradutor da tragédia brasileira. As pequenas desgraças individuais são traços de nossa formação, agravados pelo golpe em curso. Hinário nacional é impresso em amarelo, cor da palidez – nossa impotência diante da realidade? –, e se vale da retícula, cujo efeito granulado pode ser lido como outra metáfora: pontinhos formam uma imagem, como os dramas individuais compõem a desgraça brasileira.

Exceção e regra em Encruzilhada

Encruzilhada. Capa. Reprodução

 

Marcelo D’Salete é uma exceção: um quadrinista negro de sucesso no Brasil. Sua obra é regra: sua ficção documenta a realidade cotidiana de periferias das grandes cidades e o massacre diário da juventude negra e pobre. Mas sua obra é, ao mesmo tempo, exceção, já que não é qualquer artista que se interessa por abordar tais temas sob tais perspectivas, dando voz aos oprimidos.

A violência policial já não nos choca, pois está estampada nas edições diárias dos jornais impressos ou circula em sites e grupos de whatsapp. D’Salete no entanto não alivia: o traço sujo traduz a vida sofrida dos que habitam a periferia e vivem sob o jugo dos agentes da lei – que em geral desrespeitam-na. “Com polícia a gente fica quieto” é o mantra repetido por uma personagem em Risco, história inédita que se soma à reedição de Encruzilhada [Veneta, 2016, 160 p.], originalmente lançado em 2011.

São cinco histórias que não causariam estranhamento a quem acompanha o noticiário, sobretudo através de programas policialescos sensacionalistas – redundância intencional –, em que sangue é sinônimo de audiência. São Paulo está perfeitamente traduzida no preto e branco – e cinza – dos quadrinhos de D’Salete, cujos grafites, espalhados por paredes e muros, e marcas, por outdoors, neons e embalagens, garantem autenticidade às narrativas, jogando o consumismo (e o capitalismo) no cerne da questão urbana e sua onda de violência, que atinge “trabalhadores, ladrões, policiais, camelôs” e usuários de crack.

As histórias de Encruzilhada – a grafia do título na capa do álbum não por acaso evoca um picho – não são fábulas com moral; antes evocam uma amarga realidade, causando incômodo e propondo reflexões, exceto a quem já perdeu qualquer grau de humanidade ou sensibilidade, anestesiado pela “normalidade” do status quo, justamente contra o que mira a arte consciente de D’Salete.

Modelo vivo, de Laerte, o último grande trabalho de Toninho Mendes

Modelo vivo. Capa. Reprodução
Modelo vivo. Capa. Reprodução

 

Falecido em janeiro passado, Toninho Mendes “nos anos 1980, elevou as expressões gráficas do underground ao palco principal da cultura e mudou a história dos quadrinhos nacionais. Um mundo de referências anárquicas passava a contaminar o jornalismo, as HQs, o debate comportamental e político”, como anotou em seu obituário o jornalista Jotabê Medeiros.

A Circo Editorial, fundada por Toninho Mendes na década de 1980, publicou nomes como Angeli (Chiclete com banana), Laerte (Piratas do Tietê), Glauco (Geraldão) e Luiz Gê, entre outros. Sua última grande contribuição para a cultura nacional foi a organização de Modelo vivo [Barricada, 2016, 88 p.; R$ 49,00], mais recente álbum de Laerte.

Os tempos são outros – ou serão os mesmos? – e por isso é importante ver as coisas em perspectiva: Modelo vivo é uma antologia que demonstra a importância de Laerte não apenas para os quadrinhos nacionais. Seus mais de 40 anos dedicados ao traço demonstram que o humor pode sintetizar cenários, traduzir conjunturas e ainda fazer rir – não o riso fácil e inconsequente.

A obra se completa com uma série de ilustrações de corpos nus, algo deixado em segundo plano por Laerte ao longo de sua trajetória. “Desenhar gente é uma das maneiras mais fecundas de fazer desenhos, porque nos usamos inteiramente na ação de desenhar”, afirma no texto de apresentação de Modelo vivo. “Fiz isso menos do que gostaria”, continua.

Os desenhos a que Laerte se refere foram feitos ao longo de um curso livre organizado por ela e seu filho Rafael Coutinho, em 2013 – a cartunista é vista em ação no ótimo Laerte-se, documentário de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, disponível no Netflix.

O advento das redes sociais facilitou bastante a vida de quem deseja acompanhar o trabalho de artistas que admira. Laerte continua colaborando com a Folha de S. Paulo. Para quem, ainda assim, ainda não conhece o trabalho da cartunista, Modelo vivo é uma boa porta de entrada.

O álbum passeia sobretudo por esta produção mais underground, reunindo tiras e HQs publicadas em revistas e fanzines como Cachalote (1994, editada por Laerte, Adão Iturrusgarai e Miriam Lust, que depois daria nomes ao álbum de Rafael Coutinho, filho de Laerte, com roteiro de Daniel Galera), Circo (1987), Geraldão (1988 e 89), Chiclete com banana (1988 e 89) e Piratas do Tietê (1991), além de uma inédita, realizada em 2000.

Para quem conhece (e acompanha) o trabalho de Laerte, algumas histórias soarão clássicas, como A volta dos palhaços mudos, Penas, Aquele cara e O míssil, na qual a colaboração de Toninho Mendes é creditada. As duas últimas, atualíssimas, dialogam com o estado policialesco do Brasil sob o golpe desde 2016.

Toninho Mendes não imaginava que a organização de Modelo vivo seria seu último grande trabalho, mas não poderia haver despedida em melhor estilo: “o melhor de” Laerte, uma artista ainda absolutamente necessária.

Dylan Dog terá três edições publicadas este ano no Brasil

A primeira, Retorno ao crepúsculo, já está nas bancas

Retorno ao crepúsculo. Capa. Reprodução
Retorno ao crepúsculo. Capa. Reprodução

Os 30 anos da primeira publicação de Dylan Dog passaram em brancas nuvens no Brasil em 2016. A novata editora Lorentz busca agora corrigir o erro e promete três histórias do “investigador do pesadelo” para este ano. A primeira, Retorno ao crepúsculo, publicada originalmente na Itália em junho de 1991 (no número 57 da hq), já está nas bancas.

O roteiro é de Tiziano Sclavi, criador do personagem, e arte de Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani, e a história se passa em Inverary, cidade localizada na Zona do Crepúsculo, um lugar em que ninguém envelhece ou morre, onde todos os dias são absolutamente iguais.

Dylan Dog deixou de ser publicado no Brasil em 2006, como lembra Júlio Schneider no posfácio – ele que também traduz esta hq, que mistura terror e bom humor, seja nas piadas infames de Groucho, o assistente de Dylan Dog, que homenageia o xará Marx, seja no pânico de Edgar Allan Poe, que também se assombra com a Zona do Crepúsculo.

Se hoje Dylan Dog anda forçadamente esquecido, eis uma importante contribuição para mudar este quadro. O personagem chegou a protagonizar a fumetti – como são chamadas as revistas em quadrinhos na Itália – mais vendida na terra de Umberto Eco, intelectual falecido ano passado, que chegou a declarar: “posso ler a Bíblia, Homero e Dylan Dog por dias e dias”. Não à toa ele próprio virou personagem em uma hq do detetive cujo charme reside também em dirigir um modesto fusca.

Graphic novel mergulha na vida e obra de Carolina Maria de Jesus

Carolina. Capa. Reprodução
Carolina. Capa. Reprodução

 

O professor de literatura Ivan Cavalcanti Proença causou polêmica ao ecoar recentemente racismo, machismo e classicismo acadêmico em um evento em homenagem a escritora mineira Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo: diário de uma favelada. Para ele, a principal obra da ex-favelada e ex-catadora não é literatura – o livro está na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da Unicamp. O professor foi rebatido pelos poetas Ramon Mello e Elisa Lucinda, que saíram em defesa da escritora e de seu legado, já reconhecido por nomes como Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector – que esteve na noite de autógrafos de seu livro de estreia, em 1960.

“A menina Bitita, mineira de Sacramento, arrombou a porta estreita e branca da elitista literatura brasileira ao tornar-se Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora de Quarto de despejo: diário de uma favelada. O livro, quando lançado em agosto de 1960 em sucessivas edições, alcançou a marca de 100 mil exemplares vendidos em poucos meses, superando em vendas naquele ano, Gabriela cravo e canela, de Jorge Amado, e foi publicado em 40 países e 14 línguas”. Assim a professora Sirlene Barbosa inicia o artigo que serve de posfácio a Carolina [Veneta, 2016, 128 p.; R$ 39,90], graphic novel biográfica da escritora, com pesquisa e argumento dela e roteiro e desenhos de João Pinheiro.

Ele já havia dedicado graphic novels a biografias de escritores antes: Kerouac [Devir, 2011] e Burroughs [2015, Veneta]. Uma característica de seu trabalho é seu traço versátil adaptar-se às realidades de seus personagens reais: o preto e branco de Carolina parece imitar carvão ao dar o tom certo à miséria humana vivida pela escritora e seus vizinhos de favela do Canindé – onde hoje está localizado o estádio da Portuguesa de Desportos.

Carolina Maria de Jesus foi personagem complexa e por vezes contraditória. Enfrentou preconceitos os mais diversos: por ser negra, pobre, mulher. Aliás, passados 40 anos de sua morte, continua enfrentando, como demonstra o episódio envolvendo o professor. Sirlene Barbosa e João Pinheiro mergulham profundamente na tragédia humana que lhe cerca, mostrando a realidade nua e crua e por vezes cruel. Muitas vezes a escritora foi vítima de preconceito entre seus iguais, isto é, os vizinhos de barracos no Canindé.

A narrativa de Carolina é bastante apoiada em Quarto de despejo: diário de uma favelada, que teve a primeira edição publicada por iniciativa do jornalista Audálio Dantas, que descobriu a escritora meio que por acaso ao cobrir uma pauta para a então Folha da Noite: Carolina ameaçava tornar seus vizinhos personagens do livro que estava escrevendo, reagindo à antipatia deles, para quem ela não passava de uma pobre solteirona metida e fedorenta – às vezes faltava dinheiro para comprar sabão e não foram poucas as vezes em que passou fome junto com os filhos.

“Não são ratos, não são abutres…”, “… são gente”, dizem os quadrinhos a certa altura, apresentando a paisagem violenta por todos os ângulos: desagregação familiar, violência contra a mulher, abuso de álcool e a disputa entre humanos e animais por comida, evocando o poema O bicho (1947), de Manuel Bandeira: “Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio/ catando comida entre os detritos/ (…)/ o bicho, meu Deus, era um homem”.

Carolina passeia pela vida e obra da escritora que lhe batiza, certamente ajudando a jogar luzes sobre aquela e angariar novos leitores para esta, que segue sendo apontada como influência: Quarto de despejo: diário de uma favelada foi o primeiro livro lido pela também escritora, negra e mineira Conceição Evaristo, que estará na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) este ano e atualmente é tema de uma Ocupação no Itaú Cultural.

Inusitado e emocionante

Graphic novel de estreia de Fabien Toulmé traz abordagem sui generis da síndrome de down a partir da experiência real do autor

Não era você que eu esperava. Capa. Reprodução
Não era você que eu esperava. Capa. Reprodução

Não era você que eu esperava [Ce n’est pas toi que j’attendais. Tradução de Fernando Scheibe. Nemo, 2017, 254 p.; R$ 44,90], de Fabien Toulmé, é a mais emocionante graphic novel que leio em muito tempo. O traço aparentemente simples dá conta de repassar, com riqueza de detalhes, a história verídica do desenhista e os dramas em torno de uma filha com síndrome de down.

A história acompanha a vida aventureira do francês Toulmé e sua esposa brasileira Patrícia, com a filha Louise, da gravidez aos três primeiros anos de sua segunda filha, Julia, e aborda a situação com um delicioso misto de bom humor e crueldade (desde o título) – humano, demasiadamente humano.

Toulmé morou no Brasil, onde iniciou o pré-natal de Julia. Chega a criticar o sistema brasileiro de saúde pública no auge de sua revolta com “o que o destino lhe reservou” – o que ele só descobriria após o parto, apesar de todos os exames e o excessivo zelo ao longo da gestação.

Não era você que eu esperava é bastante didático sobre a síndrome de down, com este aprendizado incorporado à trama, no que Toulmé é bastante hábil: o que aprendemos é pelo relato das buscas dele por mais informações após o diagnóstico da condição de sua filha. Duas lições básicas, de cara: quem quer tranquilidade não visita fóruns de internet sobre estes temas (ou quaisquer outros); e não adianta se preocupar muito com o futuro: de um jeito ou de outro, ele virá.

De alguém completamente inábil em lidar com pessoas com deficiência – o álbum abre com uma cena de bullying – a alguém que passa a se revoltar com piadas envolvendo o tema, Toulmé aborda esta sua formação sem hipocrisia, numa estreia monumental.

Autobiografia do criador

Incrível, fantástico, inacreditável. Capa. Reprodução
Incrível, fantástico, inacreditável. Capa. Reprodução

 

A ideia é ao mesmo tempo tão extraordinária quanto óbvia: uma biografia de Stan Lee em quadrinhos. Escrita pelo próprio, com Peter David e Colleen Doran. Trata-se de Incrível, fantástico, inacreditável: a biografia em quadrinhos do gênio que criou os super-heróis da Marvel [Amazing, fantastic, incredible: a marvelous memoir; tradução: Maurício Muniz; Novo Século Editora, 2016, R$ 59,90].

É o próprio Stan Lee, tornado personagem, quem narra seus feitos, sem medo de soar imodesto. Pelo contrário: não teme afirmar ter sido fundamental para a revolução no universo não apenas dos quadrinhos, mas de toda a cultura pop do planeta no século passado.

Lembra a infância difícil, quando se manifesta o interesse precoce por literatura, alguns subempregos no começo da adolescência, a passagem pelo exército – já na condição de escritor – e a paixão avassaladora pela futura escritora Joan Lee, autora de O palácio do prazer, com quem está casado desde os 25 anos.

Suas aventuras pelo mundo das HQs começa com o convite para escrever um roteiro do Capitão América. Nunca mais a nona arte foi a mesma. Tanto que, anos depois, a concorrente DC Comics convidaria Stan Lee para re/fazer seus personagens a seu modo.

O começo não foi fácil: comumente visto como arte menos importante, autoridades americanas, à época, relacionavam histórias em quadrinhos ao uso de drogas e durante algum tempo certo bom mocismo acabou por censurar muitas histórias. Quem ousou peitar as autoridades foi justamente Stan Lee, que após a encomenda de uma agência do próprio governo americano, não achou justo deixar de publicar uma série de histórias que versava justamente contra o uso de drogas.

Incrível, fantástico, inacreditável é uma verdadeira declaração de amor a super-heróis como o Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, O Incrível Hulk, Thor, O Homem-Formiga e sua companheira Vespa, O Homem de Ferro, Conan, o Bárbaro, O Justiceiro e os X-Men, entre outros que, de tão populares, são por demais conhecidos até mesmo por quem não se interessa por quadrinhos, além de nomes importantes para o desenvolvimento e/ou consolidação de vários destes personagens, como John Romita, Steve Ditko e, entre outros, Larry Lieber, classificado pelo próprio Lee como “um dos heróis desconhecidos dos quadrinhos. Um incrível escritor, criador de layouts, desenhista. Ele faz seu trabalho de maneira linda e eficiente. Em sua carreira, ele escreveu e desenhou quase todo tipo de quadrinho com louvor. Pra ser justo, acho que às vezes eu tinha que fazer força pra não favorecê-lo frente a outros profissionais por ser meu irmão”.

A biografia vai tão a fundo que resgata episódio pouco conhecido: o beatle Paul McCartney procurou Stan Lee para que fosse produzido um gibi sobre o lançamento de Seaside woman, canção de sua banda Wings, cantada por sua esposa, Linda McCartney, sob o pseudônimo de Suzy and The Red Stripes, apelido de Linda na Jamaica, graças a uma versão reggae de Suzie Q e Red Stripe a cerveja mais popular da terra de Bob Marley. Linda faleceu antes de o projeto se concretizar. Em 1977 Stan Lee lançaria um gibi protagonizado pelo Kiss.

Imodéstia e bom humor caminham em paralelo nesta obra fundamental também para a compreensão da indústria em torno destes seres dotados de superpoderes. Quando lembra de uma máquina de escrever quebrada em meio a uma briga qualquer com a esposa, da qual sobraram peças para todo lado, arremata: “foi antes de existir o Ebay. Pena. Eu poderia ter leiloado as partes por muito dinheiro”.

Cifras monumentais giram em torno de Stan Lee, que lembra que, após uma longa batalha judicial, o Homem-Aranha dirigido por Sam Raimi no cinema, em 2002, foi orçado em 139 milhões de dólares, tendo rendido mais de 800 milhões no mundo inteiro – há uma cena do filme em que ele aparece, puxando uma menina para longe dos destroços de um prédio. Desde 1989 ele fez mais de 20 aparições em filmes baseados em personagens que criou ou ajudou a criar.

Conduzida como se fosse uma palestra em que remonta sua vida e obra – e Stan Lee já deu várias voltas ao mundo fazendo isso –, ele deixa ainda preciosos conselhos para quem quiser se aventurar (literalmente) por este universo. Os adjetivos do título ainda são poucos para classificar esta HQ que já nasce antológica.

Uma obra-prima

Frida Kahlo: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?. Capa. Reprodução
Frida Kahlo: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?. Capa. Reprodução

 

É uma verdadeira obra de arte a graphic novel Frida Kahlo: para que preciso de pés quando tenho asas para voar? [Frida Kahlo: pourquoi voudrais-je des pieds puisque j’ai des ailes pour voler?, tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2016, 128 p.; veja as páginas iniciais], de Jean-Luc Cornette (texto) e Flore Balthazar (desenho e cores).

A HQ biográfica acompanha Frida, seu marido Diego Rivera, então um muralista mais conhecido que ela, e Leon Trotsky, de quando o casal recebe no México o intelectual marxista forçado ao exílio até sua morte, menos de quatro anos depois.

A rima é pobre, mas Frida sempre usou suas cores para superar suas dores, e uma palavra-chave deste álbum – como de resto em qualquer relato biográfico acerca da pintora – é traição, no amor, na amizade e na política.

Mulher livre, Frida viveu um polígono amoroso que é aqui exposto sem escamoteação, tampouco sem tirar a atenção para aquilo que verdadeiramente importa: sua obra, sua força, sua atualidade.

Num contexto de criação da Quarta Internacional, da perseguição a Trotsky pelo NKVD (o Comissariado do Povo para Assuntos Internos, na sigla em russo, espécie de Ministério do Interior) e de discussões acerca do rótulo de surrealista que André Breton quis impor à protagonista, o enredo de Frida Kahlo é urdido com bom humor.

Um glossário de perfis, por Jean-Luc Cornette, acompanha a trajetória dos personagens após 1940, ano da morte de Trotsky. Também ao fim do volume, as referências apontam, entre livros, filmes, reportagens, museus, exposições e murais de Diego Rivera, obras “que foram essenciais para nós e nos permitiram realizar esta graphic novel com o maior rigor possível”, no dizer dos autores.

A quem conhece minimamente a biografia de Frida, ao menos a partir do filme homônimo [2002], de Julie Taymor, baseado em Frida: a biografia [Globo, 2011], de Hayden Herrera, esta HQ não acrescentará novidades. Mas merece ser contemplada como obra-prima que é. Aposto que Frida aprovaria a bela homenagem.

(How) wouldn’t it be nice?

Vingadora da Costa Oeste. Capa. Reprodução
Vingadora da Costa Oeste. Capa. Reprodução

Kate Bishop, a Gaviã Arqueira, é tão atrapalhada que às vezes não parece uma super-heroína, mas uma humana comum. Vingadora da Costa Oeste, o gibi da Panini Comics [2016, 122 p., R$ 28,90], reúne as edições 14, 16, 18 e 20 de Hawkeye, nome original da personagem criada por Allan Heinberg e Jim Cheung, e Hawkeye Annual 1, escritas por Matt Fraction e ilustradas por Annie Wu e Javier Pulido.

Após discutir com Clint Barton, o Gavião Arqueiro, ela ruma para Los Angeles, acompanhada do cachorro, numa aventura que inclui procura de emprego, roubo de orquídea, bico de detetive particular, encontros ocasionais em supermercado, o convívio com um casal de homossexuais (que têm a ver com a flor roubada) e uma flecha USB.

Pode parecer anacrônico, hoje, uma super-heroína usar arco e flecha, e uma curiosidade interessante é que Bishop (sobrenome de poeta), nascida em berço de ouro, toca violoncelo. A conexão com a música não para aí: nesta aventura, a protagonista ajuda um gênio da música pop dos anos 1960, numa bela homenagem a Brian Wilson, líder dos Beach Boys.

Há muito mais, mas só por esta inusitada aparição o gibi já valeria a pena.