A orfandade dos pivetes, dos alcoólatras e dos amigos

Da esquerda para a direita, o blogueiro, o poeta e jornalista Cunha Santos, o poeta-músico ZéMaria Medeiros e o jornalista Gutemberg Bogéa a caminho de Carolina, circa 2004. Foto: acervo ZR

Filho de Durval Cunha Santos e Josefina Medeiros, Jonaval Medeiros da Cunha Santos nasceu em Codó/MA, em 10 de novembro de 1952 e faleceu hoje (20), vitimado por insuficiência respiratória em decorrência de um edema pulmonar, em São Luís, cidade que adotou e por que foi adotado desde antes de seu primeiro aniversário. Era irmão da cantora Didã.

Jornalista, entre poemas e contos publicou livros sob os pseudônimos Cunha Santos Filho e J. M. Cunha Santos: “Meu calendário em pedaços” (1978), “A madrugada dos alcoólatras” (s/d), “Pesadelo” (1993), “Paquito, o anjo doido” (s/d) e “Vozes do hospício” (2008), para citar alguns.

Neste último, dedicou-me o soneto “Motel”, um dos poucos poemas que sei dizer de cabeça, originalmente publicado n“A madrugada dos alcoólatras”, que recitei em muitas noites, em sua companhia ou fazendo sua fama ir além de sua presença: “O mênstruo da aurora em tom vermelho/ repete-me abatido na vidraça/ minha imagem em dó, ré, mi, coalha no espelho/ o sol, lavando o rosto, vê e passa/ É a manhã, rebento do meu sono, afoito/ me mudo para a lâmpada que acesa/ crava minha sombra sobre a mesa/ caneta e eu, poema, eterno coito/ Saudades dela em mim como estrias/ na pele – e como é duro removê-las/ devassos, nós dormimos quando é dia/ porque às noites, como cães lassos de orgia,/ se ela faz suruba com as estrelas/ eu vivo em coito anal com a poesia”.

Dividi muitas mesas e noites com Cunha Santos e pouparei os poucos mas fiéis leitores de histórias que poderiam soar apologia ao alcoolismo. Ele tinha consciência de sua condição e afirmava na terceira capa de “A madrugada dos alcoólatras” que o livro “não tem outra pretensão que não a de tentar descrever, através da poesia, pelo menos uma parte do sofrimento de que são acometidos todos eles”.

Recordo com especial carinho uma noite de sexta-feira que pariu o sábado em que amanhecemos tomando café numa padaria na Rua de São Pantaleão, próximo de onde ele então morava, e dali, com a mesma roupa de ontem, seguimos para assistir uma palestra do brilhante Agostinho Ramalho Marques Neto, que fora seu professor no curso (não concluído) de Direito, na Universidade Federal do Maranhão.

Na orelha de “Odisseia dos pivetes”, o jornalista e ex-deputado Luiz Pedro, falecido em junho passado, escreveu: “Cunha é um dos Santos de minha devoção”. Não exagerava. Além de poeta, foi um dos maiores cronistas políticos que o Maranhão conheceu.

Figura extremamente humana, era capaz de passar a noite distribuindo esmolas a quantos pedintes encostassem na mesa, deixando a conta na pendura – o fiado nas quitandas e bares ou a cumplicidade dos “colegas de copo e de cruz” invariavelmente garantiam-lhe a solidariedade.

Era um homem de esquerda, o que ninguém podia negar, combativo com a arma que tinha: a palavra. Se para muitos poetas e jornalistas o espectro ideológico deve ser omitido em nome de uma inalcançável, portanto falsa, imparcialidade, Cunha Santos nunca deixou de dizer de que lado estava, fosse escrevendo poemas em livros, fosse escrevendo textos em jornais. Combateu com igual fervor, entre a juventude e a melhor idade, a ditadura militar de 1964 e o governo genocida de Jair Bolsonaro – no que também irmanamo-nos: se uma CPI tem medo de dar às coisas o nome que as coisas têm, nós não.

Ia às lágrimas com facilidade, fosse por um poema, uma música, a situação do país, “comovido como o diabo”, como cravou outro poeta de sua predileção, exatamente como o personagem que dá título a um de seus poemas mais conhecidos, “As lágrimas de Seu Nelson”: Seu Nelson chorava todas as manhãs/ não porque estivesse velho ou triste/ não porque lhe deprimisse estar no mundo/ Seu Nelson chorava todas as tardes/ não porque sentisse dor ou soubesse de saudades/ não porque lhe deprimisse não ter muito aonde ir/ Seu Nelson chorava todas as noites/ não porque fosse criança ou tivesse medo do escuro/ não porque lhe restasse na vida um único e antigo amor/ Seu Nelson chorava todas as manhãs/ porque tinha certeza de que jamais/ haveria outra manhã igual àquela/ Seu Nelson chorava todas as tardes/ porque cedo ou tarde todas as tardes acabam/ Seu Nelson chorava todas as noites/ porque sabia que as estrelas/ se repetiriam em outras noites,/ naquela noite nunca mais/ e que sua madrugada só duraria/ até a hora de chorar mais uma vez”.

Talvez Seu Nelson e todos nós choremos por sabermos, agora, que nunca mais Cunha Santos escreverá outro poema, outra crônica. Resta a nós a saudade e relê-lo.

Live celebra 15 anos de “Paisagem feita de tempo”

[release]

Paisagem feita de tempo. Capa. Reprodução

Com a presença de poetas, acadêmicos e jornalistas, evento online celebra os 15 anos do livro de estreia de Joãozinho Ribeiro

Este ano o livro “Paisagem Feita de Tempo”, do poeta maranhense Joãozinho Ribeiro, completa 15 anos de lançamento, realizado em abril de 2006. A primeira edição do livro está completamente esgotada e atualmente o autor está buscando meios de viabilizar uma nova edição.

Objeto de vários estudos acadêmicos, com destaque para os da professora pós-doutora em Teoria Literária Silvana Pantoja (UEMA/UESPI) e do professor doutor Valmir de Souza (USP), a obra poética, com características autobiográficas, é uma verdadeira declaração de afetos pela cidade de São Luís, Patrimônio Cultural da Humanidade, e pelos seus habitantes.

Embora mais conhecido como compositor, Joãozinho Ribeiro tem também uma obra poética consistente, inédita em livro – a citar “Paisagem feita de tempo”, e outras que ainda anseiam por merecidas publicações. Uma curiosidade é que vários trechos da obra viraram música, casos de “Amália”, que homenageia sua mãe, “Rua Grande” (parceria com Zezé Alves), “Anonimato” (musicada por Chico César), em homenagem a seu pai, e o clássico “Milhões de uns”, gravada por Célia Maria.

No próximo dia 24 de setembro, às 19h, será realizada uma live para celebrar a efeméride, com as presenças dos professores Silvana Pantoja e Valmir de Souza; dos premiados poetas Celso Borges (que escreveu a orelha da edição original) e Hamilton Faria (que assinou o prefácio), do jornalista Zema Ribeiro, além do autor Joãozinho Ribeiro.

A transmissão acontecerá pelo canal da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) no youtube.

Divulgação

Serviço

O quê: live Tempo e paisagens: 15 anos de “Paisagem feita de tempo”
Quem: o poeta Joãozinho Ribeiro e convidados
Quando: dia 24 de setembro (sexta-feira), às 19h
Onde: canal da SMDH no youtube
Quanto: grátis

Subversão, um balanço

No mês que hoje finda fui escalado pela direção da Rádio Timbira AM para substituir o jornalista e historiador Marcus Saldanha no semanal História em debate, apresentado por ele aos sábados, às 10h.

Acompanho com entusiasmo a trajetória do colega na emissora desde pelo menos o Timbira Debate, que ele conduzia diariamente pelas manhãs, noutra época – certa vez cheguei a ser o entrevistado do programa, então na condição de presidente da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), já se vão alguns anos.

Disse e repeti, à direção da emissora, ao próprio Marcus Saldanha, e várias no ar, durante o desenrolar de meu papel, ao longo dos últimos cinco sábados: “difícil e honrosa missão” a de substituí-lo. Sou jornalista como ele, mas não sou historiador; e isto, para o História em debate, faz toda diferença.

Quem não tem cão caça como gato, diz o dito popular. Era preciso subverter, não a história, como querem alguns, não a verdade, como querem os mesmos. Desafio posto, eu precisava encarar (acabei, por tabela, assumindo também a vaga da Rádio Timbira AM na bancada do Giro Nordeste, às quintas-feiras). O jeito foi nadar em minha praia.

Tentei trazer, para o História em debate, ao longo do mês, a experiência acumulada em cinco anos de Balaio Cultural, com Gisa Franco, e o aproximadamente ano e meio que fizemos, eu e Suzana Santos, o Radioletra, um extinto programete semanal de 15 minutos em que basicamente entrevistávamos escritores/as.

O programa poderia ter passado a se chamar, ao menos temporariamente, Literatura em debate: conversei com seis escritores nos cinco programas, li mais de 800 páginas (dos livros mais recentes dos autores) para produzi-los, e costurei, a partir de suas obras, uma conversa que tentava perpassar a história do Brasil (e do mundo), entre temas como a ditadura militar brasileira, o governo neofascista de extrema-direita (não sei sinceramente se isto é uma redundância) de Jair Bolsonaro e sua política continuada de destruição e lesa-humanidade, o holocausto da Alemanha nazista, a pandemia de covid-19, assunto inevitável etc.

Passaram pelo História em debate, nos últimos cinco sábados, o escritor mato-grossense Joca Reiners Terron, que lançara recentemente a distopia “O riso dos ratos” (Todavia, 2021); o jornalista e escritor cearense Xico Sá, um dos textos mais elegantes do jornalismo brasileiro, o homem que encontrou no exterior PC Farias, o foragido tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor; Gustavo Pacheco e André Nigri, que organizaram o belo volume “O conto não existe” (Cepe, 2021), reunindo entrevistas e ensaios de Sérgio Sant’Anna (1941-2020); a jornalista e escritora portuguesa Isabel Lucas, que lança semana que vem (3 de agosto) “Viagem ao país do futuro” (Cepe, 2021), um exercício ousado de tentar entender o Brasil através de sua literatura; ela passa uma temporada no Brasil, percorrendo paisagens e vidas de personagens dos lugares em que se passam livros de Euclides da Cunha, Machado de Assis, Miró da Muribeca e Dalton Trevisan, entre outros; e hoje (31), fechando, com chave de ouro, a paulista Noemi Jaffe, filha de imigrantes sobreviventes dos campos de concentração da Alemanha nazista, cujo livro mais recente, “Lili – novela de um luto” (Companhia das Letras, 2021), é uma declaração de amor à sua mãe, falecida ano passado.

Foram conversas inspiradoras e de muito aprendizado. A quem acompanhou ou deseja rever/reouvir as conversas, deixo a seguir os vídeos, agradecendo a confiança dos que me delegaram a missão e o carinho da audiência. A trabalheira intensa vale muito a pena por vocês. Com o fim do mês acabam as férias de Marcus Saldanha e, com o titular absoluto de volta ao gramado, o reserva recolhe-se ao banco, de onde seguirá espectador atento e colaborador eventual.

As Independências do Brasil

Toque de avançar – Destino: Independência. Capa. Reprodução

Às vésperas dos 200 anos da proclamação da independência do Brasil, o jornalista e escritor Flávio Paiva publica “Toque de avançar – Destino: Independência” [Armazém da Cultura, 2020, 120 p.], em.que remonta a história brasileira se valendo, aqui e ali, das tintas da ficção. 

Paiva parte do acontecimento histórico para investigar a origem do lugar onde nasceu, em 1959: o município de Independência, no Ceará.

Numa prosa que transforma referências bibliográficas, frutos de extensa pesquisa do autor, em relatos soprados à sombra de oiticicas. As aventuras têm o som do pife como trilha sonora – a parceria de Paiva com o compositor paulista Edvaldo Santana, filhos de nordestinos, na faixa homônima, trilha do livro, está disponível para audição nas plataformas de streaming.

Paiva transforma-se num herói sem nome, que, munido de seu instrumento musical, curiosidade e bravura, narra e participa dos feitos que levaram a adesões tardias à independência na região – além do Ceará, a história se passa também no Piauí e Maranhão.

As ilustrações de Válber Benevides, em acrílica aquarelada e nanquim sobre tela, são um espetáculo à parte, nesta obra multimídia em essência, que revela que a independência do Brasil foi um processo para além do grito de Dom Pedro às margens do Ipiranga, imortalizado no famoso quadro de Pedro Américo, fartamente reproduzido em livros escolares.

“Meu caso de biógrafo da família”

O último pau de arara. Capa. Reprodução

“O último pau de arara” [Grafatório, 2020, 172 p.; R$ 79,90], novo livro de Jotabê Medeiros, bem poderia ser um roteiro dos irmãos Coen e, se digo isto, não é pela inevitabilidade do clichê, mas pela habilidade do próprio autor em jogar com seu ofício – o universo da cultura pop sempre foi seu ganha-pão – ao contar a história de alguém que, embora o respeitasse, nunca ligou muito para isso, tratava quadrinhos com desprezo e nunca foi ao cinema.

O livro é um misto de biografia de João Francisco de Medeiros, seu pai, autobiografia, autoficção e ensaio sociológico sobre migrações internas, muito mais comuns no Brasil de outrora, mas ainda presentes, sobretudo no recrutamento de trabalhadores em situações análogas à escravidão. Há alguma doçura na forma como são narrados certos episódios de violência, e não são poucas as cenas de fúria incontida de seu pai, jamais soando condescendente. “Essa é uma obra de fricção. Espremida entre a memória e a vontade de contar”, diz em boutade, em que anuncia também um escancarar de intimidades, também nunca soando vulgar.

Aos três anos de idade, em 1965, o 11º filho do “Paraíba”, o primeiro homem entre 15 filhos, viajou de Sumé até a nascente Cianorte, no Paraná, em um caminhão de sal. Dessa viagem clandestina vem o título do livro, emulando o sucesso de Fagner, de autoria de José Cândido, Venâncio e Corumba.

A partir de remontar fragmentos da trajetória de seu próprio pai, Jotabê Medeiros remonta a trajetória de sua enorme família – e a sua: o paraibano do interior que se muda muito cedo para o Paraná, em busca de melhores condições de vida, forma-se em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina e depois se muda para São Paulo, onde viria a se tornar um dos maiores jornalistas culturais do país – isto não é ele quem diz no livro, sou eu quem digo novamente, aqui e agora –, autor das festejadas e honestas biografias de Belchior (2017) e Raul Seixas (2019).

O jornalista é hábil em contar uma história que nos prende a atenção, mesmo em não se tratando de um protagonista de vida pública – o autor não nos poupa mesmo de suas dúvidas durante o processo de feitura do livro: seria seu próprio pai um personagem biografável? Embora aqui e acolá falemos dele no passado, como o faz também o autor, João Francisco de Medeiros está vivo – sofreu um AVC e teve uma perna amputada nos últimos anos – e completará 103 no próximo abril.

Baseado na própria memória, em conversas com familiares, viagens e rara documentação, Jotabê Medeiros não se deixa vencer pelas lacunas, urdindo texto delicioso, como é de seu feitio, histórias que se entrecruzam, como os constantes escambos que seu pai acabou tornando meio de vida. Em meio a tudo isso há um belo tributo ao irmão apelidado Jack, batizado em homenagem a Jackson do Pandeiro, ídolo de sua mãe – a ele o autor dedicou “Belchior: Apenas um rapaz latino-americano”: o irmão faleceu justo na semana em que o biógrafo viajaria a Santa Cruz do Sul, nos rastros do biografado então desaparecido. Com a mudança de planos e a ida ao velório do irmão, Belchior faleceu em sequência e aquela biografia foi finalizada com o relato de seu velório, entre a Sobral natal e Fortaleza.

A realçar a delicadeza e elegância do texto de Jotabê Medeiros, o estonteante projeto gráfico da Grafatório – marca da pequena casa editorial de Londrina/PR –, com xilogravuras de Luiz Matuto. A tiragem limitadíssima de 750 exemplares foi possível graças a um financiamento coletivo. Os que contribuíram já recebemos um pdf por e-mail, no que adiantei a leitura, na certeza de que relerei tão logo me chegue às mãos o exemplar impresso – a pindaíba, a pandemia e o capricho editorial acabaram atrasando um pouco as coisas, mas de mais longe já viemos, como quem desce de Sumé à Cianorte num caminhão de sal.

Leia um trecho de “O último pau de arara”.

Vale mais do que pesa

Meu nome é ébano – A vida e a obra de Luiz Melodia. Capa. Reprodução

Nada há de surpreendente ou revelador, ou novidade qualquer desconhecida do fã médio de Luiz Melodia em Meu nome é ébano – A vida e a obra de Luiz Melodia (Tordesilhas, 2020, 301 p.; R$ 55,00), biografia escrita pelo jornalista Toninho Vaz, autor das biografias também insossas de Paulo Leminski (2001) e Torquato Neto (2005) – enormes e complexos personagens que poderiam redundar em livros idem, mas ficam a meio caminho.

A narrativa é linear, para não dizer preguiçosa, começando com a construção da casa da família no morro de São Carlos pelo pai de Luiz, Oswaldo Melodia, de quem ele viria a herdar o sobrenome artístico – embora nunca tenha encarado uma carreira profissionalmente, Oswaldo era compositor, autor, por exemplo, do choro Maura, gravado por Luiz –, e termina com a morte, em 2017, aos 66 anos, em decorrência de complicações de um câncer na medula.

Em meio a tudo isso, histórias conhecidas por todos: alçado ao estrelato pela gravação de Pérola negra por Gal Costa, em 1971, antes mesmo de seu disco de estreia (1973) – fundamental em qualquer coleção de MPB que se preze –, que acabaria batizado por aquela música; a descida do morro de São Carlos, no bairro do Estácio, para o asfalto; a reconhecida elegância de filho de costureira interessado por moda; a insubordinação aos ditames da indústria fonográfica – “como pode um negro que não canta (apenas) samba?”, perguntavam-se os tecnocratas do setor, à época –, o que acabou lhe valendo a pecha de “maldito” da MPB, ao lado de nomes como Jards Macalé, Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção, cuja relação com Melodia é pobremente relatada na obra, apesar de o primeiro assinar o texto da quarta capa.

Vaz relembra, por exemplo, que Macalé compôs Negra melodia em homenagem ao amigo, mas sequer cita a participação de Luiz Melodia em Doce melodia, homenagem de Sérgio Sampaio a ele gravada por ambos em Sinceramente (1982), último disco lançado pelo capixaba em vida; ou Quem é cover de quem?, com que Itamar Assumpção homenageou-o no primeiro dos três volumes de Bicho de 7 cabeças (1993), em que era acompanhado pela banda exclusivamente feminina Orquídeas do Brasil. A música é uma brincadeira com a semelhança física e a fama de malditos de ambos. Citação da participação de Melodia em Vida cigana, do maranhense Adler São Luiz, nem em sonho.

Entre outros deslizes, imprecisões e incorreções, um apêndice com a discografia, ao fim do volume, opta por citar o intérprete (Luiz Melodia) em vez dos compositores registrados pelo biografado em seus álbuns, o que pode causar certa confusão na cabeça do leitor mais desavisado ou mesmo cooperar para a manutenção do quase anonimato de nomes como Getúlio Cortes (de quem Luiz Melodia regravou os “sucessos de Roberto Carlos” Negro gato e Quase fui lhe procurar), Zé Keti (Diz que fui por aí), Cartola (Tive sim) e Ismael Silva (Contrastes) ou mesmo de um mais conhecido Cazuza (Codinome Beija-flor). Lembrando que, dono de uma dicção completamente particular na história da música popular brasileira, Luiz Melodia apropriava-se de tal modo do que interpretava que parecia mesmo ser o compositor de tudo aquilo que cantava.

A cobertura da morte de Luiz Carlos dos Santos (7/1/1951-4/8/2017), nome de batismo de Luiz Melodia, pela imprensa também foi abordada por Vaz em sua biografia. Não comparece às páginas do livro o obituário escrito para o portal UOL pelo jornalista Jotabê Medeiros, um dos mais completos publicados à época – talvez por vaidade, para evitar citar a “concorrência”: Medeiros, sabemos, é autor das biografias de Belchior (2017) e Raul Seixas (2020), a cujas referências bibliográficas comparece o Solar da Fossa (2011) de Vaz.

O grande trunfo de Meu nome é ébano é o mergulho no conceito e produção da espaçada discografia de Luiz Melodia. Alguns capítulos são batizados por discos como Maravilhas contemporâneas (1976), Mico de circo (1978) e 14 quilates (1997) e descrevem bastidores de composições, gravações e lançamentos. Por sua indiscutível grandeza, Melodia merecia mais.

Cultura nordestina em pauta no Itaú Cultural

Clarice Lispector por Carlos Scliar. Reprodução
Clarice Lispector por Carlos Scliar. Reprodução

 

Um lado em geral menos conhecido da escritora Clarice Lispector (1920-1977) é o de pintora. André Bernardo, em texto publicado ontem, no site do Itaú Cultural, homenageando-a por seu centenário, relembra com elegância esta faceta da ucraniana radicada brasileira – ela costumava se declarar pernambucana – inaugurando a Semana da Cultura Nordestina: as publicações seguem de ontem até a próxima sexta-feira (7).

O texto de Bernardo relembra o episódio em que a escritora Nélida Piñon arrematou, por 220 mil reais, um quadro de Clarice num leilão em 2019. Trecho do texto: ““Quando eu soube que um quadro de Clarice iria a leilão, fique chateada: ‘Meu Deus, minha amada amiga em uma casa estranha? Uma casa que ela não conhece nem nunca frequentou? Não posso deixar isso acontecer’. E, realmente, não deixei”, orgulha-se a escritora. “Eu só não imaginava que o quadro fosse chegar ao valor que chegou. Foi uma coisa espantosa. Até hoje, não sei onde eu estava com a cabeça”, acha graça. “Pensei que chegaria, no máximo, a uns 15 mil reais. Fui tomada por algo tão forte que, a cada novo lance, eu me limitava a repetir ao telefone: ‘Avance, avance, avance’. Os quadros de Clarice têm um valor sentimental extraordinário”, confessa Nélida, que conviveu com a escritora, todos os dias, por 18 anos, de 1959 a 1977, o ano de sua morte”.

A Semana da Cultura Nordestina relembrará ainda nomes como Alceu Valença, Chico Science, Elomar e Nelson Rodrigues, entre outros, além da artista visual recifense Bruna Valença e a fotógrafa maranhense Gê Viana, que abre uma nova seção no site da instituição, o Rumos da Fotografia no Brasil, com curadoria do jornalista Cassiano Viana.

O silêncio do boi e a voz do poeta

Boi. Capa. Reprodução
Boi. Capa. Reprodução

O jornalista e poeta Celso Borges é autor de pelo menos um clássico da música popular produzida no Maranhão, sobretudo no período junino. Muitos cantam e assobiam, mas poucos se ligam que ele é parceiro de Zeca Baleiro e do saudoso percussionista argentino Ramiro Musotto em A serpente (Outra lenda), de versos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”, gravada por Baleiro em seu álbum Pet shop mundo cão (2002).

Seus poemas-toadas, registrados nas páginas de seus livros, ou gravados por vozes como a de Cláudio Lima (Boi tarja preta, parceria com Alê Muniz, gravada em Rosa dos ventos, de 2017), vez por outra trazem ácidas críticas ao sistema político ou mesmo à degeneração de grupos de bumba meu boi, que veem a originalidade diluída, transformando-se em “boizinhos de butique” para “turistas de pacote”, conversa pra boi dormir pra inglês ver.

Se A serpente (Outra lenda) não figura na coletânea Boi (Editora Passagens, 2020, 56 p.; disponível para download gratuito no site da editora, bem como todos os títulos por ela editados) não faltam bons motivos para baixar o volume e lê-lo. A obra integra a coleção “Livrinho também é livro”, coordenada por ele e a editora Isis Rost, que já publicou os títulos Rua morta, de Luís Inácio Oliveira, e O declínio da narrativa, dela, todos em 2020, todos durante o período de isolamento social imposto pela pandemia de covid-19.

Em Boi, Celso Borges revê poemas e letras de música que têm o bumba meu boi como mote, escritos por ele ao longo dos últimos 25 anos, “tempos depois do compositor Giordano Mochel me dizer que o nosso coração pulsava no ritmo do boi. Eu já sentia isso naquela época, mas a certeza dessa verdade cresceu mais e mais nos anos seguintes”, anota o autor em “O silêncio do boi não é do boi”, à guisa de prefácio. Ele abre o texto: “Não ouvimos as toadas, matracas e zabumbas dos bois do Maranhão em 2020. Esta é a primeira vez na história, desde quando o boi se apresenta em quintais, terreiros, largos ou arraiais da cidade, que ouvimos apenas o silêncio ensurdecedor de nossa representação mítica mais potente. Este livrinho nasce dessa não voz, ou da poesia dessa voz na memória, ou do afeto que vislumbro a partir da falta do boi e suas zoadas essenciais”.

Com projeto gráfico e diagramação de Isis Rost, Boi é também uma coleção de representações do bumba meu boi, entre pinturas e fotografias, de nomes que vão de Pablo Picasso a Cícero Dias e Ribamar Rocha, passando pela xilogravura de J. Borges, entre outros. A capa apresenta o detalhe de uma pintura de Ciro Falcão sobre o São João do Maranhão.

[texto originalmente publicado no JP Turismo, Jornal Pequeno, de hoje (19)]

Dois contistas no bar após a pandemia

O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação
O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação

O escritor Sérgio Sant'Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução
O escritor Sérgio Sant’Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução

Sérgio passou em frente ao bar e notou a careca literalmente brilhante de Rubem, chope gelado recém-servido. Fazia calor e só com os olhares se convidaram e se permitiram a dividir a mesa. “Há tempos não vinha aqui. Não suporto bar com tevê. Mesmo se transmitem jogos. Se quero ver o Fluminense, vou ao Maracanã, mesas redondas, pra casa”, disse Sérgio, com intimidade que dispensava boa tarde e como vai. “Parei pela sede, calor. Também não gosto. Por isso não entrei”, respondeu Rubem. “Coisa que me tira do sério é essa turma que vem pra bar, teatro, show e não larga celular. A pandemia acabou, mas continuam levando o isolamento muito a sério. Ninguém mais conversa pra gente captar algo e escrever um novo conto”, continuou. “Piorou. Vivemos algo que nem nossas ficções foram capazes de criar”.

[Microconto que escrevi para concorrer a um edital do Itaú Cultural. Não ganhei. Como não sou de deixar nada na gaveta, publico aqui, aproveitando o ensejo para parabenizar os maranhenses Adriana Gama de Araújo, Celso Borges, Gustavo Marques da Silva Castro e Ícaro Novais, pela seleção no citado certame]

Artistas da rua

A Mórula Editorial disponibilizou gratuitamente o e-book “Aldir 70”

A medicina bate à porta

TENHO TANTA RAIVA DE TELEFONE que costumo atender com um rosnado.

— Blanc?

— Infelizmente.

— É o Baiano, meu nego. Mas se você vai escrever sobre isso, não esquece de registrar que meu nome é Wilson Flora, senão o pessoal lá na minha terra não acredita.

— Tá.

— Eu queria fazer uma rápida consulta médica, por telefone mesmo. É o seguinte:…

— Baiano, você sabe que eu detesto esse troço. Parei de clinicar na década de 70. Logo, o máximo que sou, hoje em dia, é uma espécie de palpiteiro com curso superior, que, no meu caso específico, foi bastante inferior.

— Mas é coisa simples. Andei bebendo demais e o médico me pediu tanto exame que eu comecei a passar mal só de ler a relação.

— Hum… Que tipo de exame?

— Glicídios, lipídios, adílios, otacílios…

— Você já bebeu hoje?

— Pra tomar coragem de ligar pra você. Eu tenho horror dessas conversas sobre doença.

— Eu também, Baiano. Parei por causa disso.

— Mas é diferente, Blanc. Você viveu durante anos essa dura realidade, eu diria mesmo heroica, nas condições em que se faz medicina em nosso país, e teve um papel preponderante, ainda que por pouco tempo…

— Higiênico.

— Hein?

— O papel. Você tá tentando me vender outro carro? Se essa conversa acabar com a descrição de um modelo 88 de caminhonete, uma joia, que apareceu na agência, em perfeito estado, um milagre etc., na próxima vez que a gente se encontrar, eu vou armado.

— Não, nada disso! Poxa, Blanc, até parece que eu, em minha honrada profissão, me comporto feito um escroto qualquer.

— Errou só por um pequeno detalhe: um escroto qualquer vende carro com um mínimo de consideração pela vítima. Você, não. Você é Medalha de Ouro em todas as modalidades de escrotidão, 4 x 100, com ou sem vara, em distância, em altura… Você apronta sacanagem até em jogo de peteca.

— Compreendo seu mau humor. O Vasco ainda não convenceu, o Edmundo é uma incógnita, e você…

— Isso não tem nada que ver com o Vasco.

— Tenho um favor pra te pedir. O cara que está monitorando meu quadro (gostou dessa?), quer… bem… sejamos diretos: um exame de próstata, e eu me recuso a permitir que um desconhecido me dede. Escolhi você.

— Quer que seja no Canecão, com show de mulatas, noite de autógrafos etc.?

— Só te peço que pense no meu caso com carinho. Bom, tenho que sair. Vou a uma dessas casas de instrumentos musicais.

— ???

— O médico disse que vou fazer uma verdadeira bateria de exames. Tô indo comprar um surdo e um apito. O laboratório que se exploda, mas minha bateria sem surdo e sem apito, nem pensar.

*

Aldir 70. Capa. Reprodução
Aldir 70. Capa. Reprodução

Crônica do imenso Aldir Blanc, que deixou o Brasil mais triste, sem graça e menos inteligente no último dia 4 de maio. A Mórula Editorial, que publicou cinco livros do compositor e cronista em 2016, por ocasião de seu aniversário de 70 anos, disponibilizou, gratuitamente, o e-book Aldir 70, reunindo algumas crônicas daqueles volumes. Acesse o site da editora para baixar.

Sérgio Sant’Anna (1941-2020)

O escritor Sérgio Sant'Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução
O escritor Sérgio Sant’Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução

 

Os últimos contos que Sérgio Sant’Anna (30/10/1941-10/5/2020) publicou em vida, Das memórias de uma trave de futebol em 1955, no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo em 26 de abril passado, e A dama de branco, em 1º. de maio, na revista Época, atestavam que o peso dos anos não lhe afetou a qualidade da obra. O par de contos podia figurar em qualquer de seus livros mais recentes, Anjo noturno: narrativas (2017), O conto zero e outras histórias (2016) e O homem-mulher (2014) todos publicados pela Companhia das Letras.

O escritor faleceu nesta madrugada, vítima do coronavírus. Era merecidamente considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade, com sua prosa elegante entre o conto e o romance, povoada de tipos urbanos, violência, sexo e em diálogo permanente com outras linguagens, como a música, as artes visuais e o cinema, arte a que teve adaptadas algumas de suas obras, com destaque para Um crime delicado (Companhia das Letras, 1997), que ganhou a tela grande pelas mãos do diretor Beto Brant em 2005.

O declínio do Rio de Janeiro (e do Brasil) também estava entre seus temas prediletos. Lembrava com solenidade os bares de paredes espelhadas que podiam se tornar o paraíso de quem queria flertar ou o inferno de um cônjuge eventualmente acusado de algo que sequer estava fazendo. Também as apostas no turfe, frequentado por homens elegantemente vestidos, como se, justamente, para figurar em sua prosa, além do futebol, sobretudo os jogos e treinos do Fluminense, seu time do coração, que nos legou obras-primas como Páginas sem glória (Companhia das Letras, 2012).

Quando descobri seu perfil no facebook, a princípio desconfiei, como daquele lendário perfil de João Gilberto entrevistado pela revista Trip – um dos livros mais festejados de Sant’Anna é justamente O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982). Perderia Sérgio Sant’Anna tempo em redes sociais, sempre burilando um próximo conto genial com que nos deleitaríamos quando do lançamento de uma próxima coletânea? Sim, e mesmo fora da página no livro, o capricho de sempre com as letras: escrever confundia-se com sua própria vida, entre o ganha-pão, a diversão e o descanso.

Era um ardoroso combatente do bolsonarismo e de toda a desumanidade impregnada e exalada pelo regime neofascista tupiniquim. Na rede social chegou a escrever que “o Brasil é um filme de terror”, entre suas manifestações diárias de preocupação com os rumos do país, desgovernado por gente que nunca leu uma linha escrita por ele e tampouco dirá qualquer coisa sobre seu falecimento, aos 78 anos, com um legado monumental.

Pela rede social também, anunciou a suspeita de ter contraído a covid-19, o que viria a se confirmar com sua internação. “Hoje pra mim foi barra, tive vários sintomas e achei que estava com o vírus. Mas meu clínico veio aqui e me receitou antibióticos. Estamos vivendo no fio da navalha”, manifestou-se em 28 de abril.

Atencioso, um pouco antes, me respondera um e-mail, negando um pedido de entrevista que lhe fiz. A ideia era que ele falasse ao Radioletra sobre o conto recém-publicado na Folha. “Agradeço o convite, mas estou com problemas de saúde e não posso aceitá-lo. Um abraço. Sérgio”, escreveu.

A morte era também uma das obsessões do escritor. Como lembra este parágrafo de “Lencinhos”, conto de O homem-mulher, um de meus prediletos, entre tantos: ““Vou contar uma coisa para vocês”, eu disse. “Às vezes imagino que renasço numa vida futura e encontro meu pai já falecido e outros amigos mortos e todos nos regozijamos, e é como se não houvesse passado tempo nenhum desta vida para a outra.””. No facebook escreveu, em 23 de abril: “A gente morre, mas se diverte”.

Mas sua obsessão mesmo era escrever e reinventar-se. Como revelou ao jornalista Alvaro Costa e Silva em um perfil publicado no jornal Cândido, publicação mensal da Biblioteca Pública do Paraná: “A cada nova obra, procuro fazer alguma coisa diferente. Do contrário, perderia a graça”. Ou como se manifestou pela rede social, também a 23 de abril: “Meus queridos e minhas queridas, não quero assustar ninguém, mas acho a peste que nos assola simplesmente aterrorizante. Não encontro outro modo de reagir se não escrevendo”.

A lenda Rubem Fonseca

O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação
O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação

 

Como todo escritor (ou artista, em geral) que escolheu viver em reclusão, Rubem Fonseca (Juiz de Fora/MG, 11/5/1925 – Rio de Janeiro/RJ, 15/4/2020) também angariou, ao longo de seus quase 95 anos de vida, certo folclore ao redor de sua vida particular – se é que figuras públicas as têm.

Um dos maiores nomes da literatura brasileira em todos os tempos, com seu estilo seco, cortante, lascivo, duro, violento e urbano, autor de uma vasta obra entre contos e romances, adaptada ao cinema (Bufo & Spallanzani, de 1986) e à televisão (Agosto, de 1990), Rubem Fonseca parecia predestinado ao ofício que tão bem cumpriu desde a estreia, com os contos de Os prisioneiros (1963).

Nascido em Juiz de Fora/MG, tornou-se carioca aos oito anos de idade. Sua formação em Direito e atuação como delegado de polícia civil certamente ajudaram a moldar ambientes e personagens de suas obras iniciais e, portanto, a pavimentar sua trajetória, de merecido destaque sobretudo na literatura policial.

Seu livro mais recente é Carne crua (2018) e sua literatura é por demais conhecida – venceu seis prêmios Jabuti, dois APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), um Camões e um Machado de Assis –: influenciou quase todo contista que surgiu depois.

Por livros mais recentes, a crítica costumava dizer que o autor estava se repetindo, imitando a si mesmo; mas mesmo em títulos menos inspirados, ainda era superior à grande parte de seus pares de ofício.

Abordá-lo pelo viés de sua obra talvez tornasse tudo mais fácil ou simples, embora trabalhoso, com sua galeria povoada por Mandrake, José, Morel e tantos outros personagens que marcaram seus leitores.

Fico com duas histórias, digamos, extraliterárias, protagonizadas por Rubem Fonseca – que reconto aqui ao sabor da memória que, obviamente, pode estar me traindo.

Em 1989, já escritor famoso, ele estava em Berlim, na data exata da derrubada do muro. O repórter de televisão que entrevistou o brasileiro que participava do momento histórico não o identificou e caiu no trote do escritor, que não se apesentou com tal e foi veiculado nos lares conterrâneos como um brasileiro comum – era conhecida sua aversão a entrevistas, fotografias e câmeras.

A segunda, mais recente, pareceu um troco da vida. Um repórter, disfarçado de estudante de letras, abordou-o a caminho da padaria, dizendo precisar de ajuda para um trabalho da faculdade. Afável, Rubem Fonseca não se fez de rogado, mas dias depois leria no jornal a entrevista que “havia concedido” num banco de praça. No texto, indagado sobre como queria morrer, não vacilou: “tomara que bem velhinho e abraçado a uma gostosa”.

Rubem Fonseca faleceu hoje (15), no Rio de Janeiro, vítima de uma parada cardíaca. Tinha 94 anos.

Bolsonaro ontem e hoje (ou: Bolsonaro sempre o mesmo)

O cadete e o capitão. A vida de Jair Bolsonaro no quartel. Capa. Reprodução
O cadete e o capitão. A vida de Jair Bolsonaro no quartel. Capa. Reprodução

 

A terra plana não gira, capota. A frase de efeito, apesar de soar meme, expressa bem um equivalente contemporâneo (e talvez por isso piadista) do marxista “A história se repete como tragédia ou como farsa”.

Transcrevo, a seguir, entre aspas, trecho de O cadete e o capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel [Todavia, 2019, 253 p.], de Luiz Maklouf Carvalho: “A sessão secreta foi suspensa pouco depois das quatro da tarde. Na volta, 45 minutos de intervalo depois, a primeira a falar foi a advogada de Jair Bolsonaro, Elizabeth Diniz Martins Souto, com escritório em Brasília. Embora, dezessete dias antes, ao apresentar sua defesa escrita, ele tenha alegado não ter advogado por “oneroso para minhas condições financeiras” e “desnecessário [para] comprovar-me juridicamente honrado”, algumas semanas antes, no dia 3 de maio, a dra. Elizabeth havia pedido vista do processo e comunicado ao ministro relator que desejava fazer a sustentação oral no dia do julgamento. Ali estava ela, portanto, no final da tarde de 16 de junho, com direito a 20 minutos de fala, aumentados depois para 32 minutos.

“”Este processo constitui uma aberração jurídica”, disse, referindo-se ao relatório do primeiro Conselho de Justificação. Apontou a falta “de um fato causador de ofensa à ética”, acusando o Conselho de decidir não com convicção na prova dos autos, “mas por uma convicção pessoal e parcial”. Seu segundo argumento, calcado no que já dissera Bolsonaro em sua defesa escrita, foi sobre a perícia grafotécnica realizada nos croquis. A dra. Elizabeth mencionou dois primeiros laudos inconclusivos emitidos pela Polícia do Exército, referindo-se em seguida ao da Polícia Federal, que apontou seu cliente como autor dos croquis, classificando-o como “um laudo realmente encomendado” – acusação que nem mesmo Bolsonaro tinha ousado fazer. Por fim, citou que o laudo da Polícia do Exército havia mudado o resultado do laudo anterior, anulando-o, sem dizer, porém, que era um laudo de complementação. Sublinhou que as palavras contidas nele eram as mesmas do laudo da Polícia Federal, voltando a insinuar que tivesse sido encomendado: “não mudaram nem a vírgula”” (p. 219-220).

Quem diria que mais de 30 anos depois fosse justamente uma prisão injusta, seguida por uma avalanche de fake news (expressão modernóide para eufemizar a má e velha mentira), que o catapultaria ao Palácio do Planalto, após 30 anos de inutilidade enquanto parlamentar, primeiro em meio mandato de vereador pela capital do Rio de Janeiro, depois por sucessivos mandatos de deputado federal pelo mesmo estado.

O livro de Maklouf é inspirada e vigorosa reportagem sobre o período pré-política partidária de Jair Bolsonaro. Repórter experimentado, o autor reconta, sem monotonia, o julgamento de que o hoje presidente de extrema-direita sofreu por indisciplina, primeiro ao assinar um artigo na revista Veja, em 1986, reclamando dos baixos salários de militares; depois, a revelação, pela mesma revista, de um plano (incluindo os citados croquis), orquestrado por Bolsonaro e seus pares, de explodir bombas em unidades militares no Rio de Janeiro, como forma de pressionar o governo Sarney.

Curioso é que, à época, Bolsonaro já tenha se valido das estratégias que utilizou para se eleger e usa para governar: primeiro diz uma coisa para depois desdizer e acusar o interlocutor de mentiroso, em atitude claramente fascista (acusar o outro daquilo que ele próprio é): assim, negou as acusações da repórter Cassia Maria, que, ameaçada de morte pelo então capitão, chegou a aceitar um convite e mudar de emprego.

Maklouf teve acesso aos autos do processo, bem como aos áudios da sessão de julgamento e conversou com fontes diversas, devidamente citadas no volume (Bolsonaro e cia. sequer responderam às reiteradas solicitações de entrevista). A partir do episódio, Bolsonaro pavimentou sua carreira política, ainda que sendo um parlamentar medíocre: conseguiu, um a um, infiltrar os três filhos mais velhos na política partidária e, 30 anos depois, chegaria à presidência da República, com Luiz Inácio Lula da Silva, seu mais robusto adversário e líder de intenções de voto em todos os cenários das pesquisas de opinião, retirado do jogo por obra de Sérgio Moro, que nas primeiras horas do governo Bolsonaro, se tornaria ministro da Justiça e Segurança Pública, comprovando o óbvio ao menos aos que ainda querem enxergar.

No livro de Maklouf, um dos superiores de Bolsonaro no exército, em relatório, chega a apontar a ganância e o desejo de realização financeira no então capitão, o que o teria levado a, em férias, ter ido conhecer um garimpo na Bahia, sonhando em bamburrar.

Eleito se valendo de um slogan bíblico que unia verdade e libertação e um discurso que se dizia contra a corrupção, o insubordinado Bolsonaro do passado guarda todas as semelhanças com o Bolsonaro de hoje. Seu comportamento público irresponsável acerca da pandemia mundial de coronavírus é demonstração inequívoca de que o militar da reserva se preocupa apenas consigo mesmo.

Seu apelido no quartel era “Cavalão”, o que também revela semelhanças entre o Bolsonaro de ontem e hoje: se naquela época por conta de seu desempenho em modalidades esportivas, hoje no trato com jornalistas, comunidade científica ou qualquer pessoa que se identifique como de esquerda ou oposição a seu governo.

As memórias elegantes de Nirlando Beirão

Meus começos e meu fim. Capa. Reprodução
Meus começos e meu fim. Capa. Reprodução

 

Nirlando Beirão é jornalista raro (ou em extinção, como queiram).

A afirmação entre parênteses não se deve, obviamente, ao diagnóstico de sua Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), pauta de Meus começos e meu fim [Companhia das Letras, 2019, 186 p.; R$ 49,90].

Digo que Nirlando é raro por que, ao mesmo tempo em que se apregoa a morte do jornalismo, ao menos nos termos em que o conhecíamos até aqui, é ele, além de o dono de um dos textos mais elegantes do jornalismo brasileiro, alguém cujos mais de 50 anos de profissão (ou carreira, ou trajetória, como queiram), permitem-no uma espécie de jornalismo de memória, algo que lhe dispensa a consulta a arquivos, fontes ou qualquer investigação. Ele pode escrever, por exemplo, sobre a Copa do Mundo de 1970, o fim dos Beatles ou sobre o golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência da república, e tudo que daí adveio, com base apenas em suas lembranças.

“Eu sou assumidamente esquerda-foie gras”, disse, além de tudo aquilo, aos três mosqueteiros do jornalismo cultural na CartaCapital – de que Nirlando Beirão é editor executivo, portanto, chefe de Eduardo Nunomura, Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches.

Equilibra-se entre a dor e um senso de humor finíssimo que se não lhe agrada, certamente o fará aos leitores (aproveitando para imaginar que a maior parte dos que comprarem o livro acompanham Beirão há mais ou menos tempo na imprensa).

Andar por sobre esta slack line é o que faz com habilidade ao longo do livro, em que mescla a própria estrada que percorre no “País da Doença” – nome com que ele mesmo se refere à ELA, de forma a tornar o convívio menos doloroso – à história de seu avô António Beirão, padre português que, chegado ao Brasil, trocou o amor divino pela paixão terrena, casando-se com a avó do jornalista, Esméria.

Com sua habitual elegância e a habilidade de um jornalista que descansa carregando pedras – como o fazem os jornalistas de verdade –, Nirlando Beirão tece uma colcha de retalhos baseada sobretudo em suas memórias, entre almoços de família, leituras, lições de jornalismo e política, assunto do qual se esquiva o quanto pode, mas do qual é impossível se afastar completamente, ainda mais em se tratando de Brasil.

É tocante, em meio a tudo isso, por exemplo, o breve perfil que faz do amigo Drauzio Varella, o médico, astro de televisão e escritor, mesmo sem citar seu nome, como a querer evitar ser acusado de qualquer vaidade. O doutor Drauzio, como é intimamente chamado por milhões de brasileiros, assina o texto da quarta capa de Meus começos e meu fim.

Nirlando Beirão nega o bom humor, ao revelar como lida com a doença no cotidiano, no trato com visitas e transeuntes, mas em sua narrativa não há espaço, tampouco, para a autopiedade, embora ele escreva, numa passagem, que a de 2018 foi sua “derradeira Copa do Mundo”, para imediatamente se/nos tranquilizar: “Página virada, é hora de despistar as humilhações miúdas do cotidiano não mais com miragens de longo prazo, e sim com tarefas de produtivo diversionismo”, no que parece estar falando do próprio livro, às vésperas de terminar de escrevê-lo.

Em um trecho revelador dos paralelos entre a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) e o atual desgoverno patético de extrema-direita de Jair Bolsonaro, cultor da ignorância, ele nos conta, ao revelar que o bom jornalismo também é feito com uma boa dose de sorte: “O furo que chamo de folclórico aconteceu também por obra do aleatório. Eu estava em Brasília no dia em que o homem pisou na Lua. A embaixada norte-americana preparou um coquetel para convidados, e ali assistimos, uisquinho na mão, ao evento planetário”.

E continua: “Saí de lá conduzido pela curiosidade pessoal e imbuído do dever profissional: o que é que o presidente da República, quero dizer, o nosso, teria a dizer sobre a conquista? Tive de recorrer a sucessivos telefonemas, naquela era pré-celular, mobilizando do porta-voz da Presidência ao ajudante de ordens, para enfim descobrir a verdade. Enquanto Neil Armstrong deixava sua pegada na superfície da Lua, o general Costa e Silva decidia se descartava um valete ou uma dama na animada mesa de jogo do Alvorada. Não deu a mínima para aquela bobagem da Nasa”.

Os dois assuntos se mesclam e retroalimentam, os começos – o pecado e o casamento dos avós, a consequente prole – e o fim – a doença degenerativa que ainda lhe permite funcionarem a mão direita e a cabeça, como ele mesmo anota também. Nirlando Beirão constrói sua narrativa sem grandes preocupações com o rigor jornalístico, mas com as habituais referências às suas paixões de bon vivant, que garantem a leveza que caracteriza seu texto desde e para sempre.

Leia Raul!

Raul Seixas: não diga que a canção está perdida. Capa. Reprodução
Raul Seixas: não diga que a canção está perdida. Capa. Reprodução

 

Parafraseando Belchior, o outro biografado de Jotabê Medeiros, não espere que eu lhe faça uma resenha como se deve. Ora, o autor de Raul Seixas: não diga que a canção está perdida [Todavia, 2019, 413 p.; R$ 69,90] é meu amigo pessoal, colega de Farofafá e não raro repito: meu maior professor de jornalismo fora da sala de aula.

Talvez isto devesse me afastar da tarefa de comentar seu livro. Mas não seria justo, tampouco honesto. O livro acaba por marcar, por assim dizer, o encontro de dois heróis meus, um no jornalismo e um na música. O elepê Maluco beleza, uma coletânea de hits daquele que acabou rebatizado pela faixa-título, foi um dos primeiros vinis de minha coleção (que o advento do cd acabou por fazer se perder no tempo) e ainda lembro de quando comprei Gita [1974] numa promoção da saudosa Lobras, com vinis vendidos a preços mais baratos justo por conta da popularização das bolachinhas lidas a laser.

Acompanhei as agruras, perrengues, negociações, bastidores, enfim, da escrita de Jotabê das biografias do cearense Belchior e do baiano Raul Seixas, tendo o privilégio de ser dos primeiros a saber que o jornalista se movimentava em seus por vezes pantanosos terrenos, mas perdendo o furo em nome da amizade.

Acompanhei o linchamento virtual de que Jotabê Medeiros foi alvo pouco antes do lançamento de seu novo livro, em novembro passado. Gente que sequer tinha lido a obra (pois ainda não havia sido lançada, frise-se) e passou a atacar o biógrafo por uma suposta acusação de dedo-durismo do biografado em relação ao escritor Paulo Coelho, seu mais famoso parceiro musical.

Demorei a mergulhar na leitura de Raul Seixas: não diga que a canção está perdida por saber, antecipadamente, tratar-se de livro que mereceria a atenção que eu queria dar em tempo quase integral, no que foi bem vinda a quarentena diante da ameaça mundial do coronavírus, pelo que a profecia do cantor e compositor tem sido sempre lembrada e O dia em que a terra parou quase alçada à condição de clichê.

Poderia dizer que Jotabê Medeiros reinventou, em seus dois livros do gênero, a escrita de biografias. Seus mais de 30 anos de jornalismo cultural – com foco na crítica musical – garantem um profundo mergulho na pesquisa e nas entrevistas com fontes, a checagem a que o simplificador control c control v nos desacostumou como leitores e não raro mesmo como jornalistas – há exceções, é claro, e o jornalista-escritor é uma delas.

Mas a reinvenção da escrita de biografias não se dá por isso, o que deveria ser obrigação de qualquer jornalista, escreva ele uma biografia de mais de 400 páginas ou uma resenha, como tento aqui, ou uma nota ou o que quer que seja. Se dá pelo fato de Jotabê Medeiros, com sua habitual escrita elegante, buscar equilibrar vida e obra, através da narrativa dos fatos daquela e da análise desta; sobre a primeira, não emite juízos de valor; sobre a segunda, pode eventualmente apontar desníveis onde o fã-clube enxerga apenas perfeição.

Se Roberto Piva, outro personagem cultural da predileção de Jotabê Medeiros, dizia que não existe poesia experimental sem vida experimental, e a vida de Raul Seixas foi marcada pela brevidade (morreu aos 44 anos, vítima de pancreatite decorrente do abuso de drogas lícitas e ilícitas) e intensidade – deixou obra fecunda, a provar o que quero dizer aqui e o autor demonstra, tanto biografando Raul quanto Belchior: uma e outra se cruzam, em seus altos e baixos.

Guardadas as devidas proporções, Jotabê Medeiros sabia dos riscos que correria ao encarar o fã-clube mais chato do Brasil (expressão que usei quando eu e Suzana Santos o entrevistamos para o Radioletra, na Rádio Timbira, e negada por ele): qual um Philippe Petit ao realizar sua façanha-obra de arte, o autor não recuou diante de temas mais espinhosos, no entanto sem correr outros riscos: ele nunca é deselegante ou sensacionalista em nome de “vender a porra do livro”, como acusou-o numa rede social o autor de O alquimista.

Existem por aí muitos livros escritos sobre Raul Seixas, fora e dentro da academia. Boa parte escorada na suposta perfeição do mito (aqui na acepção real do termo, é preciso explicar nestes tempos) construído em torno do raulseixismo. Quem já assistiu a pelo menos um dos tributos anuais apresentados pelo cantor Wilson Zara em São Luís – a série teve início em Imperatriz, em 1992 – sabe do que estou falando: gente fantasiada, envergando camisas com a efígie do astro ou bandeiras com o símbolo da Sociedade alternativa, louvando acriticamente seu legado (embora o momento seja de festa e a culpa não seja de quem presta a homenagem, realizada sempre em torno do aniversário de falecimento do ídolo).

Um dos méritos da biografia de Raul Seixas escrita por Jotabê Medeiros é mergulhar num ponto quase sempre esquecido de sua trajetória: seu lado hitmaker de brega, que acabou por inventar um estilo até hoje copiado. Não basta lembrarmos de faixas como Tu és o MDC da minha vida, Você ou Sessão das 10, a faixa-quase-título do hoje clássico Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, de 1971, o segundo disco em que Raul Seixas aparece cantando – após a estreia com Raulzito e Os Panteras [1969] – dividido com Edy Star, Miriam Batucada e Sérgio Sampaio.

É preciso dar os devidos créditos a hits absolutos, até hoje tocados em rádios Brasil afora: Ainda queima a esperança, sucesso de Diana, Doce doce amor, de Jerry Adriani, e Se ainda existe amor, de Balthazar: todos são composições de Raul Seixas – que à época assinava Raulzito (“Raul Seixas e Raulzito sempre foram o mesmo homem”, como cantou em As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor).

Jotabê Medeiros mergulha também no lado produtor do biografado: é importante conhecer o trabalho de Raul Seixas, antes da fama, em estúdios e gravadoras, que viria a ajudar a forjar sua identidade musical, levando-lhe a discos ou shows de Leno (da dupla com Lilian Knapp), Jerry Adriani e Odair José (todas as guitarras de seu primeiro disco são tocadas por… Raul Seixas).

Não hesita o autor em apontar também apropriações indébitas do ídolo, fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, cujo cruzamento explica um bom bocado de sua obra. O livro coloca também em seu devido lugar as relações de Raul Seixas com nomes como Sérgio Sampaio (Raul produziu e assinou arranjos em Eu quero é botar meu bloco na rua, estreia solo de Sampaio, de 1973, que fechava com a vinheta Raulzito Seixas, homenagem do capixaba ao baiano), Cláudio Roberto (parceiro em Maluco beleza e numa pá de composições, O dia em que a terra parou, de 1977, é integralmente assinado pela dupla), Jards Macalé (Raul participou do show coletivo Banquete dos mendigos, posteriormente lançado em elepê, produzido por Macalé no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro para celebrar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) e Marcelo Nova (não raro tido como oportunista, mas que acabou reerguendo Raul, dividindo uma série de shows antes da gravação do álbum derradeiro, A panela do diabo, de 1989, ano em que Raul viria a falecer, dois dias após o lançamento do disco), entre outros.

Não afeito a fofocas, Jotabê Medeiros não se furta de tocar em lendas criadas por Raul Seixas, como seu suposto encontro nos Estados Unidos com o beatle John Lennon ou o dia em que comeu lixo com um mendigo em Nova York (episódio cantado em Banquete de lixo), bem como as apresentações do roqueiro no garimpo em Serra Pelada, e a não decomposição do cadáver do artista – provavelmente em decorrência do consumo excessivo de antibióticos em vida –, percebida mais de 20 anos depois de seu falecimento, quando a família tentou transferir os restos mortais para uma urna.

Raul Seixas ganha uma biografia à altura do gênio que foi. Sem entregar o ouro (de tolo) ao bandido, Jotabê Medeiros revela, na introdução, a chave (de leitura e) de seu êxito na missão: “todo o meu esforço foi contar uma história, articular uma coreografia escorada no maravilhoso acervo de canções & riffs dessa figura já lendária, contraditória e deflagradora da cultura brasileira. Não me preocupei em lustrar a lenda, porque essa já é do tamanho da eternidade”.