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Papiros do Egito segue aberto

O Papiros do Egito e a memória de dona Moema seguem vivos. Foto: ZR (25/4/2015)
O Papiros do Egito e a memória de dona Moema seguem vivos. Foto: ZR (25/4/2015)

 

Entre a costureira e o supermercado, subindo a Sete de Setembro, dei com o portão do Papiros do Egito aberto. A placa de venda continua lá, com o número de um celular e do velho 32310910 com o qual, vez por outra, perguntava a Moema Alvim, se tinha isso ou aquilo. “Fala alto, que eu sou surda!”, retrucava gritando, depois de um alô, para eu então aumentar o tom de voz, ser reconhecido e ela me responder se tinha e quanto era o livro ou disco que eu procurava.

Desci do carro e fui até lá. Um segundo portão é mantido fechado, por questões de segurança, e por um espelho que serve de retrovisor, dei de cara com Josilene, que há alguns anos abrira um sebo especializado em livros escolares, na Rua do Egito, a partir de uma cota da generosidade de dona Moema – também conheci sua ex-funcionária há mais de 20 anos, quando ainda menino comecei a frequentar o Papiros do Egito, cujo nome herdou da rua do primeiro endereço, no Centro, à época já funcionando na Rua dos Afogados, depois mudando-se para a Sete de Setembro, onde permaneceu até o falecimento da proprietária, em outubro passado. A última vez que havíamos nos visto fora justamente no velório e sepultamento da amiga comum.

Entabulei rápida conversa com Josilene, afinal de conta os vícios antigos são importantes, mas o supermercado não poderia esperar muito. Lembramo-nos de dona Moema. “Ela parecia uma adolescente, era só nesse negócio de face, direto”, ela comentou, lembrando o ativismo da professora aposentada na rede social. Rimos, saudosos. Ela me disse estar abrindo o sebo já há algum tempo [de segunda a sexta das 10h às 17h; sábados de 9h ao meio dia], cuidando de catalogar o acervo – até para avaliá-lo, já que pretende comprá-lo, junto com o casarão – e devolvendo as consignações aos donos. Dei-lhe parabéns, era importante a manutenção do Papiros do Egito aberto e, consequentemente, viva a memória de dona Moema. Desejei-lhe sorte e fiquei de aparecer com mais tempo e dinheiro. Esperei-a terminar um telefonema e pedi: “Deixa eu tirar uma foto tua, pra botar na internet e divulgar que estás abrindo o sebo”. Vaidosa, ela recusou-se, alegou estar descabelada. “Tira só do sebo”, devolveu, entregando-me a sacola com os três discos que catei, para não perder a oportunidade e o hábito.

Programa Contratado! oportuniza (re)colocação no mercado de trabalho

[release]

Metodologia aplicada pelo economista e empresário canadense Martin Messier tem se mostrado bastante eficiente

Economista e empresário, Martin Messier ensinará metodologia a quem busca se (re)posicionar no mercado de trabalho. Foto: divulgação

O ano novo começou e traz consigo uma carga de desafios. Qual o seu? Cumprir as metas e promessas feitas no apagar das luzes do ano passado? Pagar as contas? Conseguir ou mudar de emprego? Ser promovido?

O empresário Martin Messier, economista de formação, com vasta experiência em treinamento, ministrará para uma turma (vagas limitadas) o programa Contratado!, que ajudará interessados/as em uma (re)colocação no mercado de trabalho, aqueles/as que responderam sim ao menos às duas últimas interrogações do primeiro parágrafo.

O treinamento consiste em diversas etapas que abordam a psicologia dos contratantes, o processo de busca de emprego e estratégias concretas para elaboração de currículo, conduzir a entrevista e negociar salário.

Aos treinandos, Martin ensinará ainda como ser promovido rapidamente em qualquer empresa. Ele mesmo foi promovido três vezes em menos de um ano quando conseguiu seu primeiro emprego – em apenas 12 minutos – nos Estados Unidos, onde estudou e se formou. Ele já percorreu mais de 45 países, tendo residido em sete. Está no Brasil há mais de 10 anos.

As façanhas – que ele garante: podem ser realizadas por qualquer pessoa focada em seus objetivos – ele conta em uma série de vídeos que antecedem o treinamento, que ele vem publicando em seu site.

O primeiro vídeo aborda erros graves que os candidatos sempre cometem na fase de seleção e dá dicas de como evitá-los. No segundo ele conta a fórmula do emprego em 12 minutos, ilustrando-a com seu próprio exemplo. O que as empresas buscam é o tema do terceiro vídeo, em que um homem, indicado a Martin por um amigo, conta como conseguiu, aplicando o método, um novo emprego em menos de um mês, após três anos de desemprego. O quarto vídeo aborda “o seu futuro profissional”.

O programa Contratado! será ministrado por Martin Messier, no Hotel Luzeiros, dia 17 de janeiro (sábado), das 8h às 17h. As inscrições estão abertas até o dia 15 de janeiro, exclusivamente no site do programa, e custam R$ 345,00, parceláveis em até três vezes. As vagas são limitadas e os currículos dos candidatos ao programa serão analisados como critério de inscrição.

O Mestre Mandou no Mestre Amaral

Divulgação
Divulgação

O Espaço Cultural Tambor de Crioula de Mestre Amaral tem se configurado num dos lugares pulsantes e interessantes da cidade, por diversos aspectos, dos quais destaco a reinvenção do espaço público, pela ocupação de um imóvel abandonado, no centro da cidade, com atividades culturais. São Luís precisa de mais Mestres Amarais.

Nesta sexta (8, a partir das 19h) e sábado (9, de 16h em diante) acontece o brechó O Mestre Mandou, ocasião em que armários e coleções de discos poderão ser renovados. Obviamente com trilha sonora: além da tradicional roda com o tambor de crioula do mestre que batiza o espaço, haverá apresentações do Maracatuque Upaon Açu e de Tiago Máci, acompanhado da dupla Ambos com Voz. A organização do evento intenta realizá-lo mensalmente.

Pagu (1º./9/2010-2/8/2014)

Pagu partiu para alguma espécie de céu de bichos de estimação. Foto: Zema Ribeiro
Pagu partiu para alguma espécie de céu de bichos de estimação. Foto: Zema Ribeiro

 

Presente de Luana, prima de minha esposa, Pagu chegou à nossa casa, cuja decoração acabaria por influenciar, em 8 de dezembro de 2010 – já veio com o nome, que achamos por bem manter. Tinha três meses, nascera a 1º. de setembro. Encheu ainda mais a casa de alegria, era o xodó de crianças e adultos que nos visitam e foi personagem constante em meus perfis em redes sociais, sobretudo o instagram.

Lembro-me que, antes dela, não curtia bichos de estimação – havia criado passarinhos na infância, mas hoje tenho outras ideias sobre bichos presos – e Pagu mudou isso, embora minha afeição fosse por ela, apenas, e não por bichos de estimação em geral.

Pagu morreu na madrugada de hoje (2), na rua, vítima de um ataque de um grupo de cachorros, segundo o relato de um vizinho. Não cheguei a ver o corpo, embora tenha tido vontade.

Este texto não se pretende jornalismo, obituário, tributo ou coisa que o valha. É um texto egoísta, uma tentativa de minimizar o sofrimento de perguntas e comentários futuros de parentes e amigos que me leem, os membros do, digamos, “fã clube” da gata saudosa.

Quase mais três meses

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

Finalmente o problema do entulho acumulado na Rua das Mangueiras, no Jardim Renascença I, foi resolvido.

Não adiantaram post neste blogue, nem ofício encaminhado pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) à Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos (Semosp), nem abaixo-assinado organizado por moradores também encaminhado ao órgão.

Na Semosp, diga-se, a burocracia é inversamente proporcional à efetividade da prestação de serviços: não atendem solicitações feitas por telefone, e-mail ou fax. Ofícios requerendo o que quer que seja têm que ser protocolados na sede do órgão. Mas como disse, nem isso adiantou. Outro detalhe: o lixo, sobre o qual já cresciam pés de mamona e já ocupava boa parte da rua, impedindo o trânsito e estacionamento de veículos, foi deixado após um serviço de “limpeza” da empresa terceirizada pelo município para tal fim.

Evangélico, o prefeito Edivaldo Holanda Jr. evocou Deus na campanha eleitoral e em recente pronunciamento sobre as chuvas que castigam a Ilha. Mas a população parece estar mesmo ao deus dará: o entulho da Rua das Mangueiras foi retirado após a contratação de serviços particulares por moradores de um condomínio ali localizado, com a contribuição de moradores de casas próximas e da própria SMDH.

Autoritarismo, truculência e outras palavras para (tentar) entender a UFMA

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Autoritarismo é uma palavra que define bem a gestão do atual reitor da Universidade Federal do Maranhão Natalino Salgado.

Ilegítimo é outra para definir o processo eleitoral para a escolha do comando do Diretório Central dos Estudantes, num processo desprovido de quórum.

Faltam palavras, no entanto, para classificar a ação de alguns estudantes, para os quais também faltam palavras, que resolveram arrombar a sede do DCE e tomá-lo à marra.

A ação truculenta dos brucutus, sob a proteção do reitor, causa repúdio a quem preza por democracia, palavra cujo verdadeiro significado é tão caro aos que lutaram por ela, sobretudo em espaços universitários, e que o magnífico parece desconhecer. Ou prefere ignorar.

Os brucutus já haviam sido denunciados, com registro de boletim de ocorrência em delegacia de polícia da capital, pelo lacre do DCE, com a troca de cadeados, impedindo a atual direção – legitimamente eleita – de adentrar a sala, em pleno processo eleitoral. Ou arremedo, para usarmos uma palavra que define bem uma porção de coisas na UFMA, o país das maravilhas de Natalino Salgado.

A imagem que abre-ilustra este post já percorre as redes sociais desde ontem e foi enviada ao blogue por estudantes que não aceitam a truculência como método de solução de impasses ou de impor os caprichos do senhor reitor à comunidade acadêmica.

Sindicato Chapa Branca e Golpismo no DCE

FLÁVIO REIS*

A marca de centralismo e autoritarismo que caracteriza a administração do reitor Natalino Salgado ganha mais um capítulo tenebroso. Preocupado em submeter tudo e todos à sua vontade, sem conseguir sequer conviver com críticas e posicionamentos contrários, volta suas baterias novamente em duas frentes.  A primeira é a tentativa de controlar o Diretório Central dos Estudantes. Através de uma manobra, a comissão eleitoral impugnou a chapa da diretoria Ninguém Pode nos Calar, que resgatou o DCE da posição vergonhosa de ter se tornado uma representação chapa branca no período 2010/2011, alheio às lutas históricas por uma universidade plural e participativa, servindo de mero apêndice da reitoria e agência de festas. Circulou largamente através do YouTube o áudio de uma conversa em que o presidente da comissão eleitoral se colocava abertamente como interessado em articular uma chapa com um canal com a reitoria (veja o vídeo que abre-ilustra este post). Apesar da eleição não contar com o quórum mínimo necessário, mostrando o repúdio dos estudantes à manobra, a direção da universidade quer reconhecer o resultado, um escândalo que  deve parar na justiça. A segunda é a tentativa de criar outro sindicato de professores, um sindicato chapa branca, vinculado ao PROIFES, depois de ter perdido eleições para a diretoria da Apruma em duas oportunidades e não ter conseguido sequer organizar uma chapa para concorrer às eleições realizadas em dezembro do ano passado.

Na democracia professada pelo reitor Natalino Salgado, manifestações contrárias são sempre tratadas com intolerância, problemas de funcionamento não devem vir à luz do dia, reivindicações são apenas fruto de descontentes que “não vestem a camisa da UFMA” (leia-se, não dizem amém a todas as resoluções monocráticas vindas da reitoria), pois a instituição vive simplesmente dias gloriosos. Os que estão no cotidiano das salas de aula sabem que as coisas não são bem assim. Apesar do grande aumento no número de matriculados, numa operação cujos resultados desastrosos começam a aparecer nos inúmeros gargalos criados pela falta de professores, o que percebemos no dia a dia é um contínuo esvaziamento do campus, uma irritação e um desestímulo crescentes.

Não se trata apenas de um período de transição, no qual o próprio ensino ainda patina para encontrar novos rumos. O chão do processo é a defasagem da estrutura administrativa da universidade, pesadona e controladora, quando os tempos pressupõem exatamente o contrário. A própria forma como são propostas modificações em atividades fundamentais, como as recentes normas sobre o ensino de graduação, são pensadas de cima para baixo, com apenas um arremedo de discussão proposto em cima de um texto base que, no caso, uma observação feita pela comissão organizada pela Apruma mostrou ser cópia quase literal de uma resolução da UFPI. Mais do que crescer, a UFMA vive um processo de inchaço de uma estrutura arcaica e as iniciativas de modificação sempre insistem em afirmar a centralização de decisões nas Pró-Reitorias. No fundo, quase não há vida nas unidades, apesar da propaganda feita nas placas espalhadas pelo campus e no site da instituição insistir em mostrar um mundo dourado “como nunca se viu antes”, para lembrar um bordão que fez escola. Tanto aqui quanto nos campi do interior do estado, entretanto, existem muitos problemas, mas, segundo a ótica reinante, eles não devem ser debatidos e sequer publicizados. Todas as vezes que aparecem, geram logo profundo mal-estar entre o Magnífico e seus áulicos, como se fossem deturpações rasteiras de elevadas intenções.

Chegando ao ano final de seus dois mandatos à frente da reitoria, antecedidos de dez anos no comando do Hospital Universitário, Natalino Salgado tenta fechar o seu ciclo calando os únicos espaços institucionais que não controla, com o golpe perpetrado no DCE e a tentativa de organizar um sindicato paralelo de professores. Neste último caso, uma articulação puxada pelos áulicos de sempre, pró-reitores e assessores, para a formação do chamado Sind-UFMA, um sindicato atrelado ao PROIFES.

Por princípio, acho que a organização de interesses deve ser livre e ampla. O problema é quando esta se dá a partir de cima, quebrando na origem qualquer possibilidade de real independência. Se organizar chapas a partir da reitoria já era algo escandaloso, tentar organizar outro sindicato utilizando-se desses meios chega ser uma excrescência, sem mais nem menos. Talvez o problema mais importante e decisivo nesta universidade seja o fosso que historicamente foi estabelecido entre a administração superior e a comunidade acadêmica. Essa questão chegou ao ápice na atual gestão, onde a aproximação só se efetua através da cooptação. No momento em que entidades importantes, como a ADUFC, se desvinculam do PROIFES, frisando entre os motivos a “notória subordinação ao governo federal”, o “alheamento em relação ao movimento docente nacional, promovendo o isolamento e a desmobilização dos professores das universidades federais cearenses” e a “participação ativa na implementação de medidas e normas que precarizam o trabalho docente”, é exatamente este o modelo que o círculo próximo à reitoria quer criar aqui e ficar ainda mais à vontade para impor procedimentos, como é do seu estilo, contornando a resistência que a Apruma desempenhou, principalmente nos dois últimos anos.

A universidade brasileira, de modo geral, guarda esse traço centralizador que manteve dos tempos da ditadura, mas tem seus contornos acentuados quando tratamos de sociedades em vários aspectos ainda largamente oligarquizadas, como é o nosso caso. A luta de professores, alunos e técnicos administrativos deve buscar a ampliação e a efetividade dos espaços de participação na universidade, abrir as decisões, garantir maior autonomia para as unidades num quadro de efetiva colaboração interdisciplinar. O processo em curso tem seguido o caminho contrário, sempre falando em futuro, democracia, inclusão, diversidade, mas agindo efetivamente para garantir a continuidade do passado, com os velhos procedimentos de tomada de decisões em circuito fechado e as mesmas figuras de sempre, pessoas que atravessam décadas nos círculos da administração superior da universidade. A articulação do Sind-UFMA é uma associação pensada para atrelar a representação sindical à reitoria, nada a ver com as lutas dos docentes e a necessidade de democratização da universidade.

Todos se lembram do papel importante que o DCE e a Apruma exerceram no apoio aos estudantes em luta pela moradia no Campus diante da intransigência de Natalino Salgado, vergada apenas após uma greve de fome levada a efeito por discentes que dependem da moradia, prolongando-se por uma semana, com mobilização que envolveu outros setores da sociedade em solidariedade. São justamente estes espaços de resistência que a sanha autoritária da reitoria tenta a todo custo anular.

*FLÁVIO REIS é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA

Teatro da Cidade será palco de curso sobre produção de shows

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No próximo dia 23 de maio, o Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) recebe o curso Como organizar um show, ministrado pelo professor Alexandre Barreto, com larga experiência em produção de eventos, incluindo festivais e espetáculos nacionais e internacionais, além da assessoria de artistas.

Ótima oportunidade para quem quer se arriscar ou se aprimorar no assunto. Como jornalista, atuando na cobertura cultural ou como assessor de comunicação de artistas e/ou eventos, ao longo dos anos, tenho percebido certa deficiência em produções locais. Exceções há, não se pode negar, mas não é raro ouvir artistas se queixando de problemas estruturais os mais diversos, da falta de profissionalismo de alguns produtores e prestadores de serviço. Sem falar na falta de sensibilidade da iniciativa privada e dos poderes públicos do Maranhão. Como organizar um show pode ser um passo importante na superação de alguns dos desafios impostos pela nossa realidade. Certamente não resolverá todos os nossos problemas, mas ajudará, é um passo.

O curso custa R$ 100,00 (este blogue não leva nada pelo serviço), incluindo cafés e material didático, além de um exemplar do livro homônimo ao curso, de autoria do ministrante.

Maiores informações no Valberlúcio.

Tinha um caminhão de pedras no meio do caminho

Parafraseio Drummond para comentar mais um fato vergonhoso que leva o Maranhão ao noticiário nacional: em paralelo à crise em Pedrinhas, desta vez um caminhão de pedras chocou-se com um pau de arara que transportava estudantes. Dói essa pedra no calo da oligarquia?

Não é para menos a comoção causada pela morte de oito crianças e adolescentes em um acidente que deixou ainda um saldo de quatro feridos, na estrada MA-303, entre Bacuri e Apicum-Açu, no litoral norte maranhense, ontem (29).

É a fatura do descaso com que são tratadas a educação e diversas outras políticas públicas pelos governantes de plantão. É preciso que sejam apuradas as responsabilidades dos condutores envolvidos no acidente – a caminhonete pau de arara que fazia o papel de transporte escolar chocou-se com um caminhão que transportava pedras e caiu numa ribanceira –, mas é preciso ir além: é necessário punir exemplarmente também gestores e autoridades responsáveis pela fiscalização.

O interior do Maranhão é tido como uma terra sem lei, onde usar capacete, tripular motocicletas aos pares ou usar cinto de segurança pode dar multa. O “folclore” também ocorre em determinados bairros da capital.

30 estudantes estavam na caminhonete no momento do acidente, ocupando apertadamente um lugar que deve ser destinado ao transporte de carga. A nota da governadora Roseana Sarney lamentando o fato e entristecendo-se com o mesmo é cinismo puro: suas gestões e as de seus aliados – e até mesmo por opositores – pouquíssimo ou nada têm feito para modificar a trágica realidade dos que arriscam a vida ao pendurar-se em tais veículos em busca de um futuro melhor.

Um futuro que parece só existir na propaganda governamental, onde as estradas são asfaltadas e os estudantes têm, além de educação, até mesmo internet pública e gratuita.

Sebo no Chão, som na caixa!

Acervo Sebo no Chão. Divulgação
Acervo Sebo no Chão. Divulgação

Estive uns poucos domingos no Movimento Sebo no Chão, capitaneado pelo estudante Diego Pires, que fim de semana após fim de semana, tem ocupado a praça defronte à Igreja Católica do Cohatrac.

Louvo a iniciativa principalmente por duas características suas: a gratuidade e a descentralização, já que quase tudo em São Luís acontece na região central da capital.

Mais que moda passageira, como tanto vemos por aqui, o Sebo no Chão caracterizou-se como um importante espaço de vivência cultural. O nome do evento remonta ao início, quando simplesmente Diego começou a vender livros na calçada, ao que depois agregou shows musicais, teatro, cinema, gastronomia, brechó, literatura etc.

Muitos artistas já passaram pelo espaço, que agora quer melhorar a estrutura que oferece ao público presente, parte dele já cativo, outra formada de frequentadores ocasionais – caso deste blogueiro.

O Sebo no Chão está com uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse, visando adquirir o equipamento de som necessário para a realização dos shows. Mais detalhes no link.

Há algum tempo, no Vias de Fato, o perro borracho Igor de Sousa, publicou um texto sobre o acontecimento dominical. Continuar lendo Sebo no Chão, som na caixa!

Estacionamento o caralho!

CELSO BORGES*

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez mil, vinte mil, cinquenta, cem mil carros arrombam um sobrado que fica na rua do Sol ou Nina Rodrigues, 567, esquina com a rua da Mangueira, conforme indicam os catálogos telefônicos absolutamente obsoletos. Ali querem construir um estacionamento no mesmo lugar em que ficam o sobrado e a alma do sobrado de Aluísio Azevedo, escritor da terra, futuramente expulso pela elite escravocrata local da cidade, que ainda sonha com a Atenas do passado.

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

Um carro arranca na frente, outro descarrega sua carne de prata e alumínio sobre a calçada, um terceiro entra na sala da casa, o quarto invade o quarto da mãe de Aluísio cuspindo gasolina sobre a mesinha de cabeceira, o quinto dos carros infernos outros tantos vários em acúmulo de tijolos de barro e cimento de amianto no coração do sobrado entre alicerces e subterrâneos enferrujando de fumaça e fuligem o sonho do pai de Aluísio e do irmão Artur, que a essa altura do campeonato já está no Rio de Janeiro há muito tempo cansado da província que só quer saber de construir estacionamentos no centro da cidade.

Melhor alguns carrinhos enfileirados do que esses prédios velhos que não prestam pra nada e ficam atrapalhando o progresso da cidade tombada pela Unesco, o que na prática não significa porra nenhuma.

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

Carros e mais carros sobem as escadas uns sobre os outros. Os azulejos portugueses já ficaram para trás. Seguir adiante, esse o futuro que temos pela frente. O quintal da casa é uma questão de tempo. Cadê Aluísio? Cadê o filho de Aluísio? Cadê o neto de Aluísio, O Cortiço de Aluísio, a Casa de Pensão de Aluísio, o final dO Mulato de Aluísio? Cadê Américo Azevedo Neto? Por que não escreve mais Cartas a Daniel? Cadê o berro de Emílio e suas foices de bigorna? Cadê a AML e o busto perdido de Aluísio? Notas de consternação não ressuscitam mortos. Aluísio e seu bigode em triunfo, suas bengalas polidas esgrimando com martelos que derrubam fachadas e economizam trabalho da chuva do próximo inverno.

A morada inteira se levanta!

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

Quem viver verá os carros subindo as escadas até o mirante, lá em cima de onde se vê um tanto de outros telhados inúteis com seus musgos e mururus. Ali cabe uma coleção de Mercedes, quem sabe uma Ferrari envenenada. Haja cicuta para tanto filho da puta!

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

*CELSO BORGES é jornalista e poeta. Seu livro mais recente é O futuro tem o coração antigo.

Quase quatro meses

14 de novembro de 2013. Publiquei a foto acima no facebook. Com o seguinte comentário:

Há alguns dias homens da empresa responsável pela limpeza pública municipal estiveram na Rua das Mangueiras, no Jardim Renascença I, onde fica localizada a Smdh Vida. Após a capina em calçadas e terrenos baldios, o volume de lixo visto na imagem permanece, provocando transtornos como a diminuição das vagas de estacionamento, insegurança, acúmulo de lixo e a proliferação de insetos, roedores e das doenças que transmitem. Técnicos da entidade e moradores da localidade aguardam o término dos serviços de limpeza, bem como a responsabilização dos proprietários dos terrenos, para que providenciem a conservação de muros e calçadas, colaborando assim com a garantia de saúde e segurança ao conjunto da população.

7 de março de 2014. Nada foi feito, a não ser por divina obra da natureza o mato (e os pés de mamona ou carrapato, como preferir o freguês) tomar conta do local, incluindo o entulho que restou sobre a calçada e parte da rua.

Bater, revidar, ignorar: pra tudo tem hora

Este ano este blogue completa 10 anos, somados os outros endereços por que passou antes de se instalar neste em definitivo, o que torna mais correto dizer que em abril próximo eu completo 10 anos blogando.

10 anos movidos por pura vontade e necessidade de dizer. Uma década sem um centavo de patrocínio público ou privado. Tempo de aprendizado, de cabeçadas, de arrependimentos, de textos ruins, mas também de evolução. Quase um terço da vida dedicados a indicar aos poucos mas fiéis leitores livros, discos e filmes de que gostei. Mas também de meter o bedelho onde não sou chamado. 10 anos entre agradar e desagradar, que nem Jesus Cristo foi unanimidade, não é, Nelson Rodrigues?

Mais que tudo, em abril próximo – se eu não desistir até lá – completo 10 anos de resistência e independência, num Maranhão em que quase tudo parece depender de apadrinhamentos políticos, cooptações, benesses, panelinhas e que tais.

São 10 anos dedicando meu tempo livre, ou roubando-o do trabalho ou da esposa, para fazer algo em que acredito. Não digo isso para jactar-me, mas não abro mão de minhas convicções e ideais.

Neste tempo, ganhei leitores, amigos e inimigos, ainda bem que não em igual proporção. Estive envolvido em debates importantes e necessários, mas em muita polêmica desnecessária e desgastante, sobretudo nas chamadas redes “sociais”. Coisa que não vale a pena.

Amadureci. Hoje prefiro canalizar esforços e energias mais concentradamente. Quem me conhece sabe que continuo sem fugir de uma boa briga. Mas ela tem que valer a pena. Gratuita ou não, não vou revidar uma agressão só pra demonstrar valentia. Assim sigo meu caminho.

A violência artística de Carlos Latuff

“A função do artista é violentar”. A frase do cineasta Glauber Rocha que serve de epígrafe ao blogue de Carlos Latuff traduz seu exercício de ler o mundo através dos traços e cores de suas charges, publicadas por aí, o artista ainda mais conhecido fora que em seu pobre Brasil – triste do país que não sabe reconhecer e valorizar seus artistas.

Carioca nascido em 30 de novembro de 1968, o chargista é um cronista do cotidiano, com a pena mais afiada e o olhar mais aguçado que o de muita gente por aí, sobretudo os que ocupam cargos e funções nos podres poderes – o poder, propriamente dito, e a mídia.

Latuff come pelas beiradas. É na imprensa alternativa e sindical, entre jornais nanicos e panfletos dos movimentos sociais que ele crava suas denúncias, não sem um quê de ternura e beleza, orientando-se pela máxima do revolucionário. Tem ilustrado e participado de momentos cruciais da história recente – primavera árabe, derrubada da ditadura egípcia, Pinheirinho, Copa do Mundo no Brasil etc. Já perdeu a conta de em quantas publicações infiltrou suas obras de arte e uma delas protagonizou talvez o primeiro caso de asilo artístico no Brasil: Por uma cultura de paz, charge de sua autoria que retrata um homem negro crucificado executado pela polícia, teve sua retirada solicitada por um político filho de militar e ganhou abrigo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Sem formação acadêmica, apenas com o “segundo grau completo”, como ele mesmo diz, o desenhista formou-se observando as ruas, sua cidade maravilhosa natal, o Brasil e o mundo que roda a trabalho, terrenos mais que férteis em se tratando de matéria prima para o seu fazer artístico e político.

“Artivista”, cravei uma vez referindo-me a ele. Já admirava e acompanhava seu trabalho e acompanhava quando pintou a oportunidade: a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) realizou, em 2012, com algumas entidades parceiras, uma Campanha de Combate à Tortura e tivemos a honra de convidá-lo a desenhar o cartaz (a imagem ilustra a capa desta agenda).

Por que Latuff não é apenas talentoso. É também um artista comprometido com a luta dos menos favorecidos, despejados, indígenas, quilombolas, sem-terra, vítimas dos megaprojetos e megaeventos, vítimas da polícia, crianças e adolescentes, idosos, mulheres, LGBTs. Em suma, um artista comprometido com a luta por e a efetivação dos direitos humanos na vida das pessoas.

Cada um luta com as armas que tem. Canetas na mão e ideias na cabeça, eis as de Latuff. No ano em que a SMDH completa 35 anos de luta em defesa da vida, é motivo de orgulho para nós, presentear sócios/as, parceiros/as e amigos/as com esta antologia latuffiana, imagens pinçadas de um ano especialmente trágico para os direitos humanos no Brasil.

Homenagem – Especialmente para esta Agenda 2014, Latuff desenhou o saudoso Celso Sampaio, assessor jurídico da SMDH, falecido ano passado, também admirador de seu trabalho.

[textinho que escrevi pra Agenda 2014 da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos]

O dilema da UFMA

FLÁVIO REIS*

Próxima de completar 50 anos de sua fundação, a Universidade Federal do Maranhão vive um momento emblemático. A greve de fome desencadeada há mais de uma semana pelos residentes das Casas de Estudantes traz em seu desenrolar toda a radiografia de um dilema antigo. Com uma estrutura administrativa arcaica, a universidade é dirigida de forma extremamente concentradora e, dependendo do ocupante do cargo de reitor, esta característica pode ser drasticamente intensificada.

Depois de uma década sem investimentos por parte do governo federal, os reitores de IFES da era REUNI, viram-se na situação de existência de recursos aliado a estruturas administrativas arcaicas que possibilitavam extrema liberdade pessoal na definição de prioridades. No Maranhão, estado ainda com marcas oligárquicas muitos fortes, o peso dessa cultura política concentradora de decisões encontrou sua tradução histórica no medo da dissenção, no elogio subserviente dos poderosos, na bajulação das chefias. A cultura oligárquica não suporta debates, pois se reproduz em circuito quase fechado, entre atores escolhidos a dedo, com roteiro devidamente marcado. Numa palavra, encontra-se em relação inversa ao ideal democrático e republicano de publicização ampla dos atos e dos processos decisórios. Na era do espetáculo, no entanto, preocupa-se enormemente com a encenação.

A gestão do reitor Natalino Salgado se desenvolveu exatamente apoiada no festival de recursos e na exacerbação da concentração de poderes. Sem uma discussão com a comunidade universitária, pondo e dispondo a bel prazer, com a anuência tácita dos conselhos da administração superior ou mesmo simplesmente desconhecendo-os, o reitor Natalino Salgado executou com maestria todos os traços do nosso velho oligarquismo. Movido pela política de expansão promovida pelo governo federal, ele criou o mito do grande administrador, através de uma construção obsessiva em torno do autoelogio.

No fundo, apenas seguia a cartilha do MEC, acatando tudo. Os planos de expansão foram tocados como diretrizes e obras da administração superior e nunca foram alvo de discussão democrática. O campus universitário foi remodelado e a UFMA inchando, talvez seja a palavra certa, sem que a comunidade fosse ouvida. Tudo se resumiu à vontade do reitor, que passou a viver numa verdadeira ilha da fantasia, cheia de números, percentuais e muita propaganda. Acompanhado sempre de um séquito, encarnou a figura do chefe, aquele que encena uma proximidade com a comunidade que dirige, mas na verdade mantém o controle das decisões com mão de ferro.

Como os estudantes já demonstraram largamente, a luta pela moradia no campus é antiga. A decisão do reitor de dar outra destinação ao prédio que em sua concepção original estava voltada para a moradia estudantil, depois de anos de protelações, ensejou a tomada de posição drástica dos estudantes, iniciada na terça-feira, 26 de novembro, quando o aluno Josemiro Oliveira se acorrentou ao portão de entrada e declarou-se em greve de fome. Em sua posição olímpica, o reitor de início pouco se importou e, em viagem, silenciou, enquanto a assessoria de comunicação limitava-se a registrar que a universidade se pronunciaria apenas após seu retorno, no melhor estilo “volte depois, o dono da casa não se encontra”. Tivemos a partir daí uma nota postada no site da UFMA que apenas reafirmava investimentos feitos na assistência estudantil; o não comparecimento do reitor para presidir a reunião do CONSEPE, na sexta-feira, onde o assunto foi debatido, apesar do espantoso voto contrário de alguns conselheiros; uma curta entrevista do próprio reitor, onde repetia a mesma lengalenga da nota.

No sábado, diante da falta de resposta da reitoria (a não ser a instalação de câmeras no local do protesto, no pátio em frente ao prédio), que simplesmente afirmava não ter sido solicitado nenhum “agendamento”, numa reunião do movimento pela moradia no campus, com a presença também de estudantes não residentes e alguns professores, além de deputados da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa e um membro da OAB/MA, que foram convidados a tomarem conhecimento do problema, ficou claro a necessidade de colocar o protesto na rua, pois a situação se agravava a cada momento.

Foi neste contexto, inconformados diante do silêncio irresponsável por parte da administração superior, que os estudantes e professores ali presentes resolveram levar seus gritos e cartazes à porta da casa do reitor. Sob os olhares da vigilância patrimonial da universidade, que monitorava de perto o que estava sendo discutido e saiu para fazer as vezes de segurança privada, todo o protesto foi pacífico e o objetivo foi alcançado. A situação extrapolava os muros da universidade e chegava às ruas. Poucas horas depois, Josemiro passou mal e precisou ser levado para o Hospital Universitário, assumindo seu lugar, igualmente acorrentado e em greve de fome, o estudante Daniel Fernandes.

Na segunda-feira, dia 2 de dezembro, após uma manifestação feita na Avenida dos Portugueses no início da manhã, com o bloqueio da passagem dos carros e o grande engarrafamento ocasionado, o reitor finalmente decidiu entrar em cena, mas não ainda para dialogar com os manifestantes e discutir sua reivindicação, e sim, para falar à imprensa. Na coletiva convocada ainda pela manhã, reafirmou ter feito os maiores investimentos da história da UFMA; disse que não havia desvio de função na aplicação da verba, pois o prédio não teria sido construído com esta finalidade e que a nova destinação (então existia outra, não?), voltada para assistência estudantil, serviria a um número muito maior de pessoas, portanto sua opção se enquadrava no projeto de inclusão social. Por fim, afirmou ter sido o “mais democrata” de todos os reitores, apto a ouvir todos os segmentos da universidade, apesar de dizer, de maneira totalmente extemporânea, que o protesto era fruto de uma radicalidade pela proximidade de eleições sindicais e estudantis, sem nenhuma explicação. Nas respostas foi taxativo ao dizer que não aceitava abrir mão do prédio. Antes de sentar com os estudantes tratou, portanto, de afirmar logo que não acataria a única pauta do movimento: a entrega da casa para a residência estudantil.

Apenas na terça-feira, uma semana depois do início do protesto, o Magnífico se encontrou com representantes das residências estudantis, com a presença de representantes da OAB/MA e da Defensoria Pública da União. Isto após ter realizado, ainda no dia anterior, uma esdrúxula reunião com diretores de alguns centros acadêmicos (?!), escolhidos entre os que lhe são próximos, pois a entrada de vários outros foi mesmo barrada no clima de fechamento e truculência que tomou conta do Palácio Cristo Rei; ter ido ao bispo em comitiva, incomodado com a nota expedida pela Comissão Arquidiocesana Justiça e Paz, ressaltando que os direitos são geralmente fruto de lutas; e de ter insistido na realização de uma reunião prévia com a Defensoria Pública. Enquanto buscava apoio sem sucesso, dezenas de declarações favoráveis à luta dos estudantes começaram a circular, vindas não só de diretórios acadêmicos, mas de núcleos de estudos, pesquisadores, professores, departamentos e outros, na esfera acadêmica, além de várias manifestações de solidariedade por entidades da sociedade civil.

O resultado da reunião com os estudantes das casas de moradia foi um fracasso, pois a decisão de não entregar o prédio já estava anunciada, uma posição típica de quem não sabe dialogar. Em troca do fim da mobilização, o reitor propôs, então, que outro prédio fosse construído no campus, com a promessa de apresentar um projeto em 60 dias e a partir daí buscar os recursos necessários. Ora, para quem vem sendo levado na conversa há tanto tempo e depois de ocupações de reitoria, termos de compromisso etc., viu tudo virar nada por determinação pura e simples do reitor, como aceitar tal proposta? Como trocar o sacrifício brutal a que vêm sendo expostos seus colegas em greve de fome e todos eles numa mobilização difícil e cansativa, por uma nova promessa de quem teve anos para efetivar uma decisão herdada da administração anterior e do conhecimento de todos, mas sempre criou desculpas e empecilhos para concretizá-la, simplesmente porque tem uma avaliação, exposta sem maiores considerações na coletiva, de que “não é conveniente” a presença permanente de alunos no campus?

O próximo passo do reitor, após o fracasso da reunião, foi convocar uma nova entrevista coletiva para anunciar a sua decisão de baixar uma resolução determinando que a casa para a moradia estudantil seja construída no campus. Ou seja, ele toma mais uma de suas decisões solitárias, impondo o que foi recusado na reunião como forma de “solução” do conflito e vai para a mídia apontar os estudantes como intransigentes. Tal decisão não soluciona nada, apenas agrava e acirra o impasse.

A intolerância às posições divergentes, tão arraigada nesta administração, teve um ponto alto de demonstração num manifesto assinado pela Pró-Reitora de Gestão e Finanças, onde o protesto dos estudantes é desqualificado como fruto de manipulações por entidades de classe e partidos políticos. O texto, postado no facebook no dia 3, pode ser classificado, sem nenhum exagero, de Manifesto da Truculência. Não demonstra nenhuma preocupação com a situação dos manifestantes, inclusive reclamando que um leito do Hospital Universitário estaria sendo ocupado para atender a um “capricho” (pasmem!) de um estudante. Fora isto, e em caixa alta, frisa que a folha de pagamentos pode ter problemas se continuarem os protestos na entrada do campus. A que se deve uma observação tão fora do objeto em discussão? Criar alguma antipatia dos professores, sempre apertados em seus rendimentos, ao movimento? E esta coleção de despautérios termina ainda falando em democracia e diálogo…

A questão que se coloca de forma cada vez mais urgente é se a comunidade universitária ficará refém da intransigência de um reitor acostumado a dar a palavra final sobre tudo ou se colocará firmemente ao lado dos estudantes, levando a administração a tratar o caso com mais realismo, reconhecendo as necessidades urgentes denunciadas e ampliando o acesso à moradia estudantil. É até ridículo afirmar que a UFMA possui mais de vinte mil alunos com matrícula presencial e apenas três casas velhas no centro da cidade como moradia estudantil, atendendo a menos de cem pessoas. Nos campi do interior do estado, os relatos indicam que a situação também é crítica.

Na ação desesperada de alguns estudantes, com todas as dificuldades que enfrentam para se manter na universidade, está a possibilidade de resgatar um mínimo da autonomia tão violentada nos últimos anos. Para isto, é preciso insistir que esta não é uma questão isolada, mas o fruto recorrente de uma maneira de administrar totalmente anacrônica. O impasse em torno da moradia estudantil diz respeito a todos, principalmente pela forma como foi gerado e tem sido encaminhado. Não é possível manter o cotidiano como se não estivesse acontecendo nada, enquanto alunos se acham acorrentados em greve de fome. Lavar as mãos diante disto é sancionar não só o autoritarismo sem freios da administração do reitor Natalino Salgado, mas aceitar passivamente a barbárie que se desenrola hoje dentro do campus da UFMA.

Enquanto a comunidade universitária ainda vacila, Daniel Fernandes foi recolhido ao ambulatório na entrada do campus e um terceiro aluno, Rômulo Santos, iniciou também a greve de fome. Será que vamos esperar o drama se transformar em tragédia?

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA