Um catálogo de responsa

A exuberante Bárbara Lennie em cena de "Maria (e os outros)". Reprodução
A exuberante Bárbara Lennie em cena de “Maria (e os outros)”. Reprodução

A plataforma de vídeo sob demanda Belas Artes à La Carte existe desde antes da pandemia de covid-19 e o isolamento social decorrente desta acabou por modificar e aprofundar as relações entre cinéfilos e uma das salas de cinema de rua mais charmosas e queridas do Brasil, o Cine Petra Belas Artes.

Dispondo atualmente de um catálogo com mais de 400 títulos nos mais variados gêneros, entre lançamentos e clássicos, a plataforma acaba funcionando também como uma espécie de curadoria para além de algoritmos.

São os casos das mostras “Volta ao Mundo: Espanha” e “Cine Clube Italiano”, em cartaz desde ontem (3) e hoje, respectivamente.

A primeira tem uma seleção de filmes da terra de Carlos Saura, cineasta homenageado em “Saura(s)” [Espanha, 2017, documentário, 86 minutos], de Felix Viscarret, constante do catálogo.

Em “Volta ao Mundo: Espanha” destaca-se também o ótimo “Maria (e os outros)” [Espanha, 2016, drama, 90 minutos], de Nely Reguera, que acompanha a trajetória da personagem-título (interpretada por Bárbara Lennie), entre cuidar do pai em tratamento de um câncer, o golpe do anúncio do novo casamento dele, conflitos com os demais irmãos, a ilusão do sexo sem amor, o trabalho em uma pequena editora e a escrita de um romance.

“Maria (e os outros)” é inédito em salas de cinema brasileiras e foi indicado ao Goya, mais importante prêmio do cinema espanhol, nas categorias melhor direção e melhor atriz (para a protagonista). É a estreia de Nely Reguera como diretora de longa-metragem; ela foi assistente de direção de “Perfume: a história de um assassino”, de Tom Tykwer, baseado no livro de Patrick Süskind. Lennie protagonizou também “Uma espécie de família” (2017), de Diego Lerman.

A edição deste mês do Cine Clube Italiano, parceria do Belas Artes à La Carte com o Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, apresenta “De volta para casa” [Itália, 2019, drama, 107 minutos], que poderá ser assistido até o dia 10 de junho por assinantes e não assinantes do serviço de streaming.

O filme de Cristina Comencini aborda, de maneira interessante, as relações de Alice (Giovanna Mezzogiorno e Beatrice Grannò na adolescência da personagem) com seu próprio passado, ao retornar, por conta do funeral de seu pai, à casa onde passou a infância e a adolescência.

A trama costura a insurgência de Alice contra a opressão do pai militar e sua rigidez excessiva na criação das filhas, embora a opressão (e, por que não dizer, violência) não estivesse apenas dentro de casa. Em seu retorno, ela reencontra o sombrio Marc (Vincenzo Amato), que obsessivamente acaba por embaralhar o jogo da memória, com lacunas, dúvidas e tensão.

Na próxima quarta-feira (9), às 18h30, haverá um bate-papo ao vivo sobre o filme, com o crítico de cinema Miguel Barbieri Jr. e o gerente de inteligência do Belas Artes Grupo Léo Mendes.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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