Arquivo mensal: março 2020

Os cinco melhores álbuns imaginários brasileiros de todos os tempos

É ideia que me persegue há algum tempo, e só agora a falta do que fazer na quarentena, por força da pandemia de coronavírus (covid-19), me permite por no papel – ou melhor, aqui nos bits e bytes da internet.

Falta do que fazer é modo de dizer: tenho conseguido sobreviver à reclusão forçada graças às minhas coleções de discos (reais) e livros (idem), além de serviços de streaming, da internet em geral e, obviamente, da companhia dela.

Mas há tempos penso nestes discos que muito provavelmente nunca serão gravados e consequentemente lançados. Se um dia forem, certamente farão a alegria de muita gente.

Uma vez, numa edição da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, dedicaram uma noite ao choro. Consultado sobre a programação, sugeri dois espetáculos, que acabaram acatados pela curadoria e aconteceram: a Praça Nauro Machado, na Praia Grande, foi palco de uma (quase) reedição do Recital de música brasileira, com Célia Maria (voz) e João Pedro Borges (violão); e do encontro, no mesmo palco ao mesmo tempo, dos grupos Instrumental Pixinguinha e Regional Tira-Teima. Lembro-me da história para dizer que certas ideias, às vezes, podem se concretizar, por mais malucas que possam parecer.

Capa imaginária de disco imaginário. Desenho de Zema Ribeiro
Capa imaginária de disco imaginário. Desenho de Zema Ribeiro

Arari Irará, de Tom Zé e Zeca Baleiro – O maranhense nasceu em São Luís mas passou a infância em Arari, anagrama de Irará, cidade natal de Tom Zé. A primeira é famosa por sua melancia e O abacaxi de Irará mereceu até música do baiano (faixa de Se o caso é chorar, de 1972). A capa do disco evoca a banana de Andy Wahrol na capa do clássico The Velvet Underground & Nico (1967).

Metonímia, de Odair Cabeça de Poeta e Paulinho Boca de Cantor – A figura de linguagem que toma a parte pelo todo, como ensinam os livros de gramática, intitula o álbum dividido pelos baianos, menos conhecidos do que deveriam. Cabeça de Poeta é parceiro de Tom Zé e com o Grupo Capote uniu forró e rock (forrock) antes de Alceu Valença; Boca de Cantor integrou (e integra, nas eventuais voltas que o grupo dá) os Novos Baianos.

Lances de aço (ou Bandeira de agora) – Em 1978, Papete e Chico Maranhão fizeram história ao lançar, pela gravadora Discos Marcus Pereira, discos considerados divisores de água na música popular produzida no Maranhão. O primeiro, com Bandeira de aço, em que cantava composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe; o segundo, com Lances de agora, de repertório completamente autoral. Lances de aço (ou Bandeira de agora) reúne Chico Maranhão e os quatro “compositores do Maranhão” (como grafado na capa de Bandeira de aço) em releituras das 20 faixas que somam os dois álbuns.

Os Novos Novos Baianos, de Pedro Baby, Betão Aguiar, Davi Moraes, Bem Gil e Moreno Veloso – Pedro Baby (filho de Baby do Brasil e Pepeu Gomes), Betão Aguiar (filho de Paulinho Boca de Cantor), Davi Moraes (Moraes Moreira), Bem Gil (Gilberto Gil) e Moreno Veloso (Caetano Veloso)  se unem em um disco coletivo, relendo criações de baianos como os pais, além de Tom Zé, Dorival Caymmi, Riachão, Batatinha, Roque Ferreira e João Gilberto.

Roberto Carlos canta Sérgio Sampaio, de Roberto Carlos – Dois dos mais ilustres filhos de Cachoeiro do Itapemirim (os outros são Rubem Braga e Luís Capucho), no Espírito Santo, unidos em um mesmo álbum. 26 anos após o falecimento do autor de Eu quero é botar meu bloco na rua, finalmente o Rei realiza o sonho do fã: é conhecida por todos a vontade de Sampaio ser gravado por Roberto, para quem compôs Meu pobre blues, que abre o tributo.

Leia Raul!

Raul Seixas: não diga que a canção está perdida. Capa. Reprodução
Raul Seixas: não diga que a canção está perdida. Capa. Reprodução

 

Parafraseando Belchior, o outro biografado de Jotabê Medeiros, não espere que eu lhe faça uma resenha como se deve. Ora, o autor de Raul Seixas: não diga que a canção está perdida [Todavia, 2019, 413 p.; R$ 69,90] é meu amigo pessoal, colega de Farofafá e não raro repito: meu maior professor de jornalismo fora da sala de aula.

Talvez isto devesse me afastar da tarefa de comentar seu livro. Mas não seria justo, tampouco honesto. O livro acaba por marcar, por assim dizer, o encontro de dois heróis meus, um no jornalismo e um na música. O elepê Maluco beleza, uma coletânea de hits daquele que acabou rebatizado pela faixa-título, foi um dos primeiros vinis de minha coleção (que o advento do cd acabou por fazer se perder no tempo) e ainda lembro de quando comprei Gita [1974] numa promoção da saudosa Lobras, com vinis vendidos a preços mais baratos justo por conta da popularização das bolachinhas lidas a laser.

Acompanhei as agruras, perrengues, negociações, bastidores, enfim, da escrita de Jotabê das biografias do cearense Belchior e do baiano Raul Seixas, tendo o privilégio de ser dos primeiros a saber que o jornalista se movimentava em seus por vezes pantanosos terrenos, mas perdendo o furo em nome da amizade.

Acompanhei o linchamento virtual de que Jotabê Medeiros foi alvo pouco antes do lançamento de seu novo livro, em novembro passado. Gente que sequer tinha lido a obra (pois ainda não havia sido lançada, frise-se) e passou a atacar o biógrafo por uma suposta acusação de dedo-durismo do biografado em relação ao escritor Paulo Coelho, seu mais famoso parceiro musical.

Demorei a mergulhar na leitura de Raul Seixas: não diga que a canção está perdida por saber, antecipadamente, tratar-se de livro que mereceria a atenção que eu queria dar em tempo quase integral, no que foi bem vinda a quarentena diante da ameaça mundial do coronavírus, pelo que a profecia do cantor e compositor tem sido sempre lembrada e O dia em que a terra parou quase alçada à condição de clichê.

Poderia dizer que Jotabê Medeiros reinventou, em seus dois livros do gênero, a escrita de biografias. Seus mais de 30 anos de jornalismo cultural – com foco na crítica musical – garantem um profundo mergulho na pesquisa e nas entrevistas com fontes, a checagem a que o simplificador control c control v nos desacostumou como leitores e não raro mesmo como jornalistas – há exceções, é claro, e o jornalista-escritor é uma delas.

Mas a reinvenção da escrita de biografias não se dá por isso, o que deveria ser obrigação de qualquer jornalista, escreva ele uma biografia de mais de 400 páginas ou uma resenha, como tento aqui, ou uma nota ou o que quer que seja. Se dá pelo fato de Jotabê Medeiros, com sua habitual escrita elegante, buscar equilibrar vida e obra, através da narrativa dos fatos daquela e da análise desta; sobre a primeira, não emite juízos de valor; sobre a segunda, pode eventualmente apontar desníveis onde o fã-clube enxerga apenas perfeição.

Se Roberto Piva, outro personagem cultural da predileção de Jotabê Medeiros, dizia que não existe poesia experimental sem vida experimental, e a vida de Raul Seixas foi marcada pela brevidade (morreu aos 44 anos, vítima de pancreatite decorrente do abuso de drogas lícitas e ilícitas) e intensidade – deixou obra fecunda, a provar o que quero dizer aqui e o autor demonstra, tanto biografando Raul quanto Belchior: uma e outra se cruzam, em seus altos e baixos.

Guardadas as devidas proporções, Jotabê Medeiros sabia dos riscos que correria ao encarar o fã-clube mais chato do Brasil (expressão que usei quando eu e Suzana Santos o entrevistamos para o Radioletra, na Rádio Timbira, e negada por ele): qual um Philippe Petit ao realizar sua façanha-obra de arte, o autor não recuou diante de temas mais espinhosos, no entanto sem correr outros riscos: ele nunca é deselegante ou sensacionalista em nome de “vender a porra do livro”, como acusou-o numa rede social o autor de O alquimista.

Existem por aí muitos livros escritos sobre Raul Seixas, fora e dentro da academia. Boa parte escorada na suposta perfeição do mito (aqui na acepção real do termo, é preciso explicar nestes tempos) construído em torno do raulseixismo. Quem já assistiu a pelo menos um dos tributos anuais apresentados pelo cantor Wilson Zara em São Luís – a série teve início em Imperatriz, em 1992 – sabe do que estou falando: gente fantasiada, envergando camisas com a efígie do astro ou bandeiras com o símbolo da Sociedade alternativa, louvando acriticamente seu legado (embora o momento seja de festa e a culpa não seja de quem presta a homenagem, realizada sempre em torno do aniversário de falecimento do ídolo).

Um dos méritos da biografia de Raul Seixas escrita por Jotabê Medeiros é mergulhar num ponto quase sempre esquecido de sua trajetória: seu lado hitmaker de brega, que acabou por inventar um estilo até hoje copiado. Não basta lembrarmos de faixas como Tu és o MDC da minha vida, Você ou Sessão das 10, a faixa-quase-título do hoje clássico Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, de 1971, o segundo disco em que Raul Seixas aparece cantando – após a estreia com Raulzito e Os Panteras [1969] – dividido com Edy Star, Miriam Batucada e Sérgio Sampaio.

É preciso dar os devidos créditos a hits absolutos, até hoje tocados em rádios Brasil afora: Ainda queima a esperança, sucesso de Diana, Doce doce amor, de Jerry Adriani, e Se ainda existe amor, de Balthazar: todos são composições de Raul Seixas – que à época assinava Raulzito (“Raul Seixas e Raulzito sempre foram o mesmo homem”, como cantou em As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor).

Jotabê Medeiros mergulha também no lado produtor do biografado: é importante conhecer o trabalho de Raul Seixas, antes da fama, em estúdios e gravadoras, que viria a ajudar a forjar sua identidade musical, levando-lhe a discos ou shows de Leno (da dupla com Lilian Knapp), Jerry Adriani e Odair José (todas as guitarras de seu primeiro disco são tocadas por… Raul Seixas).

Não hesita o autor em apontar também apropriações indébitas do ídolo, fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, cujo cruzamento explica um bom bocado de sua obra. O livro coloca também em seu devido lugar as relações de Raul Seixas com nomes como Sérgio Sampaio (Raul produziu e assinou arranjos em Eu quero é botar meu bloco na rua, estreia solo de Sampaio, de 1973, que fechava com a vinheta Raulzito Seixas, homenagem do capixaba ao baiano), Cláudio Roberto (parceiro em Maluco beleza e numa pá de composições, O dia em que a terra parou, de 1977, é integralmente assinado pela dupla), Jards Macalé (Raul participou do show coletivo Banquete dos mendigos, posteriormente lançado em elepê, produzido por Macalé no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro para celebrar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) e Marcelo Nova (não raro tido como oportunista, mas que acabou reerguendo Raul, dividindo uma série de shows antes da gravação do álbum derradeiro, A panela do diabo, de 1989, ano em que Raul viria a falecer, dois dias após o lançamento do disco), entre outros.

Não afeito a fofocas, Jotabê Medeiros não se furta de tocar em lendas criadas por Raul Seixas, como seu suposto encontro nos Estados Unidos com o beatle John Lennon ou o dia em que comeu lixo com um mendigo em Nova York (episódio cantado em Banquete de lixo), bem como as apresentações do roqueiro no garimpo em Serra Pelada, e a não decomposição do cadáver do artista – provavelmente em decorrência do consumo excessivo de antibióticos em vida –, percebida mais de 20 anos depois de seu falecimento, quando a família tentou transferir os restos mortais para uma urna.

Raul Seixas ganha uma biografia à altura do gênio que foi. Sem entregar o ouro (de tolo) ao bandido, Jotabê Medeiros revela, na introdução, a chave (de leitura e) de seu êxito na missão: “todo o meu esforço foi contar uma história, articular uma coreografia escorada no maravilhoso acervo de canções & riffs dessa figura já lendária, contraditória e deflagradora da cultura brasileira. Não me preocupei em lustrar a lenda, porque essa já é do tamanho da eternidade”.

Hoje as mulheres motenses têm mais o que comemorar

Um princípio de confusão, iniciado não se sabe por quem, mas logo contido pela polícia militar, no intervalo de Sampaio 0x1 Moto Club, que viria a ser o resultado final da partida, não tirou o brilho do espetáculo de ontem (7).

A bateria da Escola de Samba Marambaia deu a volta olímpica ao Estádio Castelão palco da manutenção da invencibilidade do Papão do Norte ante o Tubarão desde 2017, seguida por torcedoras do mandante e do líder do 100° campeonato maranhense de futebol.

As mulheres traziam faixas onde se lia “lugar de mulher é no campo e onde ela quiser” e coisas do tipo, que este torcedor que agora faz as vezes de repórter não anotou e cita de memória.

O ato político era a antecipação para o sábado das comemorações pelo Dia Internacional da Mulher, celebrado hoje (8), aniversário de minha mãe, Dona Solange, também motense, além de um recado explícito a quem porventura deseja manter o status quo machista, dentro ou fora do campo ou arquibancadas.

Desnecessária a postura de alguns poucos torcedores de ambas as equipes, que não entenderam nada e arremessaram objetos contra as mulheres, como a atestar a necessidade e a urgência deste tipo de atitude, o protesto, diante da grosseria de gente que, como diria o poeta Reuben, comprova a viagem no tempo: a presença maciça de cabeças do século retrasado neste.

Se por um lado também é positiva a presença de mulheres na função de bandeirinhas, juízes vestindo cor de rosa em alusão ao 8 de março foi uma tremenda bola fora da Federação Maranhense de Futebol (FMF), por razões óbvias, além da conversa para boi dormir da ministra bolsonarista Damares Alves: rosa não é cor de mulher, que escolhe a cor que quiser.

Após a rápida cobrança de falta, o gol de Naílson aos 25 minutos garantiu ao Moto Club a liderança isolada e invicta do campeonato maranhense. João Paulo, que substituiu o goleiro Saulo desde os 12 minutos do primeiro tempo, foi peça-chave para a manutenção do resultado, certamente um dos destaques da partida, ao lado do autor do tento solitário e de Ancelmo.

Após a derrota para o Fluminense e a consequente eliminação na Copa do Brasil, o Moto Club de São Luís volta as baterias para o Estadual, ao menos enquanto não começa a série D. O comentarista Petiković alertou numa mesa redonda televisiva após a partida da quarta-feira de cinzas: “o próximo desafio do Moto é contra o rival Sampaio e uma derrota nesse clássico às vezes pode custar o emprego do técnico”, cito de memória. A continuar assim, o técnico motense Dejair Ferreira e a torcida rubro-negra não têm com o que se preocupar.

As mulheres anteciparam o protesto e o Moto Club antecipou-lhes o presente e a alegria.

Mobgrafia e gastronomia se encontram em curso

Veruska Oliveira ensinará em duas turmas como melhorar aquela foto de comida feita com o celular

Receita e foto: Guta Amabile
Receita e foto: Guta Amabile

Com o advento dos smartphones a mobgrafia virou tendência, praticada mesmo por quem não sabe o significado do termo: fotografia realizada a partir de dispositivos móveis, como telefones celulares.

Parece um caminho sem volta, o que nem de longe significa apregoar a morte de máquinas fotográficas ou a extinção da profissão de fotógrafo – já incorreram neste erro os que disseram que a televisão ia matar o rádio e uma longa lista de etc.

Seja qual for a finalidade da prática da mobgrafia por usuários comuns – publicação em redes sociais ou envio para amigos e familiares em aplicativos de bate-papo, entre outros – a questão parece ser que em qualquer prática, profissional ou amadora, deve-se sempre buscar o aprimoramento.

Numa época de exagerada produção de imagens o que garante que esta ou aquela foto terá mais destaque (curtidas, comentários, compartilhamentos – afinal de contas, não é isso o que importa?) nas esquinas da vasta selva chamada internet?

É o que se propõe a refletir e ensinar a fotógrafa Veruska Oliveira, uma das mais respeitadas profissionais da área no Maranhão, responsável pelos ensaios fotográficos dos álbuns da cantora Alexandra Nicolas – Festejos (2013) e Feita na pimenta (2018) – e autora de, entre outros, Impressão do silêncio (2017), resultado de um curso em que ensinou a arte a pessoas surdas – o livro tem texto deste repórter, baita honra.

Em duas turmas – nos próximos dias 10 e 23 de março, das 10h às 15h – a fotógrafa ministrará o curso Fotografia de Gastronomia com Celular, com custo de R$ 120,00 (almoço incluso). As inscrições estão abertas pelo telefone (98) 98428-0140 ou instagram @veruskaoliveirafoto, no direct. Para participar, basta ter um celular.

“Nosso objetivo é mostrar que é possível fazer imagens melhores com os recursos que estão à nossa disposição. Não existem segredos e mistérios. Vamos aprender a ler as imagens de uma melhor forma, explorar iluminações, ângulos, perspectivas e composições de cena”, adianta ela sobre o conteúdo do curso breve.

Veruska não acredita que a mobgrafia seja uma febre, uma moda passageira. “A fotografia é apaixonante, sempre foi. Desperta sentimentos, sensações, encanta, traz lembranças. A fotografia não mudou tanto assim, ficou apenas mais acessível. Assim como os livros e a leitura quando mais pessoas foram alfabetizadas: sua mente se abriu para a linguagem escrita e o mundo da leitura e escrita. Estamos fotografando mais por que as ferramentas para registar a cena estão à mão”, acredita.

Aproveitando a conversa exclusiva que teve com Homem de vícios antigos, ela adiantou, sem revelar detalhes, novos projetos para 2020: “Vamos começar a fotografar diversos municípios do Maranhão. Faremos também projetos em parceria com outros fotógrafos profissionais e amadores buscando mostrar um novo olhar, além de uma exposição fotográfica, tema ainda em sigilo, envolvendo várias pessoas e profissionais. 2020 é um ano de integrar, expandir, reunir visões diferenciadas e aproveitar este novo momento que a fotografia vive”, revela.

Morre Ernesto Cardenal, o poeta da Hispano-América, aos 95

O poeta faleceu na tarde de domingo (1º.), após quatro dias hospitalizado. Sepultamento será sábado (7), em Solentiname

DO LA PRENSA, EM MANÁGUA, NICARÁGUA
TRADUÇÃO DE ZEMA RIBEIRO

O poeta e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal. Foto: Arquivo La Prensa
O poeta e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal. Foto: Arquivo La Prensa

Ontem (1º. de março) faleceu o poeta Ernesto Cardenal, aos 95 anos, às 15h06, após quatro dias hospitalizado por problemas respiratórios. Seu coração falhou.

O corpo será velado na funerária Monte de los Olivos e amanhã (3) haverá uma missa na Catedral de Manágua. O sepultamento será em Solentiname, sábado (7). A notícia foi anunciada pela poeta Gioconda Belli.

Ordenado sacerdote em 1965, Cardenal havia sido suspenso “A divinis” em 1985 pelo Papa João Paulo II por divulgar a Teologia da Libertação e fazer parte do governo sandinista.

Em fevereiro de 2019, 34 anos depois e durante uma crise de saúde, a Nunciatura Apostólica na Nicarágua informou ao poeta sobre a absolvição concedida pelo Papa Francisco. “O Santo Padre concedeu com benevolência a absolvição de todas as censuras canônicas” impostas ao poeta, dizia a carta.

Foi visitado pelo bispo auxiliar da arquidiocese de Manágua, Silvio Báez, e o padre Edwin Román, que realizaram atos de comunhão e bênçãos espirituais.

A missiva enviada pelo Papa Francisco veio a reconciliar Cardenal com o Vaticano. Com seu efeito o núncio apostólico na Nicarágua, Stanislaw Waldemar Sommertag, celebrou a primeira eucaristia com o poeta no seu leito de enfermo no Hospital Vivián Pellas.

O poeta trapense [religioso pertencente à ordem de Trapa] disse no momento que recebia “amorosamente” do papa Francisco a absolvição da “censura canônica”.

Pegadas de Cardenal: o poeta, o sacerdote, o político

Quatro vezes indicado ao Prêmio Nobel: Em 2005 Cardenal foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. Então em 2007 [foi indicado] pela Sociedade de Escritores do Chile, e o laureado poeta Raúl Zurita deu seu respaldo à candidatura.

Em 2010 foi proposto pela Sociedade Geral de Autores e Editores (SGAE) da Espanha. Mais de 150 poetas do mundo reunidos no VI Festival Internacional de Poesia de Granada, na Nicarágua, redigiram uma carta de apoio. A mais recente proposta ao Nobel foi realizada pelo ex-presidente uruguaio José Mujica, em 2018.

Obra premiada: Antes de receber o Prêmio Ibero-americano de Poesia Pablo Neruda (2009), Cardenal assegurava que era o poeta menos premiado. À época somente era possuidor do Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão (1980) e o Prêmio Ondas Mediterrâneas (2005).

Três anos depois sua vida e sua obra foram reconhecidas na Espanha. O poeta trapense foi agraciado com o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana (2012). No ano seguinte o governo francês o condecorou com a ordem Legião da Honra em grau oficial.

E no fim de 2018 [foi agraciado] com o Prêmio Internacional Mario Benedetti, que o poeta dedicou à criança mártir Álvaro Conrado, assassinado durante os protestos contra o regime de Daniel Ortega. O México lhe rendeu homenagem em seu 90º. aniversário de nascimento, entre outros a que o poeta não pode assistir.

Teologia da Libertação

[Ernesto Cardenal] Realizou estudos de Literatura na Universidade Nacional Autônoma do México, depois em Nova York, Espanha, Suíça e Itália.

Participou da chamada Revolução de abril de 1954, contra o ditador Anastasio Somoza Debayle. Se retira da atividade política e ingressa na abadia trapense de Nossa Senhora de Getsemani (Kentucky, Estados Unidos).

Conhece seu maestro, o monge e escritor Thomas Merton, a quem o poeta considerou como seu “pai espiritual”. Em 1959 continua seus estudos de teologia em Cuernavaca, México.

É ordenado sacerdote em Manágua em 1965. Funda a comunidade de Solentiname. Leva vida monástica e promove as artes naif entre os ilhéus.

Escreve o celebrado livro O evangelho de Solentiname. Junto a Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff e Jon Sobrino, entre outros, promove a Teologia da Libertação.

Durante sua viagem ao Chile faz amizade com o presidente Salvador Allende. Crítico do somozismo, chega a militar na luta da Frente Sandinista de Libertação Nacional, promove a solidariedade com a revolução no México, América Central, Cuba, Alemanha e em outros países europeus.

Com o triunfo [da Frente Sandinista de Libertação Nacional] em 1979 é nomeado Ministro da Cultura, para ser então o primeiro a ocupar este alto cargo na Nicarágua. Promove a exteriorização e oficinas de poesia. Em décadas anteriores do somozismo só existiam extensões de cultura.

A repreensão de João Paulo e a suspensão “A divinis”: Em 1983, João Paulo II visita a Nicarágua. Em sua chegada ao aeroporto repreende-o drasticamente enquanto Cardenal permanece ajoelhado.

O Papa o questiona por divulgar a Teologia da Libertação e por integrar o governo sandinista. A notícia ganha o mundo. Fato que ainda é lembrado quando se menciona seu nome na imprensa internacional.

Em 1984, João Paulo II proíbe “A divinis” a Cardenal de exercer o sacerdócio se continuar como ministro da cultura do governo sandinista. Como os sacerdotes, seu irmão Fernando Cardenal, Miguel D’Escoto e Edgar Parrales. Em janeiro de 1985 é suspenso legalmente. Em 2014 o Papa Francisco ordenou a suspensão do castigo.

Três anos depois, em entrevista ao jornalista argentino Enrique Vázquez, disse que somente D’Escoto foi reconciliado com a Igreja. Mas que nunca lhe tiraram a suspensão. Em fevereiro de 2019, Cardenal recebe, através da nunciatura em Manágua, a carta de perdão papal.

Abandona seu cargo de ministro, depois a FSLN: Em 1987 abandona o cargo por fortes controvérsias sobre política cultural com a poeta Rosario Murillo, secretária geral da Associação Sandinista dos Trabalhadores da Cultura (ASTC), e atual vice-presidente da Nicarágua.

Continuando com seu trabalho cultural, nos anos 1990 funda com outros o Centro Nicaraguense de Escritores (CNE), promove os livros e suas esculturas. E no final daquela década, com o austríaco Dieter Schönherr, funda a Casa dos Três Mundos, em Granada.

Em 1994 se retira da Frente Sandinista em protesto contra o autoritarismo de Daniel Ortega e dá seu apoio ao Movimento Renovador Sandinista, onde figuram escritores de renome internacional como o ex-vice-presidente Sergio Ramirez, autor do livro Adiós muchachos, e a poeta Gioconda Belli, do livro El país bajo mi piel: Memorias de amor y de guerra. Nas últimas décadas têm sido críticos do binômio Ortega-Murillo.

“Sou um perseguido político, tenho uma condenação de cárcere de um juiz de Daniel Ortega e, ademais, o congelamento de minhas contas bancárias”, indicou em declarações à imprensa em meio a uma visita à capital mexicana por ocasião da publicação do terceiro volume de sua Poesia Completa (Universidad Veracruzana, 2008).

Em 2007 o poeta viajou ao México e conversou com subcomandante Marcos do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Foi convidado para o XII Encontro Hispano-americano de Escritores Horas de Junho e ofereceu um recital de seu livro Polvo de estrelas, na Universidade de Sonora.

De suas obras poéticas e memórias

Nos dois últimos anos publicou, por ocasião de seus aniversários de 93 e 94 anos: Así en la tierra como en el cielo (2018) e Hijos de las estrellas (2019), ambos editados pela Anama.

Em sua juventude, em 1952, por seu poema Con Walker en Nicaragua, o poeta ganhou o prêmio do Centenário de Manágua. No mesmo ano fundou a editora El hilo azul.

Anos depois publica por diferentes editoras: Hora 0 (1957), Epigramas (1961), Salmos (1964), Oración por Marilyn Monroe y otros poemas (1965), Homenaje a los indios (1969), Oráculo sobre Managua (1973), Los ovnis de oro (1988), Cántico cósmico (1989), El telescopio en la noche oscura (1993), Poesia Completa Tomo I y II (2007), Versos del pluriverso (2012), Hidrógeno enamorado (2012) e Somos polvo de estrellas (2013). De suas memórias: Los años de Granada (2001), Vida perdida (2003) e La revolución perdida (2004).

Além de outros títulos com temas de religião, democracia e paz: Ansías y lengua de la poesía nueva nicaraguense (1948), Vida en el amor (meditaciones) (1970), El Envangelio em Solentiname (1975), La paz mundial y la revolución em Nicaragua (1981), Democratización de la cultura (1982) e Los campesinos de Solentiname pintan el Evangelio (1982), entre outros.

Cardenal também cultivou a escultura

De sua obra o poeta Julio Valle-Castillo disse que sua “arte provém do povo, passa pelas mãos de Cardenal e volta ao povo”.

Por seu lado, a historiadora da arte Maria Dolores Torres: “Ernesto Cardenal destaca a linha de figuração das peças, sua estilização e simplificação das formas naturais”.

Desde 1956 até uma recente exposição coletiva na galeria Códice em 2017 suas obras têm sido expostas na Unión Panamericana (Washington D.C.), Galeria Tagüe, Feira Mundial V Centenário, Sevilha (Espanha), Centro de la Raza, Seattle (Estados Unidos), Galeria Gerhard, Zurique (Suíça), Viena (Áustria), OEA (Washington D.C.), Museo Galería Josefina, Manágua e no Teatro Nacional Rubén Darío, na exposição Fin de Siglo.