Arquivo mensal: junho 2017

A maturidade de Luana Carvalho

Sul. Capa. Reprodução

 

Sul e Branco são o par de discos recém-lançados por Luana Carvalho, que surgem juntos, em formato de cd duplo, mas funcionariam bem se lançados independentes entre si. Aliás, o conjunto ultrapassa os limites do formato álbum, em que se convencionou embalar um punhado de canções.

Branco. Capa. Reprodução

Sul e Branco são verdadeiros tratados artísticos, extrapolando o universo musical. Por seus encartes – com projetos gráficos e ilustrações de Diego Limberti – comparecem textos da própria Luana Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Lenine, desenho de André Dahmer, artes plásticas de Tomás Cunha Ferreira, Kammal João, e poemas de Alice Sant’Anna, Eucanaã Ferraz, Sophia de Mello Breyner Andresen e António de Souza.

A cantora e compositora é filha de Beth Carvalho, mas a não ser pelo sobrenome que carrega, poderia prescindir do cartão de visitas. Isto é: não deveria ser necessário dizer de quem é filha para que se preste atenção ao talento. Não que seja crime ou pecado filha de peixe, peixinho ser: Luana Carvalho desponta madura. Entre outros filhos ilustres que comparecem aos discos estão João Cavalcanti (filho de Lenine), Davi Moraes (filho de Moraes Moreira) e Moreno Veloso (filho de Caetano), herdeiros cujos talentos também vão além do DNA.

“Tudo é samba” e seus trabalhos têm os dois pés no gênero, que moderniza sem desconfigurar. Luana canta e toca violão, escoltada pela banda base formada por Pedro Sá (guitarra, contrabaixo), Domenico Lancellotti (bateria, percussão, teclado e mpc) e Moreno Veloso (percussão, violoncelo), que com ela assina a produção fonográfica de Sul – e sozinho de Branco, disco em que a eles se somam Alberto Continentino (contrabaixo), Alexandre Caldi (flauta), Altair Martins (trompete), Bebê Kramer (sanfona), Bruno di Lullo (contrabaixo, teclado), Davi Moraes (guitarra), Lucas Vasconcellos (guitarra, contrabaixo), Marcelo Caldi (sanfona), Marlon Sette (trombone), Pedro Luís (violão e percussão), Rafael Rocha (bateria e mpc) e Ricardo Dias Gomes (contrabaixo e wurlitzer).

Sul é completamente autoral – ela assina sozinha suas sete faixas. Em Branco, à sua lavra juntam-se Lucas Castello Branco (Garupa, parceria com Luana Carvalho), Pedro Luís (Luz do âmbar e Indivídua, parceria com João Cavalcanti), José Chagas (Palavra acesa, poema musicado por Fernando Filizolla), Domenico Lancellotti (Ar para jantar, parceria com André Dahmer), Caetano Veloso (Força da imaginação, parceria com D. Ivone Lara, que participa da faixa cantando e abençoando). Gravados em Nova York, ainda há espaço para a brasileiríssima Luana Carvalho esbanjar latinidade na regravação de Paloma negra (Janney Marin/ Joaquin Aguirre/ Tomas Mendez/ Julio Reyes).

Por e-mail, Luana Carvalho conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Atenção, produtores!: ela começa a conversa revelando sua vontade de voltar ao Maranhão, que muito visitou acompanhando sua mãe em turnês na infância. Suas respostas só reafirmam o que atestam seus discos: é artista que já nasceu pronta. Mesmo quando aparentemente se esquiva, não desconversa: ela desconcerta.

Foto: Tati Domais

Sul e Branco são dois discos independentes e diferentes entre si, que funcionariam se lançados separadamente. Por que a decisão de lançá-los como um álbum duplo?
Primeiro quero dizer que estou bastante feliz com esta entrevista. O Maranhão é um dos estados que mais gostava de ir quando acompanhava minha mãe em turnês na infância. Quero muito voltar aí. À pergunta: porque são dois organismos diferentes com o mesmo sangue. O Sul não existiria sem o Branco. Não no sentido cronológico natural de um trajeto, mas porque foi feito em estado de espera: enquanto o Branco corria pelas burocracias. Foi ouvir o Branco que me levou aos vazios onde construí o universo de composições do Sul. E por ser mais íntimo e o mais próximo de mim agora, era justo que chegasse primeiro. O Sul é o convite. O Branco é o endereço do baile.

Teus discos, aliás, ultrapassam o conceito de álbum, ao propor um diálogo entre diversas formas de expressão. Além da música estão lá a poesia, a prosa, as artes plásticas. Num tempo em que fala-se tanto na derrocada da indústria fonográfica e na morte do disco físico, é ousado valorizar tanto este suporte?
Não ouso ousar. Porque não acredito em rupturas. Acho que tudo é fluxo e contínuo e já foi visto em algum lugar. É cíclico: o preto e branco levam ao excesso de cores e brilho que levam ao preto e ao branco, o objeto leva à nuvem que leva ao objeto. Hoje prefiro o preto e o branco, amanhã não sei. Quanto ao disco físico, preciso do equilíbrio dos sentidos; ouvir o disco, tocar no disco, o cheiro do disco, o manuseio das páginas de um encarte. Também adoro poder dar dois ou três cliques e ouvir um álbum inteiro ou fragmentado, não deixa de ter tato e há um desafio interessante aí. Tanto pro artista quanto pro ouvinte. Portanto não se trata de saudosismo. Mas o objeto ainda me toca, me dá a sensação de todo da obra, de estar mais próxima do que realmente queria o artista com aquele trabalho incluindo o peso, a textura. As coisas têm vontade. Gosto de me debruçar sobre as coisas, reverenciá-las. Toda vez que me refiro ao meu disco acabo dizendo livro. Talvez pelo desejo de um dia escrever um. Acho que a necessidade de aferir à coisa algum valor equivalente pode ser a causa deste ato falho. O disco Livro [1997] do Caetano tem um dos melhores títulos que já conheci, pena que não pensei nisso antes [risos].

Qual o peso e a responsabilidade de ser filha de Beth Carvalho?
Tem cinco minutos ou a vida inteira?

E de ter a bênção de Dona Ivone Lara?
Isso é o tipo do acontecimento que faz diferença todos os dias naquele instantinho em que abrimos os olhos e revemos a vida inteira. É uma honra que carrego no dorso aonde quer que eu vá.

Em algumas músicas você evoca a Mangueira, escola de sua mãe, mas o álbum é tingido do azul e branco da rival Portela. De que torcida você faz parte?
Torço pelo carnaval.

Sua mãe é uma das maiores cantoras do Brasil em todos os tempos, mas quase nunca entra em qualquer lista do tipo, por ser rotulada de sambista. A seu ver, apesar dos avanços e da aceitação social que o gênero passou a ter ao longo dos anos, ainda há muito preconceito?
Como diriam o João Gilberto e o Pedro Sá: tudo é samba. Mas infelizmente nem todo mundo tem a sensibilidade musical de um João Gilberto ou de um Pedro Sá. A subestimação do samba é uma implicação sociopolítica. Muito mais complexa do que sou capaz de analisar. O João costumava dizer que minha mãe é a maior cantora do Brasil. Era o que ele dizia. E como também disse Augusto de Campos: João é João, nenhuma perda. Por acaso hoje, quando escrevo, é aniversário dele [10 de junho]. Viva o samba! Viva João!

“Se minha mãe mandar eu obedeço”, você canta em Oxum, minha mãe. Era inevitável ser artista? Gostaria que você comentasse um pouco o ambiente familiar e esta escolha.
Não era inevitável pelo ambiente familiar, podia ter desviado. É inevitável porque é o que mais gosto de fazer dos meus dias: música de toda poesia que percebo no mundo.

O que sua mãe achou dos discos?
Acho que ela gostou muito dos discos. Sinto o respeito de uma veterana pelo meu trabalho, mais do que uma reação amorosa de mãe. Isso me dá muita alegria. Mas aí só você perguntando a ela.

Em Sul e Branco você se cerca de uma geração relativamente nova, talentosíssima e onipresente: os caras tocam com todo mundo. Como se deu essa escolha e como foi gravar com eles estes dois discos?
Foi fácil e assustador. Porque os caras realmente entenderam tudo e isso facilita muito. E os caras realmente entenderam tudo e isso assusta mesmo. Muito por causa do Moreno, que soube me ouvir e conduzir tudo com profunda sensibilidade poética. Ele me emprestou a turma e eu nunca mais saí do pátio. Mas o caminho é mais complexo do que parece. Embora sejam realidades aparentemente próximas à minha, eu vim de longe para encontrá-los. E ainda bem que o fiz.

Suas releituras têm bastante personalidade, você imprime algo de autoral nas regravações que faz. É o caso, por exemplo, de Palavra acesa, do paraibano José Chagas, que acabou se tornando maranhense, já que foi aqui que viveu a maior parte de sua vida. Por que a escolha? Você conhece a obra de Chagas além desta música?
Obrigada! Conheço e amo a obra de Chagas, sim. “Violeiro sem viola”. Homem da palavra de repente. Compartilhamos a paixão por telhados e ripas: o interesse no que acontece sob eles. Palavra acesa é um poema lindíssimo! Na versão musicada seus autores parecem ter sentido o poema – como dizia Chagas sobre as pessoas diante do mundo – antes de compreendê-lo. Por isso a beleza da canção. Sinto muito os movimentos das horas antes de compreender. E a música que faço é só por causa da poesia, no sentido amplo do poético; aquele avião que passa e meu dia nunca mais será o mesmo, o cheiro impregnante da tangerina e do café, a plataforma que se ergue no mar sem que eu tenha me dado conta, os instantinhos. Este grande versificador paraíba-maranhense foi fundo na humanidade, sabia a poesia do mundo apesar do poema, a poesia que está além do poema, e chegou a dizer que haverá um dia em que não haverá mais o poema, porque só a música é verdadeiramente necessária. Não sei se há razão nisso, mas certamente há poesia. E onde houver poesia, minha música será possível.

Talvez seja cedo para falar em próximo disco, mas quando formos falar dele devemos nos referir ao segundo ou terceiro disco de Luana Carvalho?
Como vocês preferirem!

*

Ouça Indivídua (Pedro Luís/ João Cavalcanti):

Um escritor de grosso calibre

Calibre 22. Capa. Reprodução

 

Aos 92 anos de idade, Rubem Fonseca permanece um dos mais monumentais escritores brasileiros em todos os tempos, posto a que para ser alçado bastaram seus três primeiros livros de contos, Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965) e Lúcia McCartney (1967).

O mineiro, radicado no Rio de Janeiro desde os oito anos de idade, fez de tudo na vida e na literatura: foi office-boy, escriturário, revisor de jornal e comissário de polícia, de onde certamente retirou muita matéria-prima para seus contos; na literatura, escreveu ainda romances, novelas, ensaios, roteiros e fez traduções, além de ter sido adaptado ao cinema e televisão.

Em Calibre 22 [Nova Fronteira, 2017, 201 p.] reaparecem elementos já consagrados de sua prosa: violência, sexo, ironia, bom humor e enciclopedismo, além do personagem Mandrake, que protagoniza o conto que intitula e encerra a coletânea, em que o consagrado detetive investiga uma série de assassinatos, na mais longa narrativa do volume.

Em Fantasmas, Fonseca tira onda com psicanalistas (depois se redime, mais ou menos, em Satiríase e impotência); em Um homem de princípios, um assassino começa a história afirmando: “Não gosto de matar barata, nem piolho, nem seres humanos. Não mato por ódio, ciúme, inveja, medo”, e termina: “Eu tenho os meus princípios, já disse. Não mato mulher, criança e anão. E sou honesto”.

O politicamente incorreto aparece aqui e ali, mas Rubem Fonseca não é seu apologista: ele apropria-se da realidade para fazer sua ficção, merecidamente uma das mais festejadas da literatura brasileira. Há contos em que o protagonista mata um homem que batia em sua esposa (Homem não pode bater em mulher) – “Ela sorriu para mim”, termina – e um homofóbico (O morcego, o mico e o velho que não era corcunda, partes I e II).

Em Outro anão, volta a tirar onda do próprio ofício, ao afirmar ironicamente, antenado com as novas tecnologias: “É mentira também o que você ouve no rádio, na televisão, lê no jornal, na revista, no zapzap, é tudo mentira”. Mas noutro conto o escritor afirma: “Sou do tempo em que as pessoas gostavam de ópera, de foder e de sanduíche de mortadela” (abrindo Ópera, foder e sanduíche de mortadela).

Rubem Fonseca domina plenamente a linguagem. Em Camisola e pijama, volta aos embates entre escritor e editor, outro tema caro à sua prosa. Em O presente de Natal uma mulher consulta-se com uma mãe de santo “formada” por Bita do Barão, em Codó, interior do Maranhão – novamente a realidade se cruza com a ficção em sua obra, em que diversos protagonistas, como ele, chamam-se “José” – personagem que intitulou o livro do autor, de 2011, mais ou menos autobiográfico –, também prenome de Mandrake, não a única autorreferência à sua vida e obra em Calibre 22.

Com três Jabuti na bagagem, dois APCA, um Casa de Las Américas, um ABL de Ficção, um Camões, um Juan Rulfo e um Machado de Assis, Rubem Fonseca não precisa(va) mais provar nada para ninguém, nem escreve para angariar outros prêmios. Mas os leitores deste escritor de grosso calibre são premiados a cada volume que nos faz chegar às mãos.

Wilson Marques autografa novo livro infantil hoje

Arte e manhas do jabuti. Capa. Reprodução

 

O novo livro de Wilson Marques já começa com um trocadilho: em Arte e manhas do jabuti [Autêntica, 2017, 47 p.] ele reescreve seis contos tendo o quelônio como protagonista, todos já recolhidos anteriormente pela tradição oral de diversas culturas.

O maranhense remonta ao trabalho de folcloristas importantes como Câmara Cascudo e Silvio Romero, centrando forças na cultura tenetehara, dos indígenas guajajara, habitantes da Amazônia maranhense.

Se antes de escrita a palavra (já) era dita, as “arte e manhas” do título podem ser lidas como “artimanhas”: o jabuti sempre vence, numa demonstração de que mais vale a paciência e a esperteza, que a força e a velocidade.

É um livro infantil, mas é impossível não pensarmos em metáforas políticas, no momento conturbado por que passa o Brasil. O jabuti é o povo, os governantes são seus adversários, raposas e tubarões cujo desejo é unicamente perpetuar-se no poder em busca da manutenção de privilégios (para si mesmos).

Não é um manual infantil da espécie “como se dar bem”, mas também leva a refletir que os mais fracos, os oprimidos (as minorias, para seguirmos na metáfora política) também merecem vez e voz.

“Jabuti trepado ou foi enchente ou foi mão de gente”, diz o dito popular, prisma por que também podemos observar o alçar de figuras nefastas a postos-chaves de nossa selva republicana.

Em seis contos, Wilson Marques passeia por histórias mais e menos conhecidas, como a festa no céu e a corrida do jabuti, aqui com um veado – na versão mais conhecida a aposta é com um coelho (ou lebre).

Este é um grande trunfo: com modificações aqui e acolá, o autor preserva a essência dos contos, acrescentando-lhes novos detalhes e personagens, isto é, dando seu toque pessoal a histórias seculares.

O livro é ilustrado por Taisa Borges e tem apresentação de Marco Haurélio, com quem Wilson Marques divide a autoria de Contos e lendas da terra do sol. Texto e imagem dialogam em mais um prazeroso exercício de atrair a gurizada para o hoje tão menosprezado prazer de ler, missão que o autor assumiu para si já há algum tempo, através de Touchê, seu personagem mais famoso, com que agora, tem percorrido municípios do interior, com uma caravana literária e teatral.

Arte e manhas do jabuti tem apoio cultural do Sesc e é publicado pela mineira Autêntica, dois selos de qualidade que atestam a da obra de Wilson Marques que ora temos em mãos. O primeiro, responsável pelo recente lançamento de João, o menino cantador, biografia-mirim de João do Vale (1934-1996) escrita pela jornalista Andréa Oliveira; a segunda, pela recolocação do monumental Campos de Carvalho (1916-1998) em circulação.

Em tempo, não esqueçamos que jabuti é o bicho que dá nome a um dos mais importantes prêmios literários do Brasil.

Serviço

Wilson Marques autografa Arte e manhas do jabuti hoje, a partir das 18h, na livraria Leitura (São Luís Shopping), com apresentação do grupo Xama Teatro.

Amor pop

Beijo estranho. Capa. Reprodução

 

Não faz muito tempo, amigos, namorados e crushes – antes de a expressão existir – trocavam fitas cassetes com o que mais gostavam em termos de música. Hoje trocam links do youtube em profusão, através do whatsapp. Saudosistas podem afirmar que não há charme nessa instantaneidade toda, que bom mesmo era esperar sabe-se lá quanto tempo pelo grito do carteiro no portão. Neste caso, pouco importa o meio, vale mais a mensagem: o mais importante é o verdadeiro amor, como diria o compositor em título que, escrito pelos muros, acabou virando hit de redes sociais.

Tema mais cantado em todos os tempos, em prosa, verso e música, o amor é a espinha dorsal de Beijo estranho [Deck, 2017], novo álbum do Vanguart, banda mato-grossense formada por Helio Flanders, Reginaldo Lincoln, David Dafré, Fernanda Kostchak e Julio Nganga. No disco a banda conta com o reforço de Loco Sosa (bateria), além de diversas participações especiais, entre as quais destacam-se Jorge Helder (contrabaixo) e Thiago França (Metá Metá, sax e flauta em Quando eu cheguei na cidade).

O amor é pop e esparrama-se por cada faixa de Beijo estranho, longe da pieguice. São baladas facilmente assobiáveis, radiofônicas. Todas as faixas são assinadas por Flanders e Lincoln, sozinhos ou em parceria.

“Meu coração queimou devagar/ senti uma vontade subindo do chão”, a faixa-título (Flanders) abre o disco. Em Todas as cores (Lincoln), aconselham: “não vá se converter acreditando em mágoa/ não vá ter medo de se apaixonar primeiro”. O clássico Folhas de relva é citado em Felicidades (Flanders/ Lincoln): “o inferno é bom/ e o teu céu um sangue roxo/ quente eu sinto a tua relva/ Whitmânicas visagens!/ Não tenho medo”. O medo de amar é o medo de ser livre, diria outro compositor.

E o meu peito mais aberto que o mar da Bahia (Flanders/ Lincoln) é um título que diz tudo. Como o amor, não carece de explicação. “Quando eu chego em casa e você não está/ penso em te procurar mesmo sabendo que vais voltar/ se um dia foi diferente/ é porque tudo era diferente/ o teu amor me pôs de pé”, diz a letra, em melodia solar, quente. Como o amor.

De Beijo estranho poderíamos seguir transcrevendo trechos de letras. Mas as que trouxemos até aqui bastam para dar uma ideia de sua abordagem romântica, apaixonante – quem não conhecia a banda logo se toca do tempo perdido.

Os tempos são líquidos, o amor não. O Vanguart durará mais que as mensagens trocadas no whatsapp – o efeito de sua música nos corações apaixonados também. A dica é: para quem quer reconquistar um antigo amor, conquistar um novo amor ou se declarar para o crush, use Vanguart sem moderação.

Para quem não está convencido, um último exemplo: “Ardo/ sou um trem desgovernado/ que parte/ faiscando as tuas estradas/ sem pausa/ te conheço mais a fundo/ com calma/ tua risada, minha paixão/ me bate, queima, aperta, cheira, marca/ eu preciso de você/ (algo me faz lembrar, algo me faz querer)”, diz a letra de Eu preciso de você (Flanders).

Se o antigo compositor baiano já dizia que “quem não gosta de samba/ bom sujeito não é” e Beijo estranho não te ajudar na conquista, é melhor desistir: não vale a pena quem não gosta de Vanguart.

*

Veja o clipe da faixa-título:

Herança portuguesa

O poeta Celso Borges faz recital amanhã em Lisboa, Portugal. Foto: divulgação

 

“A poesia atravessa o Atlântico e eu tô nesse barco junto com Assis Medeiros”, postou o poeta Celso Borges em uma rede social. Descendente de portugueses, ele está em Portugal a passeio, realizando um sonho, conhecendo parentes e, como a poesia não descansa, aproveitará para realizar um recital amanhã (13), na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, lançando seus mais recentes trabalhos: o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria, com ilustrações de Diego Dourado.

Na ocasião Celso Borges será acompanhado do também jornalista, compositor, cantor e instrumentista Assis Medeiros, que lança seu mais recente disco, Lamina.

Sobre a viagem e o recital, Celso Borges conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Tua ida a Portugal é a realização de um sonho e um (re)encontro com parentes, ancestrais, alguns dos quais você nem conhecia. Fale um pouco desta motivação em atravessar o oceano pela primeira vez.
Na verdade eu já atravessei o oceano uma vez, em 1988, quando passei 25 dias fazendo um curso na França. Na volta, lembro que o avião fez escala em Lisboa, mas não descemos e fiquei olhando com a vontade presa no coração. Agora, finalmente poderei visitar a terra de meus pais e avós. Meu pai é de Braga, norte do país, e minha mãe do Porto. Vou ver tios e primos que não conheço a não ser por fotos. E andar pelo país, sentir o cheiro, o vento, a claridade e a beleza da sonoridade de uma língua que fala e canta diferente ali, com seu sotaque específico, sua música que cresci ouvindo.

Esta tua herança portuguesa já era apontada em músicas como Aldeia, gravada por Nosly, São Luís, por Claudio Lima, e na homenagem que te fizeram Sérgio Natureza e Kléber Albuquerque em Devoluto. Apesar da proximidade linguística com Portugal, conhecemos mais astros ingleses e americanos que nomes portugueses em qualquer arte. Parece que paramos em Roberto Leal. Você de algum modo acompanha a cena? Que nomes destacaria?
A poesia portuguesa do século 20 é fantástica. Acaba que a gente fica sabendo mais de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e alguns poucos do modernismo. Pessoa esmaga os demais, quase como o papel que Drummond representa na poesia brasileira. Mas isso vem mudando aos poucos. A gente já vê, aqui e ali, uma preocupação em conhecer mais os portugueses. Destacaria, por exemplo, Herberto Helder, que morreu há uns dois anos; Ruy Belo, Jorge Sena, Alberto Pimenta, António Rosa, Alexandre O’Neill. Na música conheço bem Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa, Ruy Veloso e a Carminho, que é uma fadista genial. Isso sem falar nos africanos, que são muitos também e que desconhecemos quase completamente. Precisamos aumentar esse diálogo, esticar essa língua linda que é o português.

Em recente recital na SMDH [Sociedade Maranhense de Direitos Humanos] você afirmou que “vive por causa da poesia”. Em uma viagem familiar e turística você aproveita para realizar um recital de lançamento de seus mais recentes trabalhos, o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria. É uma prova daquela afirmação, não é?
A poesia é minha combustão, meu oxigênio, o que me move. Sem a arte e a literatura seria impossível suportar a realidade. E isso está dentro de mim mesmo quando a rotina e as obrigações cotidianas me mordem covardemente.

No recital de lançamento você será acompanhado por Assis Medeiros, músico e parceiro que lança seu disco Lamina, em terras portuguesas. Como vai ser este encontro no palco e qual a base do repertório?
Assis é um parceiro raro, que toca, canta e compõe bem. Dividir com ele essa experiência no palco é uma honra. Vou ler entre 12 e 15 poemas, acompanhado por suas intervenções. Em outra parte do recital, A posição da poesia é oposição, que deve durar cerca de 30 minutos, ele vai cantar duas ou três canções, uma delas um poema de Augusto dos Anjos que ele musicou.

Arte: Diego Dourado/ Divulgação

Beleza silenciosa para deleite e superação de preconceitos

Divulgação

 

Se uma imagem vale mais que mil palavras, como diz o ditado, quantos sinais de Libras valerão uma imagem?

Há algo de inestimável na escrita da luz das pessoas surdas que puseram seu talento e sua arte à prova nesta Impressão do silêncio, muitos/as deles/as envolvendo-se com fotografia pela primeira vez.

A proposta em si já foge do óbvio e os fotógrafos foram além, revelando detalhes que poderiam passar despercebidos a olhares menos atentos. Deus e o diabo moram nos detalhes, para quem crê num ou noutro. Ou em ambos. Ou em nenhum.

Alcântara, Raposa, São José de Ribamar e São Luís são vistas por outros ângulos. Pedra de cantaria, paralelepípedo, piçarra, asfalto, cimento e mar, entre isto e o céu infinitas possibilidades.

Gente, paisagem, religiosidade popular, patrimônio cultural, gastronomia. Tudo é inspiração e tema para o olhar atento e sui generis dos artistas aqui revelados e reunidos.

Em tempos de instagram e da instantaneidade de um narcisismo em que a exposição e o número de likes quase sempre são preocupações maiores que a qualidade da fotografia, este livro prova que fotografar é bem mais que apertar um botão.

Eternizar o efêmero, uma das traduções da arte fotográfica. O resultado poético que temos em mãos é fruto de trabalho e persistência. Temos aqui 15 novos artistas da fotografia – é mais coerente falar em artistas que em profissionais, embora eles estejam aptos para atuar no mercado – revelados pela disposição de Veruska Oliveira em ensinar o que sabe e aprender o que muitos de nós ainda precisamos: deficiência não é um limite. Ao menos não deveria ser.

Portanto, além do deleite, além de apreciarmos a beleza e a diversidade capturadas pelas lentes desta turma, sua contribuição primeira está para além do que vemos, contribuindo para a superação de preconceitos.

Este livro revela ao mundo o talento de novos fotógrafos, mas é muito mais que um belo cartão de visitas. Transpondo Leminski para a ocasião, seu poema poderia afirmar: “vai vir o dia em que tudo que eu veja seja poesia”. Eis que este dia chegou.

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Baita honra fazer parte deste belo e necessário projeto, a convite da querida, talentosa e imprescindível Veruska Oliveira. O texto acima é um dos que escrevi pro livro, que será lançado na próxima sexta-feira, conforme o serviço da imagem abaixo.

Divulgação

Tragédias brasileiras

Hinário nacional. Capa. Reprodução

 

Radicado há anos na Espanha, o quadrinhista brasileiro Marcelo Quintanilha talvez seja quem melhor retrata, no campo das graphic novels, o Brasil real e profundo. Após o policial Tungstênio – vencedor do prêmio Angoulême, o mais importante dos quadrinhos, em 2016 – e o “drama classe média” (embora estas aspas reduzam bastante a questão, reconheço) Talco de vidro, ele volta à carga com Hinário nacional [Veneta, 2016, 128 p.; R$ 54,90].

O livro já provoca desde o título, que subverte a “coleção ou livro de hinos religiosos”, atrelando-o a hinos de clubes de futebol cantados a plenos pulmões em estádios lotados ou não e o clássico junino Olha pro céu (Luiz Gonzaga e Peterpan), que se configuram personagens importantes na trama.

O enredo entrelaça vários dramas em torno do mesmo tema: o abuso sexual. Da namorada que cede a ver filmes de ação (que o namorado prefere) em vez de filmes mais românticos (sua própria preferência) a relação entre colegas de escola (“eu tô acostumada”), os clichês machistas e homofóbicos repetidos ad nauseam, o taxista que “graceja” e a passageira que interrompe a corrida pelo meio do caminho, além do drama de um motorista de ônibus acidentado, cuja memória fragmentada faz questão de lembrar que é ele quem manda em casa.

Quintanilha, em suas ficções, é um perfeito tradutor da tragédia brasileira. As pequenas desgraças individuais são traços de nossa formação, agravados pelo golpe em curso. Hinário nacional é impresso em amarelo, cor da palidez – nossa impotência diante da realidade? –, e se vale da retícula, cujo efeito granulado pode ser lido como outra metáfora: pontinhos formam uma imagem, como os dramas individuais compõem a desgraça brasileira.

Boca: alimento necessário

Boca. Capa. Reprodução

 

Desde seu disco de estreia, Achados & perdidos [2005], Curumin revelou-se um mago da música brasileira contemporânea: é o cara que sabe o que fazer em um estúdio, passeando pela diversidade rítmica pilotando diversos instrumentos. Seu quarto disco, Boca [Natura Musical, 2017, disponível para audição nos sites do cantor e do edital], aguardado sucessor de Arrocha [2012], é mais uma prova inconteste de seu talento.

Multi-instrumentista com presença constante em fichas técnicas de discos e shows de nomes como sua esposa Anelis Assumpção, Arnaldo Antunes e Céu, entre muitos outros, seu novo disco é alicerçado em programações eletrônicas pilotadas pelo próprio artista, que além de cantar, ainda toca bateria e teclados.

Seus fiéis escudeiros são os contrabaixistas e produtores Zé Nigro e Lucas Martins, que também se revezam entre guitarras, teclados, programações e vocais. Boca conta ainda com participações especiais de Beto Bellinati (voz em “O burguês que deu errado”, trecho do poema No slam resistência, de sua autoria), Russo Passapusso (BaianaSystem, voz em Boca pequena parte 1 e 2, de sua autoria – a primeira é de Curumin; Terrível também é parceria de ambos), Marcelo Jeneci (teclados em O atrito, de Curumin), Rico Dalasam (voz em Tramela, parceria sua com Curumin), as crianças Bento (sobrinho), Benedito e Rubi Assumpção (filhos do artista, vozes em Descendo, de Curumin), a rapper espanhola Indee Styla (voz em Boca cheia, parceria sua com Curumin) e Andrea Dias, Anelis Assumpção, Iara Rennó e Max B.O. (vozes em Paçoca, parceria de Curumin com os convidados, que tem ainda o cavaquinho e percussão de Rodrigo Campos).

O projeto gráfico é de Ava Rocha (arte, foto, capa), cantora filha do cineasta Glauber Rocha, e Ciça Lucchesi. Na capa, Curumin tem um olho na boca, como se regurgitasse ao mundo o que vê, “porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio”, como Veronica Ferriani adaptou a sentença bíblica para batizar um disco seu.

A boca, um dos “sete buracos da minha cabeça”, como enumerou Caetano Veloso em A tua presença morena, aparece constantemente neste novo trabalho de Curumin: “Dançando no beiço da boca da noite/ cai bem, cai bem” (em Bora passear, de Curumin, música-convite que abre o disco), nos títulos de Boca pequena parte 1 (“Corre a boca pequena/ a boca pequena/ a boca pequena”) e 2, Prata ferro, barro (de Curumin: “caio na boca do dia/ um bafo quente me engole”), Boca de groselha (de Curumin: “Boca de groselha/ me fala besteira”) e Boca cheia (“O recheio da sobremesa/ escorre pelos cantos de sua boca cheia”).

O cantor, compositor e multi-instrumentista em foto de Ava Rocha

Se Caixa preta, faixa de JapanPopShow [2008], sobre escândalos envolvendo malas e o rabo preso da indústria da notícia (é possível falar em empresas jornalísticas em tempos de “pós-verdade”?), segue atualíssima, Curumin, que em Boca assina as músicas de sua autoria com seu nome de pia, Luciano Nakata Albuquerque, volta ao tema, em Boca pequena parte 1: “Paletó, cordão de ouro/ amuleto e maleta recheada/ tá firmado o acordo/ […]/ entre o trono de rei/ e o banco dos réus/ passeia o neo coronel/ cheio de falsas bandeiras/ apertando maços de garoupa na carteira/ diabinho batucando no ombro/ ele samba na cara da sociedade”.

Artista antenado, Curumin traz mensagens políticas em seu disco, sem soar panfletário. Em Trecho de “O burguês que deu errado” o texto enfrenta machismo/misoginia, racismo e homofobia: “eu sou homem, branco e heterossexual. Teoricamente isso faz de mim um bosta”.

Em Paçoca lembra dos que têm fome: “Bota água na panela/ abre a tampa da cabeça/ que o guisado das ideias/ mata a fome do planeta// a barriga tá roncando/ mais que uma cuíca velha/ osso duro, samba torto/ e as cadeira quase quebra”, diz a letra.

Num país em crise, onde arte às vezes é tida como artigo de luxo, já que comer, necessidade básica, é prioridade, a música de Curumin é alimento necessário. Sustança para o corpo dançar, a alma transbordar e a boca cantar junto.

Ouça Boca:

A magia de Montello

Exposição aborda o Josué Montello jornalista. Foto: Joseane Souza

 

Entrei ontem por acaso na Casa de Cultura Josué Montello (Rua das Hortas, 327, Centro), que não frequentava desde minha passagem pela assessoria de comunicação da então secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), no governo Jackson Lago (2007-9).

Chamo de acaso o fato de ter ido lá com outro propósito, não especificamente para ver a exposição inaugurada ontem, dedicada ao Montello jornalista. Fui conduzido pela diretora da Casa, Joseane Souza, que me apresentou um vasto universo, formado por recortes de jornais e revistas com os quais o maranhense colaborou, além de livros reunindo sua produção jornalística, sobretudo crônicas. Um novo volume, reunindo crônicas inéditas no formato, está sendo preparado para o centenário do autor.

Do juvenil A Mocidade, jornal que reunia estudantes do Liceu Maranhense e do Centro Caixeiral e teve Montello como redator-chefe, a revistas como Manchete, Fatos & Fotos, O Cruzeiro e o Jornal do Brasil, até livros como Janela de Mirante, Fachada de azulejos e Areia do tempo, este último reunindo textos do imortal sobre a cultura francesa.

Romancista bastante conhecido por livros como Os tambores de São Luís, Cais da sagração, Um beiral para os bem-te-vis e Noite sobre Alcântara, entre inúmeros outros, Josué Montello, nascido em São Luís em 21 de agosto de 1917, foi vários e esta exposição abarca uma de suas facetas. Também por ocasião de seu centenário, o jornalista e professor universitário Ed Wilson Araújo prepara uma exposição baseada em Cais da sagração.

Em seguida, guiado por Wanda França, fiz uma visita ao museu anexo à Casa de Cultura Josué Montello, que reproduz parte do apartamento em que ele se hospedava quando visitava São Luís – mudou-se para o Rio de Janeiro ainda jovem, vindo a falecer ali, em 15 de março de 2006 – e abriga objetos pessoais. Entre inúmeros diplomas, certificados, medalhas e bibelôs, me chamaram bastante a atenção um troféu Juca Pato, que reproduz o personagem de Belmonte – prêmio literário concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE), com apoio do jornal Folha de S. Paulo –, e um relógio de parede brinde do sebo Papiros do Egito, da saudosa Moema Alvim.

Ganhei quase duas horas entre uma visita e outra, entre uma conversa e outra, entre uma aula e outra. Sim, no fim das contas, é disso que se trata: Joseane e Wanda dão aulas gratuitas a quem esteja disposto a aprender. Entrei por acaso, repito, portanto não estava armado de apetrechos jornalísticos – gravador, bloco, caneta, máquina fotográfica: levava apenas o celular no bolso e nem este quis sacar para não interromper (a foto que ilustra este post é de Joseane, pedi depois por whatsapp). Seus olhos brilham ao falar do velho Montello – com quem conviveram.

Conversamos um bocado, sobre um monte de coisa. Depois do papo, percebi que é insignificante o que conheço de Montello. Que o mundo dele é universo vasto a ser desvendado – para além dos livros. Wanda me contou de suas aventuras em sebos por São Paulo, à cata de edições que não figuravam no acervo da CCJM. Descobriu por exemplo um Os tambores de São Luís de capa verde, da José Olympio – o homem-editora tema de uma das reportagens de Montello que vi expostas – “igualzinha a uma que temos aqui, só muda a cor”. Trouxe e incorporou ao acervo.

Ela me antecipou também a ideia de um concurso de redação para estudantes da rede pública estadual. Torço para que aconteça. Estudantes universitários que porventura conversem com elas teriam um bocado de temas menos insossos para escreverem suas monografias, dissertações, teses, para além dos cursos de Jornalismo e Letras.

Por exemplo, a geografia de Montello, a geografia em Montello, as transformações por que passou São Luís entre as páginas de seus livros e o que vemos hoje – para melhor ou pior os estudos dirão.

Da sacada do antigo apartamento do escritor, Wanda me contava histórias de um pé de abricó que caiu no dia dum aniversário de Montello, já após seu falecimento. Olhei para cima e vi um bem-te-vi num fio elétrico. Apontei, evocando o título de seu romance, ao que ela me revelou: “todo dia cinco horas da tarde um casal pousa aqui no beiral e fica cantando”.

Arrepiei-me e pude entender-lhes o brilho nos olhos: é o encanto com a magia de Montello. Despedi-me agradecendo e prometi voltar mais vezes, o que farei e recomendo. A exposição Arquivo pessoal de Josué Montello: trajetória e contribuições como jornalista literário fica em cartaz até 30 de junho, mas a CCJM pode ser visitada em qualquer época em dias úteis, das 13 às 19h.

Touchê em turnê: uma divertida aventura literária

O autor cercado por atrizes da Xama Teatro e estudantes de uma escola pública em Santa Inês/MA. Foto: Sheury Neves

 

Com a Caravana Passeios pela História e Cultura do Maranhão o escritor Wilson Marques está circulando diversas cidades maranhenses, acompanhado da trupe da Xama Teatro e de Touchê, seu personagem infantil que angaria leitores por onde passa.

Na última quinta-feira (1º.), foi a vez de Pedreiras, terra de João do Vale, já biografado pelo autor – e recentemente tema de biografia-mirim lançada recentemente pela jornalista Andrea Oliveira. O município encerrou a primeira etapa do projeto, que, com patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, já passou, além de Pedreiras, por Imperatriz, Açailândia, Timon, Caxias, Pinheiro, Viana e Santa Inês.

O kit Touchê. Reprodução

“Para quem escreve, o contato com seu público é quase tão importante quanto publicar livros. É bom para o pequeno leitor, que ao final desmistifica a ideia de que o escritor é uma figura distante, inacessível. E, para o autor, uma oportunidade de se retroalimentar, se energizar”, comenta o escritor. Em suas viagens, os lançamentos têm sido realizados em escolas públicas ou espaços culturais, com distribuição dos kits de Touchê, com seis livros, ilustrados por Kirlley Veloso: Touchê em a invasão francesa e a fundação de São Luís, Touchê em uma aventura pela “Cidade dos Azulejos”, Touchê em a revolta de Beckman e nos tempos de Pombal, Touchê em uma aventura em noite de São João, Touchê em o mistério da serpente e Touchê em Balaiada, a revolta.

Indago se estreitar este convívio com os pequenos leitores é uma tentativa de virar o jogo: livros perdem cada vez mais espaço na disputa de preferência com tablets e celulares, entre outros. “Com relação aos eletrônicos, acho que o mal uso deles pode ser bastante daninho principalmente para mentes em construção. Por outro lado, acredito que não devemos demonizá-los, ou criar cabos de guerra tendo de um lado livros e do outro tablets, etc. Acho sim que podemos tirar partido deles a fim de difundir cada vez mais os bons conteúdos, pois ao final é isso que realmente importa”, opina.

A rota de Wilson, Touchê e do Xama Teatro, que faz apresentações baseadas nos enredos das obras, após um descanso, será retomada em agosto, quando visita São José de Ribamar (dia 2), Paço do Lumiar (14) e São Luís (23), encerrando o passeio.

“Em todas as cidades em que passamos a receptividade superou minhas expectativas, tanto por parte de alunos como professoras, diretoras e gestores de educação municipais. Isso tem sido muito legal porque demonstra que existe em todos um interesse, uma necessidade inata por arte, por histórias, por teatro, por livros. Por outro lado, revela um aspecto que me entristece um pouco: o fato de a Caravana despertar ainda mais interesse na medida em que muitas escolas se encontram em estado de carência no que diz respeito à oferta desse tipo de ação. De qualquer maneira o projeto tem ajudado a reacender essa chama, e isso a gente pode constatar pelo entusiasmo e alegria com que somos recebidos”, comenta.

Jornalista de formação, Wilson Marques, além de João do Vale, já biografou o violonista João Pedro Borges. Seu personagem de maior sucesso, no entanto, é mesmo Touchê, através do qual ele aborda aspectos da história e da cultura do Maranhão. Pergunto se o incomoda o fato de a faceta infantil de sua obra ser mais conhecida que o trabalho, digamos, adulto.

“Nunca tinha pensado nisso e acho que vou continuar sem me preocupar com esse aspecto do meu trabalho. Mesmo porque esse raciocínio pode levar à ideia de que um tipo de fazer literário é mais nobre que o outro. Tipo, escrever para adultos é mais nobre do que escrever para crianças. E não me parece que seja assim. Uma coisa, entanto, posso afirmar: pra mim, escrever para crianças é muito mais divertido do que escrever para adultos. E, no final das contas, o que vale é a gente se divertir”, finaliza.