Arquivo mensal: dezembro 2016

Literalmente antológico

Sambantologia. Capa. Reprodução
Sambantologia. Capa. Reprodução

 

A pergunta “letra de música é poesia?” ainda é ouvida aqui e acolá e uma das respostas possíveis é o exercício de separar letra e música e verificar se a primeira tem força para sobreviver sem a segunda. Isto é: há casos e casos.

O exercício contrário, no entanto, quase nunca se faz. Sobrevive a música sem sua poesia, no caso de uma música originalmente com letra ser tornada instrumental? A resposta será parecida à do exercício anterior.

Em Sambantologia [Biscoito Fino, 2016], os bambas do Nó em Pingo d’Água recriam instrumentalmente nove temas de nomes seminais do samba. O único originalmente sem letra é Nanã (Moacir Santos e Mário Telles), que a rigor nem samba é.

Mas esqueçam os rótulos pois é justo o que fazem Celsinho Silva (percussão), Mário Sève (flauta e saxofone), Rodrigo Lessa (bandolim e violão de aço) e Rogério Souza (violão), com a adesão de Romulo Duarte (contrabaixo).

É um disco para celebrar o centenário do samba, cujo marco é a gravação de Pelo telefone (Donga e Mauro de Almeida) em 1916 e seu estouro no carnaval do ano seguinte. Não à toa é sua cadência amaxixada que abre o disco.

O título do álbum justapõe três palavras: samba, banto e antologia. Doutor em Musicologia pela Universidade de Tours, França, Carlos Sandroni assina um ótimo texto remontando às origens do samba, o gênero e a palavra, terreiro cheio de incertezas.

O Nó em Pingo d’Água – que tampouco tem este nome à toa – reprocessa outras pérolas das mais variadas vertentes, já que é impossível falar em samba no singular, tantas são as ramificações deste irmão do choro – terreno lembrado nas execuções do grupo, oriundo desta praia.

Obviamente não há pretensão do grupo em fechar a questão: uma antologia de samba poderia ocupar facilmente 10 discos. Ou mais. O exercício é justamente este: como dizer o máximo com o mínimo? São pérolas fundamentais para “a ascensão do gênero à condição de ícone sonoro do país”, como afirma Sandroni em uma passagem do texto do encarte.

Ismael Silva (autor de Se você jurar, em parceria com Nilton Bastos e Francisco Alves) configurou o “samba do Estácio”, qualificativo do samba que leva o nome do bairro carioca em que morava o compositor – Chico Alves, como era moda e seu feitio à época, certamente comprou sua parte na parceria. Ele comparece ao repertório ao lado de nomes como Dorival Caymmi (Samba da minha terra) e João de Barro (Copacabana, em parceria com Alberto Ribeiro).

Re/inventores do samba, Noel Rosa (Último desejo e Conversa de botequim, esta em parceria com Vadico) e Tom Jobim (Samba de uma nota só, em parceria com Newton Mendonça, e O morro não tem vez, com Vinicius de Moraes) são os únicos cujos nomes figuram mais de uma vez nos créditos.

O repertório coeso de Sambantologia é uma demonstração da grandiosidade da música brasileira. O trunfo do Nó em Pingo d’Água é não se acomodar, injetando frescor em um repertório que pode soar “batido” à primeira vista – nunca à primeira audição e às que se sucederem.

Banda imaginária ajuda a entender melhor artista de real grandeza

 

The 42nd St. Band - Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução
The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução

Renato Russo ainda era apenas Renato Manfredini Jr. quando, entre 1975 e 76, com de 15 para 16 anos de idade, recluso em seu quarto por conta de uma epifisiólise, rara doença óssea, escreveu The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária [Companhia das Letras, 2016, 221 p.; org.: Tarso de Melo; tradução: Guilherme Gontijo Flores; leia um trecho]. O nome da banda tem origem no endereço do bar Stonewall, palco de um massacre a LGBTs, que o cantor já havia homenageado em seu primeiro disco solo, The Stonewall Celebration Concert [1994].

O livro é uma espécie de diário da banda, como se um fã recortasse revistas e jornais sobre os ídolos e guardasse os recortes em uma pasta. Há entrevistas, formações, discografia, cronologia. O futuro líder da Legião Urbana constrói seus personagens inclusive do ponto de vista psicológico, uma prova disso é o comportamento dos integrantes da banda que dá título ao livro durante as entrevistas.

Renato Russo demonstra profundo conhecimento sobre a música pop mundial. Sua banda – Eric Russell, protagonista de The 42nd St. Band, é seu alter ego – tinha Jeff Beck (ex-Yardbirds) e Mick Taylor (ex-Rolling Stones), misturando personagens reais a personagens imaginários.

O mesmo acontece com faixas gravadas pela banda. No livro, Let me die in your footsteps é de Russell (e não de Bob Dylan) e Close the door lightly (when you go) é de Dylan (e não dos Smiths). Há vários outros exemplos e fica explícito a adoração da banda imaginária – e do autor – por Beach Boys, Stones, Beatles, Dylan.

Há algo de premonitório na obra. Renato Russo acabaria sendo um dos maiores nomes do pop rock brasileiro em todos os tempos e o livro relata (ab)uso de drogas, shows lotados, turnês bem sucedidas, amor e ódio da crítica especializada e mortes trágicas – entre os membros das várias formações da The 42nd St. Band, John Robbins morre de overdose aos 45, John Buck em um acidente de avião aos 62, e Eric Russell de câncer de pulmão aos 67 (Renato Russo morreu há 20, aos 36, de complicações decorrentes do vírus da aids). Aloha, título de uma música de A tempestade [1996], último disco lançado pela Legião Urbana com Renato Russo ainda vivo, já aparece no romance, como uma das faixas gravadas pela The 42nd St. Band.

É um romance fragmentário, montado a partir de anotações (em inglês) deixadas por Renato Russo em diversos cadernos, que muito provavelmente não seria publicado se ele ainda estivesse vivo. Como os diários de sua passagem por um rehab – Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço [Companhia das Letras, 2015, 168 p.; org.: Leonardo Lichote] –, The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária ajuda a compreender a mente inquieta e o espírito criativo de um dos maiores artistas surgidos no Brasil na segunda metade do século passado.

A Encantaria de Luiz Claudio

O percussionista Luiz Claudio. Foto: Rivanio Almeida Santos/ Chorografia do Maranhão
O percussionista Luiz Claudio. Foto: Rivanio Almeida Santos/ Chorografia do Maranhão

 

 

Em depoimento à Chorografia do Maranhão, série publicada pelo jornal O Imparcial, o percussionista paraense Luiz Claudio lembra a chegada por acaso à São Luís, onde acabou fixando residência graças a uma paixão: um tambor de crioula que ou/viu na Praça Deodoro.

Um dos mais renomados percussionistas do Brasil, Luiz Claudio já tocou com muita gente grande: Celso Borges, Cesar Teixeira, Ceumar, Chico César, Lena Machado, Rubens Salles e Zeca Baleiro, entre muitos outros, além da irmã Anna Claudia. Integrou ainda grupos como o Som da Lata – em que alunos, além de aprender a tocar percussão, confeccionavam seus próprios instrumentos a partir de materiais reciclados – e o Choro Pungado, um dos mais inventivos da cena choro do Maranhão, com sua mistura entre o gênero e ritmos da cultura popular do estado.

Hoje (15) o músico apresenta o show Encantaria no projeto Palco 42, do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca. É um show solo de percussão, em que o músico exibe suas múltiplas facetas, tocando diversos instrumentos, de cajon a caixa do divino, passando por tambor grande, zabumba e maracá, entre muitos outros.

A percussão orgânica de Luiz Claudio é acompanhada por trilhas gravadas. É um mergulho profundo do músico pelos batuques, os instrumentos às vezes configurando-se extensões de seu corpo.

A apresentação acontece na Sala Cecílio Sá (Laborarte), às 19h. Na sequência, outra apresentação de peso: um dos maiores compositores brasileiros, Chico Maranhão relembra clássicos de sua trajetória, iniciada ainda na década de 1960.

A nordestinidade de Alexandra Nicolas

Fotosca: ZR (10/12/2016)
Fotosca: ZR (10/12/2016)

 

Não há nada que Alexandra Nicolas faça sem capricho e verdade. Talvez isso explique a demora de sua estreia no mercado fonográfico, acontecida apenas em 2013, com Festejos [Acari], inteiramente dedicado ao repertório de Paulo César Pinheiro, quando já contava quase 20 anos de carreira.

Aquele disco, inconscientemente talvez, já apontava na direção do Nordeste, região à qual ela dedica o repertório de Eu vou bulir com tu, show com que tem percorrido praças públicas de São Luís. Ela faz questão de afirmar(-se), logo no início do espetáculo: “Para quem não me conhece, eu sou Alexandra Nicolas, cantora ma-ra-nhen-se!”, diz, escandindo as sílabas.

É tamanho o cuidado e o carinho com que a cantora prepara seus espetáculos que a coisa não acaba – tampouco começa – no espetáculo em si. Quem já viu, percebe isso em “detalhes” como o figurino – dela e da banda que a acompanha – o palco, a luz, o som. Parece óbvio dizer isso, mas não é.

Sua entrega no palco é total, valendo-se de recursos aprendidos em formações em canto – no que a formação acadêmica em fonoaudiologia certamente ajuda –, dança e teatro. O verbo-mote do show, do título da música de Antonio Barros e Cecéu, é traduzido ao longo do espetáculo, quando ela bole com músicos, com público, com o marido-produtor, dedicado, jogando nas 11, atento a cada detalhe, vendendo discos, trabalhando desde muito antes e até muito depois do show, para que tudo aconteça com perfeição.

Era a sexta apresentação da temporada, espécie também de testes para o repertório do disco. A banda, cada vez mais afiada: Wendell Cosme (cavaquinho, guitarra e direção musical), Nataniel Assunção (bateria), Wanderson Silva (percussão), Carlos Raqueth (contrabaixo), David Ginja (sanfona), João Neto (flauta), Rony e Gil (vocais) – lenda viva da música brasileira, o maestro Zé Américo Bastos subiu ao palco e assumiu um teclado em Bulir com tu, quando Alexandra continuou cantando, agora dançando com Carlinhos de Jesus, outra lenda viva do Brasil. Este agradeceu a oportunidade de voltar a São Luís, lembrando a importância de Zé Américo no início de sua carreira.

Ontem (10), Alexandra transformou o Espigão Costeiro da Ponta d’Areia em pista de dança, com boa parte do público “bulindo” o esqueleto em um tapete vermelho estendido em frente ao palco – havia bailarinos profissionais para quem quisesse se arriscar, mas dançaram casais, crianças e, em determinada altura do espetáculo, o bailarino Carlinhos de Jesus desceu para dançar com a plateia. “Eu estou cumprindo minha promessa, trouxe Carlinhos de Jesus para dançar com vocês”, declarou Alexandra, após anunciar a participação especial – ele protagoniza com ela o videoclipe de Bulir com tu, primeira música de trabalho de seu novo disco, a ser gravado e lançado ano que vem.

Com seu carisma e bom humor, Alexandra Nicolas provou, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, que todo mundo tem o direito de ser feliz. E quem passou pelo Espigão na noite de ontem o foi, ao menos na cerca de hora e 15 minutos de sua apresentação. 10 de dezembro é também o dia do palhaço e ao cantar Leque moleque (Alceu Valença), ela trocou o “Valença-ça” da resposta à pergunta, na letra: “e o palhaço quem é?/ Alexandra!”.

Outros destaques da noite foram Maria, Mariazinha (Aloísio Ventura), Espumas ao vento (Accioly Neto), Forró do beliscão (João do Vale/ Ary Monteiro/ Leôncio), O segredo do coco (João Madson) e, como o Maranhão se espraia entre o Nordeste e o Norte, numa deliciosa “confusão” geopolítica e cultural, No meio do pitiú (Dona Onete) e o Carimbó do macaco (Pinduca), a saideira, em que botou a banda para tocar – e Carlinhos de Jesus para dançar – a música paraense em ritmo de reggae, samba e arrocha. “Me arrocha, Carlinhos! Martin, eu te amo!”, declarou, para diversão da plateia.

Maria Aragão em tempos de golpe: atual e necessária

Uma subversiva no fio da história. Capa. Reprodução

 

O jornalista Emilio Azevedo lança na próxima quarta-feira (14), às 19h, o livro Uma subversiva no fio da história [2016, Ed. do autor; revisado por este blogueiro], um conjunto de nove reportagens sobre a vida e o legado de Maria Aragão, uma das mais importantes personagens da política no Maranhão no século XX.

Embora tenha elementos, o livro não se configura uma biografia. Foi escrito entre 2007 e 2009 e repousou numa gaveta até ser retomado pelo autor, este ano. Ele confessa: tinha críticas quanto à obra, para o qual os nove textos foram escritos. Depois de mais cinco meses de trabalho, uma espécie de reconciliação entre criador e criatura permite que a segunda chegue ao público agora.

A noite de autógrafos será movimentada: o Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande) receberá show da cantora Tássia Campos – com o mesmo título do livro –, além de esquetes do Gamar – grupo de teatro amador formado nas dependências de uma escola que leva o nome da médica comunista – e de Maria Ethel, cuja “encarnação” de Maria Aragão em A besta-fera é um hit do teatro local.

Emilio Azevedo parte de um exercício difícil: humanizar Maria Aragão, relendo-a e recontando-a para além da execração – os que a detestavam e tratavam-na por puta, besta-fera e que tais – ou da beatificação – os que a adoravam e consideravam-na uma espécie de santa. É a essência humana que move o jornalista através de suas nove reportagens, embora ele mesmo confesse tratar-se de um livro de fã.

Tendo Maria Aragão como personagem central e fio condutor, Emilio refaz um pequeno pedaço da história do Brasil e do Maranhão, ao abordar a época e a conjuntura em que a “médica comunista” – longe do clichê – realizou sua militância, sua ação subversiva. Estão lá Luiz Carlos Prestes, o PCB, a ditadura militar, a Igreja Católica, as oligarquias. É um livro ousado de um autor que não teme assumir-se de esquerda, num tempo em que há quem ouse dizer não existir mais esquerda ou direita – estes, sabemos de que lado estão.

A antropóloga Maristela de Paula Andrade, no prefácio de Uma subversiva no fio da história, defende a adoção do livro por escolas. “Esses heróis fabricados, artefatos políticos, ganharam bustos em praça pública e lugar certo, inquestionável, na formação escolar das crianças e da juventude. Foram heróis da classe dominante, dos que detiveram o poder em cada conjuntura histórica, mas inventados e cultuados como defensores de todos. Por que não contar aos jovens brasileiros a história de pessoas como Maria Aragão, que lutaram por igualdade, justiça, liberdade, por um mundo melhor para os explorados e oprimidos?”, indaga a professora da UFMA.

O questionamento é pertinente em tempos de golpe, quando tantos outros saem às ruas reivindicando uma intervenção militar. Emilio Azevedo mostra a atualidade do legado de Maria Aragão, mais que médica ou comunista, uma mulher que educava pelo exemplo. Sempre é tempo de aprender.

Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O jornalista Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Foto: Altemar Moraes/ Vias de Fato
O jornalista Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Foto: Altemar Moraes/ Vias de Fato

Uma subversiva no fio da história é seu terceiro livro, todos com uma posição à esquerda, o que é uma dificuldade do jornalismo, hoje. Qual a importância do jornalista assumir que tem lado?
Tem toda importância. É uma questão de honestidade com o leitor. Recentemente vi uma palestra do Caco Barcellos [na 10ª. Feira do Livro de São Luís], onde ele falava do jornalismo declaratório e de um outro jornalismo que eu não lembro agora como ele definia, um jornalismo imparcial, neutro, um jornalismo essencialmente informativo. Não sei como ela define o jornalismo feito por William Bonner, Alexandre Garcia ou Arnaldo Jabor. A verdade é que acho impossível você trabalhar com jornalismo e dissociar de uma posição política. A pauta já é ideológica, o veículo em que você trabalha é ideológico. O aspecto ideológico de uma reportagem nasce a partir da pauta, do lugar onde ela é publicada, veiculada. Se você faz um bom jornalismo dentro da Rede Globo, no geral você está referenciando, legitimando o mau jornalismo que a Globo faz. As coisas estão associadas. Eu não acredito em imparcialidade, sempre disse isso, escrevendo ou em mesas de debate. O jornalismo pode ser honesto e desonesto, mas será sempre essencialmente ideológico, político. Você pode ser honesto no seu fazer jornalístico, deixando clara sua posição. O leitor não é idiota, ele sabe filtrar os excessos porventura cometidos.

Quando você diz que alguém como Caco Barcellos, dentro da Globo, em vez de ser uma exceção, referenda o mau jornalismo praticado pela emissora, você não acredita em reserva moral ou que outro nome se queira dar para isso? Uma exceção, o fato de ele estar lá significando poder fazer o jornalismo que ele pratica chegar a mais gente?
Eu não vou dizer que ele está certo ou errado em trabalhar na Globo. Todo profissional tem que trabalhar e pagar suas contas. Não entro nesse tipo de patrulhamento. O problema é vestir a camisa do patrão. É tirar onda de bom moço e sair em defesa dos interesses da família Marinho. A merda tá bem aí. Nessa palestra, especificamente, Caco Barcellos pisou na bola ao dizer o seguinte: “pra todo mundo que fala mal de mim ou do veículo em que eu trabalho”, no caso, a Globo, “eu digo: “faça melhor!””. Encaro esse papo como uma piada de mau gosto. É certo querer tirar da sociedade a possibilidade de criticar um veículo que é uma concessão pública? É um ponto de vista completamente equivocado. Tem que ter muita crítica a todos os veículos, aos que são concessão pública, no caso das emissoras de TV e rádio, e também aos que não são. Uma coisa é a crítica, outra coisa é a agressão, a violência, a estupidez. A crítica é saudável. No caso dessa palestra específica, ele pediu que não criticasse a Globo, que fizesse melhor. A Globo tem rios de dinheiro. E de onde vem esse dinheiro, quem patrocina? Se ele tem estrutura pra chegar às três da manhã, na frente de todo mundo, com 10 carros, alguém está pagando essa conta. Isso não sai do bolso do Caco Barcellos, isso sai do bolso da empresa que tem patrocinadores x, y e z. Tudo isso tem que ser levado em conta. Qual o interesse do patrocinador? É só de vender seu produto?

Às vezes não fazer melhor que a Globo não é falta de vontade, há muita gente aí disposta.
Essencialmente é: quem paga a conta? Quem financia a Globo? A Record? A Veja? Todas as empresas têm interesses políticos.

Este é um ponto essencial: se as pessoas assumissem os patrocinadores, às vezes seria mais rápido e fácil descobrir de que lado os veículos estão, ideologicamente.
Isso é pouco debatido. Pouco se interessa por quem paga a conta.

Você está à frente, há sete anos, do Vias de Fato, que tem uma postura de independência, com seus parcos financiamentos, mas com uma postura ideológica clara. De algum modo isso dialoga com a experiência de Maria Aragão na Tribuna do Povo. A Tribuna do Povo de Maria Aragão, de algum modo foi ou é inspiração para o Vias de Fato?
São momentos distintos, projetos distintos. E uma coisa, essencialmente, os distingue: o projeto da Maria era ligado a um partido. Com toda dificuldade financeira, com todo isolamento, um isolamento à esquerda, mas tinha uma relação com o comitê central do partido, tinha esse tutor, que ficava no Rio de Janeiro. No caso do Vias, ele não é ligado a nenhum partido, nem é centralizado por ninguém. Trata-se de outro momento histórico, completamente diferente no que se refere à organização do campo progressista. A utopia hoje parte de um desejo de pluralidade e horizontalidade, onde todo mundo é passível de crítica, inclusive a própria esquerda. Agora, em relação às dificuldades operacionais, os dois são parecidos.

A Tribuna do Povo era um jornal de uma mulher só.
O Vias de Fato tem mais mulheres, tem mais gente [risos].

O Vias de Fato talvez tenha mais gente, mas ainda é uma equipe pequena. Nesse sentido, que outras semelhanças e diferenças você apontaria?
Semelhança é essa coisa do gueto, eu digo isso no livro, que a Tribuna do Povo é um jornal de gueto. Algumas pessoas fazem questão de dizer que o jornal de Maria não tinha nenhuma influência, mas o antropólogo Alfredo Wagner [Berno de Almeida] coloca a importância dele como uma fonte única naquele tempo. Aí acho que existe uma semelhança. O Vias está no gueto, assumidamente no gueto, mas também é, às vezes, fonte única para determinados assuntos, o que ninguém vai dizer, você vai encontrar lá, no Vias de Fato, o “panfleto” de esquerda. Aí tem um compromisso com a história, compromisso com o processo histórico. Os comunistas têm essa noção do processo histórico. O Vias, apesar de não ser marxista, também tem essa noção.

Emilio, você tem uma formação comunista, inclusive tem a mesma filiação partidária de Maria Aragão.
Desde 2009 estou afastado do partido. Sobre o assunto, vejo muita gente que não é comunista, se dizendo comunista no Brasil. Eu sou o contrário: sou tachado de comunista, mas não me considero marxista-leninista. Acabei me filiando, há quase 15 anos, talvez um pouco menos, ao PCB, por uma questão tática. Diferente de hoje, na época eu tinha interesse em atuar em um partido e pelo fato de ser de esquerda, queria um partido à esquerda. A conjuntura me empurrou para o PCB. Me filiei circunstancialmente, fui ficando. Tenho muito respeito pelo partido, muitos amigos por lá, aprendi muitas coisas, mas essencialmente não sou marxista-leninista. Não gosto de me rotular. Tenho influências cristãs, de esquerda, marxistas, mais recentemente até anarquistas, mas isso não me rotula. Não estudei o suficiente para carregar rótulos. O mínimo que se espera de um marxista é que ele tenha lido toda a obra de Marx, mesmo que não tenha sido em alemão [risos]. Eu fui católico, hoje sou agnóstico. Quando deixei de ser católico, rompi com dogmas. Me parece que todos esses ismos têm dogmas. Então, você fica preso a um determinado dogma e a partir disso cria uma determinada camisa de força, acho ruim. É ruim mesmo entre os intelectuais, o que não é o meu caso. O sujeito passa a pensa a partir de ideias pré-estabelecidas. Acho melhor transitar, pegar uma coisa aqui, outra ali e raciocinar por contra própria. A generosidade não é exclusividade de um só filosofo ou profeta.

Por falar em comunista, acabamos de perder um ex-comunista, o Ferreira Gullar.
Acho que Ferreira Gullar é ótimo como poeta e péssimo como político. Como poeta foi genial, como político se comportou como um oportunista qualquer. Fico à vontade para falar por que em 2001 fiz um artigo chamado A política suja de Ferreira Gullar. Este texto foi panfletado dentro de uma exposição que ele fez aqui em São Luís. A iniciativa da panfletagem não foi minha e eu não participei dela. Ele, um sujeito inteligente, não passou recibo. Não era o caso.

E Maria Aragão como personagem? Você tem uma abordagem que foge das duas mais comuns: os que não gostam, para quem ela era a puta, a besta-fera, ou os que gostavam e a colocam num altar, Santa Maria Aragão. Você tira Maria Aragão destes dois lugares, digamos, mais fáceis, tratando-a como uma pessoa comum, que fez o que fez. Você acha que faltam Marias Aragões no mundo?
Não sei se consegui humanizar Maria Aragão. Tentei. Mas acho que, no fundo, o livro tem algo de exaltação. É um livro de fã. Tentei, já na última etapa do trabalho, retirar essa carga toda. Talvez o último capítulo, de alguma forma, critique o próprio livro. Meu amigo Wagner Cabral, que é historiador, não gosta de biografias. Meu livro não é uma biografia, são nove reportagens, mas sem dúvida é um recorte biográfico. Então, você acaba se apaixonando pela personagem, é uma coisa natural. Fiz um esforço de humanizar, não sei se consegui. Não digo isso no livro, mas acho que existem muitas anônimas iguais a Maria Aragão. Sem querer idealizar uma classe, te digo que nas camadas populares encontram-se muitas mulheres lutadoras, corajosas, generosas e solidárias. Na periferia de São Luís vi de perto o que exaltamos em Maria Aragão. Vi mulher apanhando e outra indo lá e se metendo no meio do casal, para defender a agredida. Vi isso mais de uma vez. Tem muita gente assim. E o grande desafio, no caso de Maria, é não beatificar, é não transformar em santa, é mostrar que é possível fazer como ela fez. Foi uma grande mulher, mas é possível ser como ela, fazer o justo, fazer o correto, cometer erros e acertar algumas vezes. Não aceitar injustiças. Saber escutar. Não desistir. Foi o que ela fez.

O nome que você pensou originalmente para este livro foi Maria Aragão no fio da história. Por que a troca para Uma subversiva no fio da história?
Ao tratar de “uma subversiva” estou falando da própria Maria Aragão – que foi subversiva –, da ação política dela e do processo em que ela estava inserida. É também uma forma de estimular o debate em torno da subversão. Estamos precisando disso. São pessoas e ações subversivas, transgressoras, que andam a margem ou na contramão, que têm o poder de mudar o curso da história e melhorar as coisas. Normalmente o desejo de liberdade e a subversão caminham juntos.

Se não de mais Marias Aragões, você acha que hoje o Brasil precisa de subversão?
Nos últimos anos, quando nosso país viveu sob o comando do PT e do lulismo, ficaram expostos conflitos que historicamente estiveram presentes na sociedade brasileira. Conflitos de valores, conflitos de origem política. Uns ligados às classes sociais e outros relacionado à moral e aos costumes. Neste contexto atuam setores elitistas e conservadores, acrescidos de fariseus e fascistas. Atuam também os que defendem direitos e/ou vivenciam discriminações seculares, neste caso os pobres, negros, mulheres, indígenas e homoafetivos. Isso vai além da disputa entre partidos ou desse maniqueísmo que reduz tudo a “coxinhas” e “petralhas”.

E o subversivo nesse contexto?
Está presente em várias situações. Veja a atual ocupação das escolas e das universidades. É desobediência civil. É algo que subverte a ordem estabelecida. É uma desobediência saudável e necessária, diante dos abusos e da violência cometida pelo atual governo federal e pela maioria do Congresso Nacional. E essas ocupações estão sendo protagonizadas por jovens que vivem esses problemas históricos. São exatamente pobres, negros, mulheres e homoafetivos. Até onde vi, são eles que compõem a maioria desse movimento.

Você poderia dar outro exemplo?
Hoje, no Maranhão, acho emblemática a ação dos indígenas da etnia Gamela, na região de Viana. Em meados do século XX eles foram considerados extintos. Agora, através de uma teia de povos e comunidades tradicionais, que reúne também quilombolas, eles se rearticularam e ocuparam três fazendas. Os Gamela entraram numa terra que é deles. E fizeram isso sem esperar pelo Estado, pela Justiça, por cartório, por burocratas ou pela Funai. Enfim, sem esperar por instituições que hoje, notoriamente, enfrentam sérios problemas de credibilidade. A questão envolvendo recentemente Renan Calheiros e o Supremo mostra bem isso.

Você falou também dos costumes…
Este ano, no Rio de Janeiro, um garoto foi barrado na escola por que estava vestindo saia. No outro dia, todos os meninos da turma dele foram de saia e a escola teve que ceder. O caso repercutiu no país. Ouvi conservadores dizendo que estamos no “final dos tempos”. É interessante perceber que entre essas pessoas, muitos não se preocupam com a devastação ambiental ou com a miséria absoluta de parte da humanidade. É o modo de vestir de alguns que, para eles, indica “o final dos tempos”. Bem, mas diante do mesmo caso, os mais arejados disseram que trata-se apenas de uma roupa, de uma questão de liberdade individual e que cada um deve ter a possibilidade de se vestir como quiser. Diante de um tema tão simples, isso gera conflito e acirrados debates. Em São Luís, numa escola particular do Renascença, soube que uma menina foi impedida de entrar porque estava com um turbante. Houve repercussão nas redes sociais. O racismo, a misoginia e homofobia estão aí, mas a reação a essas antigas formas de violência, de alguma forma, tem crescido.

Emilio, você fez esse livro mais ou menos na época em que Jackson Lago foi governador.
Foram dois períodos: 2007 a 2009 é o primeiro período. Em 2016 eu trabalhei ainda cinco meses nele.

Mas aí já foi uma fase mais de ajustes, revisão. A pesquisa em si foi lá atrás.
Sim, 90 e tantos por cento da pesquisa foi feita nesse período.

Por que demorar tanto a finalizar e publicar?
Em parte o projeto Vias de Fato me tomou muito tempo. Talvez este seja o motivo maior, mas eu também tinha algumas críticas ao livro e hoje eu tenho menos, graças ao trabalho que fiz este ano.

Todas aquelas reportagens são inéditas?
Todas são inéditas. No capítulo das oligarquias, deve ter 10 a 12 laudas o capítulo todo, eu aproveito umas quatro de um artigo que saiu no Jornal Pequeno, em 2006.

Então quando você escreveu essas reportagens já estava pensando em livro.
Sempre! Foram todas feitas para o livro. À exceção dessa introdução das oligarquias. Neste livro acabo juntando a fome com a vontade de comer. Ao mesmo tempo eu tenho admiração e respeito por Maria Aragão, mas é uma forma também de contar um pouco a história recente do Maranhão, a história recente do Brasil, falar de assuntos que eu adoro discutir e que eu acho que são importantes para essa geração saber, minimamente. Eu não sou historiador, sou jornalista, mas acho que um compromisso que o jornalista tem é de deixar registros para a história. Eu estou falando de uma história muito recente, uma coisa que não é história de historiador, é história de jornalista, que é de 40, 50 anos pra cá. As fontes estavam todas vivas ainda, são 51 entrevistas.

Mais que médica, mais que militante partidária, comunista, Maria Aragão foi uma educadora. Uma educadora que educava pelo exemplo.
Essa coisa da educadora eu peguei no processo do livro, eu construí o último capítulo pensando no legado. Essa reportagem não estava prevista, acabou servindo como uma conclusão, esse legado da educação popular, como a esquerda chama, de formação, de educar pelo exemplo. Na minha avaliação está tudo relacionado. Maria Aragão teve uma vida ligada aos pobres e miseráveis, as periferias urbanas e também aos camponeses. Quando foi dirigente da CUT, no Maranhão, a hegemonia era de trabalhadores rurais. Antes do golpe de 1964, principalmente na década de 1950, ela também atuou junto à organização de lavradores. No plano moral, Maria Aragão foi vítima da violência de farisaicos e fascistas, que lhe chamavam pejorativamente de puta, pelo fato dela ter tido uma filha sem estar casada e por ter vivido com um homem sem passar pela igreja. E Maria foi pra cima dos hipócritas. Enfrentou. Ela não abaixou a cabeça diante das violências que sofreu.

No entanto, como você afirma no livro, ela não era feminista.
Como me disse a professora Mary Ferreira, em entrevista para este livro, a vida de Maria Aragão representou, na prática, aquilo que as feministas defendem. E ela se aliou às feministas em várias ocasiões. Maria, a comunista, foi uma mulher livre, que não se submeteu a opressores. Agora em dezembro, num evento ocorrido em São Luís, promovido pelo Fórum Maranhense de Mulheres e que denunciou e debateu a violência contra a mulher, foi colocada uma polarização entre transgressoras e recatadas. Nesse debate, a vida de Maria Aragão, a subversiva maranhense, tem um grande valor pedagógico. Maria foi, de várias maneiras, transgressora. Subversão e transgressão normalmente caminham juntas.

Maristela no prefácio defende que teu livro seja adotado em escolas. Você tem essa pretensão, esse desejo?
Não tenho nem pretensão nem canais [risos]. Quem sabe depois de morto [risos]. Uma coisa que eu quero fazer é debater esse tema, esse tempo, a partir de uma ação subversiva. Discutir hoje o que é subversivo à luz de Maria.

Deixa eu tentar fazer um exercício de presentologia, já que, como Maria já faleceu, não dá para fazer de futurologia: pelo teu mergulho na vida e no legado de Maria Aragão para a feitura do livro, como você acha que seria seu comportamento em relação ao momento político que o Brasil atravessa?
É até um atrevimento. Certamente ela estaria contra o governo Temer, isto é uma obviedade. Seria contra os tucanos, isso é outra obviedade. Acho que ela teria críticas ao PT. Dizer mais do que isso eu não me atrevo. Não seria correto da minha parte.

Tua ideia de lançar o livro com o show de mesmo nome, Uma subversiva no fio da história, retoma uma tradição importante. Lembro O Pasquim, que era uma experiência de esquerda no jornalismo brasileiro e esta, com certeza, influencia o Vias de Fato, em uma determinada época encartava discos. O livro vai trazer encartado um show de Tássia Campos, cantando um repertório de revolucionários ou que Maria Aragão ouvia em casa. Tássia é uma das cantoras dessa “nova” geração da música do Maranhão muito competente, muito interessante, com uma postura ideológica alinhada a Maria Aragão. Como foi costurar essa noite de autógrafos?
A ideia do show começa com o trabalho da Carabina Filmes. Começa no vídeo que eles fizeram para anunciar o lançamento de Uma subversiva no fio da história, a partir da visita que Tássia fez ao memorial Maria Aragão. O trabalho de [os cineastas] Leide [Ana Caldas] e Inácio [Araújo], somado à interpretação da Tássia, foi o primeiro ato, antes mesmo de chegar ao palco do teatro. No Brasil, livro impresso é coisa de elite. É um objeto caro e consumido por poucos. Ao misturar o livro com diferentes linguagens artísticas temos a possibilidade de popularizar o trabalho, ampliando a mensagem e sua função social. E é uma relação de mão dupla, pois livro também pode provocar. Em 2006, quando lancei O caso do Convento das Mercês, esse livro inspirou o Vale Protestar, movimento que juntou teatro e música e que projetou a personagem “Rosengana”, a partir de uma reunião de vários artistas, entre eles Cesar Teixeira, Kátia Dias, Moizés Nobre, Rejane Galeno, Nadnamara Rocha, Valberlúcio Pereira, Claudia Santos e Raimunda Lopez. Hoje, com Uma subversiva no fio da história, espero, junto com os artistas, fazer algo diferente de uma tradicional noite de autógrafos. O protagonismo deles amplia a proposta do livro, aumenta a provocação, aumenta o diálogo com a sociedade. Repito: livro, no Brasil, é uma coisa pra elite, uma coisa cara, pra uma elite intelectual, econômica. Não fiz livro pra intelectual, apenas. Eu respeito os intelectuais, mas não quero meu livro limitado a eles. Quero um livro que possa, minimamente, interagir com a sociedade, provocar a sociedade de alguma forma, conseguir cumprir uma função social mais ampla. Aí eu acho que música, cinema, teatro, tudo isso facilita a possibilidade de ampliar a função social do livro.

O Vias de Fato já produziu outros shows, por exemplo, o Tarja Preta, ano passado.
Pois é, no ano passado, para comemorar os seis anos do Vias de Fato, o jornal organizou o Baile Tarja Preta, num processo que juntou pessoas da música, do teatro e do cinema. Naquele baile, por exemplo, o ator Lauande Aires fez uma leitura dramática junto com Rejane, tratando de temas comuns ao Vias. Hoje, o show inspirado no livro sobre Maria Aragão é consequência dessa mistura, que passa pelo Tarja Preta e já vem desde 2006. Agora, no dia do lançamento desse livro, teremos a apresentação de duas esquetes teatrais, antes da apresentação de Tássia. Uma com estudantes da Unidade Integrada Maria José Aragão, da Cidade Operária, e outra com a atriz Maria Ethel, com um trecho do espetáculo A besta-fera. E no show de Tássia haverá uma participação do cantor Claudio Lima, que vai interpretar composições de Marcos Magah.

Voltando um pouquinho, como Tássia entrou na história?
Por uma questão de identidade. Os shows que ela montou a partir de Nara Leão, Sergio Sampaio, Belchior, algumas músicas que ela canta no show que faz junto com Camila Boueri e Milla Camões expressam essa identidade. Além do talento evidente, Tássia me remete a sensibilidade, inquietação, insubordinação. Uma subversiva no fio da história tem relação com isso. Eu e ela também nos tornamos amigos, mas a escolha para este projeto vai além disso.

A partir dessa constatação, de que forma você pensa em tornar o livro mais acessível, do ponto de vista do preço, da distribuição.
Em termos de circulação a maioria dos livros hoje vai ter dificuldade. Principalmente em tempos de microcomputador travestido de celular.

Você pensa em disponibilizar o livro para download?
Num segundo momento, sim. Nesta primeira etapa, preciso pagar o projeto, então preciso circular com o livro em 2017, dentro e fora do Maranhão. Em São Luís vou botar em bancas, livrarias, em alguns pontos da cidade, e circular, debater a questão da ação subversiva nesse tempo de hoje. Acho que publicar um livro hoje já é, por si só, um ato subversivo.

Frito Sampler volta à carga

Alter-ego de Tatá Aeroplano, personagem acaba de lançar Cosmic Damião, seu segundo disco. Criador/criatura conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Cosmic Damião. Capa. Reprodução
Cosmic Damião. Capa. Reprodução

Num ano de tantas tragédias, o Cérebro Eletrônico anunciou o fim da banda. Cada um de seus integrantes, agora, toca sua carreira solo. Exceto Tatá Aeroplano. O vocalista toca suas carreiras solo: ele lançou este ano seu terceiro disco, Step psicodélico, e acaba de sair o segundo disco de seu alter-ego Frito Sampler: Cosmic Damião [à venda em seu site, onde também pode ser baixado gratuitamente].

À primeira leitura ou audição, pode soar óbvio, mas o trocadilho é genial. Chega a ser irritante que ninguém tenha pensado antes em Cosmic Damião para título de qualquer coisa. “Foi um lance muito louco, surgiu do nada. A gente compôs a música e no fim do dia eu disse: “isso é cosmic alguma coisa”, e a Julia [Valiengo, da Trupe Chá de Boldo, que encarna a personagem Grace Ohio nos discos de Frito Sampler] arrebatou: “Cosmic Damião”. O nome Cosmic Damião veio de uma maneira cósmica e natural mesmo, revela Tatá Aeroplano/Frito Sampler em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.

Cosmic Damião traz algumas semelhanças em relação a Aladins Bakunins, o disco de estreia de Frito Sampler: a presença de Julia, inclusive na capa, que traz só o nome do personagem (e não o título do disco), o canto em uma língua inventada, a psicodelia. “O que rolou foi que quando fechou o show de lançamento [do disco Aladins Bakunins] em agosto de 2015, eu me reuni com o Moita Mattos [guitarra], o Marcos Till [contrabaixo], o Pedro Gongom [bateria], Otávio Carvalho [sintetizadores] e a Julia [voz] pra fazer o show. No primeiro encontro pro show de lançamento, em vez de ensaiar o novo disco, em uma tarde surgiram quatro novas canções arranjadas de maneira coletiva, entre elas Cosmic Damião, Smashing Funkin, Amsterdam Hippie Hunters e Haribo Honey Moon”, conta.

“Esse disco foi mais coletivo que o anterior, mais amplificado também: mais banda, tanto que o Frito batizou a banda como Hippie Hunters”, continua, emendando um comentário sobre o estado de espírito que é encarnar Frito Sampler: “eu sempre gostei de escutar todo tipo de música, coisas do Brasil e coisas de fora, mas não aprendi a falar nem entender a língua inglesa. Desde pequeno eu compus letras em português com melodias. Em 1995 eu compus minha primeira canção com uma melodia em palavras de origem inglesa, mas sem nexo nenhum, e desde então em meio as canções com letras em português, surgem algumas em “embromation”. Então com o Frito Sampler, eu consigo dar margem a essa viagem de fazer uma música que cause sensações sem necessariamente dizer algo, ter uma letra ou contar uma história. Quando Aladins Bakunins ficou pronto eu fiquei um tempo no sítio onde passei parte da minha infância e me deixei levar pela natureza totalmente. Durante as bandas que eu tive, uma coisa que me incomodava um pouco, era uma certa vontade da galera de fazer música cantada em inglês, pensando em comunicar com o mundo, ou pedir pra eu colocar uma letra em inglês numa canção “embromation” para ter sentido. Eu sempre achei nada a ver querer falar com o mundo numa língua que não é nossa. Eu sou simples: não sei falar inglês e não vou aprender mais [risos]. Mesmo porque sempre amei e escutei canções cantadas em outras línguas que não conheço e isso me traz sensações indescritíveis de conexão e compreensão cósmica. Inconsciente Ativado. A maior parceria do Frito Sampler é com o Paulo Beto [Anvil FX] e a banda Zeroum, onde criamos desde 2006 dezenas e dezenas de canções, passamos por fases diversas, eu sempre cantando coisas sem sentido”.

Numa cena em que todo mundo toca com todo mundo, o segundo disco solo de Frito Sampler é uma realização coletiva, envolvendo um punhado de talentosos artistas. Tatá Aeroplano/Frito Sampler comenta a feitura do disco: “eu chamei o Gongom e o Moita Mattos depois de um show em que vi os dois tocando com a Juliana Perdigão [cantora e jornalista]. O Moita e o Gongom super sintonizados e improvisando ao vivo. Eu pensei que essa sintonia  ia dar muita liga, já que a Julia e o Gongom são da Trupe Chá de Boldo também. Do Marcos Till sou fã faz tempo. Adoro o Tigre Dente de Sabre e a sonoridade que ele consegue trazer da música eletrônica, tocada com muito sentimento, e o Otávio Carvalho [Vitrola Sintética], produziu comigo o primeiro [disco do] Frito e tocou nesse também, fez sintetizadores e mandou baixo em duas canções. Levantamos as canções em poucos ensaios, tem o DNA de todo mundo nelas: solos do Moita, riffs do Till, ideias do Gongom, linhas de baixo do Ota, melodias e vocais da Grace, ops, Julia! Levamos essa naturalidade toda pro estúdio e gravamos tudo ao vivo”.

Ele segue comentando o processo de gravação: “a gente fez uma pausa no primeiro dia de ensaio, já tinha pintado Smashing Funkin e Cosmic Damião. Daí eu fiquei brincando no Microkorg [um tipo de teclado] e o Till chegou com o Gongom. Eu disse pro Till, “manda uma levada no baixo, tipo “Caçadores de hippies em Amsterdam”, surrealismo biritisco fumacê”, e aí nesse dia rolou a canção Amstedam Hippie Hunters, que tem mais de 10 minutos. Foi um prazer criar coletivamente. No fim desse dia alguém disse “Frito Sampler & The Hippie Hunters”, é algo que remete aos anos 1960, 70 e 90, é bem ligado a essas décadas esse momento”.

Pergunto-lhe o que ativa o Frito e como os que o cercam, fora dos discos e shows, ou ele mesmo, sabem em determinados momentos estarem falando com Tatá Aeroplano ou Frito Sampler – dúvida que era também do repórter. “O que ativa o Frito é a liberdade de pensamento e expressão, uma ligação com a ingenuidade, a infância e também com a política. De não fazer questão de cantar e querer se conectar com o mundo cantando uma língua que não seja a nossa. Me sinto conectado espiritualmente quando as músicas chegam via Frito. Não sei explicar direito, às vezes nos shows incorporo mesmo, é uma coisa louca. O Frito é um personagem que não interfere nos discos autorais cantados em português [de Tatá Aeroplano]. Nós vamos envelhecer juntos, e para cada disco que eu fizer [idem], o Frito vai fazer um dele. É o pacto que eu fiz comigo mesmo acerca disso [risos]”.

Diante do verbo “incorporar”, pergunto se há algo de religioso no Frito. “É uma religação com o ancestral, o que vem antes da religião, mas conectado com a natureza, o sagrado. Sentir, sentir a lua. Fishing Neil Young foi composta numa pescaria: peguei uma traíra imensa nesse dia, limpei e preparei para toda a família comer. Isso é religioso pra mim”.

Os títulos de algumas faixas de Cosmic Damião trazem referências explícitas a Neil Young e Smashing Pumpkins. Ele cita outras: “Fishing Neil Young é porque no dia eu estava pescando, na época escutando-o diariamente. Smashing Funkin nasceu em cima de um riff do Marcos Till, que remete aos anos 90, aí lembramos do Smashing… Haribo Honey Moon tem algo de Mutantes ritalístico [a fase com Rita Lee] no ar, Cosmic Damião já é um axé, Lauren To Heaven é a resposta de Lou Reed para o Oh! My Lou [música gravada pelo Cérebro Eletrônico] que o Frito emplacou no Vamos Pro Quarto [quarto disco da banda]. Em Lauren To Heaven, o Lou pede para Lauren ir visitá-lo cosmicamente. São as viagens loucas do Frito!”.

Como ele havia citado a política no ativar o Frito, indago-lhe sobre o atual momento político por que passa o país. “Vivemos um momento político que é de tirar o sono. Dá tristeza e raiva ver o que fizeram com a Dilma e como as coisas têm caminhado desde então. O mundo virou a chavinha total pra direita. Consumir e destruir, destruir e consumir, é o que a nova ordem prega: mais carros, mais dívidas, força motriz para alimentar o capitalismo desenfreado com que não compactuo. Há tempos que escolhi um modo de vida mais simples. Não tenho carro, ando muito a pé, uso os transportes públicos e raramente pego um táxi. É possível viver com muito pouco, sim. Nos últimos anos eu fiz essa escolha. É uma mágica  e tem a ver com o zen budismo tudo isso. Evito gastar grana com as empresas estabelecidas, compro quase tudo de que preciso de pequenos produtores rurais e artesãos. O que eu ganho com minhas discotecagens, shows e vendas de discos, essa graninha que entra, dou de volta aos pequenos produtores. Como músico sou um pequeno produtor e me organizei pra ser assim, um ser orgânico e simples. Então, consigo diariamente passar por esse momento em que vivemos e encontrar cada vez mais pessoas que compartilham desse mesmo ideal em que vivo”, finaliza.

Ouça Cosmic Damião (Frito Sampler/ Moita Mattos/ Marcos Till/ Pedro Gongom/ Julia Valiengo):

Ferreira Gullar: um vazio impreenchível

O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress
O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress

 

“Um vento velho e urgente/ sobrevoa a tarde que embala/ o rio Bacanga em São Luís do Maranhão/ um vento, um pedaço dele, um susto, um sopro, um barulho,/ passa sobre mim e desarruma os cabelos/ que penteei em casa hoje de manhã cedo/ em frente ao espelho, testemunha do meu zelo inútil/ Enquanto isso, na Academia Maranhense de Letras/ velam o que sobrou do poeta Ferreira Gullar”.

Com ecos de Uma fotografia aérea, o poeta Celso Borges escreveu o poema acima em 2001. Gullar post mortem foi publicado em seu livro-disco Belle Epoque, lançado em 2010 no Cine Praia Grande, com show do autor, acompanhado da banda Restos Inúteis. Ao fim do poema, uma vela acesa no palco, a voz de Gullar ecoava, recitando trechos de Notícia da morte de Alberto Silva, outro poema de Dentro da noite veloz: “Eis aqui o morto/ chegado a bom porto/ Eis aqui o morto/ como um rei deposto/ (…)/ De barba feita, cabelo penteado/ jamais esteve tão bem arrumado/ (…)/ Enfim este é o morto/ agora homem completo:/ só carne e esqueleto/ Enfim este é o morto/ totalmente presente:/ unha, cabelo, dente”. A gravação está no sublime Antologia poética, em que Gullar é acompanhado por Nivaldo Ornelas e Egberto Gismonti.

Naquela noite de autógrafos, o próprio Celso Borges contou a ocasião em que escreveu o poema: “Novembro de 2001. Este é o cenário: estou sentado diante da televisão, ligo a TV e olho de frente o poeta Ferreira Gullar, abrindo o programa político do Partido da Frente Liberal [o então PFL, hoje Democratas, tinha à época a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney – hoje no PMDB – como pré-candidata à presidência da República]. Ele dizia: “ela pertence a uma nova geração de políticos, não só por ser mulher, então ela está se colocando diante do país como uma mulher que tem a capacidade de administrar a coisa pública, mas ela é de uma outra geração, de uma outra experiência de vida, de uma outra experiência social, e é o que a gente percebe, que é uma geração que não vem à procura de usar o Estado em seu benefício, que é uma geração com o sentido social de interesse público”. Levanto, desligo a televisão e escrevo este poema”, contou.

O poema de Celso Borges revela, antes de tudo, sua admiração por Ferreira Gullar (10/9/1930-4/12/2016), cujo Poema sujo [1975] acabou por empurrá-lo para a poesia. Ex-militante do PCB, o hoje imortal da Academia Brasileira de Letras acabou dando, nos últimos anos de vida, uma guinada à direita. Prova disso foi a coluna dominical que manteve desde 2004 na Folha de S. Paulo, desde sempre uma trincheira anti-Dilma (de quem foi contra o impeachment), anti-Lula, anti-PT, anti-esquerda. Particularmente incluí-o no rol de artistas de que era preciso separar vida e obra para não cair no ódio burro e cego das “pessoas de bem” que boicotaram Aquarius [filme de Kléber Mendonça Filho] por recomendação de outro jornalista de direita.

Resumindo: independentemente de suas opções ideológicas, Gullar fez grande poesia até falecer, hoje (4), no Rio de Janeiro, onde vivia desde os anos 1950. Foi merecedor de todos os prêmios e honrarias com que foi laureado em vida – e com que certamente continuará sendo a partir de agora. Chamá-lo simplesmente poeta é insuficiente, tamanha foi sua importância no campo das artes no Brasil: além de poeta, foi crítico de arte, ensaísta, cronista, dramaturgo, tradutor, artista visual, letrista de música popular. É dele a voz que narra Cabra marcado pra morrer [1984], filme de Eduardo Coutinho batizado por poema seu. A película foi perseguida pela ditadura militar – como seu locutor – e só foi finalizada 21 anos após seu início.

Na música, fundamental para tornar sua obra mais popular, foi parceiro de Heitor Villa-Lobos [O trenzinho do caipira, trecho do Poema sujo cuja Bachianas brasileiras nº. 2 ditava o ritmo da leitura], Milton Nascimento [Meu veneno, Bela, bela], Fagner [Traduzir-se, Contigo, Me leve (Cantiga para não morrer)], Caetano Veloso [Onde andarás?], Paulinho da Viola [Solução de vida (Molejo dialético)] e Moacyr Luz [Poema obsceno], entre outros. Seu maior êxito é Borbulhas de amor (Tenho um coração), sua versão para Borbujas de amor, do dominicano Juan Luis Guerra.

Recentemente reli o Poema sujo, por ocasião do lançamento (na última quarta-feira, 30/11) de Visões de um Poema sujo [2016], a última grande homenagem a Gullar em vida: uma releitura fotográfica de Márcio Vasconcelos para o livro que muitos consideram a obra maior do poeta – em janeiro o fotógrafo inaugura exposição em São Paulo. Encontrei um trecho em que ele cita a Rádio Timbira, onde atualmente, com a queridamiga Gisa Franco, produzo e apresento o Balaio Cultural – Márcio e Celso Borges foram os entrevistados do programa na última terça-feira (29/11).

O trecho diz: “(Se tivesse me casado com Maria de Lourdes,/ meus filhos seriam dourados uns, outros/ morenos de olhos verdes/ e eu terminaria deputado e membro/ da Academia Maranhense de Letras;/ se tivesse me casado com Marília,/ teria me suicidado na discoteca da Rádio Timbira)”. Celso Borges imediatamente lembrou que Gullar havia sido locutor da rádio, antes de ir embora de São Luís, de onde foi demitido por ter se negado a ler um editorial contra determinada greve.

Era atualmente o nome mais importante da poesia de língua portuguesa no mundo. Sua morte deixa um vazio impreenchível. “Tu de nada suspeitas/ e te preparas para mais um dia no mundo./ Pode ser que de golpe/ ao abrires a janela para a esplêndida manhã/ te invada o temor:/ “um dia não mais estarei presente à festa da vida”./ Mas que pode a morte em face do céu azul?/ do escândalo do verão?”, escreveu em Morrer no Rio de Janeiro [2001].

“Mas sobretudo meu/ corpo/ nordestino/ mais que isso/ maranhense/ mais que isso/ sanluisense/ mais que isso/ ferreirense/ newtoniense/ alzirense/ meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres/ ao lado de uma padaria/ sob o signo de Virgo/ sob as balas do 24º. BC/ na revolução de 30/ e que desde então segue pulsando como um relógio/ num tic tac que não se ouve/ (senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)”, escreveu durante o exílio em Buenos Aires.

Antes, no mesmo Poema sujo: “Corpo meu corpo corpo/ que tem um nariz assim uma boca/ dois olhos/ e um certo jeito de sorrir/ de falar/ que minha mãe identifica como sendo de seu filho/ que meu filho identifica/ como sendo de seu pai/ corpo que se para de funcionar provoca/ um grave acontecimento na família:/ sem ele não há José Ribamar Ferreira/ não há Ferreira Gullar/ e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta/ estarão esquecidas para sempre”.

Vivo para sempre em sua obra monumental, Ferreira Gullar está morto – o Governo do Maranhão publicou nota de pesar e decretou luto oficial – e infelizmente não é apenas mais um poema.

Ouça Ferreira Gullar em Notícia da morte de Alberto da Silva:

A revolução do BR 135

Dois recordes quebrados, shows históricos, a Praia Grande reocupada com arte e coros em uníssono: “Fora, Temer!”

Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Em seu quinto ano, o Festival BR 135 superou todas as expectativas e parece que qualquer coisa que se diga dele soará clichê – inclusive isto.

Colocando São Luís na rota do circuito brasileiros de festivais, alguns longevos, outros tão ou mais novos que o “nosso” BR, como é simplesmente abreviado – e chamar o BR de nosso é mais que legítimo! –, mas já demonstrando vigor – e aí já disputamos as atenções de igual pra igual.

Se não, vejamos: que outro/s festival/is brasileiro/s consegue/m reunir numa mesma edição Nação Zumbi, Di Melo e Liniker e os Caramelows, para ficarmos apenas nos headliners, já que havia outras ótimas atrações na programação?

“A única saída é o aeroporto”, dizia um jocoso Tom Jobim, sobre a situação brasileira, noutros tempos. 52 anos depois do golpe que implantou a ditadura civil-militar no Brasil, um novo golpe, político-jurídico-midiático, destituiu a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita, para ascender o vice-decorativo ao posto de presidente-decorativo.

Mas por que falar de política em um texto sobre cultura, mais especificamente sobre um evento cultural? Se você ainda se pergunta isso, das duas uma: ou apoia os golpistas ou está muito por fora.

Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Já na primeira noite de BR 135 – batizado com o nome da única entrada e saída de São Luís por via terrestre –, a de quinta-feira (24), as atrações foram unânimes em compartilhar do grito da galera: um mar de gente – outro clichê – entoava o coro de “Fora, Temer!”, com a recíproca verdadeira de bandas como Venga Venga (um duo de djs), DuSouto e Nação Zumbi. Estes, encerrando a noite inaugural, quebravam um recorde de público do festival. Há quem fale em 10 mil pessoas na Praça Nauro Machado e arredores.

“Estamos fazendo o podível e o impodível e nada é impodível para o imorrível”, gracejou Di Melo, outro pernambucano, lenda vivíssima – chegou a ser dado como morto, depois reapareceu –, cujo álbum de estreia passou anos esquecido até tornar-se cult e cantado a plenos pulmões pelo ótimo público que lotou a Praça da Criança na segunda noite de festival (quinta-feira, 25). Aqui cabe um elogio também à banda local que o acompanhou.

“Foram só 40 minutos de ensaio, estes músicos são maravilhosos”, derramou-se ao se referir a João Paulo (contrabaixo), Rui Mário (teclado), Fofo (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Danilo Santos (saxofone) e João Simas (guitarra). Com todos os presentes cantando seu repertório de cabo a rabo – mesmo as poucas músicas de Imorrível, disco lançado este ano, nem se sentiu falta de backing vocals, para repetir o refrão “calma, calma, calma, calma, calma!”, de A vida em seus métodos diz calma, da estreia Di Melo, de 1975.

Por falar em atrações locais, a noite central foi também a “noite do empoderamento feminino”, quando o palco da Nauro Machado – difícil falar em palco principal – foi totalmente das mulheres: Nathália Ferro, Tássia Campos, Núbia e Lei di Dai mandando a real.

Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Outros destaques locais foram a volta da Pedeginja, entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco de estreia e inéditas, Beto Ehongue e os Canelas Preta, que aproveitaram os ótimos público e clima do Festival BR 135 para a gravação de um dvd ao vivo, e Bruno Batista, que apresentou novamente aos ludovicenses o show Bagaça, baseado no repertório de seu último álbum, com participações do casal Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões, idealizadores e produtores do BR 135), de Léo Chermont (guitarrista da Strobo, banda paraense que faria show na sequência) e acompanhado de André Bedurê (contrabaixo), Gustavo Souza (bateria), Márcio Guimarães (guitarra) e Estevan Sinkovitz (guitarra).

Bruno Batista afirmou com todas as letras o que, de algum modo, todos tínhamos certeza: “o BR 135 é a coisa mais revolucionária que aconteceu na cena cultural do Maranhão nos últimos tempos”. Certamente referia-se ao conjunto Festival BR 135, que além dos shows promove feira criativa e intercâmbios os mais diversos, além do Conecta Música, evento paralelo que envolve debates, palestras, mesas redondas, oficinas, rodadas de negócio – sem falar na histórica roda de samba na Feira da Praia Grande, na tarde de sábado (26), reunindo Patativa e a Turma do Vandico.

Como anunciou Leminski, "essa noite vai ter sol". Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Como anunciou Leminski, “essa noite vai ter sol”. Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Mas o mais surpreendente ainda estava por vir: fechando a última noite de festival (sábado, 26), Liniker e os Caramelows fizeram um show para um público ainda maior que o da Nação Zumbi. Havia gente pendurada nas árvores. Um festival com dois recordes sucessivos quebrados não é qualquer festival.

Quando ela cantou Zero, acompanhada, obviamente, pela multidão, isqueiros e celulares se acenderam, quase antecipando em algumas horas a barra do domingo – na memória de quem esteve presente ainda não se apagaram.

[originalmente publicado nO Imparcial de hoje]