Arquivo mensal: setembro 2016

Livre que só ele

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos sobre Só vou chegar mais tarde, disco que acaba de lançar, política e arte

O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira
O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira

São Luís e o tambor de crioula eram citados na letra de Jataí (2014), faixa-título do penúltimo álbum de Edvaldo Santana. Naquele ano ele chegou à capital maranhense, quando se apresentou em novembro, na semana da Feira do Livro de São Luís, no Teatro da Cidade (antigo Cine Roxy). O mote do show eram as comemorações de seus 40 anos de carreira.

Como arte e vida não são ciências exatas, esta matemática também não: as comemorações do artista se prorrogaram. Como ele diz em 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde (2016), “quando resolvi sair de casa pra cantar de vez/ já faz mais de muitos anos”.

Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução
Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução

O cantor e compositor conversou por e-mail com Homem de vícios antigos. Só vou chegar mais tarde aprofunda algumas características do trabalho de Edvaldo Santana, por exemplo o trânsito entre ritmos nordestinos e o blues americano.

A faixa de abertura é coalhada de referências. Entre outros, estão lá a Matéria Prima, sua banda inaugural ainda na década de 1970, passando por Tom Zé, com quem chegou a tocar, o poeta Ademir Assunção (o Pinduca), Arnaldo Antunes, Paulo Lepetit e Haroldo de Campos, cujo Galáxias, musicado por Caetano Veloso em Circuladô de fulô, é evocado na letra: “e não me peça nunca que eu te guie/ eu não nasci pra fazer teste”.

Edvaldo Santana (voz e violão) é acompanhado por banda base formada por Luiz Waack (banjo, violão, guitarra e cavaquinho), Reinaldo Chulapa (contrabaixo) e Leandro Paccagnella (bateria). A estes somam-se instrumentos ocasionais, como a sanfona e teclado de Adriano Magoo (em Retorno do cangaço; ele toca ainda piano elétrico em Dom), a gaita de Bené Chireia (em Sou da quebrada, Dom e Arte depura), a tuba de Eliezer Tristão (na faixa-título e em Retorno do cangaço), a sanfona de Antonio Bombarda (em Ando livre e Gelo no joelho), o piano de Daniel Szafran (em Predicado e Fazendo pra aprender; ele toca órgão em Domínio), além de naipe de sopros em 40 e Gelo no joelho.

Edvaldo Santana é autor solitário das 13 faixas. As exceções são Gelo no joelho (parceria com Luiz Waack) e Canção (poema provençal de Guillaume de Poitiers versionado por Augusto de Campos e musicado por Edvaldo Santana).

O disco passeia por temas como futebol (Gelo no joelho e Dom, homenagem ao ídolo Sócrates), viagem e liberdade (Ando livre, com participação especial de Rita Benneditto, em que São Luís volta a aparecer, na citação ao Bar do Léo), tecnologia e o vazio de relações virtuais (Predicado), a competição capitalista e um dar de ombros do autor na faixa-título, tema que volta a aparecer em Retorno do cangaço, em que tece críticas também ao mercado da fé televisionado e o jogo sujo da política em geral, com suas propinas e traições como regra.

Em Sou da quebrada outro tema caro a Edvaldo: a homenagem a pessoas simples, como seu Valdemar, protagonista de A poda da rosa, do disco anterior. Fazendo pra aprender é uma canção romântica, com ecos de filme de faroeste e do desaparecido Belchior. Em Arte depura cita Judite, sua mãe, e Divino maravilhoso (Gilberto Gil/ Caetano Veloso), anteriormente citada pelo cearense na antológica Apenas um rapaz latino-americano (Belchior). Domínio é uma homenagem a São Miguel Paulista e Cabeça na mesa tem a participação especial de Alzira E.

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida
Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida

Homem de vícios antigos – Você esteve em São Luís em 2014, quando realizou um show de voz e violão em que comemorava os 40 anos de carreira. 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde, traz inúmeras referências a teu próprio trabalho e artistas de tua influência e convívio. Em que medida este disco é a continuação destas comemorações?
Edvaldo Santana – Sim, 40 é uma música que procura falar dessa trajetória das influências e referências nessa estrada de 40 anos, mas Só vou chegar mais tarde e as outras canções desse álbum estão em sintonia com o presente, refletem o que vivo e penso no momento, sem esconder o aprendizado que o caminho da arte possibilita. Celebrar a arte tem que ser uma constante na nossa vida. Minha estada em São Luís foi muito proveitosa.

Por falar em São Luís, Ando livre, que conta com a participação especial de Rita Benneditto, fala no Bar do Léo, que você visitou quando esteve aqui. Fale um pouco de suas impressões do lugar e de como se deu este encontro com a cantora maranhense.
Pois é, fiquei muito impressionado quando conheci o Bar do Léo, através de você,  uma mistura de diversas formas de artes: plástica, música, literatura, dança, diversão e um cara, o dono do bar, muito interessante, de papo bom e cordial. Ando livre é uma música que escrevi refletindo as observações da viagem que fiz pelo nordeste em 2014, passando pelo sertão do Piauí, pelo Rio São Francisco, na divisa da Bahia com Pernambuco, pelo Ceará e pelo Maranhão. Já conhecia a Rita, de quando ela morou em São Paulo, sempre gostei muito de sua voz e de seu jeito de cantar. Como queria convidar uma cantora pra dividir os vocais, que tivesse uma ligação com a letra, não titubeei em convidá-la pra cantar comigo esse bolero. Conversei com sua irmã Elza Ribeiro, enviei uma gravação e Rita depois de ouvir, aceitou meu convite. Como ela mora no Rio tivemos o auxílio luxuoso do amigo e grande artista Lenine, que acionou seu filho Bruno Giorgi, que colocou seu estúdio à disposição, para que pudéssemos registrar a voz dessa cantora genial. Momento muito feliz, onde a amizade e a tecnologia contribuíram generosamente para que esse encontro artístico fosse concretizado.

Você é paulistano, descendente de piauiense: a geografia e a genealogia fazem de você o artista brasileiro que melhor reprocessa certa sonoridade americana, isto é, você faz o que podemos chamar de brazilian blues, contrariando a tristeza típica do gênero. Ao longo de Só vou chegar mais tarde, há autorreferências que citam, entre outros, teu álbum Reserva de alegria. Apesar de tudo, o Brasil ainda é a terra da alegria?
Sou paulistano da periferia, do bairro chamado São Miguel Paulista, filho do piauiense Félix e da pernambucana Judite, que já partiram para outra esfera. Desde pivete que as sonoridades da gaita e da sanfona vivem dialogando no coração e na mente, trazendo melancolia. Talvez um dos motivos sejam as dores e as alegrias do povo nordestino e do povo negro americano, que apesar de todas as dificuldades conseguem doar para o planeta uma música primorosa. Sim, gosto demais do jazz, do blues, da salsa, do reggae, como adoro samba, xote, moda de viola, e essas virtudes sonoras transitam pelas minhas ideias, aguçando a sensibilidade. Nesse disco tem um ingrediente do dixieland, uma das últimas misturas entre a música africana e a europeia no começo do século passado. Pra você viver num mundo contrariado, só com muita reserva de alegria e com o auxilio luxuoso do suingue sofisticado que a música negra brasileira, americana, cubana, caribenha, nascida do povo nos dá de graça.

Por falar em teus pais, uma característica marcante de tua poética é a revelação das pessoas comuns como heróis, de uma professora ou um jardineiro serem teus ídolos, e aí podemos citar Judite e seu Waldemar, entre outras personagens. Ao risco de fazer música a partir de uma poesia hermética, posto que, em tese, só a entenderia quem conhecesse as personagens, você fala de sentimentos que todo mundo entende. A seu ver, por que mais gente não faz isso?
Apesar dos seres serem diferentes, acredito que quando você fala de sua aldeia, das pessoas comuns, você acaba falando pra todo universo, os sentimentos de respeito, bondade, amor, dignidade, são virtudes essenciais na vida do planeta. Outros artistas já fizeram isso muito bem: Jackson do Pandeiro, Bezerra da Silva, cantando os heróis e os vilões de suas comunidades.

Você é autor de músicas definitivas sobre o universo do futebol, embora, infelizmente, menos falado que nomes como Chico Buarque e Jorge Benjor. Em Só vou chegar mais tardeGelo no joelho e Dom se somam a O jogador e O goleiro, para citarmos algumas. Nas duas deste disco você fala de sua própria experiência como praticante do esporte e homenageia o ídolo Sócrates. O futebol é uma boa lente para observarmos o Brasil?
Futebol tá no sangue, faz parte da minha vida e acredito que de boa parte da população brasileira. Além de jogar, eu e meus irmãos fundamos um time de futebol na adolescência. Jogo minha bolinha até hoje. Vira e mexe gosto de cantar músicas que falam do jogador de futebol. O Sócrates é uma figura especial que, além de jogar muito bem, sempre se colocou ao lado da população mais desfavorecida, comprou briga com a imprensa marrom, defendendo suas ideias. Fui convidado para fazer a trilha sonora do seu doc, que acabou não rolando, e fiz esse samba em sua homenagem, que registrei nesse novo trabalho. O futebol às vezes é muito passional, como está enraizado no coração das pessoas, pode sim servir de lente para observar o Brasil.

Por falar na politização de Sócrates, algo raro entre jogadores de futebol em qualquer tempo: em meio a esta entrevista acaba de consumar-se a cassação do mandato da presidente da república Dilma Rousseff. Como você recebeu a notícia e qual a sua percepção do processo?
Estou muito triste e injuriado com esse momento funesto, apesar de saber que não teria volta. O Brasil interessa pra muita gente e depois da votação na Câmara os picaretas não iam largar o poder. Novamente tomamos um chapéu do xaveco, temos que aprender que a comunicação é um instrumento a serviço do capital, que não se interessa por igualdade, amizade. O momento é de reflexão e ação imediata. Ficou claro, mais uma vez, que acordo onde o inimigo dá as cartas, nunca deu certo. Vamos à luta, não temos tempo de temer a morte

“Não temos tempo de temer a morte”, verso de Divino maravilhoso, parceria de Caetano e Gil, além de traduzir bem o atual momento por que passa o país, é citado em Arte depura. “A arte existe por que a vida não basta”, já disse Ferreira Gullar. Só a arte salva?
A minha vida foi salva pela arte. Seguir o caminho da música foi fundamental. Quando percebi o definhamento da escola pública e que ficar batendo cartão para ganhar uma mixaria, que não custeava as despesas, poderia ter escolhido o caminho do crime,  mas o coração falou mais alto e no começo dos anos 1970,  resolvi cair na estrada e estou vivo traçando minha trajetória com alegria e respeito.

Outra convidada neste disco é Alzira E., que de algum modo demarca, digamos assim, tua ligação com a vanguarda paulistana. Pra você, o que significou a participação e aquele momento, liderado por nomes como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção?
Alzira também é uma amiga de muitos anos. Quem me falou desse seu lado mais rock foi Luiz Waack, ele disse que seria legal convidá-la. Fiquei feliz com sua participação em Cabeça na mesa, ela tem um timbre diferente. Pois é, sou contemporâneo dessa safra do Arrigo, do Itamar. No começo dos anos 1980 em Pinheiros, Zona Oeste, havia o [Teatro] Lira Paulistana, que se tornou o espaço alternativo que abrigava diversas formas de manifestações artísticas. Nessa mesma época em São Miguel, Zona Leste, havíamos fundado o MPA, o Movimento Popular de Arte, que agregava também várias manifestações artísticas na periferia de São Paulo, ocupando praças, ruas, galpões, anfiteatros. Era um momento de ebulição, processo de abertura política em andamento. Essa estética paulistana é uma referência muito forte no meu trabalho.

A seu ver o atual momento político brasileiro contribuirá para uma maior espontaneidade artística, isto é, artistas voltando a se reunir em coletivos, a tocar em atos públicos, de protesto, a uma maior participação política, que de algum modo acaba por ter reflexos na estética de um período ou de um grupo?
Acredito que é a democracia que contribui para a construção de novas estéticas. O que pode acontecer daqui pra frente já é fruto de você poder experimentar, de você saber que pode fazer o que quiser, que ninguém vai te cercear. A liberdade é o grande alicerce da arte. Já estavam acontecendo encontros substanciais nesses últimos anos. Esse momento político adverso mexe com a sensibilidade e vai contribuir para a potencialização da produção artística.

Metais em brasa hoje no Sesc Partituras

O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação
O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação

 

O auditório da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem, Rua da Estrela, Praia Grande) recebe hoje (29), às 19h, mais uma edição do Concerto Sesc Partituras – o espetáculo integra a programação de aniversário de 70 anos do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Daniel Cavalcante (trompete) regerá o sexteto Marabrass, formado, além dele, por Hugo Carafunim (trompete), Jairo Moraes (trompa), Daniel Miranda (trombone), George Campos (tuba) e Marcel Pereira (percussão).

“Quando eu recebi o convite, pensei em fazer uma formação diferente, mas ao me debruçar sobre o banco de partituras do Sesc, optei por tocar com o grupo que já existia, o Quinteto Marabrass, Mara de Maranhão e brass de metais, que já tem 13 anos tocando junto. É grande a responsabilidade”, contou Daniel Cavalcante ao Homem de vícios antigos.

Ele prometeu “mesclar o repertório [do acervo do Sesc Partituras] de forma que a gente possa transitar entre o erudito e o popular”, destacando, entre os compositores que estarão no repertório do Marabrass na noite de hoje, nomes como “Henrique Alves de Mesquita, Marcílio Onofre, Maestro Duda e Bonfiglio de Oliveira, dentre outros”.

A biblioteca virtual de partituras do Sesc tem acesso gratuito a qualquer interessado/a. O concerto de hoje à noite também.

A cor do som

O Assanhado Quarteto em foto de Rafael Mota
O Assanhado Quarteto em foto de Rafael Mota

 

O clima de Feira [2015] vai muito além do nome do disco e do belo projeto gráfico da estreia do Assanhado Quarteto. André Milagres (violão sete cordas e guitarra), Bruno Vellozo (contrabaixo), Lucas Ladeia (cavaquinho) e Rodrigo Heringer, o Picolé (bateria, vibrafone e percussão) pegaram emprestado o choro de Jacob do Bandolim para batizar seu grupo, que foge do convencional – vide os instrumentos utilizados para tocar choro (mas não só) – para apresentar sua música, tão colorida quanto uma boa feira.

Os quatro cursavam mestrado na Unirio quando conheceram Mário Séve, ás dos sopros, integrante do Nó em Pingo d’Água, cuja sonoridade influenciou o quarteto. O bamba acabou aceitando o convite e produzindo o disco do Assanhado. No texto do encarte destaca o “repertório que, de uma forma instigante e inspirada, dialogava não só com o choro, mas com outros estilos musicais”, os “deliciosos arranjos “progressivos””.

Feira. Capa. Reproducao
Feira. Capa. Reproducao

Em vez de optarem por um caminho fácil (regravar choros conhecidos), um meio termo (mesclar choros conhecidos e inéditos), eles optaram pelo mais desafiador: Feira é completamente autoral e inédito.

Põe fiado! (André Milagres/ Lucas Ladeia/ Rodrigo Heringer) é a vinheta de abertura, uma balbúrdia sonora a lembrar o ambiente de trabalho dos feirantes. Tilho no choro (Lucas Ladeia) é um chorinho em que cavaquinho e contrabaixo dialogam inspiradamente. Dia bom (Rodrigo Heringer) começa a destacar o vibrafone, instrumento pouco usual no choro, mais comum no jazz. O instrumento volta a tomar as atenções para si em Maíra (André Milagres).

Mário Sève comparece a Atreva-se (Lucas Ladeia) e Do avarandado (Rodrigo Heringer), em que sola e dialoga com o quarteto, no que é uma das justificativas do título do disco: Feira é lugar de trocas e bastante popular.

A percussão que abre Cocada preta (André Milagres), reforçada pelo diálogo que se segue com o contrabaixo, remete ao bumba meu boi. O inventor inglês Richard Trevithick é o homenageado em Trevithick way (Lucas Telles). Ao mestre (André Milagres) é o momento em que mais o Assanhado Quarteto se aproxima da música erudita, o que poderia ser quase um imperativo para um grupo formado no âmbito da academia.

O cavaquinho vibrante de Bambolê evoca o bandolim de Jacob eu seus momentos mais próximos ao samba – com seus mais de sete minutos, a faixa mais longa do disco certamente é um dos arranjos progressivos de que falou Mário Sève, cujo saxofone assume ares progressivos em Do avarandado, faixa que encerra Feira.

Atualmente radicados no Rio de Janeiro, essa turma vinda da terra do Clube da Esquina faz bonito ao armar sua banca de boa música nesta imensa feira chamada Brasil.

Ouça o Assanhado Quarteto em Do avarandado (Rodrigo Heringer):

Galeria

Pedaco duma asa. Capa. Reprodução
Pedaco duma asa. Capa. Reprodução

 

Geralmente incorre em clichê o crítico que escreve sobre um disco dizendo tratar-se de uma pintura. Incorre em quê, então, o crítico que escreve que determinado disco é uma galeria? Depende. Mas se o disco for Pedaço duma asa [Brisa, 2015], de Mariana Aydar, é justamente isso, por reunir diversas pinturas.

Explico: o artista plástico Nuno Ramos assina quase a totalidade do disco. 11 das 12 faixas são dele: cinco em parceria com o também artista plástico Clima (que assina sozinho a única música que não é de Nuno, Samba triste), quatro sozinho, uma em parceria com a própria Mariana Aydar (Poeira) e uma em parceria com Rômulo Fróes, responsável por apresentá-los, o Barulho feio que batizou um disco do compositor.

No entanto, “o primeiro Nuno Ramos que eu conheci foi o da música, desconhecia sua vida ligada às artes plásticas”, adverte a cantora, logo no início do texto do encarte.

Mamãe papai, que abre o disco, é uma espécie de pedir a bênção aos pais, mesmo após uma carreira consolidada – Pedaço duma asa é seu quinto disco. “Mamãe/ papai/ dá licença de tentar/ eu cantar/ mal não faz”, começa a letra. Mariana Aydar é filha do músico Mário Manga (ex-Premeditando o breque) e de Bia Aydar, que já produziu um vasto leque de artistas brasileiros.

É o disco mais rock (a guitarra é quase onipresente) e mais axé (vide Dedo duro e Dentro das rosas, que dialoga com o carnaval das tribos de índio) de Mariana Aydar, mas o samba também segue firme e forte (vide Atrás dessa amizade, Samba triste e Caia na risada), destacando-se a guitarra de Guilherme Held, a percussão de Maurício Badé e a presença do esposo Duani em diversos instrumentos (contrabaixo, programação, violão, teclados, órgão).

Pedaço duma asa, a faixa-título, resume bem o disco: “eu vi o amor brilhar/ pedaço duma asa/ parecia carnaval/ zumbido em meu ouvido/ a voz que me dizia/ saber de mim o que eu já não sabia/ não sei tudo o que eu sonho/ talvez o que eu componho/ respondo ao que eu não sei mas sei, seria/ maior que a natureza/ que o som e que a beleza, que a arte, o canto, o sol/ e o bem maior, bem maior/ eu vi o amor cantar”.

Ouça Mariana Aydar em Dentro das rosas (Nuno Ramos/ Clima):

Modéstia e sinceridade

O cantor e compositor Marcos Magah é uma das atrações da terceira edição de RicoChoro ComVida na Praça, que acontece amanhã (24), às 18h, na Praça da Fé (ou Praça da Praia Grande), em frente à Casa do Maranhão.

A noite será aberta com discotecagem do DJ Samir Ewerton, e apresentações do cantor Claudio Lima e do grupo Urubu Malandro – formado por Arlindo Carvalho (percussão), Domingos Santos (violão sete cordas), Fleming (bateria), Juca do Cavaco e Osmar do Trombone.

O evento é gratuito, com patrocínio da TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Sobre sua participação nesta edição do projeto, Marcos Magah concedeu uma breve entrevista – modesta, sincera e hilariante – a Homem de vícios antigos.

Divulgação
Divulgação

Claudio Lima interpretou Salomé [no show Rosa dos Ventos, no Teatro da Cidade de São Luís, antigo Cine Roxy, em fevereiro de 2014], parceria tua com o poeta Fernando Abreu. O que você achou da interpretação?
Eu fiquei super feliz e honrado, e foi engraçado: eu tinha acabado de chegar em São Paulo para fazer uns shows e descolar uns trampos em restaurante de chinês e Wilka  [Sales, sua produtora à época] me mandou o link do youtube. Eu, na época desesperado, olhei aquilo, comprei uma cerveja, acendi um careta [gíria para cigarro] e saí gritando no meio daquela cidade linda, onde nada espanta.

O que você espera do show de sábado, no sarau de RicoChoro ComVida na Praça?
Velho, na boa, não é frase de efeito, não, mas eu sempre espero o pior.

Serão dois shows separados ou vocês se encontram em algum momento?
Eu e Claudio estamos sempre juntos, mas, sim, eu entro no show dele e ele no meu. Cantaremos Adoniran [Barbosa] juntos.

Você é um artista mais próximo do punk, rock e brega. Como foi se encaixar no choro do Urubu Malandro?
Eu pensei que seria enrolado, mas, cara, da minha parte foi tranquilo. Não sei da parte deles. Cheguei ao estúdio e toquei aquelas canções velhas e simples que tenho e eles me trataram com respeito. Só fiquei com pena do Juca e do Domingos se olhando e pensando: “como é que se chama um cara desses para um projeto tão bonito?” Meninos, coisas da vida.

Samba de roda e mina

Quintais. Capa. Reproducao
Quintais. Capa. Reproducao

 

Roque Ferreira assina mais de um terço do repertório de Quintais [2016], novo disco de Clécia Queiroz, que dedicou à obra do compositor conterrâneo seu disco anterior, Samba de Roque [2009] – ela estreou com Chegar à Bahia [1999].

Parceria dela e dele, a faixa Quintais batiza este novo álbum da cantora baiana, plural deste sinônimo de terreiro, espaço propício para a prática do samba de roda, presença constante no repertório, feito a cavaquinho (Dudu Reis), violão (Marcos Bezerra), percussão (Sebastian Notini e Bira Monteiro) e marcado a palmas, com aparições ocasionais de flauta, saxofone, clarinete, trombone, violino, flugelhorn, com participações especiais de Targino Gondim (sanfona em Águas de Oxum, parceria de Roque com J. Velloso), Dona Nadir (voz no Trecho de sodade de domínio público que abre Samba bom, de J. Velloso e Alexandre Leão) e Sú de Oiá (voz na vinheta Salve Xangô, dela).

O título dialoga com o do mais recente álbum da também conterrânea Maria Bethânia, Meus quintais [Biscoito Fino, 2014], outra grande intérprete de Roque Ferreira e, de resto, do universo do samba de roda do Recôncavo Baiano, patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco. “Foi escolhido de uma maneira insólita, depois de muita hesitação. Era necessário encontrar alguma coisa bonita e direta, sincera mesmo e que, sozinha, desse conta de tantas histórias, reunisse em suas poucas sílabas tantos climas, ritmos, arranjos e textos diferentes”, explica Vítor Queiroz em texto no encarte – o projeto gráfico, fazendo lembrar um antigo compacto, no formato e tamanho, merece destaque.

Flor d’água (Samir Trindade) é homônima ao maior sucesso da Banda de Pau e Corda, de Pernambuco. Pedra papel e tesoura (Samir Trindade) usa o lúdico dos brinquedos infantis para falar de amor: “pedra papel e tesoura/ par ou ímpar zerinho ou um/ é só ter você na memória/ que o peito faz/ tum tum tum tum”, começa a letra.

A sequência formada por Caruru (Samir Trindade), Salve Xangô, o medley Homenagem a Xangô, com Xorodô (Emília Biancardi), A lua de Nanã (Clécia Queiroz) – “inspirado livremente em O celular de Naná, de Otto”, como alerta o encarte sobre as semelhanças entre a homenagem do pernambucano ao conterrâneo falecido este ano – e Eu saravei (Sú de Oiá), Águas de Oxum e Areia branca (Roque Ferreira) visita o universo dos orixás e do tambor de mina, de forte presença no Maranhão, sobretudo no interior do estado.

Difícil não querer entrar na roda e dançar, mesmo sem saber ou sem ter quintal.

Daqui pra todo ouvido

Daqui. Capa. Reprodução
Daqui. Capa. Reprodução

 

O mundo se encantou com a música brasileira com a explosão da bossa nova, em fins da década de 1950. Uma das mais sofisticadas do planeta, desde então a música popular brasileira, aquela que passa longe de modismos, conquista cada vez mais espaços, sem se importar com barreiras geográficas e linguísticas.

Setas apontam para todos os lados na capa do novo disco do grupo Pau Brasil, uma das mais longevas e destacadas formações instrumentais da música brasileira. Depois da audição de suas 10 faixas, o título pode soar óbvio – o que seria a única obviedade do trabalho: todos os compositores gravados são brasileiros, daí o Daqui [2015] do título.

Metade das faixas é de autoria de integrantes do quinteto. A outra metade reverencia nomes fundamentais para a música brasileira, revelando influências e um fio condutor.

O maestro pernambucano Moacir Santos (Agora eu sei) foi professor do violonista Baden Powell (Pai, em parceria com Paulo César Pinheiro, que abre o disco). Tom Jobim (Saudades do Brasil) é, digamos, herdeiro de Heitor Villa-Lobos (Bachianas brasileiras nº. 1 [Prelúdio/ Modinha] – a cujo repertório já haviam dedicado o disco Villa-Lobos Superstar (2012), com participação especial do quarteto de cordas Ensemble SP e do cantor Renato Braz. E aparecem ainda Ary Barroso e Lamartine Babo, autores de No rancho fundo, de longe a mais popular das citadas.

Junto às demais faixas, autorais – Pingue pongue (Paulo Bellinati), Sarapuindo (Teco Cardoso), Lá vem a tribo (Rodolfo Stroeter/ Paulo Bellinati), Agreste e Caixote (ambas de Nelson Ayres) –, sobressai o espírito de conjunto, com momentos de reafirmação de seus talentos individuais, os nomes dos integrantes do quinteto sempre espalhados em fichas técnicas de discos e shows de uma grande gama de artistas.

O Pau Brasil em foto de Gal Oppido
O Pau Brasil em foto de Gal Oppido

Ricardo Mosca (bateria), Teco Cardoso (saxofones e flautas), Paulo Bellinati (violão), Nelson Ayres (piano) e Rodolfo Stroeter (contrabaixo) – da esquerda para a direita no retrato; o último o único presente desde a formação original – são a atual formação (desde 2005) do Pau Brasil, fundado em 1982, tendo estreado em disco em 1983 num álbum intitulado simplesmente com o nome do grupo.

O nome Pau Brasil remete ao Manifesto da Poesia Pau Brasil, escrito por Oswald de Andrade, farol do movimento modernista – não à toa seu disco anterior, com a voz de Monica Salmaso (eram sua banda em Noites de gala, samba na rua, de 2007, inteiramente dedicado ao repertório de Chico Buarque) e a regência de John Neschling, chama-se Concerto antropofágico (2012).

Em Daqui sobram demonstrações de talento, versatilidade e capacidade de improvisação, num álbum que é, com pitadas jazzísticas, uma espécie de síntese da música (instrumental) brasileira. Como no poema de Olavo Bilac reproduzido no encarte: “E em nostalgias e paixões consistes,/ lasciva dor, beijo de três saudades,/ flor amorosa de três raças tristes”.

Veja/ouça o Pau Brasil em Caixote (Nelson Ayres):

Sabor de maturação

Conheça Hóspede da natureza, sétimo disco de Cátia de França, disponível para audição e download legal e gratuito no site da Natura Musical. Sobre o trabalho, a cantora e compositora paraibana conversou com Homem de vícios antigos

Hóspede da natureza. Capa. Reprodução
Hóspede da natureza. Capa. Reprodução

Hóspede da natureza [Natura Musical, 2016; ouça e baixe aqui], sétimo título da discografia de Cátia de França, já é um dos grandes discos do ano e poderia ser considerado como tal “apenas” pelo fato de tratar-se da volta da compositora paraibana à cena, mas é bem mais que isso: sua força poética e melódica mantém-se intacta, quase 40 anos após a estreia com 20 palavras ao redor do sol.

Com ecos líricos e melódicos de Bob Dylan e James Taylor, a faixa-título, que abre o disco, é baseada em trechos de Walden ou A vida nos bosques, de Henry D. Thoreau, livro de 1847, mantendo a sintonia literária da música de Cátia de França, cuja obra dialoga desde sempre com nomes como Guimarães Rosa, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto e Marconi Notaro. A primeira faixa fala ao mesmo tempo de esperança – “toda criança reinaugura o mundo” – e de descrença – “os homens e seus ternos limpos/ seus casacos sem remendos/ sua consciência nunca está tranquila/ na verdade existem poucos homens/ e uma infinidade de calças e paletós”.

Minha vida é uma rede, a faixa seguinte, é inspirada em frases de para-choques de caminhão, revelando o olhar atento de cantadora das coisas do mundo da artista, menos conhecida que conterrâneos como Zé Ramalho, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Geraldo Vandré e Chico César, entre outros.

Lagarto ao sol, mesmo com o “erro” na pronúncia do nome do réptil, parece tecer uma crítica ao individualismo nosso de cada dia: “acorda, a plateia quer mesmo é que você caia/ e depois, tome vaia, a arena é a mesma, rugem os leões” – o disco foi lançado um pouco antes, mas a música de Cátia de França bem poderia traduzir também a sessão no Senado Federal que decidiu pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, ao menos neste trecho.

Com um jeito todo particular para falar de sexo, vide a belíssima Coito das araras de seu disco de estreia, Geração volta ao tema: “o inseto pólen, a transa, é você na estrada/ fecundando nosso ninho”. Gaivota segue a trilha de amor e desejo: “me pegou de jeito, você raio de luz/ (…)/ desejo em mim, estou tão feliz”. É também a primeira de três faixas marcadas por toques, ora mais sutis, ora mais escancarados, consagrados a divindades de religiões de matriz africana. Aqui o Toque aguerê de Oxossi; em Luvana o Toque Ilu de Iansã, e em Trator/ As águas que brotaram dos meus óio o Toque Opanijé de Obaluaiê.

Pra doer, com letra de Júlio Sortica, é o apego desesperado, nem que seja pela dor da lembrança, de quem vê um relacionamento se esvaindo. “Deixe alguma coisa sua ao sair/ algo que não corte/ mas que doa ao lembrar”, agarra-se desesperadamente o/a protagonista.

A dor não cabe em apenas uma faixa e Evidências, com letra de Mônica Dantas, segue a trilha de fim de relacionamento: “e eu sem querer já sei que o nosso amor/ está rendido à luz das evidências/ e tanta essência o ar não segurou”, entrega-se.

Tramas da cidade traduz os problemas comuns aos grandes centros urbanos do país. O texto de Cátia de França distancia-se, no entanto, do noticiário cotidiano, e mesmo questões urbanas graves como violência e poluição são encaradas sob o prisma por demais poético da paraibana, que canta e toca violão na faixa, acompanhada apenas pela guitarra de Walter Villaça. Não deixa de ser, também, uma canção de amor: “e se um dia aparece a pessoa certa/ eu fotografo na retina no meu doido descontrole”, promete adiante, depois de revelar que “com prazer o hálito da chaminé/ polui o ar, polui você” e noticiar que “um assaltante roubou o riso/ de uma criança e sumiu na multidão”.

O par formado por Rua do Ouvidor, em que sua voz e violão são acompanhados apenas pelos sopros de Marcelo Bernardes, e Rio Capibaribe traz à cena paisagens caras à Cátia de França, respectivamente no Rio de Janeiro/RJ e no Recife/PE – ambas as cidades integram a turnê de lançamento de Hóspede da natureza, que passará ainda por João Pessoa/PB, Vitória/ES e São Paulo/SP.

Luvana, única faixa instrumental do disco, traz vocalises de Cátia de França e o crescendo percussivo lembra, de longe, em determinados momentos, Kukukaya (Jogo da Asa da Bruxa), talvez sua música mais conhecida, gravada por nomes como Elba Ramalho e Xangai.

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu reverencia o bumba meu boi. Está aí um dos versos mais bonitos do disco, “meu amor quando me olha com brilho de faca nova”, e não deixo de pensar no diálogo com Rosa Maria, que “tinha faca de ponta nos olhos”, da lavra do maranhense Josias Sobrinho.

A cantora no show de lançamento de "Hóspede da natureza" no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho
A cantora no show de lançamento de “Hóspede da natureza” no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho

Cátia de França faz soar um sino e é acompanhada apenas do tambor alegre de Mariana Bernardes (filha de Marcelo) em Trator/ As águas que correram dos meus óio, em que reúne a alegria e o espanto diante do belo, o infelizmente hoje raro chorar de emoção, diante dum mundo cada vez mais embrutecido. Ela celebra, “chegando enfim, chegou o meu tesouro”, talvez fazendo uma autorreferência sobre este disco, tesouro que nos entrega, com certo atraso – Hóspede da natureza foi gravado entre 2005 e 2006, antes de seu antecessor, No bagaço da cana – Um Brasil adormecido, de 2012. Nunca é tarde para este transbordamento de beleza, e ela presta reverência: “as águas que correram dos meus óio/ dos tambores do Mestre Beleza”.

Aqui e ali se ouvem “sons de floresta, chuva e pio de inhambu”, como registra a ficha técnica. O fecho é sublime: em Grandezas pantaneiras Cátia de França volta ao universo particularíssimo de Manoel de Barros e seu olhar poético inusitado. Para contrariar a frase final, “de repente faz um silêncio pelo capinzal”, só resta apertar novamente o play e contemplar tudo de novo.

Cátia de França (voz, violão, percussão) divide os arranjos de base do disco com Rodrigo Garcia (violão, teclado, percussão, contrabaixo, viola) e acercou-se de nomes como Walter Villaça (guitarra) e Lan Lan (percussão), músicos que trabalharam com Cássia Eller, além do veterano Marcelo Bernardes (flauta, flautim, sax, clarinete), da banda de Chico Buarque. Também comparecem Durval Pereira (percussão), Matias Corrêa (contrabaixo acústico em Evidências), Luiz Otávio (piano em Evidências), Alex Merlino (bateria em Pra doer e na faixa-título), Arthus Fochi (violões em Lagarto ao sol) e Jander Ribeiro (viola caipira elétrica), entre outros.

Através de uma rede social, Cátia de França concedeu uma breve entrevista a Homem de vícios antigos.

Foto: Thercles Silva
Foto: Thercles Silva

Homem de vícios antigos – Hóspede da natureza é seu sétimo disco de carreira, mas poderia ser o sexto, já que foi gravado antes de No bagaço da cana, que acabou sendo lançado na frente. O que explica esse, digamos, desvio de percurso?
Cátia de FrançaNo bagaço da cana saiu na frente através do FIC, apoio cultural da Paraíba. Aquela safra [de composições] era de 1975. Só veio à tona em 2012. Parece que gosto da maturação. Tem que sair na hora certa. Com as pessoas indicadas. Dar possibilidade de pagar uma orquestra como a Camerata Arte Mulher. Uma orquestra feminina. Tinha que ter financiamento. O Hóspede saiu através da Natura, que criou o alicerce à altura.

Parte da banda que toca em Hóspede da natureza acompanhou a carreira de Cássia Eller. Como é sua relação com músicos mais novos? O que você acha/va do trabalho de Cássia Eller e o que achou do trabalho deles em sua obra? Como foi este contato?
O distrito onde estou aqui na serra, próxima ao Rio De Janeiro, já era rota dos músicos [Hóspede da natureza foi gravado entre dezembro de 2005 e fevereiro de 2006 no Estúdio Luperan, em São Pedro da Serra, Nova Friburgo/RJ]. A própria Cássia andou aqui na época que eu ainda não residia em definitivo em São Pedro da Serra. A cidade a homenageou dando a uma montanha o nome dela. Quem facilitou a adesão dos músicos para tocar no Hóspede foi o produtor do cd, Rodrigo Garcia. Ele tocou com ela na fase espanholada [nos discos Dez de dezembro (póstumo, 2002), Com você… meu mundo ficaria completo (1999) e Veneno vivo (1998)], na escola do [falecido cantor espanhol] Camarón de la Isla. Além dele, parte da banda, ou seja, Lan Lan, fantástica percussão e Walter Villaça, guitarra, e sua economia magistral nas notas, os solos precisos. O embrião do Hóspede se deu num clima mágico: estúdio caseiro, no meio de uma floresta, em pela serra. Havia até um rio próximo do local. Estávamos longe do conturbado centro urbano. Músicos novos, como reajo perante eles? Quando escolho a formação de uma banda não levo em conta se é novo ou velho. O que me interessa é se eles respondem o rojão de um maracatu, de um coco. De um rock à sutileza de um blue. Inclusive na formação atual da banda o mais velho é o rapaz dos sopros, Marcelo Bernardes, deve ter uns 50 e poucos. O restante está na faixa dos 30. Meu diretor musical e baixista também. O que é que eu achava da Cássia Eller? Achava não: eu acho. O legado dela é eterno. A lacuna na MPB jamais será preenchida. O trono feminino do rock está vazio. Quem hoje fará no palco o que ela fez?

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu traz o bumba meu boi. Qual a sua relação com o Maranhão e o que conhece da música daqui?
Maranhão. Meu envolvimento com o Maranhão ocorreu quando fui aí pela primeira vez, com a peça A peleja de Lampião, do Teatro Cordel, em 1975 ou 76, com direção de Luiz Mendonça e o elenco trazendo Elba Ramalho, Tonico Pereira, José Dumont, Tânia Alves. A direção musical quem fazia era eu, além de tocar violão, sanfona e percussão. Agora o que me impressiona é a força mística. O espiritismo em certas regiões daí, orixás, caboclos, pretos velhos. Musicalmente não dá para ouvir sentada. O reggae. Agora as festas populares. O povo nas ruas. Vi uns documentários por aqui… para quê viajar, se a gente tem um mundo com seus mestres dentro desse Brasil? Me dê licença, mas eu vou ver de perto, de bem perto esse Maranhão.

A arte do encontro, do canto e do encanto

O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

 

O cabelo de Renato Braz esvoaçava ao vento e ele, ao anunciar a saideira, “uma ária de Bizet”, afirmou: “com esse vento, vai ser uma maravilha”, para risos da plateia, antes de cantá-la à capela.

Ao fundo, o mar e a Ilha do lado de cá, belo cartão postal emoldurando seu canto, que num texto noutra ocasião, já chamei de “sagrada vocação”.

Antes, Renato Braz dedicou Cálice (Chico Buarque/ Gilberto Gil) a Cida Moreira, atriz, cantora e pianista, sua conterrânea, que se apresentaria na sequência, cujo Cida Moreira canta Chico Buarque (Kuarup, 1993) é inteiramente dedicado à obra do compositor. O cantor comentou a atual situação do país – “como pode essa música ser tão atual”, disse – e de incidental no Cálice serviu o Fado tropical (Chico Buarque/ Ruy Guerra): “ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ ainda vai tornar-se um império colonial”.

Um dos melhores cantores do Brasil em atividade, cantou ainda O ciúme (Caetano Veloso), O amor (Caetano Veloso sobre poema de Vladimir Maiakovski), antecedido de um aviso: “eu não sou a Gal Costa”, para risos da plateia. Seu repertório passeou ainda por Oriente (Gilberto Gil), O dia em que o morro descer e não for carnaval (Paulo César Pinheiro/ Wilson das Neves), Anabela (Paulo César Pinheiro/ Mário Gil), entre outras.

Fato destacado pela produção e cerimonial, o projeto Ponta do Bonfim [ontem (17), das 14 às 21h30, aproximadamente, na Ponta do Bonfim, em São Luís] é a soma de boa música, bela paisagem e amizade. Acontece sem periodicidade específica, a partir da reunião de amigos que decidem trazer à São Luís artistas que admiram – era a segunda vez que Renato Braz subia a seu palco. O barulho intenso de boa parte do público prejudicou sua apresentação, emocionante, apesar disso.

Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

Cida Moreira subiu ao palco na sequência. Precisou de ajuda: estava com três dedos do pé quebrados, história que contou rindo de si mesma, bem humorada. “Já é noite, tem mais a minha cara”, saudou a bela lua. O vento intenso descabelou-a também e alguém lhe emprestou algo para amarrar os cabelos. “O modelito foi embora”, tornou a rir e a fazer a plateia rir.

“Tássia” [Campos] – que havia aberto a sequência de apresentações, acompanhada por Rui Mário – “cantou uma música que eu ia cantar, Renato Braz cantou outra”, comentou Cida. Alguém da plateia retrucou: “canta de novo!”. “Não tem cabimento repetir. Tem muita música para cantar”, respondeu.

“Eu vou dedicar a essa menina linda que cantou antes de mim. Ela cantou muito bem Speak Low, do Ira Gershwin com o Kurt Weill; eu vou cantar uma dos irmãos George e Ira Gershwin”, anunciou, antes de cantar The man I love, dedicando-a a Tássia.

Esquivou-se elegantemente de pedidos: “há músicas que eu vou abandonando, deixando de tocar, o Soneto (Chico Buarque) faz tempo que eu não canto”. Alguém gritou “Geni e o zepelim!” e ela respondeu: “pra Geni eu já dei um plano de previdência privada”; a plateia caiu na gargalhada.

Depois contou uma história: “eu passei 25 anos ouvindo essa música e eu sempre chorava. Só depois eu consegui cantá-la. É uma música muito dura, muito forte, como tudo o que Chico Buarque faz. É uma canção de ninar, e eu vou oferecer ao Renato, que está com filho pequeno, vou oferecer para todos os que têm filhos”, e eu me senti contemplado, lembrando de José Antonio, que ficou em casa e era o nobre motivo de eu não ter como ver todos os shows deste pequeno festival de boa música – perdi também a apresentação do sambista paraense João Lopes, que encerraria a noite lembrando repertório exclusivamente formado por sambas imortalizados pelo saudoso xará, Nogueira. E Cida Moreira mandou a emocionante Uma canção desnaturada.

Ao cantar o tango Sou assim (Toquinho/ Gianfrancesco Guarnieri), tirou onda: “essa letra o Guarnieri fez para uma peça, o Toquinho musicou. Os maldosos gostam de dizer que essa é uma do Toquinho dos bons tempos”.

Em determinada altura do show atrapalhou-se com algum botão do teclado. “Teclados têm vida própria”, disse, e ao apertar uma tecla, o instrumento insinuava começar a típica batida programada das serestas. “O dono do instrumento, me socorra, por favor!”. O prestativo Rui Mário subiu ao palco e desativou a função.

“Essa é de um compositor brasileiro muito importante. Muito, muito, muito importante”, repetiu para frisar. “Ele deu uma sumida, ninguém sabe por onde anda. Belchior!”, continuou, trazendo Na hora do almoço.

Antes de cantar Forasteiro (Thiago Petit/ Hélio Flanders), recomendou: “quando vocês ouvirem uma música numa novela não pensem que a música foi feita para a novela. Às vezes eles solicitam alterações. Essa aqui, por exemplo, já existe há uns sete anos, aí a Globo pediu para incluir um trecho em francês. É do Thiago Petit e do Hélio Flanders [vocalista do Vanguart], de uma nova geração que está surgindo, uma geração talentosa, diferente do que essa mídia ordinária tenta nos vender como país. Eu cantei com o Thiago há três dias, são artistas maravilhosos. Eu busco sempre dialogar com os mais novos, tenho gravado”.

A música, que está na trilha sonora de Velho Chico, interpretada por Pethit e Tiê, foi gravada pela cantora em Soledade (2015). Lembrar a novela foi o mote também para ela homenagear o amigo Domingos Montagner, que interpretava o personagem Santo dos Anjos no folhetim, que morreu afogado num trágico incidente quinta-feira passada (15).

Cida teve melhor sorte com a galera do “selfie-se quem puder”. Ao anunciar a última, começou a ouvir gritos de “mais uma!”. “Mais uma é essa. Eu precisei de ajuda para subir no palco, vou precisar de ajuda para descer. Não dá para sair e voltar”. Despediu-se com Summertime (Doroty Heyward/ DuBose Heyward/ George Gershwin/ Ira Gershwin), faixa que batiza seu disco de 1981, o primeiro da carreira.

Que me perdoem o clichê do título deste texto, mas quem estava lá para ver e ouvir os artistas sabe do que estou falando.

A insubmissa

Magda. Capa. Reprodução
Magda. Capa. Reprodução

 

Negra, nordestina e lésbica, Magda [Quadrinhos na Cia., 2016, 144 p.; leia um trecho] é um misto de ser humano, robô e inseto na ficção científica homônima de Rafa Campos Rocha.

Misto é modo de dizer: na verdade, o corpo de Magda é ocupado por um ser com milhões de anos de idade. A fusão, ao mesmo tempo em que a torna poderosa e monstruosa, envolve-a em conflitos.

Uma epidemia se abate sobre o lugar e é dos possuídos pelo vírus que Magda se alimenta. Seus atributos físicos lembram um pouco os da protagonista de Deus, essa gostosa [Quadrinhos na Cia., 2012, 88 p.], também uma mulher negra.

Diversas referências permeiam a obra – A metamorfose, de Kafka, é apenas a mais óbvia: aqui e acolá aparecem Pavement, Fábrica de Animais, Paulo Vanzolini e até mesmo Patati e Patatá. Sobram críticas à nossa sociedade contemporânea, seu preconceito, hipocrisia e caretice, ao militarismo e ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Perturbador, Magda se equilibra entre cenas de extrema violência e momentos de pura doçura – é sublime a sequência do banho com a namorada.

Música doce

Vai sobrar doçura hoje (16), no palco do Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro). Às 20h, com abertura do maranhense Sfânio, apresentam-se os curitibanos Ana Larousse e Leo Fressato.

Ele, mais vinculado à MPB, ela, ao rock, mas ambos transitando um no universo do outro. O encontro potencializa elementos cênicos de sua música, que ecoa contemporâneos do naipe de Mallu Magalhães, Los Hermanos, Vanguart e Tiê, entre outros.

Tudo começou aqui, disco de estreia de Larousse, foi lançado em 2013. No ano seguinte Fressato lançou Canções para o inverno passar depressa, seu álbum inaugural. Os dois trabalhos formam a base do repertório que o par apresentará hoje à noite na ilha.

Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do Teatro da Cidade, por R$ 50,00 (meia para estudantes e demais casos previstos em lei).

Assista Leo Fressato em Enquanto eu não (Leo Fressato):

E Ana Larousse em Vai, menina (Ana Larousse):

Érico volta a reunir produção caricatural em livro

Caricaturas 2. Capa. Reprodução
Caricaturas 2. Capa. Reprodução

 

“A publicação de livros de caricatura no Brasil ainda é muito discreta tendo em vista a quantidade de excelentes caricaturistas em atividade”. A afirmação é do excelente caricaturista Érico Junqueira Ayres, ou simplesmente Érico, no prefácio a Caricaturas 2 [Guarnicê/ AML, 2016, 173 p.], que reúne caricaturas feitas com bico de pena, pincel e nanquim.

David Bowie por Érico. Reprodução
David Bowie por Érico. Reprodução

O livro, uma “pequena contribuição para tentar reverter este quadro”, reúne mais de 150 caricaturas de “escritores, atores, músicos, intelectuais, políticos, cientistas, atletas e empresários, entre outros”.

As personalidades de Caricaturas 2 são apresentadas em ordem alfabética e comparecem por suas páginas Adoniran Barbosa, Amy Winehouse, Beyoncé, Faustão, José Mindlin, Macalé, Messi, Niemeyer, Papa Francisco, Rita Lee, Vinicius de Moraes e Zidane, entre outros. Na capa, a cara de mau do Stone Keith Richards. “São pessoas cujas imagens transitam pela mídia com mais frequência e, portanto, são facilmente reconhecidas pelo público”, afirma, também no prefácio.

Ariano Suassuna por Érico. Reprodução
Ariano Suassuna por Érico. Reprodução

“O melhor resultado acontece quando o desenhista consegue captar a “alma”, isto é, transfere para o desenho a essência que a identifica. Convém destacar que é necessário que a pessoa seja conhecida pelo leitor do desenho. O efeito humorístico é provocado através do reconhecimento, que é uma associação do desenho com a pessoa caricaturada”, continua o autor, no mesmo texto em que cita, ainda, uma bibliografia básica sobre a produção caricaturista no Brasil.

Érico sabe do que fala. Ou melhor: o que traça. Baiano de nascimento, mudou-se para o Maranhão na década de 1980, onde começou a trabalhar com humor gráfico, tendo vencido diversos salões de humor no Brasil e no exterior. Seu livro Humor em risco venceu, em 1999, o HQMix, maior honraria dos quadrinhos brasileiros, na categoria livro de cartuns. Em 2005 ele publicou o primeiro volume de Caricaturas.

Parte da produção pode ser conferida na fan page Érico Junqueira Ayres, no facebook.

Fazendo do mundo um lugar mais legal pra viver

Fábrica de Animais. Capa. Reprodução
Fábrica de Animais. Capa. Reprodução

 

Melhor nome de banda desde a Isca de Polícia do saudoso Itamar Assumpção, a Fábrica de Animais acaba de lançar seu segundo disco, pelo mítico selo Baratos Afins, de Luiz Calanca. O álbum, a exemplo do de estreia, leva apenas o nome da banda, inspirado no romance que o ator e escritor Edward Bunker escreveu quando de sua passagem pela penitenciária americana de San Quentin.

A máxima dos Stones se aplica perfeitamente à banda paulista: é só rock’n roll, mas eu gosto. Na verdade é mais que rock: Flávio Vajman (gaita), Cristiano Miranda (bateria), Fernanda D’Umbra (voz), Caio Góes (contrabaixo) e Sérgio Arara (guitarra) fazem um rock vigoroso, com pitadas de blues e letras de alta voltagem poética.

Seguindo a trilha das referências, umas mais, outras menos explícitas – capa e ilustrações são assinadas por Angeli –, Hendrix é a primeira palavra que ouvimos no disco, em De quando lamentávamos o disco arranhado (Beatriz Provasi/ Fábrica de Animais), sua faixa de abertura. Um delicioso rock’n roll sobre o fim de um relacionamento e seus símbolos.

Jogo de dardos (Marcelo Montenegro/ Cristiano Miranda) também é sobre separação: “saca só o tamanho do estrago/ o que tá escrito na fita não é o que tá gravado/ pode levar o Crumb/ eu só quero ficar com esse jogo de dardos”.

Tudo errado (Fernanda D’Umbra/ Fábrica de Animais) é um blues visceral sobre um amor impossível e cita Roberto Carlos de raspão: “eu sei, eu tô acostumada a sair sem pagar/ voltar de madrugada pro mesmo lugar/ passar os dias latindo em frente ao seu portão/ tá tudo errado”.

Noite daquelas (Marcelo Montenegro/ Sérgio Arara/ Fábrica de Animais) dialoga com Diversão (Sérgio Britto/ Nando Reis), hit dos Titãs: “posso até te ligar pra te convidar/ mas só de ouvir meu alô, você vai sacar/ que hoje não tem jogo nem beijo de novela/ pois hoje o que eu preciso/ é de uma noite daquelas”. A atriz band leader encarna a personagem protagonista da faixa numa interpretação de total entrega, afinal uma marca da grande cantora que é, e precisa urgentemente ser descoberta por mais gente Brasil afora – torço para que De carona com Fábrica de Animais (veja trailer ao fim deste post), documentário de Edson Kumasaka (autor da foto da banda no encarte do disco), tenha sucesso no In-Edit Brasil e cumpra esse papel.

Se bem observarmos, o amor permeia todo este Fábrica de Animais, o disco. Erro (Sérgio Arara) talvez seja um de seus nomes possíveis, não dizem que ele é cego? “Tem um erro encravado na parede da sala/ que atravanca minha vida/ que me fode em nome do amor”, dispara a letra, para arrematar: “erro, tente esquecer/ aceite sua sorte/ encare sua morte/ tenha ele o nome que for”.

A esperançosa Tarde demais (Cristiano Miranda/ Rubens K), uma das mais “tranquilas” do álbum, é sobre o amor possível: “tarde demais você falou algumas coisas banais/ não importa o que aconteça/ tarde demais você falou algumas coisas legais/ e era o que eu mais precisava”.

A irônica Água salgada (Fernanda D’Umbra/ Fábrica de Animais) evoca melodicamente Raul Seixas e toda a pré-história do rock, de nomes como Carl Perkins, W. Penniman e Neil Sedaka, entre outros, lembrada pelo baiano em 30 anos de rock (1973). “No meio do mar não adianta chorar/ o que não falta aqui é água salgada”.

Em Ritalina (Fernanda D’Umbra/ Sérgio Arara) a quase homônima Rita Lee é citada: “não vou mais ouvir Rita Lee/ vou tomar ritalina”, diz a letra, citando a droga hoje bastante popular, em meio a “prestar atenção nos detalhes desse mundo chato” e suas coisas aparentemente simples.

Som cafona (Sérgio Arara) é uma espécie de blues abolerado, mais uma faixa sobre fim de relacionamento e o balanço natural a que normalmente são levados os que passam por isso.

Nervosa, Bossa nóia (Sérgio Arara) fecha o disco em meio a mais um fim de relacionamento, e talvez a vontade de voltar, dialogando com Malandragem (Cazuza/ Frejat), sucesso de Cássia Eller: “princepezinho virou sapo, tchau!/ tem chulé meu sapato de cristal/ no truco nunca serei ás de paus/ essa vida é engraçada/ quando alguém sonha com fadas/ tem-se a sensação de não viver/ só que a minha fada é foda”.

Fechar o disco é modo de dizer: uma faixa escondida, sem título, explode num rock alucinante, escancarando o modus operandi punk da Fábrica de Animais. “Eu não tenho dinheiro”, repetem o verso carma, o que nunca foi uma desculpa para deixar de fazer, enquanto desconstroem símbolos do conforto da classe média.

Violentar o status quo foi desde sempre uma tarefa que coube ao bom e velho rock’n roll. “Vou prestar atenção nos detalhes desse mundo chato”, voltamos à letra de Ritalina, a Fábrica de Animais subvertendo-os e ajudando a tornar este mundo um lugar menos chato pra viver.

*

Assista trailer de De carona com Fábrica de Animais, documentário de Edson Kumasaka:

O amor vencerá na luta de classes

Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução
Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução

Coprodução Brasil-Argentina, Lua em sagitário [romance, 2016, 100 min.], de Márcia Paraíso, é um comovente road movie adolescente. Embora não seja sua pretensão, a ficção ajuda a compreender o conturbado momento político que o país atravessa, em que ódio e preconceito jorram ad infinitum, sobretudo em redes sociais, mas não só.

Na pacata Princesa, em Santa Catarina, fronteira com a Argentina, praticamente nada acontece, e nem sinal de celular e acesso à internet são fáceis, o que é motivo de tédio para grande parte dos adolescentes que habitam o município.

Ana (Manuela Campagna, melhor atriz no Festival de Avanca, em Portugal, em 2016), uma delas, tem por diversão frequentar A Caverna, misto de sebo e lan house de um argentino apelidado LP (Jean Pierre Noher), por motivos óbvios. Ela se inscreve em um concurso de vídeos feitos no celular para disputar um par de passaportes para o Psicodália, um famoso festival de música psicodélica no Brasil – aliás, a trilha sonora de Lua em sagitário é um espetáculo à parte: Boogarins, Black Drawing Chalks, Repolho, Novo Código Genétigo, Charly Garcia, Skrotes (não confundir com Strokes), Jhonny Hooker, Serguei, Tulipa Ruiz, Niño Elefante e Zé Pinto, entre outros.

N’A Caverna, ela, filha de um comerciante local, a quem ajuda fazendo entregas em sua bicicleta, conhece Murilo (Fagundes Emanuel), assentado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra que toca bateria em uma banda e também fez um vídeo para concorrer aos ingressos para o Psicodália.

O pai de Ana (Chico Caprario) é uma caricatura da classe média que repete ad nauseam o discurso de clichês e preconceitos da big old midia sobre o MST. É nessa luta de classes que aflora a paixão proibida dos adolescentes, que viverão sua primeira aventura a bordo de uma velha moto rumo à capital catarinense, para ver o festival – quem ganha a promoção é Lara (Clara Ferrari), que presenteia o casal com o prêmio.

Em meio à aventura, Ana e Murilo hospedam-se na casa de Jones e Ula, interpretados respectivamente por Serguei e Elke Maravilha, esta em seu último papel no cinema.

O romance é feliz ao abordar a realidade de acampamentos e assentamentos do MST e o debate sobre a reforma agrária no Brasil, quase sempre escamoteada pela falta de vontade da classe política em geral e pelo comportamento agressivo de gente como o pai de Ana, mais comum fora da ficção do que se imagina.

Em determinada altura, ao serem destratados por um casal de playboys, Murilo desabafa: “a gente vive uma luta de classes, pensar diferente disso é pura ilusão. Sem terra é pobre e a elite da sociedade brasileira tem horror, tem raiva, tem nojo mesmo. Pessoas como aquela guria não pensam, ela só vomita o que ouve do pai, do avô. Eles podem não ter mais nada, podem estar tudo fodido, ter perdido tudo, mas vão continuar pensando como elite, por gerações e gerações”. A feição de Ana, raivosa pelo ocorrido, muda, ao murmurar em resposta um “eu te amo”.

É um filme de final feliz quase óbvio, mas deixar de vê-lo por isso ou por divergir ideologicamente do MST – ou, de resto, da esquerda –, é deixar de se emocionar com uma bela e bem contada história de amor. Eu ia escrever adolescente, mas o amor não tem idade. E vence a luta de classes.

Serviço

Lua em sagitário está em cartaz até o dia 14 (quarta-feira) no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 16h40 e 18h30. Os ingressos custam R$ 16,00 (com meia entrada para os casos previstos em lei e para todos às segundas-feiras).

Veja o trailer/making of:

10 músicas (+1) para viver São Luís

[publicado originalmente nO Imparcial de hoje (8)]

Uma playlist afetiva com repertório que tem a Ilha capital como inspiração

Economista de formação marxista, quase padre, o jornalista Bandeira Tribuzi acabou alçado à condição de poeta oficial da cidade de São Luís do Maranhão: são dele a letra e música de Louvação a São Luís, hino da capital maranhense. Triste ocaso/acaso, ele morreria aos 50 anos, em 1977, exatamente no dia em que a capital maranhense, segundo as contas oficiais e afrancesadas, completava 365 anos. “Oh, minha cidade, deixa-me viver!”, começa sua mais conhecida criação.

Qual um Damião que busca visitar o trineto, palmilhando a ilha madrugada adentro, no romance Os tambores de São Luís, de Josué Montello, percorreremos aqui uma playlist: 10 músicas para lembrar São Luís, singela homenagem à cidade por seu aniversário – há controvérsias!

Lances de agora, o antológico elepê de Chico Maranhão gravado em quatro dias na sacristia da secular igreja do Desterro, é impregnado de São Luís do Maranhão, cidade onde ninguém nasce e vive impunemente, como cravou solenemente em texto na contracapa o produtor Marcus Pereira, responsável pelo registro, em 1978. Entre outras, lá está Ponta d’Areia, de um dos versos mais bonitos da história da MPB: “caranguejeira namorando a parede”.

Durante muito tempo, a Ponta d’Areia reinou absoluta entre as praias da capital maranhense: mais próxima do centro da cidade, com fácil acesso a partir de barcos ou ônibus – antes ou depois da construção da Ponte do São Francisco –, era a diversão barata dos finais de semana de minha infância. Também é lembrada pelo compositor Cesar Teixeira em Ray-ban: “na Ponta d’Areia eu vendi protetor/ dei uma de cego na igreja, doutor/ no dia do eclipse eu vendi meu ray-ban”, diz a letra, que lembra também o Cine Rialto, outrora instalado na Rua do Passeio, Centro, onde os fundadores assistiram ao filme que viria a batizar o mais longevo bloco carnavalesco da cidade: Os Fuzileiros da Fuzarca.

Em 1996, quando lançou seu segundo disco, Cuscuz clã, Chico César invadiu o dial e causou alguma estranheza com uma parceria com Zeca Baleiro: tratava-se de Pedra de responsa, batizada por uma gíria para classificar os melhores reggaes, que agitam a pista em clubes de São Luís, mas gravada pelo paraibano como um carimbó. “É pedra, é pedra, é pedra/ é pedra de responsa/ mamãe, eu volto pra ilha/ nem que seja montado na onça”, diz o refrão. No ano seguinte, em seu disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, o maranhense registraria a composição como reggae, dedicando-a aos compositores Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Joãozinho Ribeiro.

Não há ludovicense que não se balance ou não comece a assobiar Ilha bela, ao ouvir seus primeiros acordes: “que ilha bela/ que linda tela conheci/ todo molejo/ todo chamego/ coisa de negro que mora ali”. Pernambucano que foi beber nas águas musicais do Rio Tocantins, em Imperatriz, Carlinhos Veloz, é um dos artistas mais respeitados de nossa música popular, sucesso de público por onde passa.

Outra faixa irresistível neste quesito é Ilha magnética, de César Nascimento, maranhense por acaso nascido no Piauí. A canção faz jus ao título e magnetiza o ouvinte ao lembrar as belas paisagens, sobretudo litorâneas, da capital maranhense, numa época em que o município de Raposa, citado entre as praias, ainda não havia sido emancipado: “Ponta d’Areia, Olho d’Água e Araçagy/ mesmo estando na Raposa/ eu sempre vou ouvir/ a natureza me falando/ que o amor nasceu aqui”.

A ilha é mesmo tão magnética que desperta paixão até em quem nunca pisou a areia de suas praias ou os paralelepípedos de seu Centro Histórico. “É o tambor de crioula/ é a Casa de mina/ é a estrela do norte/ boi bumbá que me ilumina”, acerta em cheio o compositor Paulo César Pinheiro no misto de bumba meu boi e tambor de crioula São Luís do Maranhão, música gravada por Alexandra Nicolas em Festejos (2013), seu disco de estreia. Adiante, ele “se encanta-nos” com as “ruas de pés de moleque” e “casario de azulejos”.

Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina, em parceria com o poeta Celso Borges, erguem uma bela ponte poético-musical até a ilha de Cuba em São Luís-Havana, faixa de Cine Tropical (2009). Nela, mesclam-se paisagens das ilhas maranhense e caribenha, além de mestres da música cubana e do bumba meu boi: é linda a participação do terceiro autor, recitando os nomes de, entre outros, Compay Segundo, Coxinho, Omara Portuondo, Zé Olhinho, Pablo Milanés e Humberto de Maracanã.

Outra parceria com a assinatura de Celso Borges que não poderia faltar a esta playlist é A serpente (outra lenda), dele com Zeca Baleiro e o percussionista argentino Ramiro Musotto, já falecido. Com participações especiais do saudoso compositor Antonio Vieira, que recita trecho de um sermão do padre escritor seu xará, Chico Saldanha e Josias Sobrinho, a música acabou ganhando uma dimensão política, por versos ácidos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”.

No recém-lançado Bagaça (2016), seu quarto disco, Bruno Batista presta bela homenagem a capital em A ilha, desmistificando ícones e totens. Nela, lembra o poeta Nauro Machado, cujas barbas saem para passear, na letra. Autor de mais de 40 livros, falecido em novembro passado, ele próprio confundia-se com a cidade, parte integrante de sua paisagem.

Bonus track – Outro “estrangeiro” que homenageou maravilhosamente São Luís foi o pernambucano Carlos Fernando, autor de um hit do repertório de Geraldo Azevedo, habitué de palcos da cidade. Em seus shows por aqui nunca falta Terra à vista. Quem nunca se emocionou ao ouvir os versos “Sã, sã, sã, São Luís do Mará”, das duas uma: ou não é ludovicense ou nunca ouviu a música, falha que deve ser corrigida agora mesmo. Como a maior parte do repertório aqui apresentado, é fácil de encontrar no youtube. Buscar!