Arquivo mensal: agosto 2016

Primeiro póstumo de Nauro Machado deixa a gaveta

Canções de roda aos pés da noite. Capa. Reprodução
Canções de roda nos pés da noite. Capa. Reprodução

 

Canções de roda nos pés da noite [Contracapa, 2016, 160 p.] é uma das provas possíveis – e não são poucos os exemplos – de que poetas sobrevivem à morte física. Trata-se do primeiro livro póstumo de Nauro Machado, falecido aos 80 anos em 28 de novembro do ano passado.

Nauro deixou organizados cinco livros inéditos e manifestou a ordem em que os que ficaram deveriam fazê-lo: o primeiro é este Canções de roda nos pés da noite.

Dedicado às netas Júlia e Luiza, filhas do filho único Frederico Machado – ao lado da mãe, Arlete Nogueira da Cruz, responsável pelas últimas publicações do pai em vida, tornado, com seu falecimento, curador do que Nauro deixou na gaveta –, o subtítulo “Poemas infantis” pode enganar leitores incautos.

Não que Nauro seja hermético – pecha que sempre afastou leitores de sua obra –, mas não é exatamente um livro para crianças. A família, a morte e Deus são temas constantes ao longo dos poemas, ilustrados por fotografias de Márcio Vasconcelos, retratando lugares por onde o poeta costumava flanar, grande prazer que tinha em sua cidade natal.

Em Berçário, o maior poema, que ocupa seis páginas do volume, um bom exemplo: “Minha mãe cega,/ enfim vê tudo/ que Deus revela,/ falando mudo”, finaliza.

É um conjunto bonito e coerente, do feitio de Nauro. O herdeiro prometeu, além de retirar os inéditos da gaveta, como era vontade de seu pai, reeditar os cerca de 40 volumes de sua obra poética. Leitores e admiradores de sua poesia aguardam ansiosos.

Canções de roda nos pés da noite será lançado hoje (2), data em que Nauro Machado completaria 81 anos. Na ocasião, a Academia Maranhense de Letras (AML, Rua da Paz, 84, Centro), que sediará o evento, relançará Erasmo Dias e noites, obra em prosa, misto de ensaio e memória, do autor, sobre o amigo e também escritor e boêmio Erasmo Dias.

Na ocasião, às 19h, a Coteatro apresentará o recital O operário da palavra, baseado em poemas de Nauro Machado, sob direção de Tácito Borralho, apoio técnico de Abel Lopes, com Luciano Ferrgar, Magno Abreu, Rogério Vaz, Cristian Ericeira, Raimundo Reis, Murilo Santos e James Louzeiro. A entrada é gratuita.

As galerias de Kucinski

Os visitantes. Capa. Reprodução
Os visitantes. Capa. Reprodução

 

Assinando simplesmente B. Kucinski, Bernardo Kucinski só estreou na literatura de ficção quando já contava 74 anos. Já era um professor bastante respeitado, graduado em física, jornalista e cientista político, reconhecido como autor de livros fundamentais em currículos acadêmicos nas áreas de jornalismo, economia e política.

K: relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014; Companhia das Letras, 2016, 176 p.; leia um trecho], a estreia, é uma autoficção em que o autor narra o desaparecimento da própria irmã entre os horrores da ditadura militar brasileira. A obra bastou para colocar-lhe entre nossos grandes ficcionistas, tendo sido traduzida para oito idiomas e finalista de seis prêmios literários, no Brasil e no exterior. O autor voltaria ao tema nos contos de Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.].

Não é à toa ou mera jogada de marketing o anúncio ao pé de Os visitantes [Companhia das Letras, 2016, 85 p.; leia um trecho], o título na capa de seu novo livro: “do autor de K: relato de uma busca”. É que, magro, mas consistente, este volume não existiria sem aquele – embora a leitura do primeiro não seja imprescindível à compreensão deste.

Trata-se de misto de mea-culpa e making of em que o autor, modesto, assume erros e confessa vacilos, num jogo envolvente com o leitor: o título da novela alude aos que vão até sua casa, quase sempre com o pretexto de criticar o livro ou o autor.

Citações interessantes ao longo de Os visitantes – os escritores Chico Buarque, Enrique Vila-Matas, Fiódor Dostoievski, Franz Kafka, Juan Rulfo, Primo Levi – não fazem de Kucinski um “escritor de escritores”, nem é arroto gratuito de erudição.

Kucinski desfila uma rica galeria de personagens para construir uma espécie de errata em forma de novela. Personagens e situações tão consistentes que, a despeito da magreza do livro, acabam por explicar melhor determinadas passagens de K: relato de uma busca. Se a estreia já alçara o autor ao status de grande entre nossos ficcionistas, este Os visitantes é uma espécie de carimbo de confirmação de seu lugar nessa galeria.