Arquivo mensal: setembro 2014

Sons e Trilhos: turnê leva Chiquinho França ao interior do Maranhão

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Músico se apresentará em nove cidades do interior. Shows de abertura e encerramento da turnê acontecem em São Luís. Gratuitas, apresentações acontecem em outubro.

Foto: divulgação. Facebook do artista.
Foto: divulgação. Facebook do artista.

 

Reconhecido como um dos mais talentosos e versáteis artistas da música produzida no Maranhão, o guitarrista e bandolinista Chiquinho França cai na estrada para 10 apresentações em nove cidades maranhenses.

Com patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o projeto Sons e Trilhos levará o músico a Santa Inês (cidade natal do artista), Imperatriz, Porto Franco, Grajaú, Bacabal, Pedreiras, Codó e Caxias.

Os shows de abertura e encerramento da turnê acontecem em São Luís, o primeiro dentro da programação dos festejos do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, no Cohatrac, já neste sábado (4/10), às 22h. Todas as apresentações são gratuitas.

“É uma felicidade muito grande poder percorrer estas cidades, poder presentear o público com o que temos feito até aqui em nossa carreira musical. São mais de 30 anos de estrada, passeando por diversos gêneros. Quer dizer, bagagem não falta para esta viagem”, afirma, sorridente, o músico.

Transitando com desenvoltura entre diversos estilos musicais brasileiros – choro, baião e frevo, entre outros – e internacionais – jazz, blues, pop e erudito – Chiquinho França será acompanhado pelos músicos JBlues (teclados), Mauro Sérgio (contrabaixo) e Oliveira Neto (bateria).

Sons e Trilhos é uma realização da Zarpa Produções. Veja a programação completa da turnê, que acontece durante o mês de outubro.

São Luís: 4 (sábado), 22h, Círio de Nazaré (Praça da Igreja do Cohatrac). | Santa Inês: 8 (quarta), 22h, Panela de Barro Restaurante e Eventos. | Imperatriz: 9 (quinta), 21h30, Festejo de Santa Tereza D’Ávila (Praça da Matriz). | Porto Franco: 10 (sexta), 20h30, Praça Demétrio Milhomem (Beira Rio). | Grajaú: 11 (sábado), 20h30, Praça Raimundo Simas (Centro). | Bacabal: 15 (quarta), 20h30, Praça São José (Praça do Bolo, Centro). | Pedreiras: 16 (quinta), 20h30, Maçonaria Renascença Pedreirense (Praça do Jardim, Centro). | Codó: 17 (sexta), 20h30, Praça Ferreira Bayma. | Caxias: 18 (sábado), 20h30, Centro de Cultura (Praça do Panteon, Centro). | São Luís: data, horário e local a confirmar.

Outro talento de Luciana Rabello

Candeia branca. Capa. Reprodução
Candeia branca. Capa. Reprodução

 

Que Luciana Rabello e Paulo César Pinheiro têm um dos casamentos mais férteis da música brasileira ninguém duvida. Mas parece não haver prova maior que Candeia branca [Acari Records, 2013], seu segundo disco, lançado recentemente pela cavaquinista.

Ela, militante do choro desde menina, quando no início da adolescência dividiu grupo e disco com o irmão Raphael, exímio violonista sete cordas, Os Carioquinhas no Choro (1977). Desde então se tornou uma espécie de guardiã, sacerdotisa, embaixatriz do mais brasileiro de todos os gêneros musicais, sempre muito requisitada, presente em vasto número de fichas técnicas de shows e discos de artistas os mais diversos.

Ele, um dos mais produtivos – se não o mais – compositores do Brasil, dono de lavra que já ultrapassa dois mil títulos, sozinho ou em tantas parcerias, gravado e regravado por diversos nomes, profundo conhecedor do Brasil profundo, versátil como só um craque de tamanho talento pode ser.

Não se poderia esperar outra coisa, pois, de Candeia branca, o disco. Adjetivos não faltam – nem bastam – para classificá-lo: excelente, sublime, único. Das 14 faixas, 13 são assinadas em parceria pela dupla: músicas de Luciana Rabello, letras de Paulo César Pinheiro.

A exceção é Teu amor, apenas dela, dedicada a ele: “Deus quando uniu minha alma à tua/ me deu também de presente a paz/ e a tua poesia traçou o caminho/ pro samba que eu faço/ quem pode ser mais feliz que eu?/ quero viver sempre ao lado teu!”, derrama-se na letra.

A grande novidade é que Luciana Rabello não se limita a tocar cavaquinho (e violão em Luz fria), nem a produzir o disco e/ou cuidar da burocracia da Acari por que lança o disco, a gravadora que dirige com Maurício Carrilho (que toca violão no álbum), o que não seria pouco. A surpresa é que Luciana Rabello solta a voz, para deleite de fãs que já a acompanham há algum tempo e/ou novatos, bem vindos sejam!

O disco abre com um tema batido, a origem do samba, sobre o qual o casal consegue jogar originalidade ao tentar responder a pergunta título da primeira faixa, De onde veio o samba: “Mas de onde é que veio o samba?/ Seu Doutor perguntou:/ Veio do Rio de Janeiro ou Salvador? Eu respondi no contrapé/ Vou lhe dizer de onde é que é/ foi dos quadris de uma mulher/ que veio o samba/ Mas sempre ouvi dizer que o samba…/ Seu Doutor insistiu,/ Veio da África direto pro Brasil/ Eu resolvi dar nome aos bois/ Brasil e África amaram-se os dois/ do casamento é que depois/ nasceu o samba”, teorizam.

Em Candeia branca predominam diversas vertentes de brasilidade: o samba (em diversas variações), o choro (praia da artista, permeia todo o álbum), o maculelê (Seu Catirino) e a ciranda (a faixa-título). Além da parceria do marido, Luciana Rabello é escoltada por velhos parceiros, fiéis escudeiros de trincheira comum: Marcus Thadeu (percussão), Celsinho Silva (percussão), João Lyra (violão, viola), Paulino Dias (percussão), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Glauber Seixas (violão), Cristóvão Bastos (piano e arranjo em Luz fria e Um triste olhar), Pedro Paes (clarinete), Dori Caymmi (violão, voz e arranjo em Flor d’água), Ana Rabello (cavaquinho em Flor d’água) e Oscar Bolão (percussão em Queda de braço), entre outros, além do já citado Maurício Carrilho.

Todas as músicas são inéditas, exceto Enigma, já gravada por Amélia Rabello, irmã de Luciana, em A delicadeza que vem desses sons [Acari Records, 2011]. Mas Candeia branca soa completamente novo, quiçá por nos apresentar esta outra vertente de Luciana Rabello, que agora se mostra competente e talentosa, além de ao cavaquinho, ao microfone.

Ditadura militar em debate no Circuito Universitário de Cinema

Hoje (29), no Colégio Universitário (Colun/UFMA), às 13h15, este que vos perturba dialoga com estudantes sobre Setenta [Brasil, documentário, 96min., direção: Emilia Silveira]. O título do documentário, que encontra e entrevista diversos deles, alude aos 70 militantes de esquerda exilados, trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Burcher, sequestrado pela resistência à ditadura militar.

A exibição integra o Circuito Universitário de Cinema, que está acontecendo em todas as capitais brasileiras e, em São Luís, tem como agente mobilizadora Nadia Biondo, estudante de Comunicação da UFMA. O circuito é realizado pela MPC & Associados e tem patrocínio da Petrobras. Suas sessões são gratuitas e abertas ao público.

Chorografia do Maranhão: Paulo Trabulsi

[O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]

Titular do cavaquinho solo do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão, Paulo Trabulsi é o 22º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um cortejo natalino interrompeu a entrevista que Paulo Trabulsi concedeu à Chorografia do Maranhão, no ECI Museu, na Praia Grande. Titular do cavaquinho do Regional Tira-Teima, o músico atendeu a mãe ao telefone: “estou em uma entrevista. A Bia [filha do músico] está comigo”, a avó queria saber da neta, que atendeu outras ligações enquanto ele conversava com os chororrepórteres.

A conversa aconteceu à boca da noite de 17 de dezembro passado, ocasião em que esperávamos, todos, o recital de lançamento de João Pedro Borges – violonista por excelência, perfil de Sinhô [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] escrito pelo jornalista Wilson Marques. Depois da conversa, Paulo Trabulsi, entre outros amigos, subiu ao palco em que o ex-integrante da Camerata Carioca desfilou um repertório que lhe marcou a trajetória, com participações especiais, além do entrevistado, de Serra de Almeida [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Francisco Solano [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Juca do Cavaco, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Chico Saldanha [compositor] e Simão Pedro Amaral [professor de canto da EMEM].

Filho do farmacêutido Sadi Ari Ericeira e da contadora Mary Trabulsi Ericeira, Paulo César Trabulsi Ericeira nasceu em São Luís em 28 de novembro de 1957. Funcionário da Caixa Econômica Federal desde 1979 sempre conciliou o ofício de bancário com o de músico – com a segunda profissão gasta parte do dinheiro que ganha na primeira.

Paulo Trabulsi cursou até o nono período de engenharia mecânica e, por força do trabalho no banco, estudou processamento de dados.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Como era o ambiente musical na casa, na família? Se praticava música, se ouvia, ou ambas as coisas? Era um ambiente em que se ouvia muita música. Meu pai tinha um gosto musical extremamente apurado. Eu nesta época, muito jovem, cinco, seis anos de idade, nessa época o que papai ouvia era jazz americano e muito choro. Música instrumental de modo geral. Papai tinha a coleção completa de Jacob do Bandolim. Então, eu ouço Jacob, tá impregnado na minha cabeça…

Mais do que Waldir Azevedo? Mais do que Waldir Azevedo. Desde muito jovem. Então eu cresci escutando isso.

Jacob, para você, acaba sendo uma referência, mesmo você sendo cavaquinhista e ele bandolinista. Tenho muito mais referência no som de Jacob, que eu ouvi muito mais. Embora papai também tivesse discos de Waldir Azevedo.

E sua mãe? Mamãe só apreciava, mas não tinha esse gosto musical apurado. Ela era muito orgulhosa de nós filhos, eu e Sadi, meu irmão, dos cinco filhos nós ficamos com essa veia musical. Mamãe tinha prazer de nos ver aprender a tocar alguma coisa.

A partir de quando você se interessou por aprender música? Desde muito jovem, seis, sete anos de idade, mamãe comprou um violão e eu comecei a aprender sozinho, observando. Era uma musicalidade muito grande. Eu me recordo que papai levava a gente para aqueles bailes de carnaval no Lítero, e eu ficava o baile inteirinho olhando pra banda tocar. E na época, depois eu vim descobrir, o guitarrista da banda era o Agnaldo Sete Cordas [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Eu ficava hipnotizado por aquele senhor tocando aquela guitarra, tão melodiosa, tão harmônica. Tempos depois, a gente se identificou: “eu me lembro de ti, tu não era aquele gordinho que ficava ali na frente?”

Você teve algum estudo formal de música ou sempre foi autodidata? Tive depois. Depois eu fiz violão clássico aqui na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].

Hoje você é reconhecido como um de nossos principais cavaquinhistas. Como se deu a passagem do violão para o cavaquinho? O cavaquinho apareceu depois, eu vendo alguém tocar, eu acho que foi o Carvalhinho [Trabulsi atende a mãe ao celular]. Nessa época eu conheci Juca, Vadeco [cavaquinhista do grupo Espinha de Bacalhau] e nós praticamente começamos juntos. Vadeco já tocava e era o cara, já solava coisas de Waldir Azevedo e nós não sabíamos nada. Ele foi aquela fonte de inspiração pra gente.

Isso era que ano? Isso foi 1974, 73. Eu já me dou com Juca e com o irmão dele há muitos anos.

Quem você considera seu grande mestre do cavaquinho, quem mais te ensinou? Eu aprendi a tocar cavaquinho escutando Waldir Azevedo. Botava o vinil de Waldir Azevedo, nessa época não tinha cd, não tinha nada. Agora tu imagina aprender a tocar Brasileirinho, naquela velocidade que ele tocava, num disco de vinil. Ia voltar um pedacinho era um sofrimento, tira o braço, “perdi”, volta de novo, foi desse jeito. Eu aprendi a tocar dessa forma. Nessa época a gente fazia umas rodas de choro aqui na [rua de] São Pantaleão, tinha Magno Frias, com Ricardo Frias, o próprio Juca do Cavaco, Vadeco, Cotia. Foi dessa forma que eu comecei minha carreira de chorão. Um belo dia o professor Ubiratan, maestro Ubiratan, me encontrou tocando numa dessas rodas. Tinha aberto uma vaga no Regional Tira-Teima, que já existia e eu nem sabia. Era justamente a vaga que o [jornalista e compositor] Cesar Teixeira ocupava como cavaquinhista e saiu, por um motivo que eu não sei qual foi. Eu estava bem no começo e fui chamado para fazer uma espécie de experiência. Esse ensaio foi marcado para a casa de Ubiratan, na São Pantaleão. Outra figura importante, eu não posso deixar de falar, foi Joacilo [Frota], me deu muita noção harmônica de samba e choro.

Você conviveu com Juca na Rua do Norte e foi chamado para um ensaio na casa de Ubiratan na São Pantaleão. Você morava onde, nessa época? Aqui pelo Centro, também? Não. Até hoje mamãe mora no mesmo local, na Rua Silvio Romero, no Retiro Natal. O ponto de referência era a estação do bonde, onde ficou a Cobal, o Horto. Juca eu conheci no [Colégio] Marista.

Ali por perto da casa de seu Vieira [o falecido compositor Antonio Vieira, percussionista da primeira formação do Tira-Teima]. Exatamente, na mesma rua de Vieira. Eu cresci com Antonio Vieira por ali, influência musical. Pois bem, primeiro ensaio. Eu chego lá já encontro as feras formadas: Adelino Valente no bandolim, Ubiratan no violão de seis cordas, Fernando Cafeteira no outro violão, Chico Saldanha no outro violão, Antonio Vieira, percussão, Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] numa outra percussão e Hamilton Rayol, cantor. Se não me falha a memória eles tocaram Noites cariocas [de Jacob do Bandolim]. E eu todo atrapalhado, só via as cabeças balançando assim negativamente. “Me lasquei, não vão me querer aqui” [risos]. Por que realmente eu não sabia nada. Mas ali naquele momento eu vi que minha identidade com a música era aquela coisa ali. Era aquela coisa: daqui eu não saio.

Quer dizer: mesmo errando você se sentiu em casa. Quer dizer: uma chance para aprender. A minha vertente musical é essa. Eles estavam muito na frente, eu estava começando. Mas rapidamente eu me dediquei, estudei. Passado algum tempo eu já estava no nível deles. Quer dizer, não no nível deles, Ubiratan é um cara… mas a minha evolução foi muito rápido.

Teus pais sempre apoiaram? Nunca teve uma reprimenda, “meu filho, vai procurar outra coisa pra fazer”? Sempre apoiaram. Nunca! Ainda falando sobre o Tira-Teima, por que a minha história se confunde com a do Tira-Teima. Daí pra frente, tudo foi Tira-Teima. Então, até 79 este grupo existiu com essa formação, depois entrou [o percussionista] Carbrasa, se não me engano, Jorge Cotia, eles botaram como uma forma de me tirar [risos], mas não me tiraram, Jorge Cotia tocava cavaquinho. Em 79 eu entrei na Caixa e logo em seguida me jogaram pro interior, pra Bacabal. Ubiratan foi embora pra São Paulo junto com Chico Saldanha. Quando eu voltei em 82 o Tira-Teima já não existia nessa época, estava esfacelado. Aí eu fiz parte do Regional Alma Brasileira, que era [o bandolinista] César Jansen, [o violonista] Natan, o próprio Fernando Cafeteira e Carbrasa. Esse grupo durou mais ou menos um ano. Logo em seguida eu conheci Serra de Almeida, em 84, e nós fundamos essa nova versão do Tira-Teima. Aí foi Serra de Almeida, Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Carbrasa, que depois saiu e entrou Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013]. Anos depois saiu Gordo pra entrada do Solano, que é a formação que se mantém até hoje. Mas a gente tem contato com todo mundo, Adelino Valente é nosso amigo, Arlindo Carvalho está sempre com a gente. Inclusive a gente está gravando, finalmente, nosso primeiro disco e a ideia é tê-los como convidados.

O que significou para você ter participado do antológico Lances de Agora [disco gravado em 1978 na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís], de Chico Maranhão? Lances de Agora foi um divisor de águas muito importante. Eu ter participado deste disco foi uma coisa extremamente importante na minha carreira musical. Foi o Regional Tira-Teima com a participação de Sérgio Habibe [o compositor tocou flauta em Lances de Agora], [o compositor] Ronald Pinheiro, bandolim, e mais uns dois percussionistas, cujo nome não lembro agora. Pitoco, no clarinete. Foi extremamente importante pra mim. Foi o primeiro disco de que eu participei. Depois eu participei de outros.

Lances de Agora, pelo fato de ter sido gravado em uma igreja, é ainda um disco mais comentado que ouvido. Este ano ele e Bandeira de Aço [disco lançado por Papete em 1978] completaram 35 anos e nós vimos festividades aqui e acolá para celebrar Bandeira de Aço, que é muito importante e merece, mas nem se ouviu falar em Lances de Agora. É um disco também do catálogo da [gravadora Discos] Marcus Pereira, mas que ao contrário de Bandeira de Aço, sequer chegou ao formato digital, não teve reedição em cd. A que você acha que se credita o desinteresse, o quase completo esquecimento e o que poderia ser feito para mudar este quadro? Do ponto de vista musical não existe razão de Lances de Agora ser preterido junto a Bandeira de Aço. A qualidade musical, o disco é bom de A a Z, composições belíssimas de Chico Maranhão. Velho amigo poeta, Meu samba choro, Ponto de fuga, Cirano [faixas de Lances de Agora]. Realmente eu não sei te responder. Musicalmente este disco tem uma qualidade muito grande. Tem uma importância muito grande para o cancioneiro popular do Maranhão.

Você podia lembrar um pouco o clima das gravações? Era um aparelho pequeno, tipo rolo de fita daqueles carretéis. Todo mundo gravando simultaneamente, não tinha aquela história de cada um gravar a sua. Errou, todo mundo começava de novo.

Essa pergunta pode soar óbvia, boba até. Mas tem que ser feita: o que significa o Tira-Teima para você? O Tira-Teima é minha vida musical toda. A minha vida musical está mesclada e fundida com o Tira-Teima. É a minha referência musical, foi o que eu fiz a vida inteira.

Se o grupo deixasse de existir você certamente sentiria muito. Iria sentir muita falta. Eu passei uma época da minha vida sendo violonista, acompanhando cantores e compositores. Mas a minha vida musical, a minha identidade musical é o Regional Tira-Teima, regional de choro. É um amor à primeira vista, um encantamento mesmo.

A que você credita tanta demora para definir a feitura do primeiro disco? Já são 40 anos do Regional. Foi problema interno do grupo, de como seria feito, se as músicas teriam arranjos próprios, se a gente ia delegar. Por falta de consenso, as coisas foram atrasando, atrasando. Ainda um dia desses falávamos sobre isso: uma vertente do grupo defendia que os arranjos deveriam ser arranjos próprios, e a outra que contratássemos arranjadores para fazer. Isso tudo atrasou o projeto, mas agora já está em andamento.

E o que ficou definido, no final das contas? [Risos] Ficou definido o meio termo: a metade o arranjador, que Ubiratan já fez, e a outra metade arranjos do grupo.

Mas o disco está andando. Já está tudo fechado: repertório, participações especiais? O disco está andando. Já estamos em estúdio, Gordo Elinaldo é nosso guru.

O que significa para vocês a participação do Ubiratan neste disco, já que ele foi um dos fundadores do grupo? Eu acho extremamente pertinente justamente por este motivo: pelo fato de ele ter sido fundador do grupo. Ele participar dessa forma é fundamental.

Uma volta às origens, já que o convite é também uma forma de homenageá-lo, mas com o pé no futuro, na medida em que vocês devem trazer um repertório, ao menos parte dele, inédito e autoral. Exatamente. E quase todo formado por músicas de autores maranhenses.

O que vai ter? Podes adiantar? Tem três choros de Serra de Almeida, Dom Chiquinho, Imbolada e Choro Nobre. Tem dois choros meus, Gente do Choro e Meiguice, um choro que eu fiz para minha filha. Gente do Choro vai ser cantada por Zé Carlos. Tem Companheiro, que é um choro meu e de Solano. Tem uma valsa que João Pedro fez pra Serra, chamada Simples como Serra. Tem duas músicas de Léo Capiba. Tem uma música chamada Apelo, que a gente descobriu que é de Nhozinho Santos. Até então a gente dava como autor desconhecido, Ubiratan foi quem descobriu que é dele. E tem dois choros na forma, que a gente está terminando de fazer para entrar no disco.

Como tem sido, ao longo de todos estes anos, conciliar a atividade musical com o ofício de bancário? Não foi tão complicado, por que o expediente no banco é de segunda a sexta, em horário bancário, das 10 às 16 [horas]. As atividades musicais geralmente são à noite ou em fins de semana. E os ensaios também à noite. Eu não tive grandes problemas em conciliar as duas atividades. Salvo quando pintava uma viagem para fazer show, aí ou eu conseguia uma folgazinha ou não ia.

Além de Lances de Agora, de que outros discos você participou? Fiz um grupo chamado Canto de Rua, uns rapazes que tocam samba, fiz Joãozinho Ribeiro [o inédito Milhões de Uns, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo], fiz Cabeh [Esquina da Solidão, lançado postumamente], produzi e gravei o disco de Anna Cláudia [cantora paraense radicada em São Luís, com quem Paulo Trabulsi foi casado], fiz Cesar Teixeira [Shopping Brazil, 2004], Serrinha [e Companhia, grupo de samba e pagode] com Tributo a Zé Hemetério e Das cinzas à paixão [faixas de Na palma da mão, de autoria, respectivamente de Gordo Elinaldo e Cesar Teixeira]. Memória [da Música do Maranhão, disco coletivo que registrou a obra de vários compositores da velha guarda], Antonio Vieira [O samba é bom, 2001]. Estou participando agora do disco de Gordo Elinaldo, já gravamos.

E shows? O de Carlinhos Veloz [Sobre Cordas, apresentado no Teatro Arthur Azevedo] foi muito importante, eu tenho a filmagem lá em casa. Foi um negócio emocionante, o regional tocou, foi super aplaudido. O de Turíbio Santos, João Pedro Borges. Nós participamos com duas atrações internacionais, Jerzy Milewski, um violinista polonês, que tocou com a esposa dele, Marcelo Bratke, um pianista, o Tira-Teima tocou com ele. E shows com vários artistas maranhenses, Fátima Passarinho, Lena Machado, Alberto Trabulsi, Anna Cláudia, Zeca Baleiro, foi realmente muita gente. Com Antonio Vieira nós fomos a São Paulo, fizemos Sesc. Participei de quatro festivais da Fenai, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa. Inclusive Gente do Choro foi de um festival em João Pessoa, na Paraíba.

Entre estes shows de destaque você incluiria o Recital de Música Brasileira, com João Pedro Borges e Célia Maria? Sim. Foi um show importantíssimo, em que participamos eu, Celson [Mendes, violonista], o pandeirista Lazico. Foi sucesso, um trabalho para mim extremamente importante. Teve uma coisa interessante [risos], eu participando de um dos encontros da Escola Portátil de Choro, eu fui lá como aluno de Luciana Rabello e tava lá no aulão dela. E um dos alunos, um rapaz bem jovem, me viu e me reconheceu: “o senhor não estava naquele show da TV Senado, acompanhando João Pedro Borges?” “Sou eu”. “E o quê que o senhor está fazendo aqui?” [risos]. Eu achei graça, “rapaz, eu tou aprendendo junto com vocês”.

O que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro tem aquelas explicações históricas do choro, que derivou das polcas, mazurcas, schottisches europeias e se fundiu com os ritmos africano, os lundus da vida, e a coisa, o choro é um produto que vem evoluindo, vem em transformação. No início da história do choro, Chiquinha Gonzaga, Antonio Calado, todo choro era maxixe. De Pixinguinha pra cá a coisa tomou outra forma, aí que colocaram pandeiro no choro e virou o que é, como é tocado hoje. Mas se você notar, está o tempo todo em transformação. Essa nova geração de chorões já está dando outro tratamento, a música vem evoluindo, vem se transformando ao longo dos anos. É um organismo vivo.

Você se considera um chorão? [Rápido e enfático:] Eu sou um chorão!

A nova bossa nova de Alvaro Gribel

 

Capixaba radicado em São Paulo, Alvaro Gribel escolheu uma paisagem do Rio – onde viveu – para compor e batizar seu segundo disco: São Francisco é um bairro niteroiense banhado pelas águas da Guanabara.

Gribel (voz e violão) cerca-se dos veteranos Jurim Moreira (bateria), Jorge Helder (contrabaixo acústico) e Rodrigo Campello (guitarra, programações, cavaquinho e violões de seis e sete cordas) em um disco de sonoridade sofisticada. O último assina a produção do álbum, coproduzido por Eber Pinheiro.

A voz de Gribel, que assina as nove faixas de São Francisco, evoca o Caetano bossa novista. Entre os temas que permeiam o disco estão o amor e a contemplação. As duas últimas faixas, a que batiza o disco e Camburi, homenageiam respectivamente as paisagens do citado bairro em que São Francisco foi composto e a praia em que o menino Alvaro foi criado.

Àqueles temas somam-se inquietações com questões sociais. Santos e orixás, a primeira faixa, narra o cotidiano de favelas, ansiando por paz: “mas um dia hei de ouvir calar/ os seus fuzis a batucar”, termina. Oração alude ao Morro do Bumba, em Niterói, com a tragédia causada pelas chuvas em 2010. “Porque somos poucos meu Senhor/ e já perdemos muito nesta vida/ Tristeza vem do céu do morro/ a chuva traz/ Deus,/ tanta dor fez a cidade amanhecer só/ tanta terra despencou da ribanceira, sem dó/ vê quanta aflição/ tem pena/ não deixe ser em vão”, diz a letra.

O destaque do disco é a alegre Marcha da autopeça, cuja letra nasceu de um orçamento da revisão do carro do artista. Diz um trecho: “Radiador/ correia de polivalente/ cano de carburador/ coifa, coxim, batente/ par de amortecedor/ ponteira de direção/ jogo de vela, filtro de ar/ quanta peça a pressa leva”.

SMDH lança Prêmio Estevão Rafael Carvalho de Redação

Do site da SMDH.

Premiação, que acontecerá 10 de dezembro, é voltada a estudantes de Comunicação Social. Inscrições estão abertas até 31 de outubro. Serão distribuídos prêmios na ordem de R$ 2.400,00

Arte de Carlos Latuff

A Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) divulgou o regulamento do 5º. Prêmio Estevão Rafael de Carvalho de Redação, voltado a estudantes de Comunicação Social. Este ano o prêmio tem como tema “Mecanismo de monitoramento de locais de privação de liberdade”.

As inscrições estão abertas e podem ser feitas até o dia 31 de outubro de 2014, pelos Correios ou entregues pessoalmente na sede da SMDH. De acordo com o texto que abre o regulamento, o prêmio é “uma homenagem a um jornalista maranhense que, apesar das perseguições políticas, colocou sua pena a serviço do movimento conhecido como Balaiada (1838-1841), através do jornal “Bem-te-vi”, como também era conhecido”.

Para o jornalista Zema Ribeiro, presidente da SMDH, o tema do certame é bastante pertinente. “É urgente inserir mais pessoas neste debate. O sistema penitenciário do Maranhão vive uma grave crise que se arrasta já há algum tempo. Com o prêmio de redação, a SMDH pretende dar uma contribuição para a inserção de pautas de direitos humanos na formação de futuros formadores de opinião”, afirma.

A última edição do prêmio foi realizada em 2005. “Esperamos contar com o apoio de professores, no sentido de provocarem os estudantes a participar. E pretendemos retomar este concurso como um marco importante no calendário anual das lutas por Direitos Humanos no Maranhão, a partir já deste 2014”, espera Zema Ribeiro. A premiação acontecerá 10 de dezembro, na ocasião em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completará 66 anos.

Regulamento e ficha de inscrição podem ser lidos e baixados aqui.

Sonora Brasil continua até domingo (28)

Fotosca: Zema Ribeiro
Fotosca: Zema Ribeiro

A etapa Maranhão do circuito Sonora Brasil, do Sesc, continua até domingo (28). Ontem (24), no Teatro João do Vale, o Quarteto Belmonte (foto), formado exclusivamente para o circuito, fez um belo espetáculo,o repertório fruto de uma pesquisa pelas Bienais de Música Brasileira Contemporânea, tema central desta edição do Sonora Brasil, que homenageia o maestro Edino Krieger (autor de todos os temas que ilustram este post), que por motivos de força maior não pode vir à São Luís como previsto.

Veja a programação:

Quinteto Brasília (DF), hoje (25), 19h, no Teatro João do Vale.

Duo Cancionâncias (RS/MS), 27 (sábado), às 19h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy).

Octeto do Polyphonia Khoros (SC), 28 (domingo), às 19h, no Teatro João do Vale.

Todos os espetáculos são gratuitos, devendo os interessados retirar os ingressos nas bilheterias do teatro com uma hora de antecedência aos espetáculos.

O paraíso sonoro de Russo Passapusso

Paraíso da miragem. Capa. Reprodução
Paraíso da miragem. Capa. Reprodução

 

Russo Passapusso e Curumin foram apresentados um ao outro por BNegão. O primeiro participou do terceiro disco do segundo, Arrocha, lançado em 2012, justamente a primeira vez que ouvi (falar d)o primeiro.

Este ano foi a vez de Curumin retribuir a simpatia musical: o baterista de Arnaldo Antunes toca (teclado, bateria, percussão, programação, violão) e produz (com o guitarrista Lucas Martins e o baixista Zé Nigro) Paraíso da miragem, estreia solo de Passapusso, baiano de Feira de Santana à frente de experiências como o BaianaSystem. O título é verso de Paraquedas, faixa que abre o disco (veja clipe ao final do post).

Qual Curumin, Passapusso é um verdadeiro liquidificador de influências, reprocessando-as e dando aos ouvintes um disco de sonoridade original, fazendo ao mesmo tempo música para pensar e dançar.

Paraíso da miragem passeia entre rock, rap, afoxé, samba e eletrônico, com letras entre a azaração da pista e o engajamento. Anjo está na primeira categoria: “me deu vontade de calar tua boca/ me deu vontade de rasgar tua roupa/ me deu vontade de te chamar de louca/ mas a vontade é muita e a coragem é pouca/ me deu vontade de fazer mandinga/ promessa pra você, mulher/ mas é que todo dia um anjo cai do céu”, provoca a letra. Sangue do Brasil, na segunda: “O sangue do Brasil vai pelo chão/ subiu o morro, prestou socorro/ mais um do povo morreu tão novo/ botou escuta, filho da puta/ do outro lado um deputado/ descarado, nem se esconde/ se acha santo feito um monge/ e o meu sangue aqui no morro”, revela, trágico e dançante.

MC Passapusso assina todas as faixas do disco, Areia, parceria com Tatiana Lírio, em que pontua o refinado violão sete cordas de Rodrigo Soares, e Autodidata, com BNegão e Fael Primeiro, que fecha o disco.

Outros nomes interessantes que comparecem ao encarte do disco – disponível para download gratuito ou compra do vinil no site do artista – são Marcelo Jeneci (teclados), Edgar Scandurra (guitarra em Remédio), Anelis Assumpção (voz em Sem sol), Edy Trombone, Thalma de Freitas (voz em Sapato), Hugo Hori (sax em Sapato), Tiquinho (trombone em Sapato) e BNegão (voz em Autodidata), entre outros.

Com Paraíso da miragem Russo Passapusso consagra-se em definitivo como um dos nomes merecedores de atenção da, vá lá, nova música popular brasileira.

Quarteto Belmonte, de graça, amanhã, em São Luís

Edino Krieger, o pai do Edu, é o autor das Telas sonoras acima. Ele, criador das Bienais Brasileiras de Música Contemporânea, internado por força de complicações cardíacas, não poderá vir à São Luís, como previsto, para participar do Sesc Sonora Brasil, cujo tema, nesta edição é justamente Edino Krieger e as Bienais Brasileiras de Música Contemporânea, sobre o que o compositor palestraria dentro da programação. Este blogue torce por sua pronta e breve recuperação.

Não é à toa que o Quarteto Belmonte foi escolhido para ilustrar este post: eles tocam amanhã (24), às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada gratuita (retirada de ingressos com uma hora de antecedência na bilheteria do teatro).

O Belmonte é formado por Márcio Sanchez (violino da Orquestra Municipal do Theatro Municipal do Rio de Janeiro), Ubiratã Rodrigues (violino da Orquestra Sinfônica Brasileira – Ópera & Repertório), Dhyan Toffolo (viola da Orquestra Petrobras Sinfônica) e Janaína Salles (violoncelo da Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense). O concerto tem duração aproximada de uma hora.

500 estreia em São Luís

O Circuito Universitário de Cinema estreia, em São Luís, o filme 500 – Os bebês roubados pela ditadura argentina, de Alexandre Valenti.

A sessão acontece às 14h, no Cine Teatro Viriato Corrêa, no IFMA do Monte Castelo.

O Circuito exibirá ainda os filmes Setenta, de Emília Silveira, e Duas Histórias, de Ângela Zoe, que também têm como temática as ditaduras instaladas na América Latina na segunda metade do século XX.

A realização do Circuito é da MPC & Associados e Nádia Biondo assina a mobilização local.

Após a sessão haverá debate. Confira o trailer:

Curso de museologia e curadoria lança Projeto Goeldi em São Luís

Com 40 horas, incluindo atividades práticas, curso começa hoje (22) e acontece até sexta-feira (26), no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho

Lani Goeldi ministrará curso em São Luís. Foto: divulgação
Lani Goeldi ministrará curso em São Luís. Foto: divulgação

 

Tem início hoje (22) – e segue até sexta-feira (26), no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho (Rua do Giz, Praia Grande) – um Curso de Museologia e Curadoria da Arte, ministrado por Paulo Vergolino, museólogo, curador de arte e produtor cultural independente, e Lani Goeldi, curadora de arte e gestora cultural.

O curso lança, em São Luís, o Projeto Goeldi, uma série de atividades em comemoração pelos 120 anos do artista, que os completaria em 2015. Na Ilha o curso tem produção da Bureau Cultural e percorrerá outras cidades do país.

O curso “tem carga horária de 40 horas e é voltado para profissionais que já atuam ou desejam atuar em instituições culturais públicas e privadas, de patrimônio material, preservação da memória, montagem e supervisão de exposições de arte, execução e revisão de catálogo de exposição, crítica, arquitetura e colecionismo, entre outras atividades”, informa o material de divulgação. São 50 vagas, com investimento de R$ 300,00.

Sobre a atividade, por e-mail, Lani Goeldi, sobrinha-neta do artista plástico, gravurista e professor Oswaldo Goeldi, conversou com este blogue com exclusividade.

Você tem um currículo invejável e traz um sobrenome importante para as artes no Brasil. Qual o peso de ser uma Goeldi? Bem, a principio não acredito que haja um “peso”, no real sentido da palavra, há sim uma enorme responsabilidade em fazer jus aos que meus antepassados fizeram, tanto meu bisavô Emilio Goeldi, como Oswaldo Goeldi, seu filho. Porém, existem outros que também tiveram feitos e ações incríveis e não foram tão glorificados assim, como Adelina Goeldi, esposa de Emilio, que muito embora sua família tenha sido uma das mais ricas do país, se preocupava demais com os menos favorecidos. Outro membro importante foi Walther Eugenio Goeldi, irmão mais velho de Oswaldo que foi um brilhante arquiteto. Enfim, tantos feitos que seria impossível detalhar. Mas, o mais importante eu acredito, é enfatizar não os feitos e aptidões de cada um, mas sim, as ações, o caráter, suas verdades e seus conflitos. Foi assim que me apaixonei por este trabalho, buscar e pesquisar infinitamente o que todo mundo gostaria de saber: o lado humano de cada um.

Há algum tempo um movimento vem transformando os museus em organismos vivos em vez de meros “depósitos de coisas velhas”. Qual a importância desta mudança na postura destas casas em tempos hipertecnologizados, em que qualquer acervo pode estar disponível em alguns toques na tela de um celular, por exemplo? Os museus foram fundados baseados em coleções particulares e que não eram abertas para o público. Isso se deu por volta do século XVIII, com a revolução Francesa. No século XIX estas casas começam a pipocar pelo mundo inteiro com a pretensão de reterem o conhecimento do mundo. Muito poucos conseguiram – as lacunas são graves e às vezes bem visíveis. Como é o caso do MASP – que não tem até hoje uma Tarsila do Amaral digna daquele Museu. Em relação às mudanças, acredito que sempre serão bem vindas. Acredito que um Museu que apenas se preocupa com o passado – FECHA!  [grifo da entrevistada] Ou tende a ficar ultrapassado. Museus que não se preocupam em se modernizar estão fadados ao esquecimento e serão comidos pela poeira do tempo. Porém, é importante dizer que não há recurso algum que substitua a visita a uma instituição. Ver o objeto não tem preço e tecnologia tem que ser usada como material de apoio e não como forma de substituição do acervo museológico em si.

O curso de museologia e curadoria de arte, que será ministrado por você e por Paulo Vergolino integra uma gama mais ampla de ações que celebram os 120 anos de Oswaldo Goeldi, seu tio-avô. É aberto não somente a quem já é do ramo, mas também a quem pretende nele ingressar. Como você resumiria a importância deste momento formativo? Vejo como forma de inclusão. Possuímos uma defasagem imensa no que diz respeito à Educação nesse país. Todo tipo de forma de educar a população, é sempre bem-vinda, válida e justa – Educação não tem preço e é a única coisa que ninguém pode lhe tirar. Portanto, nosso Curso está voltado a todos os públicos, formatado por profissionais que de longa data se dedicaram num trabalho de imersão dentro da arte. Além de enfocar um assunto que poucos dominam, talvez pela falta de conhecimento. Nosso intuito é levar conhecimento para o bem dos profissionais de todas as regiões do país, principalmente para fora do eixo Rio-São Paulo, um pouco de nossa experiência e compartilhar nossos conhecimentos, para que esta fonte seja utilizada e canalizada de uma forma correta honesta e assim que possam seguir em frente. Se isso vier a acontecer já estaremos felizes.

O curso prevê uma atividade prática em grupo. Em que consiste? Sim – esta é uma atividade prevista pelo professor Paulo Vergolino, museólogo de formação,  uma visita a um Museu da cidade onde o curso será sediado. No caso de museologia, veremos da prática como ocorre a museologia em um museu vivo. Como se dá a importância em se ter um museólogo cuidando do acervo. E se este museu não tiver um profissional em seu quadro de funcionários, o que pode ser feito para que este quadro mude no futuro.

O mercado de arte tem para onde crescer no Brasil? Quais as perspectivas para os próximos 10 anos? Isso é uma pergunta difícil – saibamos que arte sempre foi artigo de luxo. E esteve sempre vinculado a quem tem muito dinheiro. O que posso dizer é que Arte ainda vai continuar existindo.  Porém, prever como o mercado de arte vai reagir e tendenciar as vendas, isso é bem complicado. As casas de leilões ainda estão aí e os galeristas continuam com suas galerias em atividade. O que quer dizer que a demanda existe. Segundo o último Congresso de Art Market, promovido pela Universidade de Zurich, as perspectivas continuam em ascendência principalmente em relação aos artistas brasileiros. Devemos lembrar que Arte também é moda, artistas sobem as suas cotações e descem conforme o mercado dita. Mas a Arte aqui no Brasil ainda é só para brasileiros. Os mercados internacionais ainda estão descobrindo e engatinhando sobre o Brasil. Vale lembrar que o Brasil é um país muito novo e, portanto, tem muito que caminhar para se fazer conhecer e ser respeitado lá fora. Afinal, acredito que somos mais que futebol e carnaval.

A usurpação e o banditismo sempre estão presentes em retratos de mercados de arte em obras de ficção. O que há nisso de próximo com a realidade? Bem, em se tratando das obras, vivemos assolados de obras falsas – principalmente de artistas consagrados. Entre os mais famosos estão Volpi, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Tarsila, incluindo Goeldi, entre outros. A única saída para esse problema é a descoberta e prisão dos falsários. E consequentemente a destruição em massa do que é falso. A formação de uma polícia e de profissionais que possam atuar nessa área é fundamental para coibir essa prática. No que tange a exploração da temática exploratória da escória humana, sabemos que tudo que sempre transgrediu a sociedade é o que realmente chama atenção, inclusive daqueles que muitas vezes não tem coragem de transgredir, e aí veem na obra de arte um meio de abraçar determinada causa ou ideia. Creio que isso sempre existiu, em toda história da arte, haja visto que muitos artistas foram guerreiros, homossexuais, bêbados, adúlteros, loucos, etc. Pessoas muitas vezes viveram à  margem da sociedade e que mais tarde vieram a ser reconhecidos por seus pelos trabalhos.

Qual a sua opinião sobre o Museu da Memória Republicada, instalado no Convento das Mercês? É um típico exemplo do patrimonialismo e culto à personalidade, um prédio enorme, cheio de objetos pessoais do senador José Sarney, ex-presidente da república. Bem, é uma situação complicada – até porque museus produzidos para abrigar acervos particulares ou para homenagear alguém são práticas até comuns no mundo, lembremos, por exemplo, o que se formou a volta do Túmulo de Napoleão em Paris. Muito já ouvi falar deste museu, será agora que terei a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, bem como seu acervo. Mas como museu baseado neste contexto, só o tempo poderá nos dizer como ele caminhará, afinal ele foi constituído há bem pouco tempo.

No Maranhão diversas obras de arte outrora públicas enfeitam residências de particulares. Qual a importância destas obras serem devolvidas à visitação pública? O professor Paulo Vergolino, uma vez ouviu dizer que “esse país não tem jeito” – está assolado e atolado por um desgoverno que só pensa em si e em encher o seu bolso e de seus descendentes. Minha avó, Josepha Goeldi, cunhada de Oswaldo Goeldi, era de São Luís/MA, filha de um seringueiro e uma índia, porém conseguiu ser professora. Acreditava que a conscientização dos atos de um ser humano era tudo para a formação de seu caráter. E baseado nestes valores é que iniciamos, a partir do acervo documental que ela guardou, a Instituição que somos hoje, criada há mais de 10 anos. Porém, com o acervo de Goeldi não foi diferente, com a instituição do Projeto Goeldi, moralizamos o mercado e inclusive a conscientização dos colecionadores. Acreditamos que não adianta nada possuir uma obra de arte tão valiosa e tão difícil de adquirir, guardar por anos a fio, sendo que não se tem certeza se nossos filhos ou netos terão a mesma consideração ou mesmo gosto para preservá-la da mesma forma. A saída para essa situação em minha opinião é apenas uma – EDUCAÇÃO DE QUALIDADE [grifo da entrevistada]. Um povo educado e bem instruído nestas proporções não deixa que isso aconteça. Os museus têm que ser palco da educação e estar a serviço do povo e suas coleções são parte desse legado. Para nós, profissionais da área, resta fazer acontecer. Não será fácil, mas temos que nos unir e pressionar quem ocupa o poder para que essas práticas mudem. Se houver vontade haverá já um começo.

A divindade (de) Maria Bethânia

 

A palavra quintal nos faz imaginar um grande espaço de chão de terra, talvez algumas árvores, alguns varais com roupas estendidas, vez por outra amigos reunidos em uma farra.

Meus quintais [Biscoito Fino, 2014], disco novo de Maria Bethânia, traduz bem isso. Com os dois pés firmes no chão brasileiro e a voz que vem encantando o país há quase 50 anos, a baiana nos brinda com um disco diverso e bem acabado, um primor, com a qualidade que marca sua produção, em especial a mais recente.

Das 13 faixas – incluindo a extra Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), até então inédita em sua voz e talvez a única que destoe do restante do conjunto – quatro falam em indígenas: Xavante (Chico César), Uma Iara/ Uma perigosa Yara (Adriana Calcanhotto, com texto de Clarice Lispector editado por Bethânia e Fauzi Arap), Povos do Brasil (Leandro Fregonesi) e Arco da Velha Índia (Chico César). Além dos pés fincados no terreiro, a cantora revisita as raízes do Brasil profundo.

Há samba, chula, Folia de Reis (título de uma das quatro músicas de Roque Ferreira que ela grava neste álbum novo), bossa nova e uma emocionante homenagem a Dona Canô – é o primeiro disco lançado por Bethânia após o falecimento da mãe – com a regravação de Mãe Maria (Custódio Mesquita e David Nasser).

Um de seus compositores prediletos, entre os mais gravados em sua mais recente safra discográfica, o baiano Roque Ferreira assina ainda Casa de caboclo (parceria com Paulo Dafilim), Candeeiro velho (com Paulo César Pinheiro) e a dobradinha Imbelezô eu/ Vento de lá.

Nome ausente da ficha técnica é o de seu maestro há muitos anos, Jaime Alem. Jorge Helder (contrabaixo) assina com ela a criação geral do disco. Outros músicos que comparecem são André Mehmari (piano), João Gaspar (violão e guitarra portuguesa), Marcelo Costa (percussão), Maurício Carrilho (violão), Toninho Ferragutti (acordeom), Luciana Rabelo (cavaquinho), João Lyra (viola) e Celso Silva (percussão), entre outros, além dos músicos do Tira-Poeira, responsáveis pelo arranjo de Lua bonita (Zé Martins e Zé do Norte): Fábio Nin (violão sete cordas), Pedro Franco (violão) e Henry Lentino (bandolim).

Outro nome que volta a comparecer é o do falecido compositor Paulo Vanzolini, autor do megassucesso Ronda (gravado por ela em Álibi, de 1979): Moda da onça é um tema folclórico recolhido por ele.

Embalando tudo um belo encarte onde se vê que a arte de Bethânia não se encerra em seu cantar – o que já bastaria. Além de fotografias de flores, desenhos de onças, a escultura de uma índia, um retrato da cantora com sua mãe emoldurando o poema “o vento que fala nas folhas/ contando as histórias que são de ninguém/ mas que são minhas e de você também”, há entalhes produzidos pela cantora.

Dory Caimmy e Paulo César Pinheiro, autores de Alguma voz, faixa que abre o disco, dão a pista: a música fale em vozes da fonte, do rio, do vento e do mar até chegar à voz de Deus. Ouvir Bethânia é sempre uma experiência próxima do divino.

Vanessa da Mata volta ao disco

 

Vanessa da Mata esbanja feminilidade ao esvoaçar vestidos coloridos no encarte de Segue o som, sétimo disco de sua carreira, de título apropriado para quem retorna de uma experiência literária bastante interessante, A filha das flores (2013), seu romance de estreia.

O disco abre com Toda humanidade veio de uma mulher, faixa de título feminista-criacionista cuja personagem é uma menina que quer se divertir e ser feliz.

A faixa título é outro papo de amigos: “relaxe seu semblante e pense no que está se metendo”, adverte outra mulher que, ao que parece, não quer um relacionamento mais sério. “Dramas são sempre enrolados/ tome mais cuidado/ não vá sem razão”, prossegue advertindo.

Em Não sei dizer adeus um ouvinte desavisado poderia pensar numa participação especial, já que a voz da cantora muda sob efeitos, um dos problemas do disco o excesso de ruídos e um dispensável remix da faixa título, que o encerra.

Depois do bom disco dedicado à obra de Tom Jobim – Vanessa da Mata canta Tom Jobim –, do ano passado, a mato-grossense continua mostrando por que a exigente Maria Bethânia escolheu-a para intitular um disco seu há 15 anos – A força que nunca seca (parceria com Chico César). Rebola nêga, qual a música de década e meia atrás, retrata outra mulher cuja “vida é muito dura” e os “sonhos são livres e ela só/ dá surra de amor nos filhos”

Cantando e compondo também em inglês – a regravação de Sunshine on my shoulders, sucesso de John Denver, e My grandmother told me (Tchu bee doo bee doo), um dos destaques do disco – ela cerca-se de músicos da nova e velha guardas em canções de amor e despedida: Fernando Catatau (guitarra), Kassin (contrabaixo, guitarra, sintetizador, teclado), Liminha (contrabaixo, guitarra, violão), Lincoln Olivetti (piano rhodes), Marcelo Jeneci (teclado) e Stephane San Juan (bateria, percussão), entre outros. Pode não ser seu álbum mais inspirado, mas traz diversos bons momentos.

A raposa e as urnas

[letra pra um samba de breque e ocasião, que permanece sem melodia. Escrevi por conta deste episódio e o título me veio, óbvio, inspirado no saudoso Reginaldo Rossi]

 

Charge de Carlos Latuff originalmente publicada no Vias de Fato (agosto/2014)
Charge de Carlos Latuff originalmente publicada no Vias de Fato (agosto/2014)

Vocês se lembram por que
O urubu ficou com raiva do boi
Mas a raposa tá contente
Eu vou contar por que foi

Um amigo do rei ganhou
Uma licitação
Pra cuidar de urna eleitoral
(num curral)
Lá no Maranhão

É muita cara de pau
Um amigo da família
Vestir pele de cordeiro
Pra beneficiar a matilha

Refrão

As urnas vão
De ferry atravessar a baia
E o Maranhão continua
A ser notícia ruim todo dia

É tanta água
Mas não mata minha sede
Agora além do ferry (e da lancha)
A urna também é do Cantanhede

Um show impecável

Iluminados. Fotosca: Zema Ribeiro
Iluminados. Fotosca: Zema Ribeiro

 

Há quem não entenda o fato de eu gostar de assistir a shows “repetidos”. Como se todo show fosse igual. Todo show é diferente, cada show é um show. Mesmo discos, há aqueles tão bons que não se consegue ouvir duas vezes, com novas nuances percebidas a cada audição. Mas deixemos de abobrinhas.

Antes de adentrar o Teatro Arthur Azevedo na última quarta-feira (10) eu já sabia que encontraria um Pau Brasil diferente do que eu havia visto e ouvido há mais ou menos sete anos. Por diversas razões, entre as quais destaco duas: o repertório diferente e o próprio amadurecimento musical de seus integrantes.

Se naquela ocasião eles acompanhavam Monica Salmaso nas músicas de Noites de gala, samba na rua, disco dedicado à obra de Chico Buarque, agora, sem o ornamento da voz da cantora, dedicavam-se a um repertório instrumental rico e variado. Tocaram temas autorais (Pingue-pongue, de Paulo Bellinati, Caixote de Nelson Ayres, entre outros), Heitor Villa-Lobos (Bachianas Brasileiras nº. 4 – Ária e Cantiga, com que abriram o espetáculo), Moacir Santos (Agora eu sei e Coisa nº. 10), Tom Jobim (Saudade do Brasil) e Baden Powell (Pai, com que encerraram o espetáculo, sem direito a bis).

O concerto do Pau Brasil encerrava um ciclo: a comemoração de seus 30 anos de carreira, cuja turnê percorreu cidades em Minas Gerais, Mato Grosso, Pará e Maranhão. Bem humorados, disseram da felicidade de voltar ao palco “dessa maravilha que vocês têm aqui”, o Arthur Azevedo, e anunciaram a viagem que farão em sequência, para a Noruega, onde gravarão disco novo.

O bom público presente ao teatro pode ouvir em primeira mão algumas músicas que estarão neste novo trabalho, entre elas Caixote, xote de Nelson Ayres cujo título confunde-se com o Caixote que reúne sua obra completa – sobre o que brincou o baixista –, exceto o mais recente Villa-Lobos Superstar, ótimo disco dedicado à obra de Heitor Villa-Lobos com as participações especiais do quarteto Ensemble SP e do sempre inspirado cantor Renato Braz.

Nelson Ayres (piano), Teco Cardoso (flauta e saxofones), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Ricardo Mosca (bateria) e Paulo Bellinati (violão) – da esquerda para direita na foto que ilustra este post – tanto na escolha quanto na execução das peças, mostraram ao público ludovicense por que são um dos grupos instrumentais mais interessantes do país que lhes empresta meio batismo.