Grupos folclóricos serão categorizados pela Secma

É o que leio na manchete da capa do Alternativo (link para assinantes com senha), nO Estado do Maranhão de hoje. Tipo, os grupos de bumba meu boi serão classificados em categorias, A, B, C etc., como as divisões num campeonato de futebol, por exemplo.

Uns argumentarão: “ah, mas no carnaval já é assim”. O carnaval de passarela é competitivo. Nunca vi um bumba meu boi aqui ser campeão de São João, a não ser os autoproclamados, numa estratégia de marketing. Opinião do blogue: o Maranhão, de novo, vai na contramão da história.

Nem dá mais pra falar que na contramão das políticas públicas de cultura do governo federal, por que com a Ana de Hollanda lá, parece que a turma daqui sintonizou: Secma e MinC andam pra trás. Folclóricos não são os grupos de cultura popular que a Secma pretende categorizar: folclórica é esta gestão!

Carlos Junot, coordenador do Núcleo de Observação e Relatório de Eventos da Secma, setor que eu sequer sabia existir, afirma na matéria: “Alguns [grupos] se sentiam prejudicados, já que muitos requeriam apresentações nos arraiais apoiados pelo governo, não compareciam e, mesmo assim, recebiam seus cachês”. Opinião do blogue: aí não é a categorização que resolve, mas a fiscalização.

Mais na frente o mesmo servidor afirma que “queremos privilegiar aqueles que fazem um bom trabalho”. Ao dicionário: Privilégio: direito ou vantagem concedido a alguém, com exclusão de outros; Direito: o que pode ser exigido em conformidade com as leis ou a justiça. Isto para trazermos apenas uma acepção de cada verbete. Opinião do blogue: não tem que privilegiar ninguém. Tem que garantir a participação, isto é, o direito, dos que fazem um bom trabalho e punir os que recebem recursos públicos e não dão as caras nos arraiais.

Paulo de Aruanda, presidente da Federação das Entidades Folclóricas e Culturais do Estado do Maranhão, também foi ouvido pela reportagem de O Estado. Ele sugere a categorização por sotaque, mas isso já é feito de forma até natural. Ou o grupo é de um sotaque ou é de outro e mesmo grupos como Barrica e Boizinho Incantado são classificados de alternativos. Interessante na fala dele é a lembrança dos chamados bois de promessa: “Não podemos esquecer os aspectos religiosos, econômicos, sociais e de tradição destes grupos. Um exemplo são os bois de promessa, que não têm caráter econômico e que, portanto, não podem ser comparados com os que têm esta finalidade”, ou seja, o mercado, de certa forma, já categoriza os bois que a Secma quer, digamos, recategorizar, porém, provavelmente, usando os mesmos critérios do mercado. E devo dizer que isto é mero chute do blogue, já que os critérios de categorização não estão claros e é a própria federação supracitada quem reclama da falta de transparência na matéria.

Uma última provocação: a federação, dados da matéria, “congrega 700 grupos de bumba meu boi provenientes de todo o Maranhão”. Como sabemos, a capital São Luís é “privilegiada” no período junino, abarcando a grande maioria dos recursos da pasta da cultura destinada aos festejos. O que explica, por exemplo, termos 700 grupos, isso contando apenas os filiados à federação, fora os que não, e vermos, São João após São João, sempre os mesmos menos de 10% destes grupos nas programações oficiais? Isto já não é um exemplo de categorização e manutenção de “privilégios”?

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

8 comentários em “Grupos folclóricos serão categorizados pela Secma”

  1. Se de fato ele existe, seria prudente a SECMA repensar (ou definitivamente abandonar) esse projeto de categorização do grupos de bumba meu boi. Talvez seja o efeito da falta de uma política eficiente que apoie esses grupos em seus próprios locais de origem, independentemente dos arraiais ou do próprio período junino. Enfim, poderá ser uma decisão precipitada, sem a opinião da comunidade boieira (brincantes, admiradores, estudiosos etc). De coração, é melhor apagar essa ideia.

  2. pois é, meu caro cesar. a ideia deve existir, já que noticiada pelo diário oficial da família sarney. a própria federação reclama, no texto, da falta de transparência em relação aos critérios. tu tocas num ponto crucial: “a falta de uma política eficiente que apoie esses grupos em seus próprios locais de origem, independentemente dos arraiais ou do próprio período junino”. concordo contigo, de coração.
    abração!

    abaixo, íntegra do texto n’o estado do maranhão de hoje (http://imirante.globo.com/oestadoma/noticias/2012/07/04/pagina223866.asp):

    Grupos folclóricos serão categorizados pela Secma

    Até 2014, grupos folclóricos serão divididos em categorias.

    Até 2014, os grupos folclóricos do Maranhão terão uma grade oficial que os categorizará de acordo com cada manifestação: tambor de crioula, bumba meu boi, cacuriá, quadrilhas, dança portuguesa e dança do boiadeiro. A grade será organizada de acordo com os tipos de manifestações. Serão divididas em grupos (A, B e C). Para que isso seja possível, a Secretaria de Cultura do Estado (Secma) realiza, desde 2010, um trabalho de observação e produção de relatórios sobre o desempenho destas manifestações durante a programação oficial do São João promovida pelo Governo do Estado.

    As equipes da Secma analisam critérios como presença, pontualidade, indumentárias, tradicionalidade e personagens. De acordo com o coordenador do Núcleo de Observação e Relatório de Eventos da Secma, Carlos Junot, a divisão por grupos é uma forma da Secretaria de Cultura atender a uma antiga reivindicação dos próprios grupos folclóricos. “Alguns se sentiam prejudicados, já que muitos requeriam apresentações nos arraiais apoiados pelo governo, não compareciam e, mesmo assim, recebiam seus cachês”, diz Junot.

    Ele ressalta que esta é uma forma de privilegiar as manifestações que mais se destacarem por seu desempenho durante o período junino. “Para que esse nivelamento dos grupos juninos seja possível, a Secma vem realizando, desde o ano passado, oficinas de capacitação com a participação de donos das danças folclóricas e seus integrantes”, observa.

    Nas palavras de Junot, a Secretaria de Cultura está fazendo um levantamento da história destes grupos, que vêm sendo analisados desde 2010. Ele frisa que os relatórios trazem fotos, vídeos de apresentação e informações que serão concluídas em 2014 para serem repassadas para uma comissão técnica que fará a categorização a partir deste estudo. “Estamos montando um banco de dados que visa melhorar e enxugar o cadastro de manifestações na Secma, a fim de qualificar a grade de programação”, destaca.

    Avaliação – Junot relata que no São João deste ano a Praça Valdelino Cécio e a Casa do Maranhão funcionaram como palcos para a categorização dos grupos de bumba meu boi. Também foram avaliadas as danças portuguesas e de boiadeiro. “Queremos privilegiar aqueles que fazem um bom trabalho. Porque os que não fazem estão tirando espaço de outros grupos”, observa. Os grupos de cacuriá, quadrilha, dança portuguesa e boiadeiro vem sendo observados desde 2011.

    A análise também está sendo feita pela secretaria durante o Carnaval. Em 2012, alguns blocos carnavalescos foram divididos por grupos. A Secma também designou pessoas para acompanhar e filmar as apresentações, fazendo o registro do desempenho e organização dos integrantes.

    Oficinas – Um aspecto que tem sido trabalhado nas oficinas de qualificação da Secretaria de Cultura é a importância da documentação dos grupos folclóricos que é exigida pela Secma. Além dos alvarás de praxe, também é necessário fazer a prestação de contas dos valores recebidos junto aos órgãos públicos de fomento à cultura.

    Grupos propõem diálogo para a categorização

    O presidente da Federação das Entidades Folclóricas e Culturais do Estado do Maranhão, Paulo de Aruanda, vê com ressalvas a categorização dos grupos. “Somos sim a favor de uma avaliação, desde que os critérios para fazer isso estejam claros. Entendemos que deve haver um diálogo entre a Secma e os grupos folclóricos, de modo que as coisas sejam feitas com seriedade, clareza e isenção”, diz Aruanda.

    Ele explica que houve apenas uma audiência entre a entidade e a Secma. “Soubemos da avaliação e pedimos uma audiência para falarmos sobre o assunto, mas entendemos que muita coisa ainda precisar ser esclarecida, inclusive que critérios serão usados nesta categorização”, pontua o presidente da federação, que congrega 700 grupos de bumba meu boi provenientes de todo o Maranhão.

    Aruanda ressalta que não podem ficar de fora desta avaliação questões que mesmo não estando diretamente ligadas às manifestações fazem parte delas. “Não podemos esquecer os aspectos religiosos, econômicos, sociais e de tradição destes grupos. Um exemplo são os bois de promessa, que não têm caráter econômico e que, portanto, não podem ser comparados com os que têm esta finalidade”, pondera Aruanda.

    Quanto à divisão dos bumba-bois em grupos, ele acredita não ser o ideal. “Esta fórmula de dividir em grupos e algo ultrapassado. Precisamos discutir outra maneira de fazermos isso e penso que a divisão por sotaques é o caminho”, finaliza.

  3. Bem oportuno teu texto, Zema e a observação do poeta e compositor Cesar Teixeira. Tenho algumas observações quanto ao bumba meu boi que vou escrever logo, logo. Abraços.

  4. Eu particulamente não concordo,para mim é uma idéia sem pé e cabeça,qual critério usarão para fazer essa divisão?
    De fato deveria ter mesmo era uma fiscalização em relação a essas brincadeiras quanto ao recurso utilizado pelas mesmas,eu adoro festas juninas,porém ao meu ver toda essa verba que o Governo injeta nesta Festa poderia ser distribuído em outras áreas muito mais importantes para nós (População).
    Amei o texto,essa é a minha humilde opinião!

  5. mais uma vez estamos vendo o favorecimento dos mesmos grupos, segregação e padronização e descaracterização promovida pelos órgãos que deveriam assegurar sua preservação, pois essa classificação só leva ao privilégios de poucos grupos, que viram referência para os outros que acabam repetindo as mesmas bizarrices que a cada ano vem acontecendo com o bumba boi, dê uma olhada nas catirinas, boi carnavalesco, banda de forró disfarçada de boi de orquestra… cruzes!

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