Criança indígena assassinada: mais um crime que ficará impune?

O blogue volta ao retrato, sinal de que nada mudou...
Em agosto do ano passado publiquei a foto acima em um post intitulado De como Roseana Sarney gosta de preto e de índio.

Lembrei da foto por ocasião da vinda à tona do caso da morte de uma criança indígena, sobre o que tem-se poucas informações dado o isolamento do povo Awa-Guajá, etnia do assassinado – consta que tinha oito anos e foi queimada viva por madeireiros na terra indígena Araribóia, em Arame/MA.

O caso não teve a devida repercussão à época do ocorrido por uma série de fatores, inclusive as mui prováveis ligações de madeireiros com as autoridades “competentes”.

O jornal Vias de Fato publicou algo a respeito no apagar das luzes de 2011. E recentemente o jornalista Rogério Tomaz Jr. reacendeu as discussões sobre o caso com este post, seguido do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que se manifestou em texto devidamente reproduzido pelo blogueiro. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) também publicou este texto. E enquanto eu finalizava este post, o site do Vias de Fato voltou ao ar, trazendo novas informações sobre o caso.

Independentemente de há quanto tempo aconteceu o caso, o mesmo deve ser investigado, com as devidas punições aos responsáveis.

Uns, numa caixa de comentários do blogue de Rogério Tomaz Jr., cobram-lhe fontes, provas, o escambau. Ora, o jornalista bloga de Brasília/DF, onde vive, e ainda que vivesse aqui teria dificuldades em apurar o caso, principalmente por conta do isolamento em que vivem os Awá (ainda assim, à distância, supera enorme parte dos colegas e veículos sediados acá). Mais um motivo para cobrarmos das autoridades que cumpram seu papel: têm poder e recursos para fazê-lo, basta querer. O que não pode é a impunidade continuar reinante por estas plagas.

O jornal O Estado do Maranhão publicou hoje (6) matéria sobre o assunto [Polícia, p. 8]. O acesso é exclusivo para assinantes com senha. A quem interessar possa.

CIMI DENUNCIA MADEIREIROS PELA MORTE DE CRIANÇA DE 8 ANOS DA ETNIA AWÁ-GUAJÁ

Segundo o missionário Gilderlan Rodrigues da Silva, o crime ocorreu entre setembro e outubro do ano passado por invasores das terras indígenas

SAULO MACLEAN
DA EDITORIA DE POLÍCIA

Um índio, de 8 anos, pertencente à etnia nômade Awá-Guajá, teria sido assassinado e enterrado por madeireiros invasores da terra indígena Araribóia, no município de Arame, distante 476 quilômetros de São Luís. A denúncia foi feita ontem pelo missionário Gilderlan Rodrigues da Silva, um dos representantes do Conselho Indígena Missionário (Cimi) no Maranhão. Segundo ele, o crime teria ocorrido entre setembro e outubro do ano passado, mas só esta semana veio à tona com a notícia da existência de um suposto vídeo amador, cujas imagens mostrariam o momento do achado do cadáver.

Sem muitos detalhes acerca do suposto homicídio cometido pelos madeireiros, o catequista contou a O Estado que está à procura do tal vídeo e que seu objetivo é formular uma denúncia concreta ao Ministério Público Federal (MPF), caso ache o material. “Até onde temos conhecimento, o caso não foi registrado na Polícia Civil por dois motivos: a etnia Awá-Guajá vive completamente isolada, sem contato com outros índios, muito menos com o homem branco; e quem teria encontrado o corpo do curumim queimado teriam sido índios guajajara que ajudaram os madeireiros a entrar na região”, disse Gilderlan da Silva.

Acampamento – Ainda de acordo com o representante do Cimi, informações dão conta de que os pais da vítima teriam montado acampamento próximo à aldeia Tatizal, localizada a cerca de 50 quilômetros da sede do município de Arame. Naquele trecho, os madeireiros ilegais já haviam se instalado e, quando faziam a extração de madeira, encontraram o pequeno indígena no meio da mata. “Possivelmente, a criança se afastou do grupo, a fim de conhecer a mata e, consequentemente, se aproximado demais do local onde os madeireiros escolheram para se instalar, naquela época”, explicou Gilderlan da Silva.

“Não sabemos se a criança foi morta a tiro, facadas ou por outro artifício, mas o motivo mais provável desse crime pode ter sido o receio dos madeireiros de o índio retornar e contar aos da sua tribo sobre a presença dos clandestinos naquela área e, dessa forma, atrapalhar a atividade ilegal”, completou o missionário, que conta com a ajuda dos Guajajara, que não compactuam com o extrativismo indiscriminado dos madeireiros. Por telefone, O Estado conversou com um deles: Luis Carlos Guajajara, de 41 anos, que é coordenador técnico local, pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

“Os Awá-Guajá daqui são muitos isolados, evitam aproximação com índios de outras etnias e principalmente com o homem branco. Para se ter uma ideia, em fevereiro do ano passado, chegamos a encontrar com um jovem índio dessa etnia, em uma roça, próximo a aldeia Vargem Limpa. Ao nos ver, ele saiu correndo e minutos depois retornou com outros quatro índios. Outros, entre jovens, adultos, crianças e idosos, se aproximaram, mas fugiram em seguida”, relatou o Guajajara.

Segundo o Conselho Indígena Missionário (Cimi) e demais órgãos de defesa indígena, o povo Awá-Guajá está ameaçado de extinção pela ação dos madeireiros, na terra indígena Arariboia, já que a etnia vive exclusivamente da caça primitiva e da abundância de frutas na região. O avanço da extração ilegal de madeira no território já preocupa os Guajajara, que há séculos vivem nas matas adjuntas ao município de Arame.

Mais

Os Guajá se autodenominam Awá, termo que significa “homem”, “pessoa”, ou “gente”. As origens deste povo são obscuras, porém acredita-se que seja originário do baixo Rio Tocantins no estado do Pará. Formava, provavelmente junto aos Ka’apor, Tembé e Guajajara (Tenetehara), um conjunto maior, da família lingüística Tupi-Guarani naquela região (Gomes, 1988, 1989 & 1991; Balée, 1994). Na medida que a expansão colonial foi exercendo uma pressão sobre estes grupos indígenas, houve uma dispersão deles. Acredita-se que a partir do conflito da Cabanagem, em torno de 1835-1840, este conjunto iniciou uma migração no sentido leste, rumo ao Maranhão. É provável que por volta de 1950 todos os Guajá já estivessem vivendo neste estado, no lado leste do Rio Gurupi (Gomes 1989 & 1991).

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