Antiode à Ilha capital

Colaborador do Vias de Fato inicia série de anti-homenagens à Ilha. Vozes dissonantes se pronunciarão em contraponto aos discursos oficiais, oficiosos e falaciosos das esferas pública e privada, pela efeméride vindoura: São Luís, 400 anos, 1.000 problemas.

ZEMA RIBEIRO


Buraco na Rua da Palha (Centro) é só uma palha dos inúmeros e enormes problemas da capital maranhense. Foto: Francisco Colombo.

Cantada e contada em verso e prosa, a lenda da serpente reza – e rezada – que São Luís do Maranhão afundará tão logo uma serpente que dorme sob a cidade, quiçá nas galerias da Fonte do Ribeirão, tenha sua cabeça e seu rabo de encontro um a outro, despertando-a.

A serpente continua dormindo. Mas a cidade parece afundar, mais que um pouquinho a cada dia. A serpente não acordou, mas na capital maranhense dormem os alcaides e seus asseclas. Como num barco há tempos à deriva – embora os ratos ainda não tenham pulado fora – a água (de esgoto) invade cada buraco. E estes não são poucos por suas ruas, avenidas, becos, ladeiras, vielas e demais logradouros.

Há os que desafiem a lei da gravidade, equilibrando-se em ladeiras. Em asfalto, paralelepípedos ou mesmo onde não há calçamento, lá estão eles, prontos a derrubar e/ou engolir pedestres e/ou carros, que cada vez mais disputam espaço, incivilizadamente.

Às vésperas de completar 400 anos – tendo como referência sua fundação francesa, mito cada vez mais contestado – São Luís parece uma cidade parada no tempo, sem que isso signifique saudosismo ou mesmo sirva de mote a uma campanha publicitária do trade turístico.

Aliás, o que encontram aqui os turistas que ainda se arriscam? Fétidas praias de águas poluídas, onde foi parar a beleza da Ponta d’Areia cantada por Chico Maranhão em música homônima? Ou a beleza do Araçagy de Cristóvão Alô Brasil? Patrimônio cultural da humanidade se transformando em Patrimônio cultural profano, como em poema de Cesar Teixeira, prédios teimando em manter-se de pé, a despeito de chuva, mato, lodo, lixo e do cochilo demorado de governantes – o casario, velho e teimoso, não quer cair e fazer esquecer o eufemismo contido em “tombado”. A depender do estado de conservação de nosso patrimônio, hoje, todos os nossos versos seriam poemas sujos.

A Praia Grande já tem de grande apenas o sobrenome. Conjunto de ruelas malcheirosas, escuras a partir das seis da tarde. Conhecida apenas pela alcunha de “Reviver”, pelas gerações mais novas, “revivida” que foi, por projeto homônimo há pouco mais de 20 anos, gozou de melhor sorte que os vizinhos Desterro e Portinho, os outros dois primos pobres que compõem o centro histórico ludovicense.

Não se trata aqui de odiar ou não amar a São Luís outrora e ainda hoje tão cantada em verso e prosa, por autóctones, forasteiros e filhos adotivos. Nem de deflagrar uma campanha anti-ilhéu. Ao contrário: como uma mulher a quem amamos, queremos São Luís mimada e mais bonita a cada dia – para continuarmos na metáfora, governantes parecem querer apenas fodê-la.

Boiando feito merda n’água, pregada ao continente por um Estreito dos Mosquitos cada vez mais estreito e cada vez com mais mosquitos, insuficiente, São Luís em breve, qual debutante, ganhará um estojinho de maquiagens. Além de um pouco de pó e batom, visita a manicure e cabeleireiro e quem sabe ganhe até mesmo uma depilação no esgoto jogado in natura no Atlântico – nem falo dos rios, pois a Ilha há tempos não os tem. A Lagoa só não morreu ainda por que os bacanas insistem em fingir-lhe área nobre, apesar do mato alto e do fedor, de defuntos insepultos – entre estes alguns legisladores –, entre outros problemas.

São Luís segue o curso desumano de presídios e hospitais superlotados, presos e doentes gozando do mesmo tratamento degradante, como a cantar a Louvação de Tribuzi: “oh, minha cidade, deixa-me viver”. A cidade agônica, parece também reivindicar para si mesma o mesmo desejo, ante os governantes: “oh, gestores, deixem-me viver”. A Ilha teima. Não quer afundar antes de assoprar as 400 velinhas de um bolo que já lhe preparam, já que “a mão que afaga é a mesma que apedreja” (cf. Augusto dos Anjos).

A capital maranhense poderá afundar, leia-se, morrer, com tantas estacas cravadas em seu corpo: as estacas que darão suporte a tantos outdoors com campanhas publicitárias pela efeméride dos quatro centenários. Muito mais estacas que as cravadas em Cristo, São Luís segue sua via crucis, seu calvário, não se sabendo se merece parabéns ou obituário.

Em estado terminal, São Luís não consegue se autorregenerar, como o fígado maltratado de qualquer de seus boêmios, ilustres ou anônimos. Às vésperas de completar 400 anos, São Luís já conta 1.000 problemas. A máxima jobiniana, com o maestro soberano se referindo ao Brasil, não vale para a Ilha que tanto amamos: em São Luís, nem o aeroporto é a saída.

[Vias de Fato, abril/2011]

4 comentários em “Antiode à Ilha capital

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s