Top, Top, Top, uh!

Finalmente penduro acá texto meu que saiu na Top de dezembro/2010-janeiro/2011, caprichosamente editada por Roberta Gomes. As fotos abaixo, que digitalizei da revista, são de Veruska Oliveira e mostram este blogueiro de Cartola no peito batendo um papo com seu Marçal (à esquerda) no Mercado Central e seu Clodomir, vulgo Mimi, pesando uma farinha, em seu box, no mesmo mercado.

Percorremos ainda a Feira da Praia Grande e o Hortomercado do Vinhais e não digo mais, ao texto, pois!

SÃO LUÍS DOS MERCADOS, ILHA CERCADA DE BRASIL

Alguns cofos com camarões secos expostos no balcão, um feirante oferece almoço a outro: se dispõe a repartir o peixe cozido, cujas espinhas retira com facilidade, apenas a boca e a colher, sem sujar as mãos. São José das Laranjeiras, padroeiro dos feirantes dali, observa tudo de seu altar, postado no anel central do mercado: algumas velas acesas a seus pés, sua celebração é em outubro.

1861 é o ano de fundação anunciado no arco superior do portão principal de entrada da Casa das Tulhas, que dá para a Rua da Estrela – embora sua construção tenha se iniciado seis anos antes. A Feira da Praia Grande – nome pelo qual é mais conhecida – ocupa o quarteirão formado por Rua da Alfândega, Beco Catarina Mina, Rua Portugal (ou do Trapiche) e Rua da Estrela, cercado de bares, lojas de artesanato e confecções, ateliers e um comércio de ferragens que resiste, lembrança da época em que o Largo do Comércio – o trecho em frente –, no bairro que lhe dá nome, era o principal centro comercial de São Luís.

Ponto turístico, na Feira da Praia Grande é possível comprar tiquira – cachaça tipicamente maranhense, a base de mandioca –, doces, gêneros alimentícios, artesanato, ervas naturais, além de fazer as três refeições diárias, fora a merenda, em qualquer quiosque, quase a qualquer hora: após as oito da noite os portões se fecham e o lugar, “bom demais”, parece materializar a letra do forró: “quem ‘tá fora quer entrar, mas quem ‘tá dentro não sai”. A feira também ganha preferência por questões práticas: tem a cerveja mais barata de toda a Praia Grande, um dos três bairros do Centro Histórico ludovicense.

Ora subindo, ora descendo a pé, atravessando o Desterro e o Portinho – os outros dois bairros do Centro Histórico, mais maltratados que a Praia Grande –, a antiga Zona do Baixo Meretrício, ou ZBM, para os íntimos, chega-se ao Mercado Central, localizado nos arredores do outrora suntuoso Oscar Frota, grande comércio em um tempo em que São Luís ainda não respirava os ares climatizados dos shopping centers. Oscar Frota, aliás, também viraria, de uns tempos pra cá, gíria para designar a então decadente zona do baixo meretrício, dada a sua proximidade com as ruas da Palma e 28 de Julho – que atravessam o centro histórico – onde estavam localizadas as principais “casas do ramo”.

Quadrilátero decrépito, labirinto de frutas, verduras, secos e molhados, ervas, carnes, peixes, camarões, jornais (para embrulhar ou ainda para ler), embalagens plásticas, animais vivos, cerâmicas, artesanato, barbearias, bares e um sem fim de restaurantes popularíssimos, alcunhados de “come-em-pé”, que atendem tanto passantes como os que trabalham no mercado. Caso de Marçal Ferreira, 58, há 30 no ofício, entre limões, cheiros verdes e pimentinhas.

“Quem trabalha para si, em feira, é todo tempo. Ou trabalha ou não tem nada, morre de fome. Quem não trabalha não come”, diz, rima involuntária, ele que nasceu em São Luís e não conhece nenhuma cidade fora da ilha – formada ainda pelos municípios de Paço do Lumiar, Raposa e São José de Ribamar. Fora o Mercado Central, Marçal só trabalhou em roça – outrora vendia o que plantava; hoje, compra e revende. Um sorriso, por baixo de um bigode e um chapéu que só lhe conferem estilo, já que “aqui é que é bom, pois eu trabalho na sombra”.

Quem concorda com ele é Clodomir Mota Aires, o seu Mimi, 60 anos de idade e 35 de mercado, sua segunda casa, onde está de segunda a segunda. “Folga, só quando fico doente”, diz ele, cuja diversão, quando não está em seu box no Mercado Central, é descansar – e ver futebol na tevê. No trabalho, o máximo de lazer que o vianense se permite é ouvir rádio durante o expediente. “Preciso comprar um novo, esses do Paraguai são uma droga”, aponta um aparelho desligado. Chegou a instalar uma TV 14 polegadas, mas “enchia muito na hora do esporte e atrapalhava o trabalho”.

Quem também não quer ouvir falar em TV no ambiente de trabalho é Leonildo Peixoto Martins, o Léo, proprietário do Bar do Léo, encravado no Hortomercado do Vinhais, bairro localizado a meia hora de distância do centro da cidade. “Ficava chato, as pessoas gritavam, mandavam palavrão”, lembra dos tempos em que abria mão de tocar seu nada pequeno acervo para transmitir um futebolzinho. Algumas placas dão boas vindas a um ou outro frequentador desavisado: “não aceitamos cheques”, “não fazemos música ao vivo” e “é proibido dançar”.

Têm razão: o bar é também um museu vivo e dinâmico da música e cultura brasileiras. Entre CDs, fitas k7 e vinis, são mais de 15 mil títulos de música brasileira e internacional. “Já perdi as contas”, afirma, modesto. Decoram o teto e as paredes capas de vinis e objetos antigos: ferros de passar a carvão, telefones, instrumentos musicais e de pesca, máquinas de escrever e somar, televisores (que já não funcionam), rádios (alguns ainda em funcionamento), gramofones (idem), cachos de coco, pilões, pinturas, uma pequena biblioteca, incontáveis fotografias de ídolos de Léo e visitantes ilustres de seu bar e um sem fim de quinquilharias outras, garantindo ao lugar um charme único.

Com a feira, durante o dia, funcionando ao lado, com suas frutas, verduras, aves, peixes e carnes à venda. Léo pega cedo no batente e até as dez da manhã só se ouve ali música instrumental. O homem tem tudo e adora mostrar: é comum se ouvir a mesma música em não sei quantas gravações. Como é comum a plateia aplaudir a seleção musical como se estivesse diante de um palco com instrumentistas e/ou cantores executando-a ao vivo.

No palco, o interior do balcão, apenas Léo e as garçonetes – nunca se viu um garçom por ali. Elas no vai-e-vem do servir as mesas, cervejas geladas e tripinha de porco frita, especialidade da casa, mas não a única opção do cardápio. Ele, entre o receber pedidos, decidir se vai atendê-los ou não (depende de seu humor), procurar os discos e tocá-los. E tocar corações e almas de quem está por ali. Ao menos até as duas da manhã, horário em que os bares têm que fechar em São Luís – que falta fazem legisladores boêmios –, hora em que Léo cerra as portas e põe uma versão instrumental do Hino do Maranhão para tocar. Encerramento solene, nem adianta pedir a saideira, que não vem nem com reza.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

4 comentários em “Top, Top, Top, uh!”

  1. Poxa, foi bom ler seu texto numa segunda só Sol…e como bem mencionou Marçal Ferreira sobre trabalhar na sombra, foi como estar na sombra, um descanso só, uma leveza tamanha. Ode à nossa terrinha no dia da poesia…Abraço

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