Arquivo mensal: dezembro 2010

Semana Noel Rosa

# 6

NOEL, ROSA SECULAR
POR JOÃOZINHO RIBEIRO

No próximo dia 11 de dezembro, Noel de Medeiros Rosa – Noel Rosa – o poeta da Vila Isabel, completaria um século de existência. Em todo Brasil, muitas celebrações como shows, seminários, publicações, ao longo do ano de 2010, aconteceram e estão acontecendo em homenagem ao centenário deste ilustre compositor, que influenciou e ainda influencia diversas gerações de músicos, poetas e compositores. A sua contribuição para a valorização e fortalecimento da Música Popular Brasileira é algo, por assim dizer, de natureza inestimável.

Deixou-nos um acervo lítero-musical de cerca de 230 obras que servem de referência para pesquisadores, estudantes e estudiosos, como leitura obrigatória, integrando o repertório hoje inteiramente caído em domínio público, já que a legislação autoral brasileira prevê que isto aconteça aos setenta anos, contados do ano seguinte ao da morte do autor.

Em São Luís, reservamos uma singela homenagem no formato de um show para celebrar a data, intitulado Noel, Rosa Secular. Dele fazem parte integrante os compositores Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, interpretando clássicos do repertório do “Poeta da Vila”. A obra musical editada destes quatro compositores sofreu e sofre marcante influência do “Poeta da Vila”, fato que explica e justifica a junção destas personalidades em prol de tão nobre causa.

Os outros intérpretes, especialmente convidados para o show, são: Célia Maria, Lenita Pinheiro, Lena Machado e Léo Espirro. O regional, formado exclusivamente para o acompanhamento dos artistas e convidados acima relacionados, será integrado pelos músicos: Juca do Cavaco (cavaquinho), Domingos Santos (violão de 7 cordas), João Soeiro (violão), Arlindo Carvalho (percussão), João Neto (flauta) e Vandico (percussão). O jornalista Zema Ribeiro assina a assessoria de imprensa do espetáculo, que ainda deverá ter valiosas contribuições dos artistas Nadilton Bezerra, Lena Santos e Joana Bittencourt.

A partir das 22 horas, do dia 11 de dezembro (sábado), no Bar Daquele Jeito, localizado no Conjunto Vinhais, próximo a Praça do Viva e do Bar do Léo, estaremos recepcionando um público diversificado, apreciador da boa música popular brasileira e do repertório de um dos maiores gênios do nosso cancioneiro nacional – Noel de Medeiros Rosa.

Música e poesia da melhor qualidade à disposição dos presentes numa festa de confraternização a altura da dimensão criativa do homenageado. A celebração serve também para a arrecadação de brinquedos, roupas e alimentos não perecíveis, para serem posteriormente distribuídos a entidades que trabalham com ações de valorização da vida em comunidades carentes.

Portanto, mais uma generosa razão para ampliarmos o convite aos homens e mulheres de boa vontade para fazerem parte desta função e contribuírem com o espírito de solidariedade e fraternidade que une as nossas sinceras intenções aos nossos elevados gestos. Responsabilidade social e cultural aliadas a uma boa e decente causa, nada mais justo e cabível neste momento de harmonia e confraternização bafejado pelos ventos natalinos.

Noel, Rosa Secular será muito mais do que um simples evento de reverência a memória do genial compositor de Vila Isabel. Com toda a certeza, o objetivo maior será cantar e encantar a paisagem humana desenhada pelas músicas e letras trazidas ao mundo pelo engenho e arte deste imortal compositor carioca, responsável, dentre outras contribuições, pela valorização e reconhecimento do samba como gênero musical na cena cultural brasileira.

A Noel Rosa, nossos maiores agradecimentos e antecipados votos de parabéns pela monumental obra que deixou como legado a todo o povo brasileiro.

Salve Noel e viva música popular brasileira!

Jornal Pequeno, Geral, p. 4, 6/12/2010

Entrevista

Você se definia um “quase jornalista”, por quê? Porque me falta apenas o diploma pra formalizar, mas trabalho na área há cerca de dez anos. Eu comecei no jornalismo a partir da boemia. Ia ao barzinho ver um amigo fazendo voz e violão. Daí o bar não enchia. Eu me perguntava: uma divulgação maior não ajudaria? Então comecei a redigir notinhas, achava os e-mails nos expedientes dos jornais, comecei a enviar, as notinhas começaram a ser publicadas nas agendas culturais. Depois havia determinado assunto que me chateava, eu mandava cartas pras redações, que também começaram a ser publicadas. Depois eu ia a shows, escrevia uma resenha pós-show, saía. Depois entrei na Faculdade, pouco depois abri o blogue. Aí não parei mais.

Agora, após o episódio das eleições 2010, você passou a se definir em três palavras: “carne, cerveja e indignação”, por quê? Gosto de carne e cerveja e isso representa boa parte da minha composição física. Já a indignação se dá pelo resultado das eleições, mas não só. A indignação e a preguiça movem o homem.

Por que escrever em um blogue? Criei para ter a possibilidade de escrever sobre um livro que li, um disco que ouvi e achei interessante, a vontade de compartilhar com outras pessoas, dialogar com o público, o que um jornal, ou outra mídia, de certa forma não me possibilita. A proposta do blogue é apresentar o que é novo, o diferente, não pautar aquilo que é comum e que os jornais fazem. É, por exemplo, falar de um filme que não ‘tá no circuito comercial dos cinemas.

Quanto tempo como blogueiro? Seis anos e meio, quatro anos no atual endereço, o zemaribeiro.blogspot.com. Meu primeiro blogue também foi no blogspot, o endereço shoppingbrasil.blogspot.com. Nesse tempo a plataforma era em inglês, eu sou monoglota, tinha dificuldade em usar os recursos como links, colocar vídeos. Eu só conseguia escrever e publicar. Aí fui para o zip, que é do UOL, o blogue manteve o nome, mas o endereço era olhodeboi.zip.net. Só que no UOL é disponibilizado um número determinado de caracteres por postagem, então escrever textos longos era bem complicado, tinha que dividir os textos em partes, publicar a última parte primeiro e a primeira parte por último pro texto ficar na sequência, era bem chato. Então resolvi voltar pro blogspot, por que é do Google, e o Google quanto mais tu usa, mais teu espaço cresce, meu e-mail é gmail, eu só tenho esse e-mail, então me facilita muito. O blogspot me disponibiliza vários recursos, eu é que não sei bem como operá-los.

Já trabalhou ou trabalha em outras mídias? Sim, sempre atuei em assessorias, trabalho com assessor de comunicação da Cáritas Brasileira Regional Maranhão há quatro anos, já fui colaborador para jornais, escrevi matérias independentes para jornais e há cerca de um mês sou editor da página de Cultura do jornal O Debate [as coisas mudaram entre a entrevista e sua publicação aqui: continuo na Cáritas (ok, isso não mudou), mas deixei O Debate e voltei à assessoria de comunicação da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos].

Qual a diferença entre teu trabalho no blogue, para teu trabalho no O Debate, ou na Cáritas? Na Cáritas o trabalho é de uma assessoria normal, mas com certo grau de dificuldade por que a gente trabalha com direitos humanos e conseguir espaços para essas pautas na mídia é bem difícil, mas temos conseguido furar os bloqueios na base da amizade. N’O Debate eu trabalho com a agenda pública, com o que ‘tá acontecendo para tentar cobrir esses eventos. Eu tenho a preocupação também de não só copiar e colar a programação do cinema, por exemplo, mas agente faz, claro. Às vezes acontecem falhas por conta da falta de estrutura, de equipe, de condições. No blogue meu trabalho é mais livre, embora eu tenha compromisso com o leitor. O blogue é pessoal, um espaço que busca satisfazer uma necessidade minha e acabei caindo no vício de querer escrever todo dia, pois sei que alguém vai passar e ler uma opinião minha sobre determinado assunto, vai querer uma dica pra saber onde se divertir à noite. É um espaço, por exemplo, onde eu posso publicar uma receita que minha esposa fez, posso postar um vídeo engraçado que um amigo enviou, uma opinião sobre política. O blogue tem esse caráter mais livre.

Você reproduz teus textos produzidos para O Debate no blogue, por quê? O que sai n’O Debate eu procuro reproduzir no blogue, aviso o leitor que é reprodução, porque tem gente que lê o blogue e não lê O Debate e vice-versa.

Qual é teu critério de reprodução de conteúdos de outras fontes em teu blogue? Eu procuro evitar reproduzir no blogue releases, quando faço freela [trabalho como free lancer] de algum show eu reproduzo em outro blogue que tenho específico para isso, o Ponte Aérea São Luís, tem um link para ele no Zema Ribeiro. Agora quando é matéria de interesse público, bem elaborada eu publico e coloco a fonte. Já aconteceu de eu fazer matérias jornalísticas para outros jornais e publicar no blogue [o blogue acaba funcionando como uma espécie de auto-clipping].

O blogue te rende dinheiro? Não. Às vezes eu gasto dinheiro com o blogue. Por exemplo, eu gosto de um livro e quero escrever sobre, mas não consigo com a editora, nem com o autor, acabo que compro livro. Já gastei muito dinheiro com livros, discos e shows, mas não é uma coisa que me preocupa, o jornalista e o assessor pagam o trabalho do blogueiro. Ah, o link do Pesca Preço é um link pago, recebi cem reais para mantê-lo ali por um ano, valor irrisório, menos de dez reais por mês, mas como era só um link, não custava. Enfim, o contrato acaba em novembro próximo. Se eles quiserem renovar, mantenho o link [‘cês perceberam que sumiu, né?].

Dá prazer? É só o que dá, prazer. É poder escrever sobre discos e livros e produtos culturais que muitas vezes a população não sabe, ou não tem acesso.

Você se considera um blogueiro bem sucedido? Bem sucedido não sei, acho que estou cumprindo um pouco do papel de divulgar o que não tem espaço em outros meios. Eu fico muito feliz quando recebo elogios de ex-professores meus, eles pedem para eu terminar logo, pegar o diploma, formalizar aquilo que eu já faço tão bem [palavras deles/as], ou alguém que me diz que foi a um determinado show por que leu no meu blogue e gostou muito.

Já pensou em desistir do blogue? Não. O blogue não me toma muito tempo e é uma atividade da qual eu gosto muito. Já pensei em dar um tempo pra monografia, mas não é meu plano parar de blogar.

Na tua opinião por que política é o tema mais comum nos blogues de jornalistas? Acontece que quem faz blogue tem interesses, faz um blogue pra falar bem de A e desagradar B. A cada momento ‘tá de um lado, eu considero um exercício bem feio.

Com teu trabalho no blogue portas se abriram? Em 2006 eu fui convidado por Itevaldo Júnior para ser correspondente do Overmundo aqui no Maranhão. Ele na época não poderia mais assumir a função e credito isso à minha prática de fazer jornalismo no blogue. Eu consegui publicar em uma revista francesa um texto sobre São Luís numa revista chamada Brazuca, texto em português e em francês [distribuída gratuitamente na França, a revista tem edição bilíngue].

A escolha do layout simples por quê? O template do blogue é do blogspot. É simples por isso e está no formato antigo do blogspot, já pensei em mudar umas coisas sim no blogue, a questão de disposição dos conteúdos, mas não no layout [outra “coisinha” que já mudou]. Esse negócio de letra preta no fundo branco facilita a leitura. Minha preocupação é agradar de cara o leitor e o visual conta muito, fazer ele querer voltar sempre à página, se tornar um leitor frequente.

Média de visitas diárias? No mês de setembro foi de 170 visitas diárias, eu considero muito pouco.

Qual o tempo máximo que você ficou sem postar? Foi de uma semana, por motivo de viagem. Eu costumo postar uma vez por dia e folgar nos fins de semana, mas não é uma regra. Eu posto na base do “quando dá”. Eu acho que blogue não precisa ter uma linha específica, você é livre para falar do que quiser. Por exemplo, teu blogue, tu escreve sobre moda, mas tu pode falar de política também. As pessoas que lêem o blogue vão se acostumar a ler o que tu escreve sobre qualquer coisa, se gostarem do teu texto, do teu estilo.

Já foi cobrado por não postar? As pessoas mandam e-mail, deixam comentários, perguntam se eu estou de férias, se eu estou viajando e o número de acessos cai. A constância das postagens faz o leitor sempre procurar a tua página.

Você realiza ou já realizou enquete no blogue? Não realizo nem nunca realizei.

Já fizeste promoção? Já fiz algumas, sorteios de livros, discos e camisas para o primeiro que comentar.

Tens conhecimento dos recursos que a plataforma disponibiliza, por exemplo, os FEED e RSS? Acho que o próprio blogger disponibiliza, mas eu mesmo nunca me preocupei com isso. Eu uso o Twitter para atualizar meus leitores sobre as postagens novas no blogue. São tecnologias que não domino nem nunca fui atrás de. Mas é uma coisa a se pensar para um futuro breve, quando pretendo dar uma repaginada na página que, tirando conteúdo postado, anda meio largada em relação ao visual e a estas possibilidades.

Qual o critério de moderação dos comentários? Eu procuro ser educado com os meus leitores, respondo todos os comentários individualmente, a política de comentários do blogue é clara. Tem a opção de comentário anônimo, mas só é aceito se a pessoa assina abaixo do comentário, uma contradição em termos, mas isso possibilita que, por exemplo, quem não tem uma página, um login possa comentar. Ninguém precisa concordar comigo desde que isso seja feito da maneira correta. Já aconteceram episódios chatos. Ninguém pode me acusar de censurador ou de publicar somente os comentários favoráveis, isso facilita o debate e isso é legal. As pessoas comentam também por e-mail, recebo comentários no Twitter, e eu respondo também a todos. Esse retorno é uma coisa bacana, essa interação, essa via de mão dupla funciona bem no blogue.

O leitor do teu blogue pode comentar na opção anônima, sem colocar e-mail, nem informação alguma. Não é um risco pra ti? Acho que não, a pessoa tem que ser educada, não dá pra xingar no blogue, eu sou o responsável pela página, os pseudônimos não dá pra controlar, e nem é meu interesse descobrir identidade de ninguém. Já tirei comentários assinados, o blogue é um blogue de família. Eu acho que se eu tenho a preocupação com o que eu vou escrever, as pessoas têm que ter a preocupação com o que vão comentar, pra ficar essa relação entre quem escreve e quem lê.

Já teve problemas por conta de comentários? Não por que os comentários indevidos eu retiro, sou eu quem responde por qualquer coisa na página.

Quando teus posts são mais comentados? Depende muito, não sei dizer, tem vezes que passo semanas sem receber nenhum comentário, tem postagem que eu recebo vinte comentários, é uma coisa que varia muito.

Quem é teu publico leitor, você sabe? Algumas pessoas eu conheço, outras conheço virtualmente, enfim acho que é público pequeno.

Já teve algum post teu copiado, plagiado? Não considero plágio, pois sou licenciado no Creative Commons, o termo no meu blogue diz que qualquer pessoa pode usar desde que cite a fonte e use sem fins comercias [na mudança do layout o selo se perdeu e o blogueiro aqui ainda ‘tá apanhando para recolocá-lo]. Porque não é justo, visto que eu produzi o texto e não ganhei nada. Não é justo que alguém reproduza esse conteúdo sem minha permissão, sem citar a fonte. Mas não é uma regra engessada, eu abro exceções quando alguém fala comigo, pede parar publicar em um jornal, por exemplo, eu libero. O jornal vende, o dono ganha dinheiro, mas ‘tá valendo.

Como você define teu blogue? Jornalismo ou diário? Fica num limbo aí entre tudo isso e mais um pouco. Mas se for para priorizar rótulos, eu apostaria em jornalístico. Embora o primeiro pedaço da resposta seja melhor.

Você considera jornalismo a tua prática blogueira? Na maioria das vezes sim. Eu sigo todos os preceitos e regras do jornalismo ao escrever no meu blogue. Até quando vou emitir minha opinião eu procuro saber mais sobre o assunto, apurar, ouvir todos os lados.

Em qual categoria jornalística você se enquadra? Considero-me jornalista cultural, embora isso não passe de tautologia, tendo em vista que todo jornalismo é cultural, mas, enfim, acabamos usando o termo, a expressão, pra diferenciar o jornalismo cultural, isto é, o jornalismo de artes, espetáculos e entretenimento, digamos assim, do jornalismo econômico, político, policial, geral, de cidades etc. Dentro do jornalismo cultural, que é o que mais pratico, minhas grandes áreas de interesse são a música e a literatura, embora música e literatura sejam, digamos assim, instituições: o que eu gosto, na verdade, é de ouvir (música) e ler (literatura). São coisas que me dão prazer. O que não exclui meu interesse por teatro, cinema, artes plásticas, cultura popular etc. E o que também não me furta de opinar sobre política, cidades, geral, policial etc.

Qual o critério de seleção do que você vai postar ou não? É uma coisa natural, meus critérios são pessoais, eu recebo muito material por e-mail para postar no meu blogue, muitos releases. Embora não me leve muito a sério, mas eu tenho uma vaidade que me motiva, que é a coisa de ser o primeiro a escrever sobre determinado assunto. O triste é que às vezes eu sou o único também.

E a apuração das informações, como fazes? Minha apuração, na área de jornalismo cultural, acontece da seguinte maneira: eu procuro, antes de publicar, conhecer o trabalho, ouvir, pra saber se é bom mesmo [no caso de um disco, por exemplo], e aí eu escrevo sobre.

Pelo fato de teu blogue publicar notícias inéditas, ele já pautou a imprensa? Acontece muito, eu publico uma coisa e alguém, algum jornalista, me liga dizendo que viu no meu blogue, e que quer escrever sobre também, aí passo as informações, os contatos.

Qual característica principal dos textos pro blogue? O texto escrito para o blogue costuma ter uma leveza, é mais despreocupado, despojado, incorpora mais gírias, a linguagem da própria internet. É um texto mais rápido. Eu, particularmente, mesmo quando produzo releases, procuro fugir do “padrão lead“, o quê?, quem?, quando?, onde?, como?, por quê?, quanto?, pra quê?. É claro que eu respondo essas perguntas todas ao longo do texto, mas não carece entregar o ouro ao bandido já no primeiro parágrafo. Eu tenho um estilo próprio, claro que seguindo algumas influências.

E os palavrões nos teus posts? É pra dar leveza, palavrão é uma coisa maldita, mas é um recurso linguístico muito interessante. Na maioria das vezes é brincadeira, nunca tive reclamações. Quando eu escrevo “caray”, que é um portunhol, é reflexo de um grupo que tem principalmente em São Paulo e que eu acompanho, formado por poetas, escritores, jornalistas que criaram uma língua própria, o portunhol selvagem, que utiliza português, espanhol e guarani. O Estadão há dois anos publicou uma matéria toda em portunhol selvagem, então é uma homenagem minha.

Como você caracteriza a blogosfera ludovicense? Pra mim a grande maioria se divide em duas categorias. Eu, modéstia à parte, não me incluo em nenhuma dessas. A primeira, que está preocupada com seu salário no fim do mês e escreve pra agradar fulano e desagradar beltrano. Vive de negociar influência, quem pagar mais leva a “pena” do garoto. E a segunda é a blogosfera que está limitada naquela coisa de diário, que posta poesia, conto, coisas da vida particular. Claro que tem exceções, das duas partes. Há quem faça jornalismo político de forma limpa e quem faça dessa coisa do diário um “jornalismo literário”, briga com a namorada e vai para um bar, lá se depara com um universo antropológico diverso e escreve sobre isso, descreve as relações, às vezes fica bem interessante.

Em 2009 a Coca-Cola deu a 10 blogueiros influentes aqui no Brasil uma nova bebida produzida por eles. Só que a bebida estava dentro de uma geladeira com entrada USB. Os blogueiros afirmaram não se sentirem obrigados a escrever sobre a bebida em seus blogues e nem a falar bem da Coca-Cola por isso. Você já passou por situação parecida? Acontece muito de eu receber ingressos para ir a shows e não me sinto obrigado a escrever sobre, se não quero, se acho que o show não foi bacana, simplesmente não escrevo. Acontece de eu divulgar e receber depois ingressos. Antes de tudo eu gosto de ser honesto com meus leitores, digo a verdade que é a primeira premissa do jornalismo.

És contra a propaganda nos blogues? Tenho um link pago no blogue, o Pesca Preço [tinha]. Não sou contra, só que têm que ficar claro pro leitor. Acho que em algumas situações a propaganda pode sim influenciar no conteúdo, por exemplo, você tem uma propaganda da Vale no teu blogue, você nunca vai escrever sobre as pessoas que moram às margens dos trilhos e que são prejudicadas. Talvez até você queira falar, mas pra não perder o patrocínio, evita. Pra mim desde que não comprometa a informação e se comprometer isso tem que ficar claro pro leitor. Eu por exemplo declarei todos os meus votos no tuíter e meu voto para deputado federal no blogue.

Já retirou algum post que foi publicado? Não, eu me nego por que quero o arquivo, mesmo quando trato de temas espinhosos. Eu procuro me cercar de cuidados ao escrever sobre temas polêmicos.

Você se acha totalmente livre para escrever sobre qualquer assunto? Eu sou sim, procuro respeitar as premissas do jornalismo, saber o que posso ou não dizer para de repente não tomar um processo, ou uma ordem judicial que tire o post, o próprio blogue do ar.

Você sempre quis ser jornalista? Sim. Na verdade, quando comecei a redigir as notinhas, quando comecei a enviar as cartas, a fazer as resenhas pós-show, eu cursava o ensino médio, mas já tinha a manha de escrever, foi algo que eu sempre gostei. Entrei na Faculdade buscando aprimorar isso, aprender as técnicas, melhorar a prática.

*

Dia 8 de outubro concedi a entrevista acima a Aline Coelho, na sede da Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Ela está concluindo o curso de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, na Faculdade São Luís, para onde me arranco agora: às 16h, Aline Coelho defende a monografia Novas formas de se fazer jornalismo: um estudo dos blogues itevaldo.com e zemaribeiro.blogspot.com, cujo pdf em breve ela disponibilizará na internet.

Semana Noel Rosa

# 5

OS COMPOSITORES QUE DERAM ALMA À MPB*


Acervo do Museu da Imagem e do Som, RJ

O segundo dos grandes compositores da Era de Ouro foi Noel Rosa. Como Ary [Barroso], Noel vinha da classe média, o que está a demonstrar, de maneira muito categórica, que o campo do entretenimento, a partir do rádio e da gravação elétrica, tornava-se um veículo cada vez mais promissor de profissionalização, de prestígio e de reconhecimento populares.

Noel de Medeiros Rosa (RJ, 1910 – RJ, 1937), o Poeta da Vila, veio ao mundo no coração de Vila Isabel. E o dia de seu nascimento o marcaria traumaticamente para o resto dos seus 26 anos e meio de vida – o defeito físico no queixo, ocasionado pelo afundamento do maxilar inferior no momento do parto, provocado pelo fórceps, além de uma pequena paralisia na face direita, que o deixou desfigurado, apesar das cirurgias sofridas aos 6 e 12 anos de idade. Noel nasceu, viveu e morreu na mesma residência, na rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel.

Quando tinha apenas 13 anos, começou a tocar bandolim de ouvido e também o violão, que aprendeu a manejar com a ajuda do pai. Já dominando o instrumento, fazia serenatas com o irmão no bairro de Vila Isabel, em 1925. Sem deixar de lado o violão e as serenatas, ao terminar o ginásio Noel preparou-se para a Faculdade de Medicina, que viria a abandonar em 1932, deixando dessa experiência o samba anatômico “Coração”, gravado no ano seguinte. Em 1929, moradores de Vila Isabel e alunos do Colégio Batista formaram um grupo musical, Flor do Tempo, que se apresentava em festas locais. Quando foram convidados para gravar, o grupo foi reformulado, mudando o nome para Bando de Tangarás. Aos integrantes originais do Flor do Tempo (João de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito), juntou-se Noel Rosa, que já tinha fama de bom violonista no bairro. A primeira gravação do Bando dos Tangarás foi o samba “Mulher exigente”, seguido por uma embolada e um cateretê, todos de autoria de Almirante.

Mas a primeiríssima composição do poeta foi a embolada “Minha viola” (1929), feita na esteira da influência do fluxo de música nordestina – trazida por Catulo [da Paixão Cearense] e depois pelos Turunas da Mauricéia, de Augusto Calheiros e Luperce Miranda. A embolada passaria em brancas nuvens, o que não ocorreria com o samba “ Com que roupa” (1931) que, gravado pelo próprio Noel, já refletia uma página da vida do compositor, como, de resto, quase todas suas composições.

A partir do seu primeiro sucesso no carnaval de 1931, Noel faria para mais de vinte músicas, algumas delas clássicos até hoje como “Três apitos”, “Cordiais saudações” e “Gago apaixonado”. Já então seu estilo estava cristalizado – Noel cantava o simples das coisas e dos fatos cotidianos. Foi o poeta dos versos escorreitos e despojados de preciosismo, o cronista musical mais preciso e enxuto de sua época, que traria para o começo dos anos 1930 a simplicidade e o bom gosto, tão revolucionários quanto a então contemporânea Semana de Arte Moderna de 1922. Aliás, qualquer análise mais profunda que se faça sobre a poética de Noel revela que ele trouxe para seus versos muita coisa dos cânones modernistas de 1922, sobretudo ao comentar (apaixonadamente, é certo, mas isso já era o seu toque particular) o cotidiano, e ainda na liberdade dos versos e das palavras empregadas.

No ano seguinte, Noel teve dois encontros musicais importantes – Ismael Silva, seu parceiro em dez sambas, e o musicista paulista Oswaldo Gogliano, o Vadico, com quem também fez pelo menos dez obras-primas, entre as quais “Feitio de oração”, “Conversa de botequim”, “Dama de cabaré” e especialmente o “Feitiço da Vila”, um hino ao bairro onde nasceu e morreu, que acabou inserido na célebre polêmica musical mantida com o sambista Wilson Batista.

A pesquisadores mais argutos como João Máximo e A. Didier, seus biógrafos, não poderia mesmo passar despercebido que a vida de Noel foi quase toda registrada em seus sambas; difícil é uma música sua que não tenha uma história específica. E suas composições que falam de amor comprovam que Noel apaixonou-se por muitas mulheres. Numa noite de São João, no Cabaré Apolo da antiga Lapa, ele conheceu a bailarina Ceci, uma jovem campista de 16 anos que trabalhava num cabaré da Lapa e de quem o poeta seria enamorado até morrer. Para Ceci, Noel fez “Prá que mentir”, “O maior castigo que te dou”, “Dama de cabaré”, “Silêncio de um minuto”, “Ilustre visita” (“Só pode ser você”), e ainda o póstumo “As pastorinhas”.

Apesar de casar-se em fins de 1934 com a jovem Lidaura, a vida de Noel só registrou uma única mudança: saiu de seu quarto uma cama de solteiro e entrou uma cama de casal. A boemia, as noites dissipadas, a bebida e o cigarro acabaram por lhe destruir os pulmões já enfermos. Noel morreu apenas 6 anos depois de seu primeiro sucesso, “Com que roupa”.

Pouco antes (março de 1937), voltando de um mês nas montanhas (Friburgo) em busca de melhor clima para a doença, o poeta visitara Ceci, sua grande paixão. Triste e amargurado, deu-lhe os versos do samba “Último desejo” (gravado dias antes de sua morte por Aracy de Almeida), no qual vaticina de modo profético o seu próprio fim e relembra o início de seu amor tumultuado com Ceci: “Perto de você me calo/ Tudo penso, nada falo/ Tenho medo de chorar/ Nunca mais quero teu beijo/ Mas meu último desejo/ Você não pode negar.”

Noel morreu na noite do dia 4 de maio de 1937, enquanto em frente à sua casa se comemorava o aniversário de uma vizinha numa festa em que tocavam suas músicas. Diversas versões sobre sua morte foram publicadas em diferentes jornais e biografias, onde se fez referência até a um ataque cardíaco. Ao enterro compareceram muitas personalidades da música e do rádio. À beira de seu túmulo, Ary Barroso fez um discurso emocionado, homenageando o amigo e parceiro. Contudo – e isso sempre foi muito comum no Brasil – seu nome ficou esquecido durante a década de 1940, até que Aracy de Almeida, em 1950, passou a cantar na famosa boate Vogue, incorporando sambas inéditos de Noel ao seu repertório. Desde aí, o compositor foi redescoberto e passou a ser homenageado pelo público, pela crítica e por autoridades, como no caso do busto inaugurado na praça Tobias Barreto. O pequeno monumento hoje se encontra na praça Barão de Drumond, Vila Isabel – com toda justiça! Além deste, a comunidade de Vila Isabel inaugurou um monumento no cemitério São Francisco Xavier, onde está o túmulo do compositor, em comemoração ao cinqüentenário do nascimento do Poeta da Vila.

*excerto do “Capítulo 2: A década de ouro”.

Ricardo Cravo Albin em O livro de ouro da MPB: a história de nossa música popular de sua origem até hoje (p. 115-118. Ediouro, 2003). Do livro tirei também a ilustração do samba “Onde está a honestidade”, que abre o post.

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Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho apresentam, dia 11/12, às 22h, no Bar Daquele Jeito (próximo ao Viva Vinhais), o show Noel, Rosa secular.

Cuidado!

(OU: O MONSTRO SOUZA ATACA EM TRÊS CAPITAIS)

“Eu gosto de Cu… ritiba” (Carlos Careqa). “Acho que gosto de São Paulo” (Legião Urbana). “Sei que preciso aprender/ quero viver pra saber/ e conhecer Brasília” (Sérgio Sampaio).

Às populações de Curitiba, São Paulo e Brasília, um aviso: cuidado! O Monstro Souza está chegando por aí essa semana.

Leiam uma entrevista que fiz com Bruno Azevêdo, quando do lançamento em São Luís. Mais informações no Romance Féstifud.

Semana Noel Rosa

#4

NOEL ROSA: GÊNIO E PROFETA DA RAÇA


Noel pela primeira vez. Capa. Reprodução

A monumental obra do compositor carioca Noël (com o trema do registro) de Medeiros Rosa (1910-1937) recebe um altar à altura, aos 90 anos de seu nascimento. Resultado de 13 anos de pesquisa e batalha para a realização do projeto, a caixa Noel pela primeira vez (Velas), produzida pelo professor paulistano Omar Jubran, reúne em sete CDs duplos 229 gravações do poeta da Vila Isabel. Nessa conta incluem-se primícias que se tornaram clássicos atemporais como “Fita amarela” com Francisco Alves e Mário Reis, em 1932, “Conversa de botequim” com o próprio Noel, em registro de 1935, “Palpite infeliz” (1935) e “Último desejo” (1937), ambos por Aracy de Almeida. Requinte da seleção: na briga pelo posto de mais fiel intérprete de Noel, Marília Batista aparece mais adiante interpretando a referida “Último desejo” com uma estrofe (que lhe teria confiado o autor) não incluída na gravação de Aracy. A mesma disputa ocorre nos registros do outro totem, “Silêncio de um minuto”, na versão completa por Aracy em 1951 e numa mais enxuta por Marília em 1940. De outra absoluta, “Três apitos”, ao registro oficial de Aracy, lançado apenas em 1951 (14 anos após a morte do compositor), e outro raro de Orlando Silva, nunca editado comercialmente. Do banquete de iguarias preciosas salta uma questão. Pelo volume, qualidade e profundidade da obra composta no curto período dos 19 aos 26 anos de idade, entre os criadores da música popular, parodiando uma música sua, Noel talvez seja “o melhor do planeta”.

“Eu tenho fama de filósofo amador”, gaba-se ele em “Com mulher não quero mais nada”, uma de suas inúmeras pérolas descobertas postumamente, em gravação de integrantes do conjunto Coisas Nossas. A obra desse cronista de costumes que sempre viajou entre a filosofia de botequim (no melhor sentido) e a observação sarcástica ou lírica do cotidiano é tão vasta que Noel pela primeira vez ainda desenterra inéditas tantos anos após sua morte. Boa parte foi registrada em programas de rádio e nunca lançada em disco, como relata o esmerado libreto de 160 páginas que acompanha a caixa, com ricas notas de Carlos Didier, co-autor com o jornalista João Máximo do livro Noel Rosa, uma biografia. O próprio Didier no vocal e violão, em desempenhos para o programa Noel Rosa: as histórias e os sonhos de uma época, da Rádio Cultura, desvela, entre outras, “Faz de conta que eu morri”, parceria com Henrique Gonçalves (“Não quero escutar/ declarações de amor/ pois de tanto chorar/ minha fisionomia já mudou de cor”), “Amor com sinceridade”, com Sylvio Pinto (“Pode haver muita amizade/ mas há sempre falsidade/ como um dia Judas fez”), e “Habeas corpus”, com Orestes Barbosa (“Tu tens as agravantes da surpresa/ e também as da premeditação/ mas na minha alma tu não ficas presa/ porque o teu caso é de expulsão”).

Do mesmo programa há registros de inéditas pela cantora Vânia Bastos (“Não morre tão cedo”, “Marcha da prima… Vera”), paródias noelescas de temas estrangeiros como “I’m looking over a four leaf clover” (“Belo Horizonte”), gravado por João Gilberto na versão comportada de Nilo Sérgio (“Trevo de quatro folhas”), e “Cheek to cheek (Vagolino de cassino)”, trabalhos de Noel recuperados por seus biógrafos. De outro programa de rádio, No tempo de Noel Rosa, de Almirante (colega do compositor no Bando dos Tangarás e um dos primeiros a avaliar sua importância na MPB), na Tupi, em 1951, são desempenhos de Roberto Paiva em “Deixa de ser convencida” (rara parceria que encerrou a polêmica de Noel com Wilson Batista), Jamelão na paródia “Canção do galo capão” (em cima da “Marchinha do grande galo”, de Lamartine Babo e Paulo Barbosa) e até um certo Alegria (José de Souza Pinto), motorista de táxi das farras de Noel para quem este escreveu, em 1931, a canção sertaneja “Mardade da cabocla”. Mas à parte as curiosidades e especiarias, a caixa que apresenta as canções dentro da cronologia de seus registros iniciais (e não seguindo a data em que foram compostas) atesta que o gigantesco Noel nasceu pronto.

Desde as primeiras composições, como a embolada “Minha viola”, de 1929 (regravada por Martinho da Vila), de letra acaipirada mas cheia de manha, o compositor já demonstrava seu ceticismo com as convenções sociais (vide “Filosofia” mais adiante, gravada por Mário Reis e Chico Buarque). Centrava fuzilaria nos estragos causados pelo vil metal (“Onde está a honestidade”) e questionava a dominação econômico-cultural estrangeira (“Não tem tradução”). Seu célebre retrato do país em “São coisas nossas” (“O samba, a prontidão e outras bossas”) destila farpas. Outra vertente principal de seus enredos aborda a guerra conjugal de um prisma que seria considerado machista pelos politicamente corretos (“O maior castigo que eu te dou”, “Mulher indigesta”, “Para me livrar do mal”). Numa tabulação temática rápida, a revanche amorosa (“Cansei de pedir”, “Riso de criança”, “Isso não se faz”, “Seja breve”, “Tenho raiva de quem sabe”, “Quem não quer sou eu”) – do artista que não primava pela beleza e teve o queixo afundado num erro de parto a fórceps – predomina sobre a ilusão amorosa leve, a chamada dor de cotovelo (“Meu barracão”, “Vejo amanhecer”, “Três apitos”). Traições, fingimento, alpinismo social amoroso, nada escapa ao implacável Noel, um obcecado pelas mentiras de mulher, como diz numa das músicas. Ou “Você só… mente” (“Você é um ente/ que mente inconscientemente”), como vergasta num fox gravado em 1933 por Francisco Alves e Aurora (irmã de Carmen) Miranda, um dos muitos pares estelares – a nata dos cantores da época – que desfilam pela caixa interpretando suas músicas.

Além de Mário Reis e Francisco Alves (juntos e separados), destacam-se seus clones Jojoca & Castro Barbosa (que lançaram o clássico “Adeus”, em 1932), também em desempenho com outros cantores, como no caso do heráldico “Feitio de oração” (“Quem acha/ vive se perdendo”), disparado nas vozes de Francisco Alves e Castro Barbosa em julho de 1933. Outros intérpretes bastante assíduos de Noel, além dos supracitados, foram Almirante (“Eu vou pra Vila”, “Contraste”, “Tarzan, o filho do alfaiate”, “Só pra contrariar”, “Já não posso mais”, “E não brinca [Não brinca não]”, “Maria fumaça”), João Petra de Barros (“Até amanhã”, “Quero falar com você”, “Nem com uma flor”), Silvio Caldas (“Pastorinhas”, “Pra que mentir?”, “Mão no remo”, “Vitória”), Orlando Silva (“A dama do cabaré”, “Pela primeira vez”, “Cidade mulher”). Carmen Miranda teve a primazia da marchinha “Assim sim!” (parceria de Noel com Chico Alves e Ismael Silva) e do samba “Tenho um novo amor” (de Noel e Cartola). Mas o próprio Noel, vencendo a barreira que separava os criadores dos microfones, é um de seus mais assíduos (e eloquentes) intérpretes. Levemente abaritonado, sotaque carioca marcante e um modo coloquial de dizer as letras antecipando as vozes de travesseiro da bossa (expressão que usou muito em suas composições), ele lançou desde a obscura toada “Festa do céu” (1929) a emblemas como “Com que roupa?”, “Um gago apaixonado” (1930), “Cordiais saudações”, “Mulata fuzarqueira” (1931), “Felicidade”, “Mentiras de mulher”, “Mulher indigesta” (1932) e muitas outras.

Embora o paulistano modernizador Oswaldo Gogliano, o Vadico (1910-1962), pré-bossa-novista co-autor de “Feitiço da Vila”, “Feitio de oração”, “Conversa de botequim”, tenha entrado para a história como parceiro mais afamado, a caixa atesta que o classe média Noel, que chegou a cursar (mal, vide os erros técnicos do ótimo samba “Coração”) medicina, não ficou nas mesas de bar entre os coleguinhas de classe social como os parceiros Lamartine Babo (“AE.IOU”, “Absurdo”, “Nega”), Ary Barroso (“Mão no remo”, “Estrela da manhã”), João de Barro (“Pastorinhas”, “Lataria”, “Samba da boa vontade”) e Hervê Cordovil (“Triste cuíca”, “Não resta a menor dúvida”, “O que é que você fazia?”). Embora escrevesse que o samba nasce no coração, ele foi aos morros (e arrabaldes) beber o gênero na fonte. Ao lado de Cartola (“Não faz, amor”, “Tenho um novo amor”) e Ismael Silva (com quem gravou em duo e assinou vários sambas numa trinca profissional com Chico Alves), ele dividiu trabalhos com Canuto (“Esquecer e perdoar”, “Já não posso mais”), que chegou a gravar dois sambas em primeira mão, e o lendário Antenor Gargalhada (“Eu agora fiquei mal”), além de Donga (“Este meio não serve”), Heitor dos Prazeres (a clássica marcha-rancho “Pierrô apaixonado”) e João Mina, com quem praticamente inaugura o partido alto em “De babado”, gravado em 1936, em duo com Marília Batista.

Gênio (e profeta) da raça, sambista também cultor da “Rumba da meia noite” ao rock da época, o fox-trot (“Julieta”), Noel que viveu num Rio de Janeiro ainda bucólico, onde o despertador podia ser o guarda civil (de salário atrasado), previu até o fim da malandragem cordial. E prenunciou a guerra civil não declarada: “No século do progresso/ o revólver teve ingresso/ para acabar com a valentia” (“O século do progresso”, 1934).

(Jornal do Brasil, 5/12/2000)

Tárik de Souza em Tem mais samba: das raízes à eletrônica (p. 43-46), Editora 34, 2003.

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AMANHÃ (5)

Ricarte Almeida Santos entrevista os bambas de Noel, Rosa secular no Chorinhos e Chorões, às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Termina amanhã 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul

Tudo o que é bom dura pouco. Termina amanhã, em São Luís, a 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, que até o próximo dia 19 de dezembro terá percorrido 20 capitais brasileiras. Ótima programação. Quem perdeu, resta torcer para que São Luís seja mantida na rota do ano que vem – a ideia da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que realiza a Mostra, é chegar a todas as capitais em breve.

Confira a seguir a programação de amanhã. As sessões, gratuitas, acontecem no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Ingressos podem ser retirados na bilheteria do cinema, meia hora antes das sessões.

13h30min

Groelândia, de Rafael Figueiredo
Brasil 17 min 2009 ficção

Franco volta para casa depois de dez anos. Ao atravessar a porta, ele encontra a mãe e um passado indesejado.

Mundo Alas, de León Gieco, Fernando Molnar e Sebastián Schindel
Argentina 89 min 2009 doc

Mundo Alas é um road movie, uma viagem iniciática de um grupo de jovens artistas que mostra sua arte junto com a voz, o talento e a experiência de León Gieco durante uma turnê por diferentes províncias argentinas. Músicos, cantores, bailarinos e pintores, todos eles grandes artistas, e portadores de necessidades especiais, expressam e comunicam sua maneira de ver o mundo: aquilo que lhes preocupa, que os anima e que os inspira, em um show que combina música, dança e pintura. Nele se destacam o rock, o folclore e o tango junto a grandes sucessos de León Gieco. Ao longo da turnê e do filme, vão sendo conhecidas as histórias de vida de cada protagonista e sua evolução artística. Os shows, ensaios, a estrada e os hotéis são os cenários de histórias e músicas que geram novos sonhos: conseguir gravar o disco de Mundo Alas, e encerrar a turnê com um grande show no Luna Park. Surgem também histórias de amor e relações que demonstram que a integração é possível. Um filme único, inclusivo, que dá nome e reconhece as pessoas por suas capacidades, uma maravilhosa experiência musical sobre a superação e o amor.

15h30min

Carreto (já exibido com audiodescrição na sessão de 13h30min, dia 1º./12)

Bailão, de Marcelo Caetano
Brasil 17 min 2009 doc

A memória de uma geração visitada por seus personagens. O cenário é o centro de uma grande cidade; o enredo, a urgência da vida. E o Bailão, o ponto de convergência dessas histórias.

Defensa 1464, de David Rubio
Equador/Argentina 68 min 2010 doc

Esta é a história de um grupo de emigrantes afro-equatorianos que chegaram a Buenos Aires para repensar a história e resgatar seus antepassados do esquecimento.

17h30min

O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger
Brasil 110 min 2006 ficção

Em 1970, o Brasil e o mundo parecem estar de cabeça para baixo, mas a maior preocupação na vida de Mauro, um garoto de 12 anos, tem pouco a ver com a ditadura militar que impera no País, e seu maior sonho é ver o Brasil tricampeão mundial de futebol. De repente, ele é separado dos pais e obrigado a se adaptar a uma “estranha” e divertida comunidade – o Bom Retiro, bairro de São Paulo, que abriga judeus, italianos, entre outras culturas. Uma história emocionante de superação e solidariedade.

19h30min

Eu não quero voltar sozinho (já exibido com audiodescrição na sessão de 13h30min, dia 1º./12)

Imagem final, de Andrés Habegger
Argentina 94 min 2008 doc

Junho de 1973 em Santiago do Chile. Leonardo Henrichsen, um cinegrafista argentino, filma sua própria morte. 33 anos mais tarde, Ernesto Carmona, um jornalista chileno, descobre a identidade do homem que o matou. Imagem Final é um filme sobre um das imagens mais famosas da história. Sobre um grupo de jornalistas filmando um continente que afunda na violência. Uma oportunidade de ver o material de arquivo mais incomum e revelador dos últimos 40 anos. Imagem Final é um passeio pela história recente da América Latina, através da vida e das imagens de um só homem.

19h30min

O filho da noiva, de Juan José Campanella
Argentina 124 min 2003 ficção

Rafael Belvedere não está satisfeito com a vida que leva. Não tem tempo para se dedicar às suas coisas nem a seus parentes. Não tem ideais, vive enfiado até a cabeça no restaurante fundado por seu pai; sustenta um divórcio; não teve tempo suficiente de ver crescer sua filha Vicky; não tem amigos, e prefere adiar um novo compromisso com sua namorada. Além disso, há mais de um ano não visita sua mãe, que sofre do Mal de Alzheimer e está internada em uma casa de repouso. Rafael quer apenas que o deixem em paz. Mas uma série de acontecimentos inesperados irá obrigá-lo a repensar sua situação. E no caminho, dará apoio ao seu pai para cumprir o velho sonho de sua mãe de se casar.

Eis a sinopse do filme da sessão de agora, 19h30min, no Cine Praia Grande, dentro da programação da 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. Outros filmes exibidos hoje (4) foram Mãos de outubro, Juruna, o espírito da floresta (13h30min), Halo, Andrés não quer dormir a sesta (15h30min), Maribel e O quarto de Leo (17h30min). Todas as sessões são gratuitas.

Já já

Recebi por e-mail, da cantoramiga Lena Machado, algumas fotos que a Thays Tuzzi, que não conheço, fez de seu show Samba de Minha Aldeia, apresentado no último dia 30 de novembro, no Feitiço Mineiro, na capital federal. Colei algumas aí, para avisar que já já, em pouco mais de meia hora, ela canta acompanhada dOs Pregoeiros, no encerramento do Dezembro de Paz. Às 19h30min, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande, de graça. Detalhes no Ponte Aérea São Luís.

Semana Noel Rosa

#3

SERESTEIRO OBTUSO

Noel Rosa gostava das madrugadas e, quando não tinha carro, escalava motoristas de táxi para acompanhá-lo no périplo noturno.

Um desses motoristas tinha o apelido de Malhado, em função do vitiligo. Possuía voz possante, que gostava de exibir em serenatas, e vivia pedindo a Noel uma música em que pudesse exibir seus dotes vocais.

Noel percebeu um detalhe interessante. Malhado cantava valsas e canções com palavras difíceis de que ele não conhecia o significado. Diante disso, resolveu compor uma canção para o amigo motorista.

Depois de pronta a composição, Noel ensinou versos e melodia para Malhado, e combinou de fazerem a estreia da obra numa serenata para as filhas de um coronel lá de Vila Isabel.


Ilustração: Redi

Ao chegar diante do sobrado do coronel, Noel disse que ficaria do outro lado da rua, para dar o destaque que a voz de Malhado merecia. Feriu o tom e o cantor atacou:

“Saí da tua alcova
Com o prepúcio dolorido,
Deixando teu clitóris gotejante
De volúpia emurchecido
Porém o gonococos da paixão
Aumentou minha tensão”

O coronel levantou atirando. Malhado correu para a esquina onde Noel já o esperava. Lívido, parou diante do Poeta da Vila, que o consolou:

“Isso é pra você ver, Malhado, o que é a falta de sensibilidade dessa gente”.

(De Suite gargalhadas (p. 19/20), de Henrique Cazes. José Olympio Editora, 2002. Do livro foi tirada também a ilustração do post)

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11/12: Noel, Rosa secular.

Tropa de Elite 2 documenta drama brasileiro

Drama familiar de Capitão Nascimento desmistifica o herói nacional criado no filme anterior e o leva a repensar seu papel na polícia em filme que aborda o domínio de comunidades por mílicias.

ZEMA RIBEIRO

Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro é um documentário. Nem venha José Padilha, o grande cineasta brasileiro na atualidade, com essa de “qualquer semelhança é mera coincidência” ou coisa que o valha. O filme, que já nasceu clássico, é, obviamente, a continuação de Tropa de Elite, mas engana-se quem pensa que é a estética da violência que toma conta da tela. É, também, mas não só. E a violência não está ali gratuitamente. O dedo é posto na ferida, sem dó nem piedade, e as entranhas corruptas que regem as relações entre os poderes constituídos no Brasil é exposta, crua e cruelmente. Engana-se quem pensa, por exemplo, que o assunto é exclusividade do Rio de Janeiro. Ou de suas favelas.

Quem viu o primeiro Tropa de Elite, no cinema, ou antes através das muitas cópias “piratas” vendidas em qualquer camelô, que só o tornaram ainda mais popular, ou na televisão, lembra: Capitão Nascimento (brilhantemente interpretado por Wagner Moura em ambos) vira herói nacional ao desancar “vagabundos”, “marginais”, e a “playboyzada” toda que financia o tráfico de drogas, usando métodos nada ortodoxos. À época, ele era o comandante do BOPE, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar carioca.

Em Tropa de Elite 2 há um profundo mergulho na realidade de favelas cariocas controladas por milícias, formada por agentes ou ex-agentes públicos – policiais, bombeiros, agentes penitenciários. O Estado deixa de cumprir sua função social e constitucional – garantir a segurança pública da população, no caso – para atender aos interesses de pequenos grupos, o que se reflete inclusive (ou principalmente?) no cenário eleitoral: as milícias garantem votos (de cabresto) a políticos corruptos que trabalharão nos parlamentos para garantir sua continuidade. As milícias controlam da distribuição de gás de cozinha ao transporte alternativo, passando pela venda ilegal de TV por assinatura, entre outros, nas cerca de 300 favelas e bairros cariocas em que estão instaladas.

Altas doses de violência (física e psicológica) também se fazem presentes em Tropa de Elite 2. Nascimento é o narrador da película cujos ares hollywoodianos não são os dos clichês. Mas os olhares se invertem: se em Tropa de Elite, o policial não poupava sequer colegas de batalhão – “pede pra sair!” –, a coisa muda de figura em 2, graças a um drama familiar vivido pelo personagem.

Drama – A começar por sua ex-mulher Rosana (vivida por Maria Ribeiro), agora casada com o professor de história, militante de direitos humanos e deputado Diogo Fraga (Irandhir Santos). Este é, por assim dizer, ao menos em boa parte do filme, o “maior inimigo” de Nascimento, que tem uma relação conflituosa com seu filho Rafael (o estreante Pedro Van-Held), agora criado pelo novo casal.

Após dedicar 21 anos de sua vida, o Capitão Nascimento “cai na real” e repensa sobre a impossibilidade de responder à pergunta que o filho lhe fez quando tinha dez anos de idade, sobre o porquê de o trabalho dele ser o de “matar gente”. O policial militar, em processo de expulsão da corporação, justo por denunciar a corrupção arraigada no sistema, acaba colaborando com a CPI presidida por Fraga, que investiga as relações corruptas entre o tráfico de drogas, as polícias e os poderes executivo e legislativo no Rio de Janeiro da “ficção” de Padilha.

O personagem de Irandhir Santos é inspirado no deputado Marcelo Freixo (PSol/RJ), que presidiu uma CPI do crime organizado em 2008. A CPI pediu o indiciamento de mais de 250 envolvidos com as milícias. Hoje 12 homens se revezam para garantir segurança 24h por dia ao deputado e sua família e ao menos dois planos concretos de matá-lo já foram descobertos e desarticulados.

Em Tropa de Elite 2 Nascimento percebe que, mais que o crime que combate nos morros e no asfalto cariocas, está cercado de inimigos – que devem ser combatidos dentro de seu ambiente de trabalho. Ele percebe que problemas como os das milícias não são resolvidos por pura falta de vontade política, pelos interesses particulares em jogo. Assim, parte para outra guerra, ainda mais complexa e perigosa. Alguns “cinéfilos” desavisados, no entanto, podem crer que o capitão continua o truculento brucutu de outrora.

Outros desavisados chegam a aplaudir quando, por exemplo, Nascimento, em uma blitz, dá uma surra – eufemismo – em um deputado corrupto. Outros desavisados ainda podem concordar com o surrado clichê sem sentido de que “direitos humanos (só) defendem bandidos”. “O buraco é mais embaixo”. Deputados corruptos, como de resto quaisquer infratores das leis, devem ser punidos e cumprir suas penas, já estabelecidas em códigos específicos. Particularmente fico com outros ditos populares, clichês não: “violência gera violência” e “gentileza gera gentileza”.

O grande trunfo de Tropa de Elite 2 é justamente desmistificar a questão dos direitos humanos, ao expor as vísceras de um sistema – ou um conjunto de sistemas – entranhado e corroído pela corrupção, aparentemente um caso perdido, sem solução. Eis aí, aliás, uma das premissas da defesa, proteção e promoção dos direitos humanos: não desistir nunca. Assim se reumanizam aqueles que estão brutalizados. De um lado ou de outro.

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Acima, outra colaboração para o Vias de Fato de novembro/2010, sobre outro filme que não ‘tá na programação da 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul. Abaixo, a programação de hoje.

13h30min

Dois mundos, de Thereza Jessouroun
Brasil 15 min 2009 doc

Para os surdos, existem dois mundos entre os quais eles transitam: o mundo do silêncio e o mundo sonoro. Este filme retrata a experiência dos surdos com o mundo sonoro.

América tem alma, de Carlos Azpurua
Bolívia/Venezuela 70 min 2009 doc

O Carnaval de Oruro é destacado como a expressão máxima de alegria, diversidade e reconciliação coletiva da Bolívia. Diferentes setores se encontram e dançam ao som de um coro de vida e morte, no qual – momentaneamente – são eliminados rancores antigos e rivalidades seculares. Mal termina este mágico baile de máscaras, voltam a um ciclo de dominação e opressão… mas, atualmente, os deserdados da terra elevam o punho e a voz para abolir séculos de injustiça. Assim, a alma americana transcende este passado de incerteza e caminha esperançosa com o olhar voltado para as históricas transformações que marcam seu presente.

15h30min

Vlado, 30 anos depois, de João Batista de Andrade
Brasil 85 min 2005 doc

Por meio de depoimentos, o documentário reconstrói o caso de tortura do jornalista Vladimir Herzog, assassinado numa cela do DOI-CODI em São Paulo, em 1975.

17h30min

A história oficial, de Luis Puenzo
Argentina 114 min 1985 ficção

Buenos Aires. Professora de história desconfia que a menina que adotou seja filha de desaparecida política, vítima da repressão militar. O filme argentino mais premiado em todos os tempos.

19h30min

XXY, de Lúcia Puenzo
Argentina/França/Espanha 86 min 2006 ficção

Alex nasceu com as características sexuais de ambos os sexos e, para fugir dos médicos que insistiam em corrigir a ambiguidade genital da criança, seus pais a levam para um vilarejo no Uruguai. Convencidos de que uma cirurgia seria uma violência contra seu corpo, eles vivem retirados numa casa nas dunas. Um dia, recebem a visita de um casal de amigos, que traz com eles o filho adolescente. O pai visitante é especialista em cirurgia estética e se interessa pelo caso clínico da jovem. Enquanto isso, Alex, de 15 anos, e o rapaz, de 16, sentem-se atraídos um pelo outro.

Aperreio e as mazelas do Maranhão

Documentário encomendado por entidades do movimento social maranhense ganha vida própria percorrendo festivais Brasil afora

ZEMA RIBEIRO

O maranhense Aperreio, documentário de Doty Luz e Humberto Capucci, foi selecionado para a mostra competitiva do II CurtaCarajás – Festival de Cinema de Parauapebas, no Pará. Lá também o curta metragem já havia participado do Amazônia Doc. É, supomos, o início de uma vida longa de um filme que surgiu como encomenda do Comitê de monitoramento às políticas voltadas às vítimas das enchentes no Maranhão.

O agrupamento de entidades do movimento social maranhense, entre as quais a Associação Agroecológica Tijupá, Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Fórum Carajás, Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e União por Moradia Popular, entre outras, visa confrontar o discurso pró-grandes projetos com a realidade das populações no interior do Maranhão.

Os documentaristas percorreram diversos municípios constatando as mazelas provocadas pela alternância de secas e enchentes, efeitos das mudanças climáticas. O grande trunfo de Aperreio, aliás, é orientar-se pela máxima guevariana: endurecer sem perder a ternura. “Essa foi uma das grandes preocupações da gente: como fazer um filme desses sem falar só de desgraças?”, indaga-se, explicando, o cineasta Humberto Capucci, que até meados de 2009, atuou no Conselho Indigenista Missionário, o CIMI, que deixou após 14 anos – justo para dedicar-se ao cinema. O resultado está aí para quem quiser ver: os problemas são apontados pela ótica de populares, as próprias vítimas contando sua(s) história(s). Entre cenas desoladoras – inundações, casas destruídas –, lembranças doídas e a beleza da sabedoria e cultura populares dos maranhenses.

Aperreio, primeira realização concluída da Café Cuxá Filmes – produtora em que Luz e Capucci são sócios, outras produções iniciadas antes estão em fase de conclusão – extrapola o meramente institucional. “Uma preocupação muito forte, quando fazemos um trabalho, é não ficarmos falando para nós mesmos. Participar de festivais Brasil afora está sendo uma surpresa, não era a intenção inicial, mas se isso está acontecendo significa que conseguimos falar para um público além do das organizações que encomendaram o filme e do público atendido por elas”, afirma Capucci.

No Maranhão, o filme, até aqui, só teve exibição na noite de seu lançamento: na noite do último dia 28 de outubro, na sala de cinema da sede do jornal O Imparcial (conforme noticiado na página do Vias de Fato na internet). Espera-se que o mesmo seja visto por “tudo em quanto” é maranhense – para usarmos uma expressão genuinamente nossa que aparece no filme. A realidade de Aperreio bate à nossa cara e à nossa porta. Não adianta fingirmo-nos de cegos ou surdos.

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O texto acima saiu na edição de novembro do Vias de Fato, onde também escrevi sobre Tropa de Elite 2 (sobre o primeiro, já havia escrito também para O Debate, cuja redação deixei anteontem, por motivos de força maior).

Aperreio não está na programação da 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul, mas bem poderia, a exemplo de outros docs e curtas de ficção maranhenses – fica a dica para a produção, para outras edições. A seguir, a programação de hoje (íntegra pode ser acessada no site da Mostra e o catálogo da mesma pode ser baixado aqui).

13h30min
(sessão com audiodescrição para público com deficiência visual)

Pra Frente, Brasil, de Roberto Farias
Brasil 105 min 1982 ficção

Em 1970 o Brasil inteiro torce e vibra com a seleção de futebol no México, enquanto prisioneiros políticos são torturados nos porões da ditadura militar e inocentes são vítimas desta violência. Todos estes acontecimentos são vistos pela ótica de uma família quando um dos seus integrantes, um pacato trabalhador da classe média, é confundido com um ativista político e “desaparece”.

15h30min

A casa dos mortos, de Debora Diniz
Brasil 24 min 2009 doc

Bubu é um poeta com doze internações em manicômios judiciários. Ele desafia o sentido dos hospitais-presídios, instituições híbridas que sentenciam a loucura à prisão perpétua. O poema A Casa dos Mortos foi escrito durante as filmagens do documentário e desvelou as mortes esquecidas dos manicômios judiciários. São três histórias em três atos de morte. Jaime, Antônio e Almerindo são homens anônimos, considerados perigosos para a vida social, cujo castigo será a tragédia do suicídio, o ciclo interminável de internações, ou a sobrevivência em prisão perpétua nas casas dos mortos. Bubu é o narrador de sua própria vida, mas também de seu destino de morte.

Claudia, de Marcel Gonnet Wainmayer
Argentina 76 min 2010 doc

Claudia sai da prisão depois de vinte e seis anos. É seguida pela câmera em seu retorno à liberdade. A reconstrução de seus laços familiares, sua relação amorosa e sua presença cotidiana na cidade permitem analisar o que significa a reinserção social, os objetivos e o funcionamento do sistema penitenciário. Imagens históricas da prisão e os detalhes do duplo homicídio que a levou à detenção (e que inspirou um dos capítulos da série de televisão Mulheres Assassinas) são o contraponto de seus encontros com especialistas e personagens relacionados com o sistema penitenciário. O filme retrata problemas desse sistema, sua realidade e suas sequelas, encarnados na vida de uma mulher que enfrenta o desafio de viver em liberdade depois de mais de duas décadas atrás das grades.

17h30min

Aloha (exibido com audiodescrição na sessão de ontem, 13h30min)

Avós (idem)

Cinema de guerrilha, de Evaldo Mocarzel
Brasil 72 min 2010 doc

Cinema de guerrilha é um documentário sobre jovens de periferia que fazem cinema, realizam oficinas e promovem exibições alternativas de curtas-metragens para as comunidades.

19h30min

Kamchatka, de Marcelo Piñeyro
Argentina/Espanha/Itália 103 min 2002 ficção

Um garoto de 10 anos leva uma vida normal para qualquer criança de sua idade na década de 1970. No entanto, quando seus pais – um advogado e uma professora universitária – começam a ser perseguidos pela ditadura argentina, ele e sua família são obrigados a largar tudo na cidade e fugir para uma fazenda.

Semana Noel Rosa

#2

A história abaixo não é “de” Noel, embora cite-o. E também tem seu lado cômico. Está em Adoniran: uma biografia [Editora Globo, 2. ed., 2009], de Celso de Campos Jr., originalmente lançado em 2003. O calhamaço de quase 700 páginas conta em detalhes a vida de João Rubinato, que ficaria mais conhecido sob a alcunha de Adoniran Barbosa, com os quais assinaria e nos legaria sambas inesquecíveis como Saudosa maloca, Trem das onze, Prova de carinho, Iracema, Tiro ao álvaro, Samba no Bixiga e Samba do Arnesto, entre inúmeros outros. O livro traz, de bônus, um anexo com roteiros originais do programa História das Malocas, em que o rádio-ator Adoniran interpretava diversos personagens, sob a batuta do redator e parceiro Oswaldo Moles. Um fabuloso trabalho de pesquisa, uma deliciosa leitura.

Como Noel Rosa, Adoniran Barbosa também completaria 100 anos em 2010: a ele uma singela homenagem do blogue.


Caricatura de Carlinhos Müller

FILOSOFIA DE CALOURO
(excerto)

Para ser aprovado nos calouros, mais que malandragem, era melhor usar a filosofia. Mais precisamente, o samba “Filosofia”, de Noel Rosa e André Filho, escolhido a dedo para enfrentar o até então inclemente gongo. Ao entrar no auditório, o jovem pôde reparar no olhar de interrogação de Jorge Amaral, vendo-o pronto para pisar no palco de novo. Normalmente, os reprovados esperavam um bom tempo por uma segunda tentativa. Com a pulga atrás da orelha, o locutor apresentou, pela segunda vez em poucos dias, o calouro João Rubinato. O aspirante a cantor respirou fundo e começou:

O mundo me condena
E ninguém tem pena
De andar falando mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim…

Até ali, nada do gongo. João foi no embalo. Avistou os últimos versos, e, como um corredor azarão querendo ultrapassar a linha de chegada, acelerou o compasso.

… Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não tem alegria
Há de viver eternamente
Sendo escravo dessa gente
Que cultiva a hipocrisia

Dessa vez, sim. Mais que felicidade, o calouro sentiu o alívio por não ter fracassado novamente ao microfone. Recebeu os aplausos dos espectadores do acanhado auditório da PRB-6, mas só se tranquilizou quando ouviu o anúncio oficial do locutor Jorge Amaral: João Rubinato fora aprovado. Não teve muito tempo para aproveitar a luz dos holofotes, pois, mais uma vez, foi obrigado a deixar o palco rapidamente para a entrada do calouro seguinte. O melhor, todavia, estava por vir. Paraguassu aproximou-se do jovem para comunicar-lhe o prêmio: um contrato para cantar na Rádio Cruzeiro do Sul, uma vez por semana, com acompanhamento de regional. Tudo, claro, na base do cachê — 15 mil-réis, por uma apresentação de quinze minutos. Paraguassu não sabia, mas o valor era o que menos importava. Para o vendedor de tecidos, era a primeira consagração — o que significava, automaticamente, que já não era mais vendedor de tecidos. Agora, era artista.

Assim, João tratou de ir a Santo André para avisar a família de sua nova ocupação. Ou desocupação, como o pai fez questão de registrar logo de cara, jogando um balde de água fria na empolgação do caçula. Seu Fernando Rubinato podia ser turrão, mas o comentário apenas refletia o pensamento da sociedade paulistana e brasileira da época. Artista, na década de 1930, era sinônimo de vagabundo, fosse ele palhaço mambembe ou poeta parnasiano. Cantor de rádio, então, nem se falava. Pouquíssimos deles eram profissionais — Paraguassu, uma das honrosas exceções –, sobrando para a maioria uma espécie de mendicância pelas estações atrás de oportunidades.

Aos olhos da família, a nova aventura de João Rubinato tinha a solidez de um castelo de areia vigiado por soldadinhos de chumbo. A proposta que recebera da Cruzeiro do Sul não determinava um período de vigência para as apresentações; para piorar, o rapaz já decidira largar o emprego na casa de tecidos da 25 de Março. Trocando em miúdos: do dia para a noite, poderia ficar a ver navios, sem emprego, dinheiro e moradia. Era tudo que seu Fernando, que jamais fugira do batente, temia. Um filho vagabundo. “Isso é falta de apanhar. Só pode ser.” (p. 27-29)

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Dia 11/12 (sábado), às 22h, Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho apresentam, no Bar Daquele Jeito (próximo ao Viva Vinhais), o show Noel, Rosa Secular.

O que vi ontem (Abutres) e os de hoje na 5ª. Mostra

É sempre assim, eu já devia estar acostumado. A 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul acabou baixando em São Luís numa semana, para este blogueiro, bastante conturbada de trabalho. Quando digo “é sempre assim” não me contradigo, já que é a primeira vez que São Luís integra o circuito da Mostra. Mas quer ver eu ter semanas conturbadas de trabalho é aparecer alguma programação boa (e gratuita) na Ilha.

Assim, não tenho conseguido ver “o máximo de sessões possível”, conforme me prometi. Ontem, por exemplo, só consegui pegar a de 19h30min, última do dia, quando foi exibido Abutres.

Com o homenageado da mostra Ricardo Darin no papel principal de Héctor Sosa, advogado corrupto que vive às custas de fraudes em seguros de acidentes de trânsito na Argentina, a partir de procurações assinadas por familiares de pessoas com deficiência (adquiridas a partir dos acidentes) e mortos, um negócio milionário. A vida do personagem começa a mudar quando ele conhece Luján Olivera, médica que cuida de acidentados. Os dois passam a viver uma grande paixão, abalada pela morte de Vega, numa armação de Sosa, seu amigo, para sacar-lhe o seguro, e depois reafirmada com a convicção de Sosa em deixar o “mundo do crime”. Só que a coisa não é tão fácil: o esquema de corrupção é grande e forte e sair dele é tarefa quase impossível – ele e a mulher chegam a ser espancados, quando buscam uma vida tranquila. Abutres tem brilhante desfecho, inesperado e chocante.

Quem, preconceituosamente, pensa que os filmes da Mostra, ou a Mostra em si, são maçantes, cansativos, chatos, enfadonhos, panfletários ou coisas parecidas, não sabe o que está perdendo. Veja abaixo a programação de hoje.

13h30min
(sessão com audiodescrição para público com deficiência visual)

Avós, de Michael Wahrmann
Brasil 12 min 2009 ficção

Leo comemora seu décimo aniversário. De uma avó, ele ganha meias; da outra, cuecas. Do avô, Leo recebe uma velha câmera Super-8, através da qual relata a tentativa de trocar os presentes com as avós. Nesse meio tempo, descobre que Mônica Lewinsky é judia, que Clinton é o presidente da América, que os números nos braços dos avós são os responsáveis por ele ser gordinho e que a tal câmera velha não serve para mais nada.

Aloha, de Paula Luana Maia e Nildo Ferreira
Brasil 15 min 2010 doc

Conta a história de personagens com deficiência física que, através do surfe, encontraram a superação para os desafios de suas vidas.

Carreto, de Marília Hughes e Claudio Marques
Brasil 12 min 2009 ficção

Tinho conhece Stéphanie. Uma amizade se inicia.

Eu não quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro
Brasil 17 min 2010 ficção

A vida de Leonardo, um adolescente cego, muda completamente com a chegada de um novo aluno em sua escola. Ao mesmo tempo, ele tem que lidar com os ciúmes da amiga Giovana e entender os sentimentos despertados pelo novo amigo Gabriel.

15h30min

Hércules 56, de Silvio Da-Rin
Brasil 94 min 2006 doc

Em 7 de setembro de 1969, o avião Hércules 56 da FAB levou ao México quinze presos políticos trocados pelo embaixador dos EUA. No filme, os nove remanescentes do grupo e cinco membros das organizações responsáveis pelo sequestro rememoram a ação e discutem a luta armada contra a ditadura militar.

17h30min

Dias de greve, de Adirley Queirós
Brasil 24 min 2009 doc

Uma greve de metalúrgicos tem início em uma cidade nos arredores de Brasília. Muito mais do que o despertar para uma consciência de classe, os grevistas redescobrem uma cidade que já não lhes pertence.

Paraíso, de Héctor Gálvez
Peru/ Alemanha/ Espanha 91 min 2009 ficção

Joaquín e seus quatro jovens amigos vivem em Paraíso, bairro de deslocados localizado nos arredores da cidade de Lima. Ali passam os dias sem saída, sem oportunidades nem futuro, mas com a sensação de que têm que fazer alguma coisa.

19h30min

Carnaval dos deuses, de Tata Amaral
Brasil 9 min 2010 ficção

Jacob, Mairun e João têm seis anos e confeccionam suas fantasias de carnaval para a festa da escola. Ana não participa da atividade porque acredita que carnaval seja pecado. Essa situação causa espanto entre os amiguinhos, que iniciam uma conversa sobre suas diferentes origens religiosas. Chegam à conclusão de que na festa de carnaval todos os deuses são bem-vindos.

Meu companheiro, de Juan Darío Almagro
Argentina 25 min 2010 doc

Esteban, ex-jogador de futebol, caminha junto ao seu cão, mesmo com problemas em uma de suas pernas. Ambos moram nas ruas, e ele precisa ficar internado até que suas feridas estejam curadas; no entanto, resiste em deixar seu fiel parceiro abandonado.

Leite e ferro, de Claudia Priscilla
Brasil 72 min 2010 doc

Retrato da vivência da maternidade em uma situação-limite. Amamentação, sexualidade, drogas, religião no cárcere.

Veja a programação completa no site da Mostra. E baixe aqui o catálogo completo.