Direitos Humanos e Cinema no Centro Histórico de São Luís

São Luís recebeu, de 30 de novembro a 5 de dezembro a 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. Foi a primeira vez que a Mostra, realizada desde 2006 pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, chegou à capital maranhense. No catálogo, filmes que abordavam diversos aspectos dos direitos humanos. Vias de Fato conversou com o cineasta, radialista e professor universitário Francisco Colombo, produtor local da Mostra.

ZEMA RIBEIRO*


Produtor local da mostra, o cineasta Francisco Colombo se pronuncia durante a abertura da mesma. Foto: Evandro Filho

Vias de Fato – Por que só agora São Luís foi incluída na rota da Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul? Francisco Colombo – A Mostra surge em 2006 e contempla apenas quatro capitais. Era um projeto embrionário, portanto não poderia ter grande envergadura. O tema dos Direitos Humanos exige paciência, dedicação e, acima de tudo, cuidado… Em 2009 conseguiu chegar a 16 capitais. Esse ano alcançou 20, São Luís incluída. A meta do projeto é de chegar a todas as capitais da federação.

A organização local da Mostra previa um público médio de 1.000 espectadores em uma semana de sessões. Essa meta foi superada em mais de 65%. A que você acha que se deve esse crescimento? [risos] Na verdade não foi uma previsão da organização local, mas uma meta pessoal, minha. Acho que o tema tem um número enorme de detratores. Por isso fui cauteloso quanto ao público. Entretanto, alguns ingredientes ajudaram bastante. A divulgação teve uma boa estratégia: poder público, entidades da sociedade civil (entre elas entidades de atenção às pessoas com deficiência), apoio forte dos amigos da mídia, muitos e-mails, ida a faculdades, universidades e escolas, telefonemas… A sessão inicial também foi muito positiva, pois provocou forte burburinho, devido aos kits entregues na entrada e, depois, devido ao forte filme Perdão, Mr. Fiel. A estrutura de material da Mostra também ajudou muito. Basta lembrar que vieram muitos catálogos e ainda programação em braile. Ademais, está provado que a população tem interesse pelo tema, que não necessariamente precisa ter caráter chato ou panfletário, mas pode ser sutil, estético e altamente elaborado.

O catálogo da 5ª. Mostra era formado por filmes que tratavam a temática dos direitos humanos sob um viés não panfletário, o que certamente ajuda a despertar o interesse das pessoas pelo assunto. Qual o critério de seleção das obras que percorreram 20 capitais brasileiras entre novembro e dezembro? A curadoria nacional da Mostra ficou a cargo do Francisco César Filho, conhecido carinhosamente no meio cinematográfico e televisivo como Chiquinho. Ele foi o responsável pela programação, mas a seção Contemporâneos recebeu inscrições através de edital público.

A superação da expectativa de público não demonstra que há um público ávido por produções de qualidade, fora dos padrões hollywoodianos? O que falta para voltarmos a ter um Cine Praia Grande lotado e mesmo não ele como único espaço para cinema “alternativo” em São Luís? Demonstra sim. Falta investimento, faltam ideias! Além disso, é necessário “correr atrás”. As pessoas querem conforto. Não é porque o Cine Praia Grande fica dentro de um espaço pertencente ao poder público ou porque tem o ingresso mais barato que se tem que tolerar o calor, decorrente de aparelho de ar condicionado ruim, ou o desconforto das poltronas, somado a um mau cheiro ou mesmo mofo. O cinema é muito importante para a Praia Grande. Conversei com o pipoqueiro e ele estava muito feliz com o evento, porque estava voltando com um bom dinheiro pra casa. Isso é economia da cultura. Todo mundo ganha. O Centro Histórico sobrevive! Tivemos sessões a uma e meia da tarde e ainda assim conseguimos por um público de 80 pessoas, o que também é significativo sob outro aspecto, conforme assinalou o jornalista Garrone: para o bem ou para o mal, a cidade cresceu!

A 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul é uma realização da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Como você avalia o cinema brasileiro hoje, levando a política cultural do país, a atuação do Ministério da Cultura? Embora não concorde com muita coisa em relação ao governo Lula, sobretudo em relação à maneira como se comportou perante o povo maranhense, devo reconhecer que foram os melhores anos da história recente do cinema nacional. O Gilberto Gil foi um grande ministro, surpreendendo-me. O Juca, na sequência, não fez feio. O Ministério da Cultura é o grande padrinho das secretarias de cultura dos estados e dos municípios. O que essas entidades fazem de políticas públicas, devem ao MinC. O Ministério criou editais e políticas sérias. Estruturou-se, mesmo com um orçamento por vezes minguado. Espero que o governo Dilma dê prosseguimento ao que foi criado de bom e implemente melhorias.

E o que dizer do cinema no cenário maranhense? Temos grandes nomes. Mas o meu preferido, o meu ídolo [risos], é Murilo Santos. Por várias razões. A principal é a integridade. Mas a sabedoria, o bom humor, a capacidade de dividir conhecimentos são coisas que admiro muito nele também. Murilo fez grandes filmes. Considero os seus trabalhos muito importantes também. É o cineasta, por excelência, comprometido, engajado. Tenho amizade por alguns outros. Gosto de alguns trabalhos, mas não de tudo. Mas cada um tem a sua própria rota, seus sonhos, aquilo em que acredita. Prefiro não falar em muita gente pra não despertar ciúmes, mas, além de gostar do que já produziram, tenho ainda bastante amizade por duas outras figuras: Euclides Moreira e Joaquim Haickel. Provaram ser meu amigos em algumas situações que não preciso explicitar aqui. Agora, por outro lado, acho que a garotada tem que ser mais corajosa, tanto em termos temáticos como em termos estéticos. Aproveitar a tecnologia portátil que existe por aí e ousar. Deve surgir coisa boa em breve! Dos novatos não posso esquecer Nicolau Leitão e Carlos Benalves. Além do bom caráter, são muito inteligentes e talentosos. Espero muito dos dois.

De que forma os cineclubes e, hoje, os pontos de cultura têm sido importantes para a difusão do cinema brasileiro? Por várias razões. Descentralizam a exibição, incentivam a produção e a distribuição, formam público. E, claro, ajudam na formação de mão de obra.

[*outra colaboraçãozinha, não assinada, pro Vias de Fato de dezembro/2010]

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