Semana Noel Rosa

# 5

OS COMPOSITORES QUE DERAM ALMA À MPB*


Acervo do Museu da Imagem e do Som, RJ

O segundo dos grandes compositores da Era de Ouro foi Noel Rosa. Como Ary [Barroso], Noel vinha da classe média, o que está a demonstrar, de maneira muito categórica, que o campo do entretenimento, a partir do rádio e da gravação elétrica, tornava-se um veículo cada vez mais promissor de profissionalização, de prestígio e de reconhecimento populares.

Noel de Medeiros Rosa (RJ, 1910 – RJ, 1937), o Poeta da Vila, veio ao mundo no coração de Vila Isabel. E o dia de seu nascimento o marcaria traumaticamente para o resto dos seus 26 anos e meio de vida – o defeito físico no queixo, ocasionado pelo afundamento do maxilar inferior no momento do parto, provocado pelo fórceps, além de uma pequena paralisia na face direita, que o deixou desfigurado, apesar das cirurgias sofridas aos 6 e 12 anos de idade. Noel nasceu, viveu e morreu na mesma residência, na rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel.

Quando tinha apenas 13 anos, começou a tocar bandolim de ouvido e também o violão, que aprendeu a manejar com a ajuda do pai. Já dominando o instrumento, fazia serenatas com o irmão no bairro de Vila Isabel, em 1925. Sem deixar de lado o violão e as serenatas, ao terminar o ginásio Noel preparou-se para a Faculdade de Medicina, que viria a abandonar em 1932, deixando dessa experiência o samba anatômico “Coração”, gravado no ano seguinte. Em 1929, moradores de Vila Isabel e alunos do Colégio Batista formaram um grupo musical, Flor do Tempo, que se apresentava em festas locais. Quando foram convidados para gravar, o grupo foi reformulado, mudando o nome para Bando de Tangarás. Aos integrantes originais do Flor do Tempo (João de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito), juntou-se Noel Rosa, que já tinha fama de bom violonista no bairro. A primeira gravação do Bando dos Tangarás foi o samba “Mulher exigente”, seguido por uma embolada e um cateretê, todos de autoria de Almirante.

Mas a primeiríssima composição do poeta foi a embolada “Minha viola” (1929), feita na esteira da influência do fluxo de música nordestina – trazida por Catulo [da Paixão Cearense] e depois pelos Turunas da Mauricéia, de Augusto Calheiros e Luperce Miranda. A embolada passaria em brancas nuvens, o que não ocorreria com o samba “ Com que roupa” (1931) que, gravado pelo próprio Noel, já refletia uma página da vida do compositor, como, de resto, quase todas suas composições.

A partir do seu primeiro sucesso no carnaval de 1931, Noel faria para mais de vinte músicas, algumas delas clássicos até hoje como “Três apitos”, “Cordiais saudações” e “Gago apaixonado”. Já então seu estilo estava cristalizado – Noel cantava o simples das coisas e dos fatos cotidianos. Foi o poeta dos versos escorreitos e despojados de preciosismo, o cronista musical mais preciso e enxuto de sua época, que traria para o começo dos anos 1930 a simplicidade e o bom gosto, tão revolucionários quanto a então contemporânea Semana de Arte Moderna de 1922. Aliás, qualquer análise mais profunda que se faça sobre a poética de Noel revela que ele trouxe para seus versos muita coisa dos cânones modernistas de 1922, sobretudo ao comentar (apaixonadamente, é certo, mas isso já era o seu toque particular) o cotidiano, e ainda na liberdade dos versos e das palavras empregadas.

No ano seguinte, Noel teve dois encontros musicais importantes – Ismael Silva, seu parceiro em dez sambas, e o musicista paulista Oswaldo Gogliano, o Vadico, com quem também fez pelo menos dez obras-primas, entre as quais “Feitio de oração”, “Conversa de botequim”, “Dama de cabaré” e especialmente o “Feitiço da Vila”, um hino ao bairro onde nasceu e morreu, que acabou inserido na célebre polêmica musical mantida com o sambista Wilson Batista.

A pesquisadores mais argutos como João Máximo e A. Didier, seus biógrafos, não poderia mesmo passar despercebido que a vida de Noel foi quase toda registrada em seus sambas; difícil é uma música sua que não tenha uma história específica. E suas composições que falam de amor comprovam que Noel apaixonou-se por muitas mulheres. Numa noite de São João, no Cabaré Apolo da antiga Lapa, ele conheceu a bailarina Ceci, uma jovem campista de 16 anos que trabalhava num cabaré da Lapa e de quem o poeta seria enamorado até morrer. Para Ceci, Noel fez “Prá que mentir”, “O maior castigo que te dou”, “Dama de cabaré”, “Silêncio de um minuto”, “Ilustre visita” (“Só pode ser você”), e ainda o póstumo “As pastorinhas”.

Apesar de casar-se em fins de 1934 com a jovem Lidaura, a vida de Noel só registrou uma única mudança: saiu de seu quarto uma cama de solteiro e entrou uma cama de casal. A boemia, as noites dissipadas, a bebida e o cigarro acabaram por lhe destruir os pulmões já enfermos. Noel morreu apenas 6 anos depois de seu primeiro sucesso, “Com que roupa”.

Pouco antes (março de 1937), voltando de um mês nas montanhas (Friburgo) em busca de melhor clima para a doença, o poeta visitara Ceci, sua grande paixão. Triste e amargurado, deu-lhe os versos do samba “Último desejo” (gravado dias antes de sua morte por Aracy de Almeida), no qual vaticina de modo profético o seu próprio fim e relembra o início de seu amor tumultuado com Ceci: “Perto de você me calo/ Tudo penso, nada falo/ Tenho medo de chorar/ Nunca mais quero teu beijo/ Mas meu último desejo/ Você não pode negar.”

Noel morreu na noite do dia 4 de maio de 1937, enquanto em frente à sua casa se comemorava o aniversário de uma vizinha numa festa em que tocavam suas músicas. Diversas versões sobre sua morte foram publicadas em diferentes jornais e biografias, onde se fez referência até a um ataque cardíaco. Ao enterro compareceram muitas personalidades da música e do rádio. À beira de seu túmulo, Ary Barroso fez um discurso emocionado, homenageando o amigo e parceiro. Contudo – e isso sempre foi muito comum no Brasil – seu nome ficou esquecido durante a década de 1940, até que Aracy de Almeida, em 1950, passou a cantar na famosa boate Vogue, incorporando sambas inéditos de Noel ao seu repertório. Desde aí, o compositor foi redescoberto e passou a ser homenageado pelo público, pela crítica e por autoridades, como no caso do busto inaugurado na praça Tobias Barreto. O pequeno monumento hoje se encontra na praça Barão de Drumond, Vila Isabel – com toda justiça! Além deste, a comunidade de Vila Isabel inaugurou um monumento no cemitério São Francisco Xavier, onde está o túmulo do compositor, em comemoração ao cinqüentenário do nascimento do Poeta da Vila.

*excerto do “Capítulo 2: A década de ouro”.

Ricardo Cravo Albin em O livro de ouro da MPB: a história de nossa música popular de sua origem até hoje (p. 115-118. Ediouro, 2003). Do livro tirei também a ilustração do samba “Onde está a honestidade”, que abre o post.

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Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho apresentam, dia 11/12, às 22h, no Bar Daquele Jeito (próximo ao Viva Vinhais), o show Noel, Rosa secular.

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