Semana Noel Rosa

#4

NOEL ROSA: GÊNIO E PROFETA DA RAÇA


Noel pela primeira vez. Capa. Reprodução

A monumental obra do compositor carioca Noël (com o trema do registro) de Medeiros Rosa (1910-1937) recebe um altar à altura, aos 90 anos de seu nascimento. Resultado de 13 anos de pesquisa e batalha para a realização do projeto, a caixa Noel pela primeira vez (Velas), produzida pelo professor paulistano Omar Jubran, reúne em sete CDs duplos 229 gravações do poeta da Vila Isabel. Nessa conta incluem-se primícias que se tornaram clássicos atemporais como “Fita amarela” com Francisco Alves e Mário Reis, em 1932, “Conversa de botequim” com o próprio Noel, em registro de 1935, “Palpite infeliz” (1935) e “Último desejo” (1937), ambos por Aracy de Almeida. Requinte da seleção: na briga pelo posto de mais fiel intérprete de Noel, Marília Batista aparece mais adiante interpretando a referida “Último desejo” com uma estrofe (que lhe teria confiado o autor) não incluída na gravação de Aracy. A mesma disputa ocorre nos registros do outro totem, “Silêncio de um minuto”, na versão completa por Aracy em 1951 e numa mais enxuta por Marília em 1940. De outra absoluta, “Três apitos”, ao registro oficial de Aracy, lançado apenas em 1951 (14 anos após a morte do compositor), e outro raro de Orlando Silva, nunca editado comercialmente. Do banquete de iguarias preciosas salta uma questão. Pelo volume, qualidade e profundidade da obra composta no curto período dos 19 aos 26 anos de idade, entre os criadores da música popular, parodiando uma música sua, Noel talvez seja “o melhor do planeta”.

“Eu tenho fama de filósofo amador”, gaba-se ele em “Com mulher não quero mais nada”, uma de suas inúmeras pérolas descobertas postumamente, em gravação de integrantes do conjunto Coisas Nossas. A obra desse cronista de costumes que sempre viajou entre a filosofia de botequim (no melhor sentido) e a observação sarcástica ou lírica do cotidiano é tão vasta que Noel pela primeira vez ainda desenterra inéditas tantos anos após sua morte. Boa parte foi registrada em programas de rádio e nunca lançada em disco, como relata o esmerado libreto de 160 páginas que acompanha a caixa, com ricas notas de Carlos Didier, co-autor com o jornalista João Máximo do livro Noel Rosa, uma biografia. O próprio Didier no vocal e violão, em desempenhos para o programa Noel Rosa: as histórias e os sonhos de uma época, da Rádio Cultura, desvela, entre outras, “Faz de conta que eu morri”, parceria com Henrique Gonçalves (“Não quero escutar/ declarações de amor/ pois de tanto chorar/ minha fisionomia já mudou de cor”), “Amor com sinceridade”, com Sylvio Pinto (“Pode haver muita amizade/ mas há sempre falsidade/ como um dia Judas fez”), e “Habeas corpus”, com Orestes Barbosa (“Tu tens as agravantes da surpresa/ e também as da premeditação/ mas na minha alma tu não ficas presa/ porque o teu caso é de expulsão”).

Do mesmo programa há registros de inéditas pela cantora Vânia Bastos (“Não morre tão cedo”, “Marcha da prima… Vera”), paródias noelescas de temas estrangeiros como “I’m looking over a four leaf clover” (“Belo Horizonte”), gravado por João Gilberto na versão comportada de Nilo Sérgio (“Trevo de quatro folhas”), e “Cheek to cheek (Vagolino de cassino)”, trabalhos de Noel recuperados por seus biógrafos. De outro programa de rádio, No tempo de Noel Rosa, de Almirante (colega do compositor no Bando dos Tangarás e um dos primeiros a avaliar sua importância na MPB), na Tupi, em 1951, são desempenhos de Roberto Paiva em “Deixa de ser convencida” (rara parceria que encerrou a polêmica de Noel com Wilson Batista), Jamelão na paródia “Canção do galo capão” (em cima da “Marchinha do grande galo”, de Lamartine Babo e Paulo Barbosa) e até um certo Alegria (José de Souza Pinto), motorista de táxi das farras de Noel para quem este escreveu, em 1931, a canção sertaneja “Mardade da cabocla”. Mas à parte as curiosidades e especiarias, a caixa que apresenta as canções dentro da cronologia de seus registros iniciais (e não seguindo a data em que foram compostas) atesta que o gigantesco Noel nasceu pronto.

Desde as primeiras composições, como a embolada “Minha viola”, de 1929 (regravada por Martinho da Vila), de letra acaipirada mas cheia de manha, o compositor já demonstrava seu ceticismo com as convenções sociais (vide “Filosofia” mais adiante, gravada por Mário Reis e Chico Buarque). Centrava fuzilaria nos estragos causados pelo vil metal (“Onde está a honestidade”) e questionava a dominação econômico-cultural estrangeira (“Não tem tradução”). Seu célebre retrato do país em “São coisas nossas” (“O samba, a prontidão e outras bossas”) destila farpas. Outra vertente principal de seus enredos aborda a guerra conjugal de um prisma que seria considerado machista pelos politicamente corretos (“O maior castigo que eu te dou”, “Mulher indigesta”, “Para me livrar do mal”). Numa tabulação temática rápida, a revanche amorosa (“Cansei de pedir”, “Riso de criança”, “Isso não se faz”, “Seja breve”, “Tenho raiva de quem sabe”, “Quem não quer sou eu”) – do artista que não primava pela beleza e teve o queixo afundado num erro de parto a fórceps – predomina sobre a ilusão amorosa leve, a chamada dor de cotovelo (“Meu barracão”, “Vejo amanhecer”, “Três apitos”). Traições, fingimento, alpinismo social amoroso, nada escapa ao implacável Noel, um obcecado pelas mentiras de mulher, como diz numa das músicas. Ou “Você só… mente” (“Você é um ente/ que mente inconscientemente”), como vergasta num fox gravado em 1933 por Francisco Alves e Aurora (irmã de Carmen) Miranda, um dos muitos pares estelares – a nata dos cantores da época – que desfilam pela caixa interpretando suas músicas.

Além de Mário Reis e Francisco Alves (juntos e separados), destacam-se seus clones Jojoca & Castro Barbosa (que lançaram o clássico “Adeus”, em 1932), também em desempenho com outros cantores, como no caso do heráldico “Feitio de oração” (“Quem acha/ vive se perdendo”), disparado nas vozes de Francisco Alves e Castro Barbosa em julho de 1933. Outros intérpretes bastante assíduos de Noel, além dos supracitados, foram Almirante (“Eu vou pra Vila”, “Contraste”, “Tarzan, o filho do alfaiate”, “Só pra contrariar”, “Já não posso mais”, “E não brinca [Não brinca não]”, “Maria fumaça”), João Petra de Barros (“Até amanhã”, “Quero falar com você”, “Nem com uma flor”), Silvio Caldas (“Pastorinhas”, “Pra que mentir?”, “Mão no remo”, “Vitória”), Orlando Silva (“A dama do cabaré”, “Pela primeira vez”, “Cidade mulher”). Carmen Miranda teve a primazia da marchinha “Assim sim!” (parceria de Noel com Chico Alves e Ismael Silva) e do samba “Tenho um novo amor” (de Noel e Cartola). Mas o próprio Noel, vencendo a barreira que separava os criadores dos microfones, é um de seus mais assíduos (e eloquentes) intérpretes. Levemente abaritonado, sotaque carioca marcante e um modo coloquial de dizer as letras antecipando as vozes de travesseiro da bossa (expressão que usou muito em suas composições), ele lançou desde a obscura toada “Festa do céu” (1929) a emblemas como “Com que roupa?”, “Um gago apaixonado” (1930), “Cordiais saudações”, “Mulata fuzarqueira” (1931), “Felicidade”, “Mentiras de mulher”, “Mulher indigesta” (1932) e muitas outras.

Embora o paulistano modernizador Oswaldo Gogliano, o Vadico (1910-1962), pré-bossa-novista co-autor de “Feitiço da Vila”, “Feitio de oração”, “Conversa de botequim”, tenha entrado para a história como parceiro mais afamado, a caixa atesta que o classe média Noel, que chegou a cursar (mal, vide os erros técnicos do ótimo samba “Coração”) medicina, não ficou nas mesas de bar entre os coleguinhas de classe social como os parceiros Lamartine Babo (“AE.IOU”, “Absurdo”, “Nega”), Ary Barroso (“Mão no remo”, “Estrela da manhã”), João de Barro (“Pastorinhas”, “Lataria”, “Samba da boa vontade”) e Hervê Cordovil (“Triste cuíca”, “Não resta a menor dúvida”, “O que é que você fazia?”). Embora escrevesse que o samba nasce no coração, ele foi aos morros (e arrabaldes) beber o gênero na fonte. Ao lado de Cartola (“Não faz, amor”, “Tenho um novo amor”) e Ismael Silva (com quem gravou em duo e assinou vários sambas numa trinca profissional com Chico Alves), ele dividiu trabalhos com Canuto (“Esquecer e perdoar”, “Já não posso mais”), que chegou a gravar dois sambas em primeira mão, e o lendário Antenor Gargalhada (“Eu agora fiquei mal”), além de Donga (“Este meio não serve”), Heitor dos Prazeres (a clássica marcha-rancho “Pierrô apaixonado”) e João Mina, com quem praticamente inaugura o partido alto em “De babado”, gravado em 1936, em duo com Marília Batista.

Gênio (e profeta) da raça, sambista também cultor da “Rumba da meia noite” ao rock da época, o fox-trot (“Julieta”), Noel que viveu num Rio de Janeiro ainda bucólico, onde o despertador podia ser o guarda civil (de salário atrasado), previu até o fim da malandragem cordial. E prenunciou a guerra civil não declarada: “No século do progresso/ o revólver teve ingresso/ para acabar com a valentia” (“O século do progresso”, 1934).

(Jornal do Brasil, 5/12/2000)

Tárik de Souza em Tem mais samba: das raízes à eletrônica (p. 43-46), Editora 34, 2003.

&

AMANHÃ (5)

Ricarte Almeida Santos entrevista os bambas de Noel, Rosa secular no Chorinhos e Chorões, às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

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