Semana Noel Rosa

#2

A história abaixo não é “de” Noel, embora cite-o. E também tem seu lado cômico. Está em Adoniran: uma biografia [Editora Globo, 2. ed., 2009], de Celso de Campos Jr., originalmente lançado em 2003. O calhamaço de quase 700 páginas conta em detalhes a vida de João Rubinato, que ficaria mais conhecido sob a alcunha de Adoniran Barbosa, com os quais assinaria e nos legaria sambas inesquecíveis como Saudosa maloca, Trem das onze, Prova de carinho, Iracema, Tiro ao álvaro, Samba no Bixiga e Samba do Arnesto, entre inúmeros outros. O livro traz, de bônus, um anexo com roteiros originais do programa História das Malocas, em que o rádio-ator Adoniran interpretava diversos personagens, sob a batuta do redator e parceiro Oswaldo Moles. Um fabuloso trabalho de pesquisa, uma deliciosa leitura.

Como Noel Rosa, Adoniran Barbosa também completaria 100 anos em 2010: a ele uma singela homenagem do blogue.


Caricatura de Carlinhos Müller

FILOSOFIA DE CALOURO
(excerto)

Para ser aprovado nos calouros, mais que malandragem, era melhor usar a filosofia. Mais precisamente, o samba “Filosofia”, de Noel Rosa e André Filho, escolhido a dedo para enfrentar o até então inclemente gongo. Ao entrar no auditório, o jovem pôde reparar no olhar de interrogação de Jorge Amaral, vendo-o pronto para pisar no palco de novo. Normalmente, os reprovados esperavam um bom tempo por uma segunda tentativa. Com a pulga atrás da orelha, o locutor apresentou, pela segunda vez em poucos dias, o calouro João Rubinato. O aspirante a cantor respirou fundo e começou:

O mundo me condena
E ninguém tem pena
De andar falando mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim…

Até ali, nada do gongo. João foi no embalo. Avistou os últimos versos, e, como um corredor azarão querendo ultrapassar a linha de chegada, acelerou o compasso.

… Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não tem alegria
Há de viver eternamente
Sendo escravo dessa gente
Que cultiva a hipocrisia

Dessa vez, sim. Mais que felicidade, o calouro sentiu o alívio por não ter fracassado novamente ao microfone. Recebeu os aplausos dos espectadores do acanhado auditório da PRB-6, mas só se tranquilizou quando ouviu o anúncio oficial do locutor Jorge Amaral: João Rubinato fora aprovado. Não teve muito tempo para aproveitar a luz dos holofotes, pois, mais uma vez, foi obrigado a deixar o palco rapidamente para a entrada do calouro seguinte. O melhor, todavia, estava por vir. Paraguassu aproximou-se do jovem para comunicar-lhe o prêmio: um contrato para cantar na Rádio Cruzeiro do Sul, uma vez por semana, com acompanhamento de regional. Tudo, claro, na base do cachê — 15 mil-réis, por uma apresentação de quinze minutos. Paraguassu não sabia, mas o valor era o que menos importava. Para o vendedor de tecidos, era a primeira consagração — o que significava, automaticamente, que já não era mais vendedor de tecidos. Agora, era artista.

Assim, João tratou de ir a Santo André para avisar a família de sua nova ocupação. Ou desocupação, como o pai fez questão de registrar logo de cara, jogando um balde de água fria na empolgação do caçula. Seu Fernando Rubinato podia ser turrão, mas o comentário apenas refletia o pensamento da sociedade paulistana e brasileira da época. Artista, na década de 1930, era sinônimo de vagabundo, fosse ele palhaço mambembe ou poeta parnasiano. Cantor de rádio, então, nem se falava. Pouquíssimos deles eram profissionais — Paraguassu, uma das honrosas exceções –, sobrando para a maioria uma espécie de mendicância pelas estações atrás de oportunidades.

Aos olhos da família, a nova aventura de João Rubinato tinha a solidez de um castelo de areia vigiado por soldadinhos de chumbo. A proposta que recebera da Cruzeiro do Sul não determinava um período de vigência para as apresentações; para piorar, o rapaz já decidira largar o emprego na casa de tecidos da 25 de Março. Trocando em miúdos: do dia para a noite, poderia ficar a ver navios, sem emprego, dinheiro e moradia. Era tudo que seu Fernando, que jamais fugira do batente, temia. Um filho vagabundo. “Isso é falta de apanhar. Só pode ser.” (p. 27-29)

&

Dia 11/12 (sábado), às 22h, Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho apresentam, no Bar Daquele Jeito (próximo ao Viva Vinhais), o show Noel, Rosa Secular.

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