Arquivo mensal: dezembro 2010

Tio Lema e o professor Sandmann

2010 foi um ano de grandes notícias. Destaques para o lançamento da Caixa Preta, que reuniu a obra completa de Itamar Assumpção, incluindo discos inéditos, e o relançamento do Catatau de Paulo Leminski.

Antes de eu dar outra grande notícia de 2010, voltemos a 2006: dois poemas de Marcelo Sandmann, de seu Criptógrafo amador (Medusa):

CERVEJA E PROSA

“A arte é uma Dama que distrai a morte
Enquanto se atira aos braços da vida.”
(“Poesia e Vinho” – Adalberto Müller)

Um copo de cerveja
e dois dedos de prosa,
junto ao balcão de um boteco encardido.

Um salgado, que seja,
e pimenta cheirosa.
Pois bem: a ocasião faz o bandido.

Porque lá pelas tantas,
pela porta entreaberta,
a tal “Dama” daquele teu poema

chegou, um tanto às tontas,
e justo na hora certa,
de braços dados com o velho Tio Lema.

Sentaram ali do lado,
de costas para nós,
e como gargalhavam, gargalhavam…

Já eu, muito calado,
ouvia logo após.
(Mas como gargalhavam, gargalhavam…)

Sumiram de repente,
evaporados no ar.
Nem um eco restou do bate-papo.

Me aproximei, bem rente,
o tempo só de olhar
uns versos truncados no guardanapo.

E cá comigo eu disse,
em bem claro e bom som:
“preciso achar caneta que não borre”.

E sem que alguém pedisse
minha conta ao garçom,
saí dali, um gole antes do porre.

(p. 74-75)

PARA QUE LEDA ME LEIA
(voltas sobre mote de leminski)

para que leda me leia
escrevo em papel de seda
à mão, mas mão que tateia
muito lenta, quase queda
a mão de alguém que receia
romper a trama da teia
queimar-se na labareda

para que leia me leda
escrevo com grãos de areia
que ampulheta, sim, me ceda
sobre manchas, a mancheias
grãos bem claros, como greda
por que a gemas só suceda
de restarem na bateia

para que leda me leia
escrevo a vera vereda
que a laguna, em lua cheia
logo leve, lá onde leda
ao doce canto que enleia
(fero canto de sereia?)
seu sorriso me conceda

(p. 79)

Antes, ainda, da notícia, o próprio Sandmann, acompanhado da Zirigdansk, diz um poema do livro (p. 38-39), em vídeo que vi há muito tempo num extinto blogue de JRT:

Pois bem: outra grande notícia, para fechar o ano bonito, é o lançamento de A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez Estudos sobre a Obra de Paulo Leminski, livro que reúne dez ensaios sobre a criativa e multifacetada obra do “tio Lema”, organizado por Sandmann e publicado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.

Como será o Maranhão com a Roseana?

Como será o Maranhão com a Roseana? Eis aí uma pergunta por demais fácil de responder: basta trocarmos o tempo do verbo e perguntar “como é o Maranhão com a Roseana?”. Ou trocarmos um membro pela família: “como é o Maranhão com os Sarney?”. A resposta está aí, na cara, para quem quiser ver: sob todos os aspectos, um dos estados mais ricos da federação com, sob todos os aspectos, os piores indicadores sociais e econômicos. O Maranhão com a Roseana será a continuação do Maranhão com o que há de pior na política, com a vergonha de não ter conseguido ainda sua independência: o último estado brasileiro que ainda vive sob o jugo oligárquico, com tanta gente na miséria, passando fome e com seus direitos violados, um trágico e assombroso quadro que precisa urgentemente ser modificado.

O blogue Com Continuação, de Felipe Klamt, fez a pergunta que batiza o post a um monte de gente. Acima, minha resposta. Vá ao blogue para ler outras.

Direitos Humanos e Cinema no Centro Histórico de São Luís

São Luís recebeu, de 30 de novembro a 5 de dezembro a 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. Foi a primeira vez que a Mostra, realizada desde 2006 pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, chegou à capital maranhense. No catálogo, filmes que abordavam diversos aspectos dos direitos humanos. Vias de Fato conversou com o cineasta, radialista e professor universitário Francisco Colombo, produtor local da Mostra.

ZEMA RIBEIRO*


Produtor local da mostra, o cineasta Francisco Colombo se pronuncia durante a abertura da mesma. Foto: Evandro Filho

Vias de Fato – Por que só agora São Luís foi incluída na rota da Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul? Francisco Colombo – A Mostra surge em 2006 e contempla apenas quatro capitais. Era um projeto embrionário, portanto não poderia ter grande envergadura. O tema dos Direitos Humanos exige paciência, dedicação e, acima de tudo, cuidado… Em 2009 conseguiu chegar a 16 capitais. Esse ano alcançou 20, São Luís incluída. A meta do projeto é de chegar a todas as capitais da federação.

A organização local da Mostra previa um público médio de 1.000 espectadores em uma semana de sessões. Essa meta foi superada em mais de 65%. A que você acha que se deve esse crescimento? [risos] Na verdade não foi uma previsão da organização local, mas uma meta pessoal, minha. Acho que o tema tem um número enorme de detratores. Por isso fui cauteloso quanto ao público. Entretanto, alguns ingredientes ajudaram bastante. A divulgação teve uma boa estratégia: poder público, entidades da sociedade civil (entre elas entidades de atenção às pessoas com deficiência), apoio forte dos amigos da mídia, muitos e-mails, ida a faculdades, universidades e escolas, telefonemas… A sessão inicial também foi muito positiva, pois provocou forte burburinho, devido aos kits entregues na entrada e, depois, devido ao forte filme Perdão, Mr. Fiel. A estrutura de material da Mostra também ajudou muito. Basta lembrar que vieram muitos catálogos e ainda programação em braile. Ademais, está provado que a população tem interesse pelo tema, que não necessariamente precisa ter caráter chato ou panfletário, mas pode ser sutil, estético e altamente elaborado.

O catálogo da 5ª. Mostra era formado por filmes que tratavam a temática dos direitos humanos sob um viés não panfletário, o que certamente ajuda a despertar o interesse das pessoas pelo assunto. Qual o critério de seleção das obras que percorreram 20 capitais brasileiras entre novembro e dezembro? A curadoria nacional da Mostra ficou a cargo do Francisco César Filho, conhecido carinhosamente no meio cinematográfico e televisivo como Chiquinho. Ele foi o responsável pela programação, mas a seção Contemporâneos recebeu inscrições através de edital público.

A superação da expectativa de público não demonstra que há um público ávido por produções de qualidade, fora dos padrões hollywoodianos? O que falta para voltarmos a ter um Cine Praia Grande lotado e mesmo não ele como único espaço para cinema “alternativo” em São Luís? Demonstra sim. Falta investimento, faltam ideias! Além disso, é necessário “correr atrás”. As pessoas querem conforto. Não é porque o Cine Praia Grande fica dentro de um espaço pertencente ao poder público ou porque tem o ingresso mais barato que se tem que tolerar o calor, decorrente de aparelho de ar condicionado ruim, ou o desconforto das poltronas, somado a um mau cheiro ou mesmo mofo. O cinema é muito importante para a Praia Grande. Conversei com o pipoqueiro e ele estava muito feliz com o evento, porque estava voltando com um bom dinheiro pra casa. Isso é economia da cultura. Todo mundo ganha. O Centro Histórico sobrevive! Tivemos sessões a uma e meia da tarde e ainda assim conseguimos por um público de 80 pessoas, o que também é significativo sob outro aspecto, conforme assinalou o jornalista Garrone: para o bem ou para o mal, a cidade cresceu!

A 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul é uma realização da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Como você avalia o cinema brasileiro hoje, levando a política cultural do país, a atuação do Ministério da Cultura? Embora não concorde com muita coisa em relação ao governo Lula, sobretudo em relação à maneira como se comportou perante o povo maranhense, devo reconhecer que foram os melhores anos da história recente do cinema nacional. O Gilberto Gil foi um grande ministro, surpreendendo-me. O Juca, na sequência, não fez feio. O Ministério da Cultura é o grande padrinho das secretarias de cultura dos estados e dos municípios. O que essas entidades fazem de políticas públicas, devem ao MinC. O Ministério criou editais e políticas sérias. Estruturou-se, mesmo com um orçamento por vezes minguado. Espero que o governo Dilma dê prosseguimento ao que foi criado de bom e implemente melhorias.

E o que dizer do cinema no cenário maranhense? Temos grandes nomes. Mas o meu preferido, o meu ídolo [risos], é Murilo Santos. Por várias razões. A principal é a integridade. Mas a sabedoria, o bom humor, a capacidade de dividir conhecimentos são coisas que admiro muito nele também. Murilo fez grandes filmes. Considero os seus trabalhos muito importantes também. É o cineasta, por excelência, comprometido, engajado. Tenho amizade por alguns outros. Gosto de alguns trabalhos, mas não de tudo. Mas cada um tem a sua própria rota, seus sonhos, aquilo em que acredita. Prefiro não falar em muita gente pra não despertar ciúmes, mas, além de gostar do que já produziram, tenho ainda bastante amizade por duas outras figuras: Euclides Moreira e Joaquim Haickel. Provaram ser meu amigos em algumas situações que não preciso explicitar aqui. Agora, por outro lado, acho que a garotada tem que ser mais corajosa, tanto em termos temáticos como em termos estéticos. Aproveitar a tecnologia portátil que existe por aí e ousar. Deve surgir coisa boa em breve! Dos novatos não posso esquecer Nicolau Leitão e Carlos Benalves. Além do bom caráter, são muito inteligentes e talentosos. Espero muito dos dois.

De que forma os cineclubes e, hoje, os pontos de cultura têm sido importantes para a difusão do cinema brasileiro? Por várias razões. Descentralizam a exibição, incentivam a produção e a distribuição, formam público. E, claro, ajudam na formação de mão de obra.

[*outra colaboraçãozinha, não assinada, pro Vias de Fato de dezembro/2010]

Toda a graça de Noel Rosa

Os quatro senhores da música do Maranhão fizeram bonito em homenagem a Noel Rosa, na data em que o Poeta da Vila completaria 100 anos.

ZEMA RIBEIRO


Autorretrato de Noel Rosa

Noel Rosa é, talvez, o mais genial dos criadores da música brasileira em todos os tempos, a começar por sua curta existência: subido aos 26 do primeiro tempo, só compôs por cerca de sete anos. No entanto, constam de sua lavra ou, para ser mais preciso, de sua caneta em maços de cigarro cujas marcas ficaram apenas na memória, mais de 300 composições. Entre estas, um sem número de clássicos absolutos, até os dias atuais.

Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, em Vila Isabel, com um defeito no queixo provocado pelo fórceps, ali viveu até morrer, de tuberculose. A grande maioria de seu legado musical eternizou fatos prosaicos, caso de Com que roupa?, seu primeiro sucesso, datado de 1931.

Uma série de homenagens aconteceu em todo o país, através de seminários que discutiram sua obra, publicações e shows musicais e teatrais, no ano em que Noel de Medeiros Rosa, o nome de batismo do Poeta da Vila, completaria 100 anos no último dia 11 de dezembro.

O Maranhão não podia ficar de fora desta rota e quatro compositores cuja obra bebe diretamente da fonte noelesca renderam-lhe o belíssimo tributo Noel, Rosa secular [Bar Daquele Jeito, Vinhais, 11/12], que contou ainda com a adesão de convidados especiais. Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, carinhosamente apelidados “os quatro senhores em concerto” – alusão aos três tenores – receberam Celia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro como convidados para celebrar os cem anos de nascimento de Noel – justo na data em que ele os completaria.

Não faltaram clássicos ao repertório: O x do problema, Feitiço da Vila, Feitio de oração, Pra quê mentir?, Gago apaixonado, Filosofia, As pastorinhas, Pela décima vez, Último desejo, Quando o samba acabou. Músicas que o público cantou junto, atualíssimas. Em qualquer roda de samba que se preze, clássicos que não podem ficar de fora. E o tributo a Noel não era qualquer roda de samba.

Arlindo Carvalho (percussão), Domingos Santos (violão sete cordas) João Neto (flauta), João Soeiro (violão), Juca do Cavaco (cavaquinho) e Vandico (percussão) formaram o regional que lembrou ao pé da letra as imortais melodias de Noel. “Outra característica de Noel que deve ser ressaltada é a riqueza de suas melodias. Muito dificilmente alguém mexe num arranjo dele, tudo à época já tinha um caráter definitivo”, observou o compositor Josias Sobrinho, autor de um clássico atemporal em que homenageia o “pai do samba”: Terra de Noel.

Pai do samba sim: “Ainda que o “polêmico” primeiro samba [Pelo telefone, de 1917] seja atribuído ao compositor Donga, quem de fato deu forma, peso e medida à canção brasileira foi Noel de Medeiros Rosa. Ele tinha o toque de gênio, aquela capacidade rara de abordar os temas mais banais com um olhar único, embebido sempre em lirismo e humor”, atesta outro herdeiro de Noel, o compositor maranhense Zeca Baleiro, em texto escrito para a apresentação de Noel, Rosa secular.

O humor, aliás, é outra vertente que poderia ter sido (mais) explorada nas homenagens rendidas a Noel ao longo de 2010 e além: há um sem-número de casos pitorescos e “historietas hilariantes” – para lembrarmos o clássico livro de Six [saudoso boêmio, cavaquinhista e advogado maranhense, um dos maiores defensores do choro que o país já (ou)viu], que também tinha as suas – que por vezes nos ajudam a entender melhor esta ou aquela composição – para quase cada música de Noel Rosa há uma história, quase sempre com um toque, sutil ou desbragado, de humor.

Noel Rosa partiu cedo mas “deixou uma obra imensa, impressionantemente rica e vasta, especialmente quando se sabe que seu autor se foi com a idade de Hendrix e Joplin”, finaliza Baleiro.

&

Texto publicado na edição de dezembro/2010 do Vias de Fato, ora nas bancas. Com sua reprodução aqui anuncio a reprise de Noel, Rosa secular (com os quatro senhores Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho mais as participações especiais de Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro): dia 8 de janeiro de 2011 (sábado), às 22h, no Bar Daquele Jeito (Vinhais). Os ingressos custarão R$ 20,00 (metade para estudantes com carteira) e desta vez terão venda antecipada: em breve o blogue dá mais detalhes.

Na trilha do cangaço

Acima, uma das fotografias de Na trilha do cangaço, exposição virtual de Márcio Vasconcelos que acontece hoje, às 20h, no Espaço Armazém, conforme convite abaixo:


Clique nas imagens para ampliá-las

O projeto foi premiado no 11º. Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. Para sua execução foram percorridos 4 mil km em sete estados nordestinos, desde Serra Talhada/PE, onde Lampião nasceu, até Poço Redondo/SE, local da emboscada da Volante do tenente João Bezerra que culminou com a morte de Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros.

“Hoje acontecerá uma exposição virtual e o lançamento do site específico do projeto. Não se trata de uma exposição tradicional para ficar em cartaz, e hoje será um dia único. Apenas o site ficará para sempre no ar”, adiantou a este blogue, por e-mail, o fotógrafo-trilheiro.

Correria: Tempo

Fim de ano é fogo! A gente entra num clima de só ano que vem e até! Mas há muito o que fazer, sempre. E não é a proximidade das festas que nos deixa desengatar a marcha e descuidar das coisas. Os compromissos continuam muitos. Correria como se não fosse fim de ano, acabei não dando aqui: foi aberta sexta-feira passada (17) a exposição Tempo, na Galeria Hum (Rua 1, 167, São Francisco). Ela fica em cartaz até o próximo dia 30 de janeiro (a galeria fecha durante o recesso natalino).


Detalhes do Tríptico de Márcio Vasconcelos.

Tempo reúne obras de Antonio Sergio Moreira, Edgar Rocha, Fátima Campos, Marçal Athayde e Márcio Vasconcelos, em escultura, fotografia e pintura, que serão comercializadas.


Escultura em madeira de Marçal Athayde.

A curadoria de Tempo é de Luis Carlos Mathias. A exposição pode ser visitada de segunda a sexta, das 9h às 18h.

2010 acabou

O ano acabou. O último que sair apague a luz. Antes disso, as luzes do palco do Cine Ímpar se acendem para os talentos de Djalma Lúcio e da banda Garibaldo e o Resto do Mundo.

Eles se apresentam, separados, amanhã (18), às 21h (são dois shows e eu não sei quem toca primeiro). Os ingressos custam apenas R$ 10,00 (metade para estudantes com carteira).


O ex-Catarina Mina lançou Conforme prometi no réveillon em 2010


Homônimo de estreia da Garibaldo e o Resto do Mundo foi uma das surpresas na cena pop no Maranhão este ano

Para quem não sabe onde fica o Cine Ímpar, apesar do nome entregar: na sede do jornal O Imparcial, no Renascença (atrás do Tropical Shopping).

A julgar pelos trabalhos que ambos lançaram em 2010, a noite promete.

A respeito do título do post, aos poucos-mas-fieis leitores aviso: eu ainda escrevo aqui este ano.

Festival da Cerveja na Cantina

Faz um tempinho que não visito o amigo Caroço, cujo nome de batismo, não nego: não lembro agora. Caroço é o simpático proprietário da Cantina da Madre, charmoso barzinho no coração da Madre Deus onde a cerveja está sempre gelada e a comida, quando há, é sempre gostosa. Quando há por que às vezes acaba ligeiro e o jeito é apelar para o pastel do japonês vizinho.

Bom, amanhã (18), a partir das 16h, a Cantina abriga um Festival de Cerveja: a caneca-ingresso custa R$ 30,00 e você bebe o quanto quiser, puder e aguentar.

Para “regar” (como se a cerva não bastasse) a tarde-noite, o Regional Os Madrillenus, pausa: sério que eu quase não consigo escrever esse nome todo estrangeirizado, quando eles se apresentavam no Clube do Choro o nome era mais brasileiro, risos, fim da pausa, formado por Adão Camilo (voz), visto na foto acima, Boscotô (marcação e voz), Gari do Cavaco, Julio Cunha (violão), Maurício (tantã), Mamão (pandeiro) e Dadá (voz).

As canecas já estão à venda no local. A Cantina da Madre fica na Av. Rui Barbosa, 136, Madre Deus.

Noel, Rosa secular

Aos que foram, lembrar; aos que não, arrepender-se. Aos últimos, consolo: Noel, Rosa secular terá bis em breve (mais detalhes aqui, assim que os tiver).

A seguir, alguns momentos do show, no clique caprichado e atento de Pedro Araújo.

O Regional Feitiço da Ilha (da esquerda para a direita): Vandico (percussão), Arlindo Carvalho (percussão), Juca do Cavaco (cavaquinho), João Soeiro (violão), Domingos Santos (violão sete cordas) e João Neto (flauta). Ao fundo, o casal de mestres de cerimônias, da Companhia Beto Bittencourt.

O público ocupou todos os espaços do Daquele Jeito (Vinhais). Piada-comentário deste blogueiro na ocasião: “Eu nunca estive aqui, mas nunca vi isso aqui tão cheio”. Após: “Eu nunca tinha visto o Daquele Jeito daquele jeito”.

Os Quatro Senhores interpretam Feitiço da Vila, um dos muitos clássicos da música brasileira lembrados na noite do último 11 de dezembro, quando seu autor, Noel Rosa, o Poeta da Vila, teria completado 100 anos. Da esquerda para a direita: Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Cesar Teixeira e Josias Sobrinho.

Outro ângulo dos quatro senhores.

Aqui, Joãozinho Ribeiro em seu momento solo. Ele ganha tempo enquanto Juca troca a corda do cavaquinho e lê o texto de Zeca Baleiro, do programa da noite:

Noel Rosa é o pai da canção brasileira. Ainda que o “polêmico” primeiro samba seja atribuído ao compositor Donga, quem de fato deu forma, peso e medida à canção brasileira foi Noel de Medeiros Rosa, que hoje faria cem anos, não tivesse ele morrido prematuramente aos quase 27.

Noel tinha o toque de gênio, aquela capacidade rara de abordar os temas mais banais com um olhar único, embebido sempre em lirismo e humor. E deixou uma obra imensa, impressionantemente rica e vasta, especialmente quando se sabe que seu autor se foi com a idade de Hendrix e Joplin.

Hoje, Noel recebe a homenagem de quatro legítimos herdeiros de seu lastro de bamba – Cesar, Chico, João e Josias -, quatro cantores-poetas, filósofos de botequim, gênios da canção, assim como Noel.

Perto de vocês me calo.

Saravá, poetas. Esta noite a alma de Noel faz festa no céu!

Zeca Baleiro

O jornalista Samartony Martins (O Imparcial) e o blogueiro. Não vi quando, de dentro do balcão, Pedro Araújo clicou nossa conversa.

Casa das Minas documentada


Imponente. A Casa das Minas, na esquina do Beco das Minas com a Rua de São Pantaleão. Foto: divulgação

Em sessão gratuita, às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), acontece hoje o lançamento de Casa das Minas – Os voduns reais de São Luís, documentário sobre a casa de culto, uma das mais antigas em atividade no país.

Detalhes no Ponte Aérea São Luís.

Meninos/meninas eu vi e ouvi! Um olhar sobre Direitos Humanos, Palhaços e Noel Rosa

RITA DE CÁSSIA LUNA MORAES*

Para quem prima pelo melhor uso do tempo, dezembro, em nossa querida São Luís, está sendo pródigo: Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, comemoração do Dia Internacional do Palhaço e celebração dos 100 anos de vida de Noel Rosa. Tomando emprestado do poeta, em livre sentir: Meninos/meninas eu vi e ouvi!

Com temática tão abrangente quanto necessária, a Mostra de Cinema desembarcou em nossa terra para não mais deixar de integrar o circuito anual: cerca de 1600 expectadores assistiram 41 filmes em suas 24 sessões, incluídos nacionais e de mais nove países da América do Sul. Poderia ter sido maior essa presença, vez que houve sessões com ocupação do Cine Praia Grande de apenas de 50 a 60%. Talvez, se os professores, em todos os níveis, não permanecessem tão engessados em cumprir carga horária e dias letivos sem vislumbrarem o quanto seus alunos aprenderiam em uma Mostra de Cinema, que, no caso, possuía sessões desde a primeira hora da tarde e, sempre, com entrada gratuita e acessível a deficientes.

Tempos de violência explícita contra crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiências, mulheres, presos, negros, quilombolas, indígenas, homossexuais, para ficar apenas nestas populações próprias, ou, ainda, a violência contra o meio ambiente, faz de nosso Estado espectador, às vezes inerte, da constante violação de direitos humanos básicos, que não atingem apenas os envolvidos, individualmente, mas ferem profundamente a sociedade em que vivemos. Cedo ou tarde somos todos nós atingidos.

Os filmes da Mostra induzem à reflexão e mobilização, se nos permitirmos tanto. E, embora a temática seja em si dramática, a abordagem sensível e, por vezes, poética, trazida por seus produtores, diretores e atores carregam-nos de esperança e luz no caminhar diário por um mundo melhor.

Não há espaço, neste texto, para o comentário dos filmes. Pode ser encontrada a ficha técnica/catálogo no sítio eletrônico da Mostra, pois alguns estão disponíveis em DVD. Infelizmente, muitos dos curtas e médias-metragens não estão acessíveis e houve muitos de qualidade e abordagem maravilhosas, especialmente os nacionais.

10 de dezembro marca, igualmente, o Dia Internacional dos Direitos Humanos e o Dia Internacional do Palhaço. Coincidência feliz, não? Ser alegre também é um direito humano e dos mais básicos! Houve programação e celebração para ambos.

A Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, entidade valorosa existente há 30 anos, promoveu um Seminário para refletir, avaliar e propor ações em defesa dos “defensores” dos Direitos Humanos, ameaçados com a criminalização dos movimentos sociais. Os resultados podem ser conferidos em www.smdh.org.br, e amplamente divulgados, como contribuição efetiva mínima de cada um. No mesmo sentido, grupos organizados das comunidades de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais promoveram debates e propostas para a construção de uma rede de políticas públicas que garantam sua tão negada cidadania. A Campanha Estadual de Combate à Homofobia, com um calendário de ações até 2014, trará, certamente, desafios igualmente a cada um de nós, independentemente de que sejamos hetero ou homo, bastando apenas que sejamos humanos, vez que diversos já somos.

“A gente não quer só comida: a gente quer comida, diversão e arte”, dizem os poetas do grupo de rock Titãs. Assim, a “palhaçada” tomou conta da praça e trouxe à comemoração do Dia Internacional do Palhaço o sentido da alegria genuína tão própria nas crianças quanto esquecida entre nós, os adultos. Como parte do Projeto Treinamento Circense, coordenado pelo artista Gilson César, desfilaram palhaços, malabaristas e atores. Todos os palhaços merecem destaque por não deixarem sucumbir arte fundamental na nossa cultura popular. Houve também a encenação teatral baseada no cordel João Boa Morte: cabra marcado para morrer, do poeta maranhense Ferreira Gullar, que trata da problemática da posse da terra, as más condições de quem não possui a propriedade e se vê obrigado a trabalhar para os chamados coronéis. Aqui se cruzam de novo os direitos humanos básicos: alegria e terra.

Contundente e apropriado o protesto feito por um palhaço, no evento deste 10 de dezembro, contra a comparação maldosa feita entre este ilustre artista (o palhaço) e os políticos e governantes corruptos. Vale repetir seu bordão, acompanhado por toda a plateia: “Palhaço é Palhaço e ladrão é ladrão”. Também contestou o uso do “nariz de palhaço – a bola vermelha” quando há movimentos reivindicatórios de trabalhadores ou estudantes, ou seja, há, em ambos os casos, a depreciação da figura do palhaço. Vale a reflexão e a mudança de atitude. Que sobressaiam o sorriso e a alegria, capazes de nos encher de gás para toda a vida.

Para coroar a metade deste dezembro, juntaram-se os poetas/músicos Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho e Chico Saldanha e nos brindaram com uma emocionante homenagem aos 100 anos de poesia, música e vida do poeta Noel Rosa. Passeando pelos clássicos musicais que, com certeza, cantados por nossas queridas mães ou celebrados em nossas “fossas”, embalaram muitos de nós, os grandes “poetas da Ilha” bem representaram “o poeta da Vila”.

Canções como Feitiço da Vila, Conversa de botequim, Pra que mentir?, Último Desejo, O orvalho vem caindo, Com que roupa?, Até amanhã e Fita Amarela foram algumas das pérolas lançadas aos sedentos de boa cultura que prestigiaram o show/celebração. Casa lotada como deveria ser qualquer produção local.

Participações especiais de Lena Machado, Lenita Pinheiro, Célia Maria e Léo Spirro integraram o arco de benfeitores da música, que, traduzindo o sentimento de Noel, trazem para a nossa São Luís o sentimento de pertencimento a uma terra, como o foi Noel para a sua Vila Isabel. Samba, amor, alegria, cultura, diversidade, tudo havia em Noel e, mesmo morto jovem, produziu um acervo poético de rara beleza e envolvimento. A nos envolver em busca da plenitude de direitos humanos.

Vivas ao Cinema, ao Palhaço e à Música! Viva a Vida!

*Assistente Social e acadêmica de Direito

&

Agradeço a autora pelo compartilhamento do artigo acima, que recebi por e-mail e de que gostei bastante. Na mensagem sua autora afirmou ser “leitora e divulgadora assídua deste blogue”, honra e carinho a que agradecemos. Em breve este blogueiro deverá escrever sobre Noel, Rosa secular, show que, embora eu seja suspeito para falar foi algo que, para usar o próprio dizer de Noel, Não tem tradução.

Poesia em dose dupla hoje

Logo mais às 19h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), os poetas Paulo Melo Sousa e Laura Amélia Damous lançam seus novos livros: Banzeiro e Arabesco, respectivamente.


Clique para ampliar

O pequeno texto abaixo está nos preâmbulos do livro do primeiro (é o segundo que ele lança em 2010), onde figuro entre outros nomes: “Como a fotografia, outra expressão artística que admira e domina, a poesia de Paulo Melo Sousa capta instantes. E eterniza-os. Não hai-kais como 3×4, mas imagens, feitas de palavras, panorâmicas. Não à toa, nós, os amigos, o chamamos Paulão. Grande homem, como sua poesia” (Zema Ribeiro).

O Regional Feitiço da Ilha, formado por Domingos Santos (violão sete cordas), Juca do Cavaco e Vandico (percussão), executará algumas peças instrumentais enquanto Paulão e Laura Amélia autografam seus mais recentes rebentos poéticos.

Divirta-se

No caderno Divirta-se, n’O Imparcial de hoje, dou dicas culturais para o fim de semana. O caderno é editado por minha queridamiga Andréa Gonçalves. Veja abaixo o que este blogueiro recomenda.

A D!CA
POR ZEMA RIBEIRO

Zema Ribeiro é assessor de comunicação da Cáritas Brasileira Regional Maranhão e da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos. Escreve no blogue http://www.zemaribeiro.blogspot.com. Apaixonado pela diversidade cultural, confira as valiosas dicas desta semana.

Sexta: “Após a semana de trabalho, sexta é dia de uma cervejinha com um bom papo para relaxar. Boas pedidas são o Sapucaia Bar (Av. Vitorino Freire), o Café Recanto Verde (Miritiua/Turu), o Cantinho da Estrela (Praia Grande) e o Sabor da Ilha (Praça Pedro II).”

Sábado: “Gosto de dedicar minhas manhãs de sábado a visitar sebos e livrarias: Chico Discos e Papiros do Egito (Rua da Cruz), Athenas (Rua 13 de Maio), Tambores (Shopping do Automóvel), Poeme-se (Praia Grande) e Sebo Nas Canelas (Rua das Flores). Particularmente neste sábado (11) a grande pedida é o show Noel, Rosa secular, tributo aos 100 anos do genial Noel Rosa, o Poeta da Vila, por Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, no Bar Daquele Jeito (Vinhais), às 22h. Nos outros sábados, ou qualquer dia, sempre vale a pena visitar o Bar do Léo (também no Vinhais), misto de bar e museu, com o maior acervo musical do Maranhão, cerveja gelada e a melhor tripinha de porco da Ilha.”

Domingo: “Não saio de casa sem ouvir o Chorinhos e Chorões (Rádio Universidade FM, 106,9MHz, das 9 às 10h), com meu amigo Ricarte Almeida Santos. Depois é dar uma esticada na praia para comer umas ostras ou ir comprar flores e plantas na CEASA ou no Parque do Bom Menino.”

Semana Noel Rosa

# 7

1937: NOEL, O SAMBA EM FUNERAL

RUY CASTRO

O dia de hoje marca os 30 anos da morte de Noel Rosa. O samba nascido na calçada e no botequim de subúrbio encontrou no poeta-cantor de Vila Isabel o seu expoente maior. Genial e boêmio. A tuberculose o levou cedo, aos 27 anos de uma vida noturna agitada: um samba, entre um copo e outro, fotografando a madrugada carioca.

Uma grande parte das camadas urbanas, proletarizada ou mesmo um pouco acima do salário mínimo, formula um contexto específico de que o samba, nascido na Praça Onze, é apenas uma das incontáveis ramificações. Mergulhado nesse contexto, produto de uma mistura de mulata, violão e botequim, o samba é a forma de expressão mais apta para comunicar aquela carga latente de nostalgia & desencanto, conseqüências da marginalização social e econômica.

Essa conjuntura deságua facilmente em Noel, menino de Vila Isabel, de mãe viúva e professora, sambista de subúrbio, desemprego e madrugada. Cada um de seus sambas ultrapassa o mero aspecto “descritivo” de um fato exótico, para traduzir todo o macrocosmo de uma classe empurrada para o último ou penúltimo degrau da escala social, indo tomar de noite o seu ópio musical, entre o pileque e a serenata.

Sem choro nem vela – Segundo Almirante, desde 1935 a vida de Noel vinha minando a sua frágil resistência física. A tuberculose já o rondava, por trás de seu defeito no rosto que o fazia comer de menos e beber de mais – dormir todo o dia e só depois sair, para seu samba engolir a noite. Constatada a doença, sucederam-se as estações de repouso, mas o samba de Noel não tinha férias nem tomava conhecimento de descanso. O compositor já iria regressar da última viagem, em Piraí, com a moléstia seriamente agravada.

Tudo terminou no dia 4 de maio de 1937, em Vila Isabel, presentes Orestes Barbosa e Marilia Batista, e, daí a meia hora, Aracy de Almeida acabava de gravar naquele dia, o último samba de Noel: Eu Sei Sofrer.

Triste cuíca – A morte de Noel lançou no limbo o compositor, repercutindo quase que unicamente nos arraiais do samba. Isto porque, segundo Almirante e Aracy de Almeida, nos idos de 30 qualquer sambista era violentamente marginalizado e acusado de vagabundagem, sofrendo todos eles os efeitos dessa discriminação. Menos Noel, que, apesar de sua família enfrentar uma série de dificuldades, jamais abandonou aquele despojamento e desprezo pelo sucesso.

Os seus sambas continuaram a ser tocados no rádio, sem grande alarme popular. Em 1942, Almirante produziu na Rádio Tupi o primeiro programa dedicado à revisão de Noel Rosa e, a este, seguiram-se vários outros. A “redescoberta” do compositor pelos cantores de maior contato com as massas, como Silvio Caldas, acabou de restituir-lhe a plena identificação com o público, especialmente depois de um show de sambas de Noel Rosa na Boate Vogue, com Aracy de Almeida, em 1948.

Feitiço de Noel – Aracy fala do samba, no tempo de Noel: “A gente ganhava pouco ou nada, mas vivia só pra sair de noite, cantar e fazer música, e viver na boemia. Não era à toa que sambista, naquele tempo, era sinônimo de malandro e vadio. De fato, naquela época, sambista era pinta-braba, tinha muito valente e mal-elemento querendo ser compositor. O Noel, que conhecia todos os pilantras do Rio, nunca foi muito aceito porque não saía da Lapa e do Mangue, de onde voltava com uma porção de sambas escritos em maços de cigarros Odalisca, que depois ele vendia pra pagar a farra do dia seguinte. Aliás, naquele tempo não houve sambista a quem Noel não tivesse dado uma mãozinha, trocando uma letra aqui, outra ali, e muito samba famoso por causa disso, tem o dedo de Noel Rosa, e ninguém sabe”.

Aracy conheceu Noel em 1932 e o seu primeiro contato maior com o compositor nasceu numa noite de samba em caixa de fósforo, regada com cerveja Cascatinha, na Taberna da Glória: era o début boêmio da jovem cantora. Do pileque na Taberna até a morte de Noel, em 1937, Aracy esteve presente a todo o processo de evolução do samba e da noite carioca, nos cabarés da Lapa e nos botequins detrás da Central, ao lado de Noel, com quem saía à noite, para varar as madrugadas. Dessa parceria de cantora & compositor nasceram Palpite Infeliz, O X do Problema, Pela Primeira Vez, Século do Progresso, Amor de Parceria, Triste Cuíca, Já Cansei de Pedir, Feitiço da Vila. Aracy conta: “Uma noite eu cheguei pro Noel e pedi pra ele fazer um samba pra mim gravar no dia seguinte. Noel pensou um minuto e ali mesmo, na mesa do Café Trianon, compôs O X do Problema, nas costas de um maço de Odalisca.”

O xis do samba – Em 30 anos, os sambas de Noel foram regravados algumas dezenas de vezes, desfechando aquela carga poética e musical que tanto influencia os novos compositores. Três livros foram escritos a seu respeito: um deles, o mais completo, por Almirante, testemunha ocular da história do samba e amigo de Noel desde 1923. Das suas madrugadas saíram cerca de duas centenas de músicas, algumas mulheres e uma série de lendas sobre sua vida e obra. Mas, o choro de flauta, violão e cavaquinho para os 30 anos de sua morte é a sua presença constante nestes 30 anos de samba.

Recolocada em órbita, a partir dos anos 40, a sua obra pode ser submetida hoje a um olhar de Raio-X sem perder nada de sua instigante contemporaneidade. Mesmo porque Noel traduz o X do samba, haja vista que a sua arte permanece pelo tempo, não só pela eternidade de suas criações gravadas na cera para a posteridade, mas principalmente pela sua poderosa influência no que de melhor se faz hoje em samba.

Trinta anos depois de Conversa de Botequim, Com que Roupa?, Coisas Nossas, Mentiras de Mulher, Fita Amarela, Noel encontra um eco nas criações de Chico Buarque de Hollanda e Sidney Müller. A mesma dimensão crítica e criativa dos seus sambas, por trás da historinha ingênua e bem temperada, está presente em Juca, Você não Ouviu, A Rita, etc. e nas duas mais recentes composições de Chico: Com Açúcar e com Afeto e Quem te viu e quem te vê. E quanto a Sidney Müller, é só ouvir O Circo.

A revalorização do trivial, do cotidiano e do popularesco, o reencontro do samba com as suas raízes, que são os vértices da moderna música brasileira, têm como base Noel, carioca e universal. De 1937 a 1967, Noel tem sido o X do samba.

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Com dificuldades para postar nos dois últimos dias – muita coisa para fazer em pouquíssimo tempo – encerro com o texto acima a Semana Noel Rosa. 1937: Noel, o samba em funeral foi publicado em 4 de maio de 1967 no Correio da Manhã (RJ) por ocasião dos 30 anos de falecimento do Poeta da Vila. O hoje conhecidíssimo Ruy Castro, autor do artigo, estreava na imprensa (é seu primeiro artigo assinado) e dividia a página com ninguém menos que Nelson Rodrigues, que publicava suas memórias. Este blogueiro teve o trabalho de re-digitar o artigo, cujo fac-símile encontrei em Tempestade de ritmos: jazz e música popular no século XX (Companhia das Letras, 415 p., 2007).