Arquivo mensal: novembro 2010

A rebelião e o "jornalismo"

No célebre poema O analfabeto político, o dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht afirma categoricamente em um de seus versos: “o pior analfabeto é o analfabeto político”. Ele critica aqueles que batem no peito para dizer que odeiam política, ignorando que de decisões políticas dependem o preço do feijão, da farinha, do aluguel. Tudo na vida depende de uma decisão política, eu ousaria dizer.

Aconteceu ontem, estendendo-se até hoje, a maior rebelião de que já se teve notícia em um presídio do Maranhão. Foi no anexo do Presídio São Luís, no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no bairro homônimo, em São Luís. A rebelião teve início quando detentos conseguiram render um agente penitenciário, tomando-lhe a arma e alvejando-o – a última notícia que temos é que o mesmo encontra-se internado no Hospital São Domingos. Outros agentes penitenciários, monitores e mulheres de detentos foram feitos reféns.

Saldo: 18 mortos. Três deles decapitados. Há informações – não confirmadas por este blogue – de que todos os assassinados tiveram seus pênis decepados. Tudo é política, repito. Mas daí a quererem reduzir isto à politicagem é um pouco demais.

Parte da imprensa, na cobertura do motim, optou por tentar mostrar a influência da governadora Roseana Sarney junto ao governo federal, alardeando que o ministro da Justiça Luiz Paulo Barreto enviaria, hoje, policiais especializados em negociações com detentos, para dar fim à rebelião. É um pouco demais. A Nota do Governo do Estado, publicada em O Estado do Maranhão [9.nov.2010, Polícia, página 7, acesso mediante senha para assinantes], a seguir transcrita na íntegra (em itálico), é simplesmente ridícula:

A governadora Roseana Sarney conversou, durante a tarde desta segunda-feira (ontem), com o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, para pedir apoio na condução das negociações com os presos rebelados do Presídio São Luís, em Pedrinhas.

O Ministério da Justiça vai enviar, em avião especial, nas primeiras horas desta terça-feira (9), uma equipe de policiais especializados em negociação com presos.

A governadora Roseana Sarney acompanha, desde as primeiras horas da rebelião, tudo o que vem acontecendo no presídio e pediu empenho máximo às autoridades que estão atuando na tentativa de encerrar a rebelião e tranqüilizar a população carcerária, agentes penitenciários e familiares de presos e funcionários do presídio.

Sabe-se que há um estado de tensão permanente entre facções de presos e que, somou-se a isso, o evento em que um agente penitenciário acabou dominado por um grupo que se apossou de sua arma para dar início à rebelião.

No Maranhão, assim como nos demais estados, a superlotação dos presídios é uma realidade. Esse problema está sendo enfrentado pelo Governo do Estado com a construção de novas unidades prisionais nas regiões de Imperatriz, Pinheiro e São Luís.

Declaração de Cézar Bombeiro, presidente do Sindicato dos Servidores do Sistema Penitenciário do Estado do Maranhão (Sindspem), na mesma página 7 de O Estado do Maranhão de hoje: “O Presídio São Luís é considerado de Segurança Máxima, entretanto, os colegas não dispõem de nenhuma estrutura. Somos apenas cinco para conter um total de 700 detentos. É humanamente impossível que um profissional consiga atender este tipo de demanda. Este episódio é a prova de que a segurança nos presídios do estado precisa ser reavaliada”.

O problema não é apenas a segurança nos presídios: é a segurança pública como um todo. Na verdade, está para além da segurança pública: o problema do Maranhão é um problema de gestão pública. A construção de unidades prisionais, propagandeada na nota do Governo do Estado, por si só não resolverá o problema.

A implementação, execução e manutenção de políticas públicas que efetivem os direitos humanos – água, alimentação adequada, saneamento básico, educação, saúde, cultura, lazer etc. – é que irão resolver o problema, ainda que a longo prazo. Os imediatistas que adoram repetir que “direitos humanos só defendem bandidos” dirão que “agentes penitenciários estão sendo baleados e presos estão morrendo agora”. Treplico-lhes com uma indagação: há quantos anos e mandatos Roseana Sarney está no poder?

Agora mesmo, durante a campanha eleitoral, Roseana Sarney prometeu 72 hospitais ao povo. É mais uma promessa que não cumprirá, ao menos não nesse mandato. Cabe lembrar que entre as reivindicações dos detentos estava o fornecimento de água: o presídio estava sem água há quase um mês. Detentos são antes de tudo, cabe lembrar, seres humanos sob a custódia do estado.

Outra reivindicação dos detentos é a mudança da direção do presídio. Resta saber o que dirá Cézar Bombeiro, que em julho, à época do Caso Matosão, afirmou: “Nós entendemos que primeiro o governo deveria investigar os fatos para saber se Carlos James [então secretário adjunto de Administração Penitenciária] é inocente ou não. O governo condenou o servidor por antecipação, em razão de uma denúncia de um traficante” [Jornal Pequeno, 26.jul.2010]. As falas de Bombeiro, no presente e no passado, são preconceituosas, corporativistas e oportunistas. Em suma, ridículas.

Fora a rebelião em Pedrinhas, assaltos a banco e o assassinato de uma liderança quilombola em Charco, município de São Vicente Férrer, ocuparam o noticiário de hoje. O que os meios de comunicação alinhados à oligarquia Sarney não conseguirão esconder é o caos por que passa o sistema de segurança pública do Maranhão na gestão de Roseana Sarney, recentemente eleita com apenas 50,08% dos votos, comandando um “arrastão”.

FILOSOFIA DE ALCOVA

Marco Aurélio D’Eça, autointitulado blogueiro de referência é realmente um exemplo. Do que não se deve fazer, em se tratando de jornalismo. Ele, funcionário fantasma da prefeitura de Urbano Santos, conforme atesta o blogueiro e professor Iranilton Avelar, superou-se no quesito “ridículo”, em três textos postados hoje.

Primeiro afirmou que O alvo é Aluísio Mendes…, defendendo a tese, mais idiota impossível, de que a rebelião em Pedrinhas não passaria de “um complô (…) para desestabilizar o atual secretário de Segurança”: todos sabem(os) que o titular da pasta é o deputado reeleito Raimundo Cutrim, que teve que se desincompatibilizar de suas funções para concorrer às eleições de outubro passado. D’Eça tenta minimizar o motim para atender aos interesses da oligarquia. Não colou.

Depois, o hair-journalist, em O fator Jorge Murad… (que mania horrível essa de usar reticências nos títulos de seus textos – textos?), puxa o saco (eufemismo) do patrão: “técnico altamente preparado, homem de posições claras e abertas, é o nome de peso do governo Roseana Sarney (PMDB)”. O próprio primeiro-cavalheiro do Maranhão deve ter sentido vergonha destas poucas linhas tão carregadas de bajulação. Cabe perguntar: se “Murad é fundamental para o futuro do Maranhão”, como afirma o blogueiro, por que Roseana Sarney não lhe dá uma secretaria de Estado? Na última capitania hereditária brasileira o povo é governado a partir da alcova. E ladrões de galinha superlotam Pedrinhas…

Para fechar o dia com chave de merda, D’Eça reproduz trecho de Não tenho pena deles…, texto pavoroso de Gilberto Léda, que certamente bem poderia ter sido escrito e assinado pelo serviçal miranteano. Entre outros absurdos, o blogueiro defende a pena de morte, “para pagar às famílias a dor que lhes foi causada e proteger a comunidade da volta de monstros ao convívio social”. A comunidade já convive com monstros: basta acessar determinados blogues ou ler certos jornais.

Cabe lembrar aos blogueiros, um escrevendo o outro endossando, que o (governo do) Estado tem grande responsabilidade no desenho desse cenário, por ação ou omissão. E como tal seus agentes deve(ria)m ser responsabilizados. É fácil, simples, prático e bastante cômodo jogar a culpa nas costas de quem já carrega cruzes mais pesadas, por vezes carregando-as mais que o tempo necessário por conta da lentidão da justiça. A mesma que favorece, com celeridade, a quem interessa…

Festival Estadual da Rede Mandioca celebra aniversário da Cáritas

[O Debate, hoje]

Evento integra a programação da Semana Nacional da Solidariedade, que se encerra dia 12 de novembro, quando a Cáritas completa 54 anos de atuação no Brasil

ZEMA RIBEIRO
EDITOR DE CULTURA

Atualmente articulando mais de 70 grupos, comunidades e associações de produtores, a Rede Mandioca está presente em mais de 30 municípios, em todas as regiões do Maranhão. Entre as premissas de sua Carta de Princípios, documento discutido e aprovado em plenárias estaduais, está a valorização da cultura da mandioca, tida como “o pão dos pobres”, elemento muito importante da mesa do maranhense.

A Rede Mandioca e a Cáritas Brasileira Regional Maranhão realizam, dias 10, 11 e 12 de novembro, em São Luís, o 1º. Festival Estadual da Rede Mandioca. O evento integra a programação da Semana Nacional da Solidariedade, que celebra em todo o Brasil, os 54 anos de atuação da Cáritas no país. O organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil integra a rede Caritas Internationalis, presente em cerca de 200 países.

O Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e a Praça Valdelino Cécio, ambos na Praia Grande, serão o palco dos três dias do festival: atividades de formação (debates, seminários, palestras), feira (comercialização da produção de grupos e associações filiadas à Rede Mandioca) e atividades culturais (shows musicais) compõem a programação (veja abaixo).

Armando a Rede – A Rede Mandioca surgiu em 2004, inspirada em outras experiências bem sucedidas de articulação em rede, pautadas nos princípios da economia popular solidária. Sua área de atuação é o estado do Maranhão, embora vez por outra, dialogue com experiências em outros estados. A Cáritas Brasileira Regional Maranhão assume a assessoria técnica à articulação.

Foi na entidade, aliás, durante um encontro de planejamento, que surgiu a ideia de articular em rede, produtores, não só de mandioca: a Rede Mandioca congrega também artesãos, criadores de pequenos animais, extrativistas e agricultores, entre outros.

O 1º. Festival Estadual da Rede Mandioca terá representantes de todas as regiões do Maranhão. O Debate conversou com Jaime Conrado, assessor de Desenvolvimento Solidário Sustentável Territorial da Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Cearense radicado no Maranhão, ele é bacharel em Filosofia (Faculdade Evangélica do Meio Norte) e mestre em Agroecologia (UEMA).


O assessor em visita de acompanhamento a um grupo produtivo. Foto: Zema Ribeiro

ENTREVISTA: JAIME CONRADO

O Debate – A Rede Mandioca surgiu há quanto tempo e de que premissas?

Jaime Conrado – A discussão sobre a criação da Rede teve início ainda no começo dessa década e veio se concretizar em 2006, a partir do trabalho iniciado nas comunidades de Riacho do Mel e Vila Ribeiro, ambas no município de Vargem Grande. Esse trabalho foi motivado basicamente pelos seguintes pontos: necessidade de dar continuidade à ação Cáritas na região de Coroatá, iniciado com conquista da terra, construção de cisternas, formação de crianças e adolescentes etc., combate ao aliciamento de trabalhadores rurais para o trabalho escravo, em parceria com a CRS [a organização Catholic Relief Services] através do [projeto] Trilhas de Liberdade e fortalecer a economia popular solidária a partir de uma experiência de rede produtiva.

O Debate – Como funciona a Rede Mandioca?

Jaime Conrado – A Rede Mandioca tem uma coordenação geral com 14 participantes de suas sete regiões de abrangência: Baixada, Vale do Pindaré, Mearim, Cocais, Baixo Parnaiba, Tocantina-Sul e Central. Há reuniões semestrais e uma plenária anual para o processo de avaliação, monitoramento e planejamento das ações da Rede. Todo o trabalho tem o assessoramento da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, através de técnicos especializados em todo o processo produtivo da agricultura familiar.

O Debate – Que procedimentos devem ser tomados por quem deseja se filiar? É possível a filiação individual?

Jaime Conrado – A filiação à Rede Mandioca acontece somente de forma coletiva, seja de grupos formais e informais, associações, cooperativas, clubes de mães etc. Para filiar-se à Rede Mandioca, cada grupo deve realizar uma assembleia geral fazer a leitura de sua Carta de Princípios, e concordar com ela. Em seguida escreve uma ata da referida assembleia e encaminha à coordenação da Rede, que faz sua leitura nas reuniões de coordenação, que posteriormente será apresentada na plenária anual da Rede.

O Debate – Qual o tamanho da Rede Mandioca hoje?

Jaime Conrado – A Rede está presente em todas as Regiões do Estado. Atualmente fazem parte da Rede Mandioca cerca de 35 municípios e mais de 70 comunidades rurais com um público de aproximadamente 10 mil famílias beneficiadas com as ações da Rede Mandioca

O Debate – Qual o papel da Cáritas Brasileira Regional Maranhão em todo o processo?

Jaime Conrado – O papel da Cáritas Brasileira foi e ainda é fundamental para a animação do processo de criação e, agora, de assessoramento técnico dos grupos desde a organização da produção até a comercialização direta ao consumidor final. Cabe à Cáritas a parte da formação político-pedagógica dos agentes locais que apoiam no desenvolvimento das ações junto aos grupos nas suas Dioceses.

O Debate – Como você analisa a atuação do Governo do Estado com relação à cultura da mandioca?

Jaime Conrado – Historicamente a mandioca é a base da alimentação dos maranhenses. Mas infelizmente ela não tem o mesmo tratamento que é dado a outras culturas introduzidas no nosso Estado, a exemplo da soja, eucalipto e outras. Nos últimos 30 anos a agricultura familiar no Maranhão passou e passa por dificuldades devido à falta de apoio governamental no tocante à questão da assistência técnica, extensão rural, pesquisa e falta de recursos, entre outros, provocando diminuição da produção e produtividade, elevando mais ainda os índices de pobreza do nosso Estado. Nesse período foram criados alguns programas de governo, como por exemplo Comunidade Viva, Prodim, Fumacoop, que além de não dar conta de todas as demandas agrícolas do Estado, ficaram restritos apenas ao mandato de cada governo, pois não eram políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do setor e sim um programa de governo, que interessava apenas a alguns.

O Debate – Quais as principais conquistas da Rede Mandioca desde seu surgimento até hoje?

Jaime Conrado – Já podemos citar algumas conquistas durante esse período: organização política e produtiva dos grupos beneficiados, melhora na qualidade, aumento e diversificação da produção, garantindo aumento da renda e perspectiva de autossustentabilidade, inserção nas discussões, articulações e conquistas de políticas públicas e desenvolvimento sustentável, novas perspectivas de comercialização, através de feiras locais, estaduais e nacionais, compra direta, saindo de cena a figura do “atravessador”, preços mais acessíveis, recuperação da autoestima dos produtores de mandioca, retomada do fundo de crédito na lógica da economia popular solidária e direcionada para a cultura da mandioca, maior visibilidade das temáticas e maior reconhecimento da instituição e da Rede junto à sociedade e Estado, papel articulador e de referência da Rede e movimento de economia popular solidária, favorecimento de intercâmbio com experiências de grupos acompanhados pela Cáritas Brasileira de outras regiões do Estado, entre outros. Também nessa caminhada temos alguns desafios: ampliação da Rede estadual e regionalmente, diversificação de fontes de financiamento e apoio, que temos hoje do Banco do Nordeste, aprimoramento do processo produtivo na perspectiva da garantia da qualidade, certificação, diversificação e verticalização, ampliação dos contatos para favorecer o fortalecimento e diversificação do processo de comercialização, constituição de um espaço de apoio e referência da cultura da mandioca, criação de condições de apoio às novas comunidades e grupos que estão aderindo à Rede e maior incidência junto ao Estado para definição de políticas públicas específicas de fomento à cultura da mandioca junto a Rede, como assistência técnica e crédito.

O Debate – A Rede Mandioca realiza, de 10 a 12 de novembro, seu primeiro festival estadual. É ideia torná-lo anual? Itinerante?

Jaime Conrado – Sim. Pensar na criação de um espaço onde os grupos possam, além de obter mais informações e trocar experiências sobre as suas realidades, possam também mostrar e comercializar seus produtos diretamente ao consumidor, tendo a oportunidade de explicar o processo de produção, manuseio das culturas, uso de remédios alternativos etc. Quanto à questão de se tornar itinerante, teremos que pensar junto com a coordenação da Rede, pois quando pensamos em realizar o Festival em São Luís, era principalmente pela visibilidade. Mas vamos ver essa possibilidade de realizarmos em outros lugares.

O Debate – Apesar do nome, a Rede Mandioca trabalha com outros produtos, como pequenos animais, azeites, coco babaçu, cachaça, artesanato, produtos do extrativismo, entre outros, dentro das perspectivas da economia popular solidária. Quais os principais avanços neste campo, tanto no cenário nacional quanto estadual?

Jaime Conrado – O grande avanço nesta questão foi a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, no início do primeiro mandato do Presidente Lula, que permitiu, ainda timidamente trabalharmos com algumas políticas para o setor. No Maranhão foi criada uma Secretaria do Trabalho e Economia Solidária que iria tratar das questão voltadas para a economia solidária. Durante os dois anos de sua existência as ações da secretaria estavam direcionadas para a capacitação de jovens para o mercado de trabalho, visando principalmente os grandes projetos que virão para o Maranhão. As ações de economia solidária foram pontuais e conforme o interesse das pessoas que estavam à frente da referida secretaria e com isso não avançamos nesse campo da economia solidária aqui no Maranhão. Atualmente essa secretaria está a serviço do grande capital. Todo o trabalho realizado está reduzido a capacitações de jovens formando mão de obra para a siderúrgica e a refinaria. Estão sendo realizadas algumas feiras em quase todo o Estado, algumas mais permanentemente, a exemplo de Vargem Grande e outras mais esporádicas, como em Codó, São Mateus e Imperatriz.

O Debate – Passadas as eleições, é possível prospectar um cenário para os próximos quatro anos a partir dos resultados, tanto no Brasil quanto no Maranhão?

Jaime Conrado – Acredito que a Senaes [a Secretaria Nacional de Economia Solidária] possa migrar para uma secretaria especial ligada à Presidência da República, que com certeza irá ampliar mais as ações para a economia solidária. No Maranhão, não vejo esses quatros próximos anos com otimismo para economia solidária. É claro o direcionamento do governo do estado para o grande capital, portanto, a economia solidária será vista como caridade, solidariedade, e não como uma política para esse setor econômico da sociedade.

PROGRAMAÇÃO

Dia 10 (quarta-feira): 16h: Abertura oficial do 1º. Festival Estadual da Rede Mandioca > Lançamento da nova logomarca da Rede Mandioca > Feira (Praça Valdelino Cécio) > 19h: Show de Chico Nô (Praça Valdelino Cécio).

Dia 11 (quinta-feira): Seminário Estadual sobre Produção, Beneficiamento, Comercialização e Consumo Ético Solidário (Auditório Rosa Mochel, Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho). 9h: Mesa: Produção e beneficiamento da produção agroecológica (Rede de Agroecologia do Maranhão/RAMA, Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão/ASSEMA, Associação dos Trabalhadores(as) Rurais da Comunidade de Cantos dos Bois/Vargem Grande/MA) > 10h30min: Mesa: Fundos Rotativos (Clarício dos Santos Filho/BNB/ETENE) > 15h: Feira (Praça Valdelino Cécio) > 19h: Show: Forró Pé no Chão de Seu Raimundinho (Praça Valdelino Cécio).

Dia 12 (sexta-feira): 10h30min: Mesa: Comercialização e Consumo Ético Solidário (Instituto Marista de Solidariedade/IMS, Companhia Nacional de Abastecimento/Conab, Cooperativas dos Trabalhadores Agroextrativistas de Vargem Grande/Coopervag, FNDE/PNAE) (Auditório Rosa Mochel, Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho) > 15h: Feira (Praça Valdelino Cécio) > Show: Cesar Teixeira (Praça Valdelino Cécio).

SEMANA DA SOLIDARIEDADE

DOM DEMÉTRIO VALENTINI*

O mês de novembro sempre evoca a Cáritas. Não é por menos. Ela faz aniversário no dia 12, lembrando sua fundação em 1956, por obra e graça de Dom Helder Câmara. No mês do seu aniversário, para festejá-lo bem, a Cáritas Brasileira promove a Semana da Solidariedade, tendo o dia 12 como referência para definir seu calendário.

Neste ano, a Semana da Solidariedade faz apelo a duas circunstâncias, ambas especiais, e que interpelam a Cáritas. A primeira é a importante definição política que o País acaba de realizar, com o término das eleições, que dessa vez foram amplas e gerais.

Definidos os comandos políticos, nas esferas nacional e estadual, sejam quais forem as composições resultantes, uma constatação salta aos olhos: o governo sozinho nunca resolverá todos os problemas do povo. Sempre haverá necessidade de iniciativas e de participações, que superam as restritas obrigações legais e apelam para a solidariedade.

A solidariedade não precisa ser eleita, mas sim reconhecida, incentivada, organizada e assumida. Ela motiva a cidadania, que lhe aponta as urgências prementes, dando-lhe os contornos definidos; oferece ao Estado os seus préstimos, que acabam viabilizando uma administração pública com plenas garantias de estar a serviço das verdadeiras causas do governo, é sempre bem-vinda, sempre tem seu lugar, sempre contribui com valores que passam a ser melhor integrados nos relacionamentos sociais, econômicos, políticos e culturais.

Semente fecunda – A outra circunstância especial da Semana da Solidariedade deste ano é o Prêmio Odair Firmino, criado recentemente e que terá o seu primeiro ganhador nessa ocasião. O nome lembra a pessoa que todos recordam com saudade e admiração Odair Firmino. Ele esteve décadas ligado à Cáritas, deixando um inequívoco testemunho de humanidade, respeito, competência e identificação com os ideais dessa instituição. Odair foi a pessoa que todos gostariam de ter como companheiro de luta, como amigo de todas as jornadas, como figura a inspirar otimismo e confiança.

Realmente não podia ter sido escolhido nome mais adequado do que este, que recorda uma presença inesquecível para a Cáritas Brasileira. O objetivo do Prêmio Odair Firmino é incentivar a consolidação das Cáritas Diocesanas e impulsionar o surgimento das Cáritas Paroquiais, conforme meta estabelecida na última Assembleia da Cáritas Brasileira.

Enfim, cada vez mais se comprova que a semente fecunda da solidariedade encontra chão propício no seio das comunidades próximas à vida do povo, às paróquias, com suas ramificações comunitárias.

Neste chão, a solidariedade encontra mais facilmente condições propícias para a gratuidade, que enobrece sobremaneira a solidariedade e lhe dá o sabor especial da caridade consciente, atenta e organizada, permitindo iniciativas que dão motivações novas para as comunidades, despertando-as para a participação social adulta e comprometida.

A Semana da Solidariedade, com a concessão do Prêmio Odair Firmino, certamente deixará marcas especiais neste ano que tem muito de especial para a nossa realidade brasileira.

*Dom Demétrio Valentini é bispo de Jales (SP) e presidente da Cáritas Brasileira. Artigo originalmente publicado na Revista Família Cristã nº. 76, de novembro/2010.

A outra grande notícia do ano

Depois do lançamento da Caixa Preta de Itamar Assumpção, sobre o que muito já falei cá neste blogue, a mesma euforia-ansiedade tomou conta de mim depois da informação do relançamento, pela Iluminuras, de Catatau, prosa de estreia de Paulo Leminski. Abaixo, copio desavergonhadamente matéria da Gazeta do Povo (31.out), inclusive a legenda da foto do poeta-samurai, para dividir com vocês a notícia que me foi dada por Reuben da Cunha Rocha, via gtalk.

A ESFINGE INDECIFRÁVEL

Iluminuras reedita Catatau, o livro de estreia de Paulo Leminski, publicado em 1975 e há alguns anos fora de catálogo

Marcio Renato dos Santos


Decifrar o romance experimental de Leminski é tão difícil quanto acertar os seis números da Mega-Sena

Paulo Leminski (1944-1989) mostrou muitas de suas intenções e antecipou o que viria a fazer no futuro em Catatau [Iluminuras, 256 págs., R$ 44], o primeiro livro que publicou, em 1975, e que acaba de ser reeditado pela Iluminuras.

A obra é uma espécie de esfinge, que tende a devorar todos os que dela se aproximam. Decifrar o romance experimental é tão difícil quanto acertar os seis números da Mega-Sena. Sem exagero, talvez seja até mais fácil faturar o grande prêmio em dinheiro do que decodificar o que Leminski fez em seu projeto inicial de ficção, que provocou e ainda provoca turbulência na literatura brasileira.

O argumento da obra já é uma isca que tende a seduzir, e a fisgar, o leitor. Renatus Cartesius, o protagonista e narrador, é um sujeito que chega ao Recife em meio às embarcações de Maurício Nassau, no século 17, nas chamadas invasões holandesas.

O nome do protagonista é uma referência ao filósofo francês René Descartes (1596-1650), e essa escolha é irônica. Cartesius não consegue ser cartesiano nos quentes trópicos tupiniquins.

Cartesius, a exemplo dos personagens de Esperando Godot, de Samuel Beckett, espera algo e, nesse tempo, se faz a obra. O personagem de Leminski delira. E é nesse estado de torpor que o texto flui, como um rio ou sonho, e isso lembra, em alguma medida, Ulisses, a obra máxima de James Joyce.

A narração também é marcada por elementos de música e poesia. O poeta e compositor que Leminski já era quando escreveu Catatau aparece nas linhas do romance e, para conferir, basta fazer um recorte, ao acaso: “O olho cheio sobe no ar, o globo d’água arrebentando, Narciso contempla narciso, no olho mesmo da água. Perdido em sim, só para aí se dirige. Reflete e fica a vastidão”.

Muito mais do que eventualmente “dizer alguma coisa”, e Catatau diz muito, o texto do livro, enquanto linguagem, é algo que merece ser levado em conta. Há muita experimentação. Os jogos de palavras, que iriam se eternizar em breves poemas do autor, sobretudo na década de 1980, pululam em meio à prosa mais do que inventiva: “O osso do ofício no orifício disso”.

Leminski desconstruiu máximas. Ao invés de dizer, como se fosse Descartes, “Penso, logo existo”, Cartesius enuncia outras frases, como essa: “Quando Uganda balanganda, palácios balançam”.


Catatau. Capa. Reprodução

Há trechos incompreensíveis, feitos a partir da fusão de inúmeros idiomas, que apresentam o Leminski poliglota que iria se revelar como futuro tradutor de John Lennon e John Fante. O leitor, em algum momento da longa narrativa, pode ter a impressão de que não está entendendo nada. Isso é intencional. Diz respeito ao propósito da obra. Catatau é jorro de palavras, como a vida é uma sequência contínua de fatos nem sempre explicáveis, e incessantes.

Depois da edição inicial, saiu uma segunda versão, em 1989, pela Sulina. A Travessa dos Editores viabilizou em 2004 uma terceira edição, com estudo crítico, e agora a Iluminuras faz uma quarta publicação para, mais uma vez, disponibilizar a obra que estava esgotada.

Observando o contexto atual, não é exagero afirmar que Catatau dialoga com a internet e a ideia dos hiperlinks. Afinal, cada linha e página do livro remetem a inúmeras referências, da mitologia grega à sabedoria de botequim. O leitor também pode, por exemplo, abrir e ler apenas uma página e, no dia seguinte, retomar a leitura em qualquer outro trecho. A não linearidade, uma marca de 2010, já se fazia presente no livro publicado há 35 anos.

Com Catatau, Leminski deixou uma pedra no caminho dos estudos literários. Os professores e estudiosos ficaram com um mistério diante de si. O que dizer de Catatau? Ao mesmo tempo, o livro pode proporcionar prazer aos que ousarem se embrenhar pelas páginas que exigem, e, muito, a participação ativa do leitor.

A trajetória engenhosa de Leminski

Nasceu em Curitiba, no dia 24 de agosto de 1944. Em 1958, com 14 anos, passou 12 meses no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Participou do 1º Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte.

Em 1965, tornou-se professor de História e Redação. Posteriormente, atuou na publicidade. Foi letrista de canção popular. Verdura, de sua autoria, foi gravada por Caetano Veloso.

Entre os seus livros, destaque para Polonaises (1980) e Distraídos Venceremos (1987). Morreu no dia 7 de junho de 1989, em Curitiba.

Dois caras que admiro

“o destino da grana justifica a origem? por que escritores desconfiam de críticos mas não de seus editores? desafios ao poder com financiamento do poder representam risco para o poder ou para quem o desafia?”

Uma série de indagações inteligentes, de Reuben da Cunha Rocha, em cavaloDADA, sua reestreia (mais ou menos) na blogosfera.

Blogue em construção, em breve é a vez de Eduardo Júlio dar as caras em Trilha transe: transem suas trilhas!

Bem vindos, irmãos!

Feriadão…

Sábado passado (30) aconteceu no Colégio São Marcos uma feira artística, ou mostra, ou coisa que o valha. Articulei, com o professor Tocantins, a participação do grupo Nagô, que além de expor pinturas em tela, trabalhou um grafite num muro da escola (arrebatamos uma “justiça cabisbaixa”, de Bruno Galvão, que posso depois mostrar aqui).


Foto: Zema Ribeiro

Esse aí é o trampo da galera do grupo Nagô. A preocupação com o meio ambiente pautou a arte, na qual me senti homenageado: “esse cara aí com o regador sou eu, molhando o roseiral que tenho no terraço de casa”, pensei e disse, antes de ir fazer essa foto. De lá, desci com a galera do Nagô para tomar umas na Gabi. “Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor” (Chico Science):


Da esquerda para a direita: Valdemar, o blogueiro, Bruno e Ronald. Foto: Graziela Nunes