MARANHÃO NA TELA PODE NÃO ACONTECER EM 2010

Sem recursos, festival corre risco de não acontecer em 2010. O Debate entrevistou Mavi Simão, sua idealizadora e produtora

POR ZEMA RIBEIRO
DA REDAÇÃO

Ao tempo em que tem um dos mais antigos festivais de cinema e vídeo do Brasil, o Guarnicê, com 33 edições realizadas, São Luís do Maranhão padece com a falta de espaços para a exibição de filmes de arte – ou ao menos fora do padrão comercial americano. Resiste bravamente o Cine Praia Grande, encravado no bairro homônimo, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho. Apesar da inauguração de mais meia dúzia de salas em um shopping recém-instalado na capital, estas somam-se às de outro na missão de quase sempre reproduzir o padrão hollywoodiano, raras exceções para filmes nacionais de gosto duvidoso – exceções há – e, em voga agora, documentários sobre times (e suas torcidas) de futebol – nada contra.

Realizado em São Luís desde 2007, o festival Maranhão na Tela vinha, ano após ano, somando-se ao Guarnicê de mais de três décadas, na trincheira de mostrar ao público maranhense produções que não costumam frequentar as salas comerciais. O Maranhão na Tela, aliás, não se resumia às sessões de exibição de filmes: atividades de formação e fóruns de debates, somadas a presença de diversos realizadores em geral longe de holofotes mais novelescos, ajudavam a mostrar seu diferencial.

Os verbos no pretérito nos parágrafos acima apenas traduzem a real situação por que passa hoje o Maranhão na Tela: anualmente o festival acontece em dezembro, mas todo o segundo semestre é movimentado por ele, em atividades prévias – oficinas de produção, por exemplo, tinham o resultado exibido durante o festival. Hoje, sua produção se vê às voltas com o fantasma da possível não-realização em 2010.

O projeto da edição deste ano do Maranhão na Tela tem aprovados para captação pela Lei Rouanet no Ministério da Cultura R$ 700 mil. Nas edições anteriores captou 315 mil reais (2009), 245 mil (2008) e 125 mil (2007). De acordo com a produção, “ao menos 100 mil reais são necessários para não deixar de realizar o festival este ano e ganhar tempo para correr atrás para o ano que vem”.

O Debate conversou com Mavi Simão, sua idealizadora e produtora. Do Rio de Janeiro, onde mora, ela respondeu às perguntas por e-mail.


[A produtora Mavi Simão luta para realizar o Maranhão na Tela em 2010. Foto: divulgação.]

O Debate – O Maranhão na Tela 2010 está aprovado na Lei Rouanet, podendo captar até 700 mil reais. Quanto, de fato, é necessário para a realização da quarta edição do festival, mantendo a qualidade e o nível da programação dos anos anteriores?

Mavi Simão – Se pudéssemos contar com um recurso de 250 mil reais dava para manter parte das ações, com a mesma qualidade ou até melhor, já que procuramos sempre evoluir com o aprendizado dos anos anteriores. Mas como estamos praticamente no mês de outubro, algumas ações já foram inviabilizadas por conta do pouco tempo que temos para produzir. Algumas oficinas, por exemplo, já foram inviabilizadas, pois há todo um processo de envolvimento dos jovens e seleção de personagens, produção, edição, enfim. Geralmente essa produção começa em agosto para filmarmos em outubro. Dá para envolver jovens egressos das oficinas anteriores em todas as demais ações e também homenagear os mestres que já participaram da série. Realizar quatro edições dos cursos teóricos também não é mais possível. Com o prazo que temos hoje, conseguiríamos fazer dois cursos, no máximo.

O Debate – Que contatos a produção do Maranhão na Tela já fez? Quem já deu “nãos”?

MS – Os contatos ao longo do ano foram com a Vale, que nos patrocinou em 2007 e 2008. Deixou de patrocinar por causa do ECAD [o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais], pelo menos é isso o que alegam. O ECAD nos cobra R$ 8,5 mil e como entramos na justiça questionando a cobrança, eles enviam notificações aos patrocinadores, cobrando o pagamento. Na MPX/EBX elogiaram muito o projeto, o relatório com os resultados, o retorno de mídia, mas não renovaram porque os mais altos diretores não aprovaram nenhum investimento em projetos sócioculturais no Maranhão. Explorar os recursos naturais do estado eles fazem com muito gosto! Na hora de devolver, pelo menos um pouquinho… O Sebrae Maranhão já confirmou a continuidade do patrocínio, ainda que pequeno [cerca de R$ 50 mil, com o risco de interrupção ano que vem, por conta de uma provável mudança de gestão]. O Sebrae Nacional também prometeu apoiar, com um recurso pequeno [aproximadamente R$ 30 mil. O projeto está sendo analisado pela equipe de marketing e a resposta deve sair na primeira quinzena de outubro]. Na Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão nosso diletíssimo secretário [Luiz Henrique de Nazaré Bulcão] nem ao menos me recebeu. E olha que tentei muito! Depois de um longo namoro, iniciado em 2007, com o SESI/FIEMA, finalmente ia sair o casamento. Tudo aprovado [R$ 150 mil], mudou a presidência da FIEMA e a área de cultura foi integrada à de esporte. O diretor do SESI e a coordenadora de cultura não estão mais lá [não sabe dizer se foram exonerados] e tudo foi por água abaixo. Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia/Univima: disseram que vão apoiar com material gráfico, por conta de terem dado o cano na gente ano passado. Na gestão do professor Othon [Bastos, ex-secretário de estado de Ciência e Tecnologia] eles eram grandes parceiros, agora ‘tá meio complicado. A Cemar também ia apoiar [entre R$ 10 e 15 mil], mas nosso contato também saiu de lá. O Ministério da Cultura poderia nos apoiar [cerca de R$ 50 mil] via FNC [o Fundo Nacional de Cultura], mas a solicitação tem que ser feita por uma ONG e não consegui um parceiro para isso, o que é meio complicado por conta da responsabilidade que a ONG assumiria sobre o recurso liberado. Inscrevi o projeto no edital da Petrobrás, mas não rolou. Pelo que vi na lista dos festivais selecionados, eles só patrocinam projetos consolidados, com mais de 10 edições. Mas como a gente se consolida sem patrocínio? Na Eletrobrás, idem. A FUNC [Fundação Municipal de Cultura de São Luís], sem recursos, a Secretaria Municipal de Turismo também.

O Debate – Você acredita que o fato de estarmos num ano eleitoral ajuda ou atrapalha? Por quê?

MS – Atrapalha muito! Tudo passa a girar em função disso. O projeto perdeu totalmente a importância e a prioridade, além do fato de que a campanha eleitoral inflaciona o mercado de serviços.

O Debate – E o fato de você morar no Rio de Janeiro, ajuda ou atrapalha?

MS – Ajuda e atrapalha! Ajuda na questão do conteúdo do projeto, pois daqui podemos ter contato direto com diretores, produtores, atores, professores, oficineiros, diretores de festivais, canais de televisão etc. Isso amplia e fortalece nosso raio de ação, além de promover uma troca mais intensa e de boa qualidade. E atrapalha na questão da captação de recursos locais, pois sou vista como uma pessoa “de fora” tentando “tomar” espaço de quem mora aí, o que não é verdade! Se tivéssemos regularidade de recursos, editais, políticas e mecanismos claros, a distância não seria problema, pois temos uma equipe ótima aí e ela poderia passar a ser fixa, com base própria e tudo mais, o que é o ideal.

O Debate – Que planos-b estão sendo pensados pela produção do Maranhão na Tela?

MSOu conseguimos recursos para essa edição ou o projeto acaba. Se rolar só o recurso do Sebrae, vamos focar na realização do festival, enxugando o possível e o impossível para ganharmos fôlego pra recomeçar a batalha no ano que vem, quando o projeto completará cinco anos, com nova Lei Rouanet, sem eleições, enfim, com um cenário mais estável e favorável. Nossas intenções sempre foram as melhores e mais sérias, nunca pensei em fazer um projeto pra inglês ver. Sou apaixonada pelo Maranhão na Tela, acredito fortemente que o Maranhão tem um potencial enorme para virar pólo de produção cinematográfica regional. Vibro com os resultados e o envolvimento dos jovens, dos alunos, do público do festival. Esse projeto tem sido minha vida há quatro anos e estou muito, muito triste em vê-lo nessa situação. O Maranhão merece o Maranhão na Tela e vou continuar lutando até o último instante.

[O Debate, hoje]

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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