Arquivo mensal: janeiro 2010

MONARCO E MOYSEIS MARQUES: AS ÓTIMAS VELHA E JOVEM GUARDAS DO SAMBA


[Até os azulejos são de azul e branco portelense]

Monarco (foto) – que a imprensa local começou a chamar Monarco da Portela, e não os critico por isso, embora não hajam Monarcos da Mangueira (ele já morou lá), Salgueiro, Império, Beija-Flor ou qualquer outra escola de samba – faz show hoje em São Luís. Serviço: R$ 20,00, 22h, no Circo da Cidade – que apesar de hoje levar o nome de Circo Cultural Nelson Brito, em merecida homenagem ao ator que completa um ano de subido dia 11 (outro serviço: missa na Igreja de Santo Antonio, às 19h), como tantas outras coisas, permanecerá sendo chamado pelo nome velho.

Com todo respeito a São Francisco, é incrível a pobreza franciscana das informações sobre a apresentação de logo mais, que o autor de Vai vadiar (sim, o clássico “de” Zeca Pagodinho) faz acompanhado de Moyséis Marques, “garoto bom que está no caminho certo”, segundo o próprio Monarco declarou na matéria Monarco da Portela em roda de samba (acesso exclusivo para assinantes, mediante senha), assinada pela jornalista Bruna Castelo Branco no caderno Alternativo (O Estado do Maranhão) de hoje, de longe o texto mais informado-informativo sobre “a primeira vez que o músico se apresenta em São Luís” – até ler a matéria hoje pela manhã eu não sabia, por exemplo, o preço do ingresso (não divulgado no material da própria produção).

Essa pisada de Monarco na Ilha é acontecimento histórico. Além de ser a primeira vez que o sambista dá o ar da graça por aqui – já conta 76 anos – além de seu canto firme e composições certeiras, estaremos – os que forem ao show – diante de uma antologia viva do samba. Se liga, rapaziada mais nova que adora ouvir, por exemplo, Marisa Monte: Monarco é um de seus, digamos, “conselheiro”. É uma das figuras que abre o baú da Velha Guarda da Portela (e do samba, carioca, brasileiro…), que integra desde sempre, pescando pérolas. Sacam o Universo ao meu redor? Pois é, há muito de Monarco ali, podem apostar (embora ele não assine nenhuma das composições). Foi via Monarco, por exemplo, que Pedro Miranda chegou a Velhice – calma! É o título da música –, inédita e rara parceria do mangueirense Nelson Cavaquinho e do portelense Alcides Malandro Histórico (que foi parceiro de Monarco).

Ainda você, fã de Marisa Monte: conhece o Tudo azul, disco da Velha Guarda da Portela produzido por ela, com a participação de um monte de gente boa? – Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Cristina Buarque, além da própria Marisa. Se você, fã da Marisa Monte (antes de me acusarem de ironia, afirmo: tenho todos os discos dela, incluindo o Tribalistas, com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown) ou do Zeca Pagodinho, não conhece Hildemar Diniz (nome de pia de Monarco, apelido que ganhou na infância), não lhe culpo – nem todo mundo tem minha “mania de velho” de ler letras miúdas e coisas “menos importantes” em encartes de discos –, e aos que moram em São Luís eis aí uma ótima oportunidade.


[A capa de seu clássico disco de 1976: nele estão O quitandeiro, Lenço e Tudo, menos amor, entre outros clássicos “monárquicos”]

Amostras do raro talento “monárquico” – sim, coisas de “rei” (do samba): “Seguirei a ordem do meu coração/ não me fale de amor, nem tampouco me peça perdão/ eu não vejo honestidade em teu semblante/ falsidade, isso sim, eu vi bastante/ pega esse lenço e não chora/ enxuga o pranto, diga adeus e vá embora” (Lenço, de Chico Santana e Monarco, já gravada por Paulinho da Viola, Beth Carvalho e Zeca Pagodinho); “Você não foi meu primeiro amor/ nem tampouco o segundo/ a sentir saudade nesse mundo/ mas alguém está sentindo/ quero morrer se acaso estou mentindo” (Amor de malandro, de Alcides Malandro Histórico e Monarco, homônima a outro clássico de Francisco Alves e Ismael Silva, por Luiz Melodia); ou “Ouvi cantando assim/ ô ô, ô ô/ a majestade do samba/ chegou, chegou/ corri pra ver, pra ver quem era/ chegando lá era a Portela” (Corri pra ver, de Casquinha, Chico Santana e Monarco, pela Velha Guarda da Portela); ou “Eu quis te dar um grande amor/ mas você não se acostumou/ a vida de um lar/ o que você quer é vadiar” (Vai vadiar, de Monarco e Alcino Corrêa, por Dona Ivone Lara e Zeca Pagodinho); ou “Tudo que quiseres te darei, ó, flor/ menos amor/ darei carinho/ se tiveres a necessidade/ e peço a Deus para lhe dar muita felicidade/ (…)/ mas o meu amor, jamais (Tudo, menos amor, de Monarco e Walter Rosa, por Martinho da Vila).


[A capa do ótimo disco de estreia de Moyseis Marques, aberto com a belíssima Nomes de favela, de Paulo César Pinheiro]

Nascido em Minas Gerais, Moyseis Marques, o outro nome carioca do grande show da noite, soa novidade – ah, o detestagradável ar provinciano ilhéu – mas já tem dois discos gravados (o da capa acima, de 2007, e Fases do coração, do ano passado). Talentoso e competente compositor e intérprete, tem se acercado de gente boa – o show de hoje é prova disso – e recebido elogios de nomes como Ruy Castro, Paulo César Pinheiro (de quem gravou o clássico Nomes de Favela) e Joaquim Ferreira dos Santos, entre outros. Merecidos elogios, atestamos.

Monarco e Moyseis Marques serão acompanhados “por Guaraci (violão sete cordas), Alessandro Cardoso (cavaquinho), além de integrantes do grupo Espinha de Bacalhau” (aqui um controlcezinho da matéria de Bruna), que com Neto Peperi (atualmente em carreira solo, o ex-Espinha), fazem a abertura da noite, imagino. Imagino ou desejo, já que eu não quero perder o final da ótima Dalva e Herivelto – uma canção de amor, outro capítulo importantíssimo da música brasileira (desço pra lá assim que subirem as letrinhas: Monarco, Moyseis Marques: atrasem um tiquinho!).

QUE O CLIMA DE FELIZ 2010 DURE POR TODO 2010 E ALÉM…

As fotos abaixo foram tiradas em três ocasiões/farras diferentes (e seguidas: dias 31 de dezembro de 2009, 1º. e 2 de janeiro de 2010). Representam tudo o que desejo a vocês, neste ano, e por todo o sempre, além de saúde (toda possível) e grana (o suficiente para viver sem aperreios, sem carecer ganhar a megassena):

Muito amor


[Grazi e Yo, no reggae de reveião do Chamamaré, en la Ponta d’Areia. Foto: Brunete]

Muita farra


[Yo en la nueva casa de Reginho e Leudiana, curando a ressaca do reveião e preparando outra. Foto: Grazi]

E muita música, poesia, enfim, arte…


[Da esquerda para a direita: Zezé Alves (flauta), Lenita Pinheiro, Célia Maria, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro (o anfitrião), Chico Saldanha, Carlinhos Veloz, Rosemary Teixeira (esposa do anfitrião) e Cesar Teixeira (violão), num memorável encontro de amigos, por onde passou ainda muita gente boa que não apareceu nesse registro. Foto: ZR]

A POESIA MUSICAL DE RAMON MELLO

Livro de estreia do poeta carioca reúne influências musicais diversas.


[Vinis mofados. Capa. Reprodução]

Não estranhem o mofo do título, caros leitores: referência explícita a Caio Fernando Abreu. O conteúdo é poesia vivíssima, ágil, certeira, like a rolling stone. Se pedras que rolam não criam limo, poesia também. O primeiro poema do livro é dedicado a Waly Salomão, desde sempre apaixonado por livros e literatura (Cesta básica, o poema, ligeiro, fala justo dessa paixão), o que mostra o bom acompanhamento do poeta que ao longo de sua estreia presta ainda outros tributos.

Vinis mofados [2009, 94p., Língua Geral, coleção Língua Real, R$ 25,00 no site da editora], de Ramon Mello é, como entrega o título, um livro cheio de referências musicais. Inclusive dividido em lado a e lado b. O autor, nascido em Araruama em 1984, já é da geração do moribundo CD (e mp3, mp4, download etc.), mas traz, neste belo livro-álbum, uma interessante coleção de um pouco de tudo, matéria-prima de sua boa poesia, não confundir simplicidade com facilidade.

“resolvi organizar/ a bagunça na estante:// palavras empoeiradas/ fotografias letras de/ música vinis mofados// e uma coleção de/ romances fracassados”, o poema-título (Vinis mofados, p. 68). Na homenagem a cidade natal, um dos poucos poemas sem explícita referência musical, ele escreve: “bebedouro de araras e/ (alguns) políticos corruptos” (Araruama, p. 25). Não fossem as aves, o poeta poderia ter nascido em qualquer lugar e ainda assim parido este poema.

Aproveitem a promoção: “baratos da ribeiro/ promoção do dia:// elis regina richard/ strauss (zaratustra)/ beatles gal fa – tal// tudo por cinco real” (Sebo, p. 38). Sua poesia, observações (o autor é jornalista), é feita de sentimentos. Uns doem: “toca discos com/ agulha quebrada/ livros encaixotados// gato persa deprimido/ vomitando mudanças/ saudades e bolas de// pelo piano de parede/ mudo chorando/ ausência dos seus// dedos firmes viris/ enquanto escrevo/ versos inúteis” (Partitura, p. 74).

Do alto de sua juventude o que Ramon Mello faz é tirar a poeira e o mofo de seus vinis-poemas, colocando-os na vitrola-olhos-mentes-corações-dos-leitores para tocá-los.

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Este texto deveria ter saído na Tribuna Cultural há duas semanas; no domingo pós-natal o Tribuna do Nordeste não circulou; no domingo pós-ano novo, republicaram meu texto sobre o novo livro da Bruna Beber. Acabou saindo hoje.

RUBEM FONSECA: FIEL A SI MESMO


[O seminarista. Capa. Reprodução]

Aos quase 85, Rubem Fonseca segue genial. Talvez outros adjetivos caibam para falar de O seminarista [Agir, 2009], seu novo romance. Uns podem ver neste novo Rubem Fonseca ecos de… Rubem Fonseca. E não há mal nenhum nisso.

O título pode enganar, homônimo a clássico da literatura brasileira, de Bernardo Guimarães. Justifica as muitas citações em latim do protagonista, um ex-seminarista, assassino profissional que tenta largar a função. Em vão. (Quase) um vício. Mesmo depois de mudar de nome e se apaixonar pela bela Kirsten.

As chaves para entender a literatura do mestre, nascido em Juiz de Fora/MG, mas carioca “desde os oito anos de idade”, são as semelhanças entre o autor José Rubem Fonseca e o matador de aluguel José Joaquim Kibir: além do primeiro nome, a reclusão (o autor de Agosto só dá entrevistas muito raramente e não gosta de falar em público, ao menos não no Brasil), o gosto por bons vinhos, poesia e rock.

Todo narrado em primeira pessoa, o livro é carregado de cenas crueis: José dá detalhes de serviços que fez, entre o humor negro e o nonsense e há graça nisso. Rubem Fonseca, um dos escritores brasileiros mais respeitados fora do país (onde fala em público e costuma lotar auditórios), dá conta da engenhosa trama de mistério: quem quer matar O Especialista? (assim Kibir é conhecido por quem o contrata). Somos levados a desconfiar, como ele próprio, de todos.

Rápido obtemos resposta (mais não conto para não estragar-lhes a surpresa): a leitura rápida certamente agradará não só os leitores de ficção policial. Aos quase 85, Rubem Fonseca segue em forma.

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Comentariozinho sobre minha recém-concluída primeira leitura do ano novo. O título do post foi influenciado por essa resenha do Ronaldo Bressane. Meu exemplar não veio acompanhado do conto-bônus A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro, citado por esta matéria da Bravo! No site do livro pode-se ouvir Rubem Fonseca lendo trecho do conto e do primeiro capítulo de O seminarista.