GOVERNO MICARETA

Uma das melhores coisas do Vias de Fato é ter o grande jornalista Cesar Teixeira escrevendo regularmente, dando uma vitaminada na combalida imprensa maranhense. Escrevendo e desenhando: o também poeta e compositor venceu diversos salões de artes plásticas entre o fim da década de 1960 e início da de 70 e tem, a cada edição do jornal mostrado seu talento também como chargista.

Abaixo, texto e charge dele na edição ora nas bancas (nº. 4, janeiro/2010). Em breve posto aqui meu texto publicado na mesma edição.

SAÚDE DO BOI AMEAÇADA POR MICARETA FORA DA LEI
por Cesar Teixeira


[Charge: Cesar Teixeira]

Em 2009, depois tanta pandemia na esfera política, surgiu uma nova tentativa de esterilização da nossa cultura popular: o Bumba Ilha. Promovido pelo Governo do Estado, o espetáculo fora de época ocupou a Av. Litorânea dias 28 e 29 de novembro com toda a parafernália da micareta ali reproduzida desde 1995 pela Marafolia, empresa do grupo Sarney investigada pela Polícia Federal na Operação Boi Barrica.

Na contramão dos trios elétricos, outra atitude oficial buscou a afirmação desse tradicional folguedo de modo diferente. Mal as mutucas da Litorânea haviam curado a ressaca, o Governo Federal, por meio da Lei nº. 12.103 de 1º de dezembro de 2009, instituiu o dia 30 de junho como Dia Nacional do Bumba Meu Boi.

Trata-se do Dia de São Marçal, comemorado desde o final da década de 30 nos “areais do João Paulo”, limite do perímetro urbano de São Luís que as portarias da Chefatura de Polícia impediam ser ultrapassado pelas brincadeiras de boi procedentes do interior da ilha (há registros de que essas proibições remontam o início do séc. XIX).

A Lei que cria o Dia Nacional do Bumba Meu Boi, publicada no Diário Oficial da União de 02/12/2009, teve por base o Projeto de Lei nº. 133/2009 da Câmara Legislativa, de autoria do deputado Carlos Brandão (PSDB/MA), um dos pais-franciscos do Maranhão do Sul.

Conforme o Ministério da Cultura, que deu parecer favorável ao projeto, a iniciativa pretende contribuir para o fortalecimento da diversidade cultural brasileira, engajando-se assim à Convenção da UNESCO sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais.

Essa diversidade cultural, no entanto, parece não ser reconhecida pelo Governo Roseana Sarney, onde gestores querem ser “fazendeiros” de boi, a exemplo do Secretário de Saúde, Ricardo Murad, principal articulador do Bumba Ilha, terceirizado pela Secretaria de Estado do Turismo, de Tadeu Palácio, com a intenção de manter o capim no latifúndio da oligarquia.

Camarilha – Por meio de convênio, a Foundation São Luís Convention & Visitors Bureau, presidida pelo ex-deputado Eleotério Nan Souza, recebeu 1 milhão de reais para produzir o Bumba Ilha. Simultaneamente, a empresa foi contratada por R$ 1.700.000,00 para organizar o I Salão de Turismo do Maranhão. Ninguém ignora os estreitos laços que o empresário mantém com o grupo Sarney.

A festa teve ainda o “apoio” da Liga Independente do Bumba-meu-boi do Maranhão, controlada por Ricardo Murad, acusado de privatizar a saúde pública, desrespeitando a Lei Orgânica do SUS (Art. 24 da Lei nº. 8080). O Secretário, padroeiro de escola de samba, é também ironizado por “privatizar” a Festa da Juçara e a Lagoa da Jansen, só faltando reconhecer firma do Boi e da Litorânea.

O Bumba Ilha reuniu cinco bois (Nina Rodrigues, Morros, Axixá, Maioba e Maracanã) e uma companhia de dança, com o Bicho Barrica (mistura de Boi Barrica com Bicho Terra), que desfilaram pela orla marítima de São Marcos. Substituindo abadás, mais de 15 mil camisas apelidadas “couro de boi” foram distribuídas entre os grupos e admiradores por membros da indigitada Marafolia.

Em sua defesa, os organizadores alegam que o Bumba Ilha não é São João fora de época, mas uma releitura das toadas do boi com o objetivo de criar novos seguidores e “mostrar os nossos ritmos para as pessoas” (sic). A idéia suscitou críticas e foi parar na Internet, invadindo até os blogs miranteanos.

“Sai a Maracutaia da Marafolia e entra a Camarilha do Bumba Ilha. Essa turma não tem jeito mesmo!”, disse um internauta.

Fora a criação do Dia Nacional do Bumba Meu Boi, é bom lembrar que essa manifestação cultural no Maranhão está em processo de registro como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Portanto, o governo micareta de Roseana age mal, ameaçando a originalidade e a saúde do bumba-boi em favor de interesses particulares, entre eles as eleições de 2010.

Mas a manipulação da cultura popular e os batizados compulsórios já é coisa antiga.

Puxando pela corda o amestrado Secretário de Cultura, Luís Bulcão, os honoráveis decidiram agora levar para o “seu terreiro” uma brincadeira que tradicionalmente se apresenta em sítios, povoados e arraiais. Querem se apropriar do boi minando suas raízes e convertendo seus personagens em bibelôs da demagogia, certamente para maquiar o desgaste político da família Sarney, que em 2009 atingiu dimensão internacional.

Água e sabão – Sobre o Bumba Ilha, um outro blogueiro questionou se o objetivo não seria “brindar os órfãos da malfadada Marafolia”, e mais: “Será este um ‘piloto’ para que no ano que vem uma nova lavanderia financeira seja inaugurada e substitua a anterior, que sob investigação fechou as portas? É bom o MP e a PF ficarem de olho. E axé-meu-boi!”.

Segundo informações do Carnasite, especializado em micaretas, a Marafolia poderá retornar no carnaval de 2010. Sem nenhum prejuízo, pois a empresa continua funcionando indoor (em recinto fechado) e em espaços públicos, utilizando a máscara institucional, mudando apenas os motes e endereços. Ou seja, as mutucas do Bumba Ilha estarão novamente atrás dos trios elétricos, envoltos em espumas de sabão do Jaracati.

Mas, “de volta ao trabalho”, o governo de Roseana e Ricardo Murad – tutor das águas e esgotos da CAEMA – sabe que o “boi tá seco” e a política de saúde escorrega ladeira abaixo, diante do golpe da privatização do SUS, com o sucateamento da Farmácia de Medicamentos Excepcionais (FEME) e dos laboratórios de análises clínicas da rede pública, estimulando o desemprego no setor. A intenção seria beneficiar compadres e empresas amigas.

Em meados de dezembro, o Centro de Hemoterapia e Hematologia do Maranhão (Hemomar) comprou por R$ 271.800,00 pela República das Malhas um grande lote de camisas. O contrato assinado por Murad e os “couros de boi” distribuídas no Bumba Ilha são mera coincidência. As camisas do Hemomar seriam para a campanha “Faça renascer uma vida. Doe sangue”.

Ao redor da fogueira de vaidades, as políticas do atual governo fazem parte de uma cultura da desmoralização do Estado Democrático de Direito, cuja saúde já vem debilitada pelos sucessivos escândalos da administração pública no País, e em especial no Maranhão. Isso só interessa à oligarquia que está no poder, acostumada ao beija-a-mão dos puxa-sacos em camarotes fora da lei.

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