Arquivo mensal: dezembro 2009

EDITORIAL

Por mais que as evidências já tenham consagrado a Literatura como a forma de arte que projetou e projeta o Maranhão, tornando-o um Estado reconhecido nacional e internacionalmente em função de seus notáveis poetas, jornalistas, romancistas, ensaístas, críticos e cientistas, os poderes públicos, através de suas instituições culturais, insistem em ignorar essa tradição, negligenciando os compromissos e obrigações para com essa tradição cultural mais expressiva da maranhensidade. E mais uma vez, neste ano de 2009, a Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão deixa, inexplicável e injustificavelmente, de dar curso ao Plano Editorial Gonçalvesa Dias que, no ano passado, através de concurso literário, classificou, premiou e editou mais de vinte escritores, tendo ficado, inclusive, os livros prontos para serem lançados. Enquanto isso, descaracterizando-se o folclore maranhense, em sua tradição de cultura popular mais reconhecida, cria-se o Bumba-Ilha, tipo de Boi de trio elétrico, inclusive, sob o pretexto de divulgar o Turismo do Estado do Maranhão. Ora, me comprem um bode! , exclamaria o escritor mais inocente deste país, que insistem em manter como terra papagalorum, como se o povo maranhense quisesse ser alimentado por regurgitação, como pelicano. Pode-se, então, derramar uma dinheirama para diversão, distraindo o povo, quando se negligencia consuetudinariamente a Literatura. E o pior é que tal procedimento não é um vício de hoje. Basta prestar atenção e se constatará que os escritores, neste Estado, porque, com justa razão, sempre foram idologicamente aqueles modelos de cidadãos que os dirigentes das instituições culturais não têm como padrão, politicamente são de oposição a tudo que visa usar e premiar a ignorância ou a ingenuidade popular como massa de manobra. Sim, escritores e professores pensam e contribuem para que o povo pense, logo são indigestos ao controle e poder.

Nada contra o folclore, que é coisa nossa, mas tudo contra a descaracterização e os fins para que, suspeita-se, é usado. Por isso, na aurora dos 400 anos de Fundação de São Luís, é bom alertar a classe de escritores com aquela convocação irrecusável de Unamo-nos contra essa política cultural fascista do populismo e do protecionismo que já vai para três décadas de caveira de burro. Chega de usar o Folclore como trampolim eleitoreiro. Não é bom, é imperativo que o povo seja respeitado em suas tradições e não se deixe usar e desrespeitar.

E lembrem-se, os escritores que ora são lançados pelo Plano Editorial Gonçalves Dias não são safra deste ano de 2009. Muito pelo contrário, são o resultado de Projeto criado e executado pelo Núcleo de Literatura da SECMA/2008, constituído por Alberico Carneiro, Nauro Machado, José Maria Nascimento,Wilson Martins, Antonio Aílton e Zema Ribeiro. E o Guesa Errante tem o subido prazer de divulgar uma das melhores safras literárias dos últimos tempos, resgatada, nesta edição, pelos escritores Antonio Aílton e Ivan Pessoa. Deve-se conferir e dar os créditos a quem de direito. Pelo menos em Literatura o povo sabe e saberá quem é quem. Literatura não se faz com demagogia, mas com talento e invendível sacrifício.

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Lerei os 20 títulos publicados (eram 25 e alguns autores desistiram de publicar, dada a demora da burocracia do Estado) pela Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma). Já tenho a metade, que recebi da própria Secretaria, na condição de jornalista e crítico de literatura (e música) do jornal Tribuna do Nordeste. Confesso que doeu ver ali os nomes de Roseana Sarney, Bulcão e outros, quando sabemos tudo ter sido feito na gestão Jackson Lago/ Joãozinho Ribeiro: a única coisa que o desgoverno de volta ao trabalho fez foi trocar a folha de rosto das obras.

Não li (ainda) a edição de ontem do Guesa Errante (JP, 10/12/2009), que traz além do editorial esclarecedor acima, resenhas de algumas das obras contempladas no Plano Editorial Secma 2007 (aqui uma correção ao Suplemento: apesar dos vencedores terem recebido suas premiações em dinheiro em 2008 e terem suas obras lançadas quase no apagar das luzes de 2009, o Prêmio Gonçalves Dias de Literatura data de 2007, primeiro ano da gestão Jackson/ Joãozinho), em exercício que deve continuar pelas próximas edições, se bem conheço Alberico Carneiro e sua equipe. Os textos da edição de ontem, de nº. 213 (vida longa ao Guesa!), são assinados por Antonio Aílton e Ivan Pessoa.

Cheguei ao Editorial pelo serviço de alertas do Google, via Maranharte.

DE VOLTA…

Uma semana sumido é algo que raramente acontece por aqui, então cabe uma breve explicação aos poucos-mas-fieis leitores deste modesto espaço: emendei algumas atividades de trabalho e estou em Igarassu/PE, onde se encerra hoje a 17ª. Assembleia Nacional da Cáritas Brasileira. Daqui a pouco participamos da celebração eucarística de encerramento, em Olinda, e pegamos o busão rumo à São Luís.

Por aqui, na cobertura do evento. Entre os raros momentos com folga para internet, soube, via twitter, das balas que atingiram Mário Bortolotto, numa tentativa de assalto a um bar no Espaço Parlapatões, SP, na madrugada de ontem. Estamos na torcida pela pronta recuperação do dramaturgo.

A micro-entrevista abaixo foi publicada no site da Cáritas Brasileira (há outra matéria nossa na capa, sobre o lançamento do Prêmio Odair Firmino de Solidariedade e Direitos Humanos). Colo aí sua versão sem edição. Em breve voltaremos à nossa programação normal. Hasta la isla!

DOM DEMÉTRIO E O SENTIMENTO DE SER CÁRITAS

Presidente nacional da Cáritas Brasileira afirma a importância da memória e utopias de Dom Helder para o fortalecimento do momento presente da instituição.

POR ZEMA RIBEIRO*

A manhã de sábado, 5, segundo dia da 17ª. Assembleia Nacional da Cáritas Brasileira, foi marcada pela exposição das ações dos cinco interregionais presentes à Igarassu/PE, sede do encontro. Os grupos se dividiram em tendas, onde expunham elementos da ação de Cáritas em seus estados de origem, além de elementos culturais dos mesmos.

Diversas entidades-membro apresentaram as principais ações que têm pautado a atuação das Cáritas regionais, diocesanas e arquidiocesanas em 2009. O exercício traduziu, de certa forma, a campanha Somos Cáritas, sobre o que conversamos com o Presidente Nacional da Cáritas, Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales.

O que significa “ser Cáritas”?

Existe uma maneira, vamos dizer assim, oficial de ser Cáritas, que é participar da rede Cáritas, da entidade chamada Cáritas. Mas a Cáritas aponta para uma realidade muito mais ampla, muito mais profunda, onde todos podem se sentir identificados. A proposta da caridade, da fraternidade, da solidariedade, da palavra Cáritas, que carrega um simbolismo muito forte, que possibilita uma identificação muito ampla. Nesse sentido, todos somos convidados a se sentir identificados com o ideal da Cáritas, com a proposta da Cáritas. Aí se alargam os horizontes, todos somos convidados a participar dessa proposta bonita, nós somos Cáritas.

Da origem etimológica da palavra Cáritas, que significa caridade em latim, ao slogan da Semana da Solidariedade em 2009, que dizia que “solidariedade é a força que nos torna humanos”, todos os filhos de Deus somos convidados a ser Cáritas.

A bandeira da solidariedade, que é uma palavra muito usada, inclusive quem gostava muito dessa palavra era o papa João Paulo II, tanto que até o Sindicato [Independente Solidariedade] lá da Polônia, muito caro àquele papa, levava o nome de Solidarność [solidariedade, em polonês], então, a mensagem da solidariedade traduz, na prática, o que a palavra Cáritas quer significar em termos sociais. Do ponto de vista social, a solidariedade abre para a acolhida, o respeito, o incentivo à participação, então a bandeira da Cáritas é a bandeira da solidariedade.

O que significa a realização, nesse momento, da 17ª. Assembleia Nacional da Cáritas?

Nós estamos celebrando a Assembleia da Cáritas num ano muito especial. Por que foi Dom Helder [Câmara] quem fundou a Cáritas e estamos no ano de seu centenário. E estamos num tempo em que há uma espécie de refluxo das grandes utopias, que animavam Dom Helder. Agora, então, a Cáritas se sente no compromisso de levar adiante essas utopias bonitas e traduzi-las, na medida do possível, na prática, através de projetos, iniciativas, através da solidariedade, colocá-las em prática. Então, nesse sentido, estamos num ano importante para recuperar a memória e refazer utopias, para fortalecer o presente que estamos vivendo.

*ZEMA RIBEIRO é Assessor de Comunicação da Cáritas Brasileira Regional Maranhão