MOLHO DE SAMBAS PARA APRECIAR SEM MODERAÇÃO

Segundo disco de Pedro Miranda nasce clássico, destacando seu importante papel de “garimpeiro de pérolas” – no caso, pimentas. Ou sambas em conserva.


[Pimenteira. Capa. Reprodução]

Para além da beleza das pimentas, aparentes no vidro, regadas a molho para aumentar o ardor, é necessário que elas sejam saborosas. Daí a necessidade de uma seleção criteriosa. Leitores de Tribuna Cultural não se assustem: a coluna não virou uma “tribuna gastronômica”, embora o segundo disco de Pedro Miranda seja um prato cheio para apreciadores de samba – enquanto importante gênero da música popular brasileira, já que tem gente que adora torcer-lhe o nariz.

Como boas, bonitas e gostosas pimentas para um molho, é de primeira a seleção que compõe o repertório de Pimenteira [independente, 2009], o título tirado da chula do baiano Roque Ferreira. Neste aspecto o cantor – mais conhecido como pandeirista do grupo Semente, que até hoje acompanha a cantora carioca Teresa Cristina – também se mostra um craque, “assessorado” por Cristina Buarque e Paulão 7 Cordas, antologias vivas do samba brasileiro.

Via Monarco, outra enciclopédia viva, Pedro Miranda chegou, por exemplo, a Velhice, faixa duplamente histórica: além de inédita, marca raríssima parceria de Nelson Cavaquinho (autor de diversos clássicos que exaltam sua Estação Primeira de Mangueira) com Alcides Dias Lopes, mais conhecido como Malandro Histórico da Portela.

Assim, o repertório do disco foge do comum, colocando no mesmo balaio – ou pandeiro – pimentas sonoras cultivadas por figuras já clássicas – Maurício Carrilho, Paulo César Pinheiro (parceiros em Baticum, com a magistral participação especial do Trio Madeira Brasil), Wilson das Neves (Imagem, com Trambique), Elton Medeiros (Na cara do gol, com Afonso Machado), Nei Lopes (Compadre Bento) e o citado Nelson Cavaquinho – e novos nomes – Rubinho Jacobina (Meio-Tom), Moyseis Marques (Cartas de metrô) e Edu Krieger (Coluna social).

Luís Filipe de Lima (violão, violão sete cordas) assina a produção do álbum, merecedor de elogios de um Caetano Veloso – mais acertado ao falar de música que de política. Se Pedro Miranda é um craque na seleção do repertório, todo composto por craques também, não poderia ser diferente o time a acompanhá-lo: Marcello Gonçalves (violão sete cordas), Zé Paulo Becker (violão), Ronaldo (bandolim) – o Trio Madeira Brasil –, Jorge Helder (contrabaixo), Beto Cazes (percussão), Pedro Amorim (cavaquinho), Eduardo Neves (sax, flauta), Rui Alvim (sax, clarone), Mariana Bernardes (cavaquinho), Zé da Velha (trombone), Silvério Pontes (trompete), João Callado (cavaquinho), Esguleba (percussão) e Nicolas Krassik (violinos), entre outros.

São vários os motivos para o de já antológico Pimenteira figurar não só numa lista de melhores discos de 2009, mas entre os melhores já produzidos no Brasil a qualquer tempo.

[Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, ontem]

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

3 comentários em “MOLHO DE SAMBAS PARA APRECIAR SEM MODERAÇÃO”

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