AS IMAGENS SONORAS DO CRIOLINA

Duo maranhense lançou recentemente Cine Tropical, seu segundo disco, cinematográfico.


[Cine Tropical. Capa. Reprodução]

Cine Tropical [2009, Funarte/Projeto Pixinguinha], o novo disco do Criolina, é um sarro. O bom humor permeia sua música-cinema e a vontade que dá é deixá-lo em modo repeat, como a entoar o mantra-pedido da faixa-título: “quem dera/ que fosse sempre primavera/ quem dera/ que fosse sempre réveillon”. Clima de casal em ilha paradisíaca – vide projeto gráfico –, sem obrigações cotidianas e a malfadada rotina. Cinema puro, não? Romance, romance psicotrópico, ação, bang bang, chanchada, aventura, ficção científica e outros, os gêneros estão lá, música e projeto gráfico, como a confessar/apontar as influências.

Alê Muniz e Luciana Simões são um liquidificador delas, aliás: o duo está entre o que há de mais inventivo na música contemporânea produzida no Brasil, o que já demonstrava desde o homônimo disco anterior. Neste segundo, alguns elementos saltam aos ouvidos: a grande carga de latinidade em perfeita sintonia com a cultura popular do Maranhão, o cinema como influência – ouvir Cine Tropical nos dá a agradável sensação de já termos ouvido essas faixas em algumas trilhas sonoras da vida: e o Criolina consegue ser originalíssimo –, e todas as informações musicais, contemporâneas ou não, que o impregnam, mas sem perder a unidade, jamais.

Ah, a unidade. Não deve ter sido fácil para Alê e Lu escolherem as 14 faixas que entraram no disco – 13 músicas e uma vinheta de vozes baseada no sotaque tipicamente maranhense em que He hein (título da faixa) pode significar qualquer coisa, a depender de sua entonação – depois de terem gravado, num estúdio em casa 25 faixas. A isso eles creditam, também, o resultado final do disco: poder gravar sem pressa, sem pressão, refazendo cada detalhe que desejassem, quando o desejassem. Deu certo.

Além da musicalidade à flor da pele, o Criolina é também poeticamente afiado, o que lhe faz completo. Entre os exemplos poderíamos citar o disco inteiro, mas destaquemos São Luís-Havana (parceria do duo com o poeta Celso Borges, que participa da faixa): na hip-salsa-hop, as culturas de Maranhão e Cuba se mesclam em sons, paisagens e mestres: vários, tanto de lá quanto cá são reverenciados. E como poesia não precisa ser sisuda, como já nos ensinaria, a golpes de judô, Leminski, Alê e Lu nos fazem rir: “mas é que um cara com a minha cara/ parado muito tempo no mesmo lugar/ pode levantar suspeita e a polícia levar” (em Namoradinho refém, clima jovem-guardista, cuja temática pode remeter a um Metrô Linha 743 raulseixista – mas é outra coisa). Ou: “nós vive no limite/ nós vive é no vermelho/ entre o paraíso e o caos/ nós adora Amy Winehouse” (em Nó ni pingo d’água, funk-afoxé).

[Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, domingo 8/11/2009]

2 comentários em “AS IMAGENS SONORAS DO CRIOLINA

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