Arquivo mensal: novembro 2009

A LÍNGUA DE BEBER: POESIA

O lançamento de um livro de Bruna Beber é algo que me deixa… ansioso pelo próximo livro de Bruna Beber. É tão bom, e a menina cresce junto com sua poesia, “como cresce no fruto a árvore nova”, Ferreira Gullar, que fico curioso por saber onde ela vai chegar.

Balés, o segundo, o novo, como A fila sem fim dos demônios descontentes, a estreia, é o tipo de livro que leio dum tapa. Mas em se tratando de Beber, de um tapa em slow-motion, degustando cada verso, cada poema, relendo cada um como se acionasse o modo repeat deixando o livro (me) tocar.

A imagem é bem essa: desde o título, Balés é um livro musical. Sem mais blá blá blá, enquanto espero o terceiro livro de Beber, abaixo a reseninha que escrevi sobre o segundo, hoje, no Tribuna do Nordeste.

Ah, antes, só mais uma coisinha: taí uma poetaça que bem podia integrar a programação da Feira do Livro de São Luís, né? Torço para. Quem sabe em 2010…

TRIBUNA CULTURAL
por Zema Ribeiro*

OS VÁRIOS TONS DA VOZ DE BRUNA BEBER

Segundo livro da poeta confirma seu lugar de destaque no cenário da poesia contemporânea brasileira.


[Balés. Capa. Reprodução]

Publicitária de formação, a poeta Bruna Beber nasceu no Rio de Janeiro em 1984 e, com sua estreia, A fila sem fim dos demônios descontentes [7Letras], em 2006, foi aclamada por crítica e público: passava a integrar, de já, o panteão da poesia contemporânea brasileira, merecidamente reconhecida como um de seus grandes nomes, chegando a ter poemas publicados em diversas antologias estrangeiras.

Assim, era absolutamente normal a expectativa gerada em torno de seu segundo título: Balés [Língua Geral, 2009, Coleção Língua Real] faz jus à espera. Se no primeiro, Beber já escrevia como quem faz música, versos como refrões grudando na cabeça feito chiclete, o exercício continua neste recém-lançado: sua leitura evoca canções e a vontade é, livro aberto, fazer dele o par e sair dançando pelo meio da casa. Muda o poema, a canção, e Balés é par constante, até o fim do baile.

“Do clarinete sopra/ o som que leva para longe/ os espantos// e grito alto/ para puir as cordas/ das torrentes// onde se aventura a fonte/ dolorosa e frágil/ do silêncio”, em Catavento, não o único em que a música aparece explicitamente. Também merece destaque na poesia de Beber sua feitura de coisas simples do dia a dia – “aposto que ainda gosta de azul e se arrepia/ com gosto de limão, lágrimas, lágrimas,/ muitas lágrimas de cebola”, em Dorsal – e um jeito nada óbvio de escrever poemas de amor – “e por esse segundo esquecer tudo/ que realmente importou até agora/ e o que importará/ depois disso// mas atravessar a rua olhos vidrados/ de expectativas, resumindo o mundo/ e a vida a uma arquitetura demolida/ por uma paixão à primeira vista”, em Janeiro – quando não as duas no mesmo poema.

Mas nem só de música (sem preconceitos), poesia (literatura em geral), publicidade (por dever de ofício) e cotidiano (o título do primeiro livro saiu de uma pichação num muro) vive Bruna Beber e sua poesia. Seus poemas – os de Balés foram reescritos várias vezes até o livro ganhar sua forma final – também são recheados de bom humor, alguns mostrados antes ao público, saudável work in progress, no blogue que a poeta mantém: Mídias Virgens & Condessa Buffet.

*Zema Ribeiro escreve no blogue http://www.zemaribeiro.blogspot.com

CHEGA DE SARAU A LUZ NENHUMA

Cheguei no horário para verouvir Celso Borges em seu A posição da poesia é oposição: não me perdoaria um verso perdido. Após perder três apresentações suas (uma na finada Maloca-Lagoa, outras no Cine Praia Grande), por motivo de viagens, era chegada a hora de verouvir seu espetáculo. Finalmente!

CB dava uma última passada no som, repetia o nome do espetáculo, anunciava que em mais dez minutos, cumprimentava-me ao microfone, tendo percebido minha chegada.

É corajoso CB batizar seu espetáculo de poemúsica com os versos de seu poema Manifesto: A posição da poesia é oposição, na Ilha do Maranhão, pode ser mal-interpretado. Maranhão com m de mentira, como diz o sermão de Padre Vieira, um dos textos lidos-ditos-cantados-gritados por CB.

O poeta de Música bem podia ser o amigo de Roberto Carlos: “cabeça de homem, mas o coração de menino”, Celso Borges, cinquentão-garotão, a poesia em forma de homem, o grande nome do Maranhão em plena produção poética, usina humana – Belle epoque é de chorar de lindo, aguardem, em janeiro, no mais tardar, seu novo título.

Acompanhado de Cristian Portela (guitarra) e Luiz Cláudio (percussão), CB é bumba-meu-boi, é rock, é blues, é punk, é poesia. É luz! Celso Borges, meu amigo pessoal, e isso é um parêntese, é o tipo do cara que um telefonema dele te faz ganhar o dia. Boas vibrações, sacam? Fecha parêntese.

Só mesmo um ser de luz para não ter mandado em alto e bom som uma boa dúzia de merecidos “puta-que-o-pariu” às três quedas de energia durante seu espetáculo. Além do atraso natural – no caso, até pequeno para os padrões maranhenses, não mais que quinze minutos – possíveis problemas técnicos, isto é, a equipe técnica previa o futuro, ampliaram esse tempo.

Pouco. Logo CB começaria o espetáculo, em ritmo de bumba-meu-boi, mesclando-se a Zeca Baleiro, seu parceiro, e Gilberto Gil e Torquato Neto. Homenageou ainda Augusto dos Anjos, Mallarmé, e desomenageou, como ele mesmo disse, Ferreira Gullar, sendo interrompido ainda outra vez pela equipe técnica, sem saber explicar ao público o que estava acontecendo. CB pendura o microfone no pedestal em gesto que dispensa tradução.

No meio de um poema, o primeiro apagão. CB (e o público) tenta(m) levar na esportiva. Uns se levantam e se mandam, embora o blecaute não fosse restrito ao palco: toda a III Feira do Livro de São Luís ficou no escuro (não pela primeira, nem pela última vez). A luz volta, o espetáculo recomeça, o poema interrompido, do início, dentro de mais alguns instantes… novo apagão. Um terceiro ainda aconteceria.

Um bom público se fez presente. Uns passantes olhavam, meio assustados. Uns ficavam, outros seguiam. Aproximar a poesia da música, tirá-la da página do papel e colocá-la direto no ouvido do público, certamente aumentou o fã-clube de CB. Aumentar o fã-clube da poesia e da literatura em geral deve ser papel primordial de um evento desse porte e natureza.

Espero, sinceramente, que o papel esteja sendo cumprido, apesar de tudo. Celso Borges, sem dúvida, deu sua significativa contribuição para isso. Apesar dos insistentes e constantes apagões. Espero ver em breve o espetáculo sem as indesejadas interrupções. Certamente conseguirei, num palco fora da III Feira do Livro de São Luís.

*

Texto apressado sobre o espetáculo a que assisti há pouco. O título brinca com verso de Manifesto II, poema de Celso Borges em Música.

SOBRE O QUE TÁ SALVANDO A FEIRA DO LIVRO

Muita gente me critica por eu ser um escritor de elogios. Bem, procuro ver sempre o lado bom das coisas. Como não há lado bom em música ruim, literatura ruim, cinema ruim, nem na família Sarney, prefiro escrever sobre o que ouço, leio, vejo e gosto. É opção. Embora vez em quando pintem coisas que merecem que desçamos a ripa nas costas e verás que um filho teu não foge à luta: fazemos sem dó nem piedade.

Por exemplo, a III Feira do Livro de São Luís. Não quero imitar seu patrono que, a torto e a direito, solta resmungos aos domingos em um jornalão. Muitas vezes sem razão. Por isso não posso simplesmente dizer que se trata da pior Feira do Livro que São Luís já teve, embora haja problemas. Só dei uma rápida passada lá no domingo (22), e fosse resmungar aqui, certamente seria injusto, embora creia, solução mesmo para São Luís seria ter um prefeito chamado Palafita ou Barracão, já que nem Palácio nem Castelo se mostra(ra)m hábeis.

Domingo a energia oscilou – para ser educado ao dizer que a energia ficou faltando e chegando, faltando e chegando, faltando e chegando –, causando certo pânico – nome de programa televisivo que passa justo no horário em que eu tentava passear na Feira – no público presente. A Praça Maria Aragão abriga stands institucionais e livreiros e livrarias – não há editoras, esse ano – estão confinados ao espaço (quente) do antigo Espaço Cultural. Eles não pagam pelos stands, mas isso infelizmente não está refletido nos preços do que se comercializa: os livros continuam tão caros quanto em qualquer livraria a qualquer época do ano – sei que feira é moda, é point, é chique, e até analfabetos frequentam.

Colabora para os problemas a ausência do Governo do Estado do Maranhão, que pela primeira vez (esta já é a terceira edição da feira!) não injeta recursos neste importante evento para o calendário cultural da ilha: a governadora Roseana Sarney e os secretários de turismo Tadeu Palácio e cultura Luiz Bulcão preferem enfiar tubos de dinheiro em eventos (é vento!, passa…) como o Bumba Ilha, com grupos de bumba-meu-boi apaniguados e descaracterizados sobre trios elétricos, com distribuição gratuita de abadás aos foliões (trocaram o Marafolia, que não houve em 2009, por isso?) e o Praia Grande das Artes, que torrou em torno de 400 mil reais em quatro dias de festividades no central bairro homônimo, além de convênios inconvenientes. Não vi sequer serem distribuídos livretos com a programação da feira. Há?

Respeito a obra poética de Chico César, embora já saiba que o sarau-sururu de encerramento da feira será concorrido e caótico: o público irá em busca de ver o cantor e compositor, jamais o poeta. Leona Cavalli já é demais: me recuso a comentar. O Brasil não tem escritores? Alô, dona Func, tem um monte de gente boa produzindo, que provavelmente toparia visitar a Ilha por cachês menores, garantindo a realização de uma verdadeira Feira do Livro, com a tal diversidade literária na capital brasileira da cultura, slogan-balela.

Mas não sou Ferreira Gullar, não resmungo gratuitamente e reconheço o que é bom: aumentou significativamente a participação de autores maranhenses, inclusive recebendo cachês, os “da terra”, coitados, outrora relegados a “divulgar seu nome e sua arte” eternamente, de graça. É, em resumo, o que está salvando a Feira.

Já passaram por lá Beto Nicácio e suA lenda da carruagem encantada de Ana Jansen e Micaela Vermelho e Gabriel Jauregui e seu Tambor de Crioula, belíssimo livro-espetáculo sobre o que escrevo com mais detalhes por aqui em breve. Tudo bem, Mica e Gabriel não são maranhenses, mas são meus amigos e eis outro defeito que trago em mim: falo bem dos amigos, mas não só por serem meus amigos (bom, quando vocês pegarem o Tambor de Crioula em mãos, vão entender do que tou falando). E daqui por diante é só o que vou recomendar, meus amigos na Feira, aproveitem:

Quinta-feira, 26, 19h (Casa do Escritor, Praça Maria Aragão), o escritor Bruno Azevêdo finalmente lança em São Luís seu Breganejo Blues – Novela Trezoitão, que já percorreu BH, São Paulo, Rio e Brasília.

Sexta-feira, 27, 9h (Casa do Escritor, Praça Maria Aragão), o poeta Joãozinho Ribeiro, coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, concede entrevista coletiva sobre o assunto.

Sexta-feira, 27, 18h30min, o poeta Celso Borges (poesia, voz) apresenta seu espetáculo de poemúsica A posição da poesia é oposição, com Christian Portela (guitarra), Luiz Cláudio (percussão) e Lúcia Santos (participação especial).

Sábado, 28, 16h (Casa do Escritor, Praça Maria Aragão), Iramir Araújo relança suA balaiada.

Clique nas imagens para ampliá-las e obter mais detalhes sobre os programas.

NOIVOVÔ

Meu amigo Salim ganhou novo apelido: Noivovô. Dado, é claro, por este implacável blogueiro: o cabra ganhou uma linda netinha e noivou (momento coluna social do blogue) recentemente com a também queridamiga Andréia Everton, que aparece aí em cima com ele na foto, clicados por ocasião de alguma farra recente aqui em casa.

Para quem sente saudades desse clássico fazendo ferver a pista de dança, eis aí uma boa pedida, embora seu nome, inexplicavelmente, não apareça na divulgação (vai ver a produção teme a superlotação). Confiem no blogue: DJ Salim vai discotecar! Imperdível!

EM DOIS TAPAS

Há um bom tempo não lia algo assim: comprei Minha fama de mau no aeroporto de Recife e entre a capital pernambucana e São Luís, uma escala em Fortaleza, dois sanduíches e duas latas de cerveja depois, já havia devorado mais de 200 páginas do livro, isto é, mais da metade dele. Chegando em casa continuei a leitura, a tempo de escrever sobre, para a Tribuna Cultural (Tribuna do Nordeste) de hoje.

ERASMO CARLOS, AGORA COM FAMA DE ESCRITOR

Quase-autobiografia de ídolo da Jovem Guarda descortina intimidades.


[Minha fama de mau. Capa. Reprodução]

Há personagens tão geniais, que por si só rendem ótimas biografias (embora quem as assine também seja responsável pela qualidade atingida): são os casos de, entre outros, Paulo Leminski (biografado por Toninho Vaz em O bandido que sabia latim), Sérgio Sampaio (por Rodrigo Moreira em Eu quero é botar meu bloco na rua), Tim Maia (por Nelson Motta em Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia) e Tarso de Castro (por Tom Cardoso em 75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros).

É o caso também de Erasmo Carlos, injustamente sempre tido como um compositor (e cantor) menor dentro da música brasileira. Talvez o fato de ser o parceiro mais constante de Roberto Carlos – o rei – possa explicar, em parte, a injustiça. Talvez o fato de ainda estar vivíssimo e em plena produção explique também o fato de ainda não ter sido biografado.

Minha fama de mau [Objetiva, 2008, 353 p., R$ 47,90] não chega a ser sua autobiografia. No livro, Erasmo Carlos, em sua prosa envolvente, ligeira e certeira, relata diversos causos engraçados e o volume acaba se transformando em uma espécie de conversa risonha e franca com seu autor, que nos arranca vários sorrisos: não há pudores em sua escrita simples e direta, capaz de emocionar tanto a quem viveu a época da Jovem Guarda, quanto quem não, entre fãs ou não do homem.

Mas trata-se de uma série de histórias que podem ser lidas, inclusive, fora da ordem em que aparecem distribuídas por suas páginas. É relato alegre que nem justifica o título: são as boas lembranças mais do senhor Erasmo Carlos alegre que aparece na contracapa que do jovem e “sisudo” Erasmo Carlos da capa. Também são personagens fundamentais desses relatos Roberto Carlos e Tim Maia – que ensinou os primeiros acordes de violão a Erasmo –, ambos integrantes da “turma da Tijuca”, grupo de jovens que acabaram virando as suas primeiras bandas, além de Carlos Imperial e Narinha – sua musa-mulher. Sexo, rock’n roll e os bastidores da Jovem Guarda dão o tom do livro que, se não chega a ser uma autobiografia, vale muito a pena pela visão bem humorada de quem é peça importante da história da música brasileira.

MINHA FAMA DE MAU – LEIA TRECHO

Madre Wandeca de Calcutá

Perguntam-me sempre se não rolou nada entre mim e Wanderléa, no período da Jovem Guarda. Digo que não, embora da minha parte deva admitir que a intenção existia. Mas o forte policiamento do seu Salim – um verdadeiro pai-zagueiro, marcando em cima do lance qualquer tentativa de gol – não deixava espaços para atacantes matadores como eu.

Eu e Wanderléa chegamos a dividir um programa na TV Record, em 1966. Era o Ternurinha & Tremendão, com textos de Chico Anysio, Arnaud Rodrigues e Mario Wilson e direção de Carlos Manga – que costumava elogiar minhas interpretações, me chamando de “Orson Welles brasileiro”, o que me deixava vaidosíssimo. No programa, fazíamos esquetes que eram adaptados de filmes de sucesso.

Wanderléa sempre foi muito criativa. Ela mesmo bolava sua coreografia, inventando passos e danças que, depois de serem mostradas na TV, eram imitadas por toda a juventude brasileira. Suas minissaias ousadas representavam o que havia de mais moderno na época. Ela e seu irmão Bil desenhavam e ele mesmo confeccionava as roupas extravagantes que Wanderléa usava em suas apresentações, misturando couro, franjas, tachas e camurça com botas acima do joelho, colares, cintões, pulseiras, chapéus etc.

Como todos nós da Jovem Guarda, Wanderléa sofreu com as críticas vindas de setores politizados, que a tachavam de “alienada” e “americanizada”. Mas ela contribuiu sim, do seu jeito, na luta pela liberdade, que era a principal preocupação do país naqueles tempos de ditadura. Numa época em que as mulheres viviam cerceadas por seus pais e maridos, ela colocou no coração de cada menina a semente do direito de se vestir, de dançar, de cantar e de ser feliz.

Um rubor adorável coloria seu rosto todas as vezes em que ouvia um palavrão nos bastidores machistas da TV Record dos anos 60. Mas seu semblante pegaria fogo mesmo se soubesse a verdadeira razão dos olhares maliciosos que a acompanhavam ao vê-la sair do camarim feminino. Afinal, no masculino ao lado, músicos e cantores disputavam, com socos e empurrões, um buraquinho na parede pelo qual era possível desfrutar da nudez das artistas da emissora, inclusive a dela. Bons tempos aqueles em que o nu ainda carregava um mistério.

(Erasmo Carlos, Minha fama de mau, páginas 181-182)

SESSÕES

Sessões para o nada: projeto bem bacana a que tive oportunidade de assistir há duas sextas-feiras. Quinzenalmente três bandas no Anfiteatro Beto Bittencourt, do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho. É punk: o melhor do faça você mesmo! É rock: atitude! E é now e é free!

A turma tem mostrado que podem haver boas bandas para além de covers: todo o repertório das Sessões é autoral. Confiram!:

ILESSI ESTREIA EM GRANDE ESTILO

Intérprete competente, Ilessi reúne grandes nomes da música brasileira para registrar a parceria de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro em Brigador.


[Brigador. Ilessi canta Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro. Capa. Reprodução]

Parece fácil: cantora reúne composições da parceria Pedro Amorim/ Paulo César Pinheiro, acerca-se de grandes nomes da música brasileira – instrumentistas, que os compositores também o são – e estreia em disco. Seria fácil, fosse uma fórmula. Não é o caso. Em Brigador [CPC-UMES, 2009], Ilessi diz a que veio: intérprete competente, afinada e de extremo bom gosto.

Negra e brasileira, Ilessi canta em A sina do negro: “Mas o negro jogou a dor no vento/ e na força do espírito guerreiro/ fez um canto nascer do seu lamento/ e esse canto hoje embala o mundo inteiro/ (…)/ É por isso que quem sente um desespero/ tem que cantar/ pois não vai ser o último ou o primeiro/ o negro sempre cantou pra não chorar”. Pedro Amorim empresta seu bandolim à faixa.

Acompanhando-a, ao longo das dez faixas do disco, virtuoses como Rogério Caetano (violão sete cordas), Caio Márcio (violão), Jayme Vignoli (cavaquinho), Guto Wirtti (contrabaixo), Thiago da Serrinha (percussão), Marcelo Bernardes (sax tenor, flauta), Luiz Flávio Alcofra (violão), Luciana Rabello (cavaquinho), Cristóvão Bastos (piano, acordeom) e João Lyra (violão, viola), entre outros.

Maurício Carrilho aparece tocando violão em Julgamento, faixa em que é parceiro da dupla: “E se é um crime a gente amar/ levado por forte emoção/ depois de me entregar/ fiz questão de confessar/ que um réu confesso tem o benefício do perdão”. A faixa ganha também a participação da bela e rara voz de Pedro Amorim.

Paulo César Pinheiro atesta em texto no encarte: “Está tudo muito bonito e bem-feito. Sou suspeito pra falar, claro, porque sou parceiro em tudo, mas é o disco que mais ouço ultimamente. E não me canso dele”. Insuspeitos, atestamos: Brigador está entre os melhores discos lançados em 2009.

[Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, hoje, feriadomingão, aniversário da mana Luziana. Parabéns!]

LEVANTE SUA VOZ

Via gtalk, Rojão me passa um link. Entre os aperreios do expediente, com sua recomendação, não resisto em dar uma olhada. 17 minutos de vídeo a que só parei de assistir ao fim.

Influência confessa de Jorge Furtado, notadamente seu Ilha das flores, Pedro Ekman realiza um filme panorâmico sobre as comunicações no Brasil. Bastante oportuno: nos aproximamos da I Conferência Nacional de Comunicação, com um processo atrapalhadíssimo, principalmente no Maranhão. Por que será?

Veja o vídeo, tire suas próprias conclusões e Levante sua voz:

http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=7459748&server=vimeo.com&show_title=1&show_byline=1&show_portrait=0&color=&fullscreen=1

Intervozes – Levante sua voz from Pedro Ekman on Vimeo.

AS IMAGENS SONORAS DO CRIOLINA

Duo maranhense lançou recentemente Cine Tropical, seu segundo disco, cinematográfico.


[Cine Tropical. Capa. Reprodução]

Cine Tropical [2009, Funarte/Projeto Pixinguinha], o novo disco do Criolina, é um sarro. O bom humor permeia sua música-cinema e a vontade que dá é deixá-lo em modo repeat, como a entoar o mantra-pedido da faixa-título: “quem dera/ que fosse sempre primavera/ quem dera/ que fosse sempre réveillon”. Clima de casal em ilha paradisíaca – vide projeto gráfico –, sem obrigações cotidianas e a malfadada rotina. Cinema puro, não? Romance, romance psicotrópico, ação, bang bang, chanchada, aventura, ficção científica e outros, os gêneros estão lá, música e projeto gráfico, como a confessar/apontar as influências.

Alê Muniz e Luciana Simões são um liquidificador delas, aliás: o duo está entre o que há de mais inventivo na música contemporânea produzida no Brasil, o que já demonstrava desde o homônimo disco anterior. Neste segundo, alguns elementos saltam aos ouvidos: a grande carga de latinidade em perfeita sintonia com a cultura popular do Maranhão, o cinema como influência – ouvir Cine Tropical nos dá a agradável sensação de já termos ouvido essas faixas em algumas trilhas sonoras da vida: e o Criolina consegue ser originalíssimo –, e todas as informações musicais, contemporâneas ou não, que o impregnam, mas sem perder a unidade, jamais.

Ah, a unidade. Não deve ter sido fácil para Alê e Lu escolherem as 14 faixas que entraram no disco – 13 músicas e uma vinheta de vozes baseada no sotaque tipicamente maranhense em que He hein (título da faixa) pode significar qualquer coisa, a depender de sua entonação – depois de terem gravado, num estúdio em casa 25 faixas. A isso eles creditam, também, o resultado final do disco: poder gravar sem pressa, sem pressão, refazendo cada detalhe que desejassem, quando o desejassem. Deu certo.

Além da musicalidade à flor da pele, o Criolina é também poeticamente afiado, o que lhe faz completo. Entre os exemplos poderíamos citar o disco inteiro, mas destaquemos São Luís-Havana (parceria do duo com o poeta Celso Borges, que participa da faixa): na hip-salsa-hop, as culturas de Maranhão e Cuba se mesclam em sons, paisagens e mestres: vários, tanto de lá quanto cá são reverenciados. E como poesia não precisa ser sisuda, como já nos ensinaria, a golpes de judô, Leminski, Alê e Lu nos fazem rir: “mas é que um cara com a minha cara/ parado muito tempo no mesmo lugar/ pode levantar suspeita e a polícia levar” (em Namoradinho refém, clima jovem-guardista, cuja temática pode remeter a um Metrô Linha 743 raulseixista – mas é outra coisa). Ou: “nós vive no limite/ nós vive é no vermelho/ entre o paraíso e o caos/ nós adora Amy Winehouse” (em Nó ni pingo d’água, funk-afoxé).

[Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, domingo 8/11/2009]