Arquivo mensal: julho 2009

AMANHÃ AINDA TEM

Sexta que vem, também.

Tango de Carlos Gardel, Esteban Celedonio Flores e José Razzano, Mano a mano batiza o encontro de Marconi Rezende e Alberto Trabulsi em que eles valorizam nomes como Chico Buarque e João Bosco.

Trata-se de temporada que os artistas maranhenses estão apresentando nas sextas-feiras de julho no Restaurante Chico Canhoto (Residencial São Domingos, Cohama). Restam amanhã e 31 para quem quiser ver/ouvir a dupla.

UIVOS E APLAUSOS À RESISTÊNCIA

Revista de literatura e arte, Coyote alcança 19ª. edição, nadando contra a corrente, remando contra a maré. Que editores e colaboradores consigam ir ainda mais longe, amém!

Thomaz Albornoz Neves entrevistou, em 1993, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), no apartamento carioca do autor de Morte e vida Severina. Apenas uma pequena parte da conversa entre os dois foi publicada na revista Interpoesia, em 1998. O resto permanecia inédito. O 19º. número da Revista Coyote [Kan Editora, distribuição nacional: Iluminuras, 52 páginas, R$ 10,00, pedidos pelo http://www.sebodobac.com.br; alô, livrarias e sebos de São Luís: ninguém se interessa?] traz a íntegra da entrevista com o “cabra lírico”. E este é apenas um dos destaques da revista de literatura e arte que, só por conseguir resistir e chegar a esta 19ª. edição, já merece nossos uivos, digo, aplausos (que tal uivarmos batendo palmas?), pela resistência, insistência, perseverança e, mesmo, teimosia de seus editores.

Ademir Assunção (SP), Marcos Losnak (PR) e Rodrigo Garcia Lopes (PR), inventam e reinventam a publicação sediada em Londrina (PR) e que resiste bravamente, até aqui – e esperamos que por muito tempo ainda –, graças ao apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina. Engana-se quem pensa que, com isso, a revista se fecha no próprio umbigo e traz apenas poetas da terra de Leminski. Muito ao contrário: é na Coyote que conheço novas vozes nos campos a que se dedica a publicação (literatura e arte, convém lembrar) e (re-)leio vozes, não direi velhas – há coisas que simplesmente não envelhecem –, mas fundamentais.

Com um belíssimo projeto gráfico, a revista transpira qualidade da primeira à quarta capa: tudo ali é arte. A “matilha” da 19, além de João Cabral e seu entrevistador Thomaz Albornoz Neves, e do editor (da revista) Ademir Assunção – que brinda o público leitor com poemas inéditos –, apresenta nomes como George Oppen (poeta ianque do Grupo Objetivista, formado nos anos 30, falecido em 1984), Teo Adorno (quadrinista e ilustrador paulista) e Ernesto Sabato (doutor em física nuclear, um dos maiores nomes da literatura argentina, nascido em 1911), entre outros, além da tradicional quarta capa, ilustrada pelo Beto, já reconhecida como a capa dos “movimentos”.

TRECHOS DA COYOTE 19

“Tenho a impressão que, por um lado, sou muito mais visual que plástico, por outro não sou nada auditivo. Estou com Voltaire, a música é o menos desagradável dos barulhos. Eu não tenho o menor interesse por música. (…). Minha poesia é toda visual: ela se afasta da linguagem abstrata. A linguagem que me interessa é a linguagem concreta. Meu esforço é justamente, usando o título do livro de Paul Éluard, Donner a Voir [Dar a ver]”.

João Cabral de Melo Neto, em entrevista a Thomaz Albornoz Neves, em 1993

*

“luzes esverdeadas na tela/ da TV, pipocas de microondas,/ pipocos digitais, sim,/ olha lá, olha lá, santelmo/ riscado do mapa,/ cochabamba para bailar la bamba,/ titicaca não passa de titica,/ brasília era só uma ilha, cercada/ de cucarachas e carcamanos,/ quem vai sentir falta/ dessas baratas?, soca mais bombas/ na bunda dessa indiarada, pow,/ crash, soc, e que se fodam/ todos los hermanos, cambada/ de terroristas islâmicos,/ papai me disse que eles comem/ gente, vai vendo, e ainda usam as tíbias/ como palitos de dente”

Ademir Assunção, Videogame, da seleta de inéditos Boa noite, Mister Mistério

[Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, domingo, 19]

LÉO ONTEM

A alegria voltou a reinar no Bar do Léo. Parece começo piegas de contos de fadas, mas a tradução disso, no sorriso do proprietário era algo impagável. Bela recompensa ao movimento, entre o virtual e o real, que se formou após a recente ameaça de despejo de Leonildo e seu museu musical dinâmico.

Ronald Almeida Silva, renomado arquiteto, apreciador de boa bebida e boa música, não necessariamente nessa ordem, um dos maiores entusiastas pela permanência de Léo no lugar onde sempre esteve – são 30 anos desde uma pequena lanchonete até hoje, um dos maiores acervos musicais particulares do Brasil, à disposição do público, cumprindo uma função que deveria ser garantida pelo Estado – veio falar comigo sobre a força da internet em mobilizações hoje. Lembrei da força do twitter nas mobilizações “Fora Sarney!” Agradecemo-nos mutuamente e a figuras como Ricarte Almeida Santos, Roberto Fernandes, Francília Cutrim, Celijon Ramos, Márcio Jerry e tantos outros que, além de não se calar, fizeram ecoar os gritos contra essa tentativa de culturicídio.

Bom, problema resolvido, não convém mais esmiuçar-lhe as entranhas dos detalhes. O Bar do Léo continua sendo nosso bar predileto.

Corta.

Bati o carro há mais de uma semana (coincidência ou não, justo a caminho do Léo) e tenho me virado em caronas enquanto não rola o conserto ou o carro reserva que o seguro garante após uma vistoria que ‘tá demorando que só. Na noite de ontem Gildomar Marinho deu carona a este blogueiro e sua esposa Graziela, Bruno e Graciane. No carro, ouvíamos a belíssima versão de Gracejo, do inédito disco de Lena Machado, um blues com a sanfona elegante de Rui Mário e os loops eletrônicos de DJ Franklin. Depois passamos a faixas de Olho de Boi, cuja notícia da chegada Gildomar me anunciara ainda pela manhã, por e-mail, fazendo-me passar o dia numa ansiedade terrível – “passa logo, tempo, para irmos ao Bar do Léo”, era só no que eu pensava.

Adentro o Bar do Léo e avisto Ricarte dando uma entrevista para a TV Mirante. Cumprimento diversos conhecidos ao mesmo tempo em que percebo que, puta coincidência, Léo nos recebe ao som da versão inédita de Gracejo, música de autoria de Gildomar Marinho, na voz de Lena Machado – a música está também em seu Olho de Boi.

http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=7960789-755
[Gracejo (Gildomar Marinho), com Lena Machado]

http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=7960790-365
[Alegoria de saudade (Gildomar Marinho), com Gildomar Marinho e Ceumar]

Pouco depois tio Susalvino e Carlinhos Veloz juntaram-se à nossa mesa, além de Reginalda, cuja busca em casa justificou a ausência temporária de Gildomar. Acabaram rolando audições em primeira mão – ou ouvidos – de Samba de Minha Aldeia, o inédito de Lena Machado, apesar da ausência da cantora no recinto, e Olho de Boi, que teve ali mesmo, seus primeiros exemplares vendidos e autografados.


[Gildomar Marinho autografa os discos de Ricarte Almeida Santos e Ronald Almeida Silva. Foto: ZR]

Uma noite memorável, sem dúvidas, com, entre essas e outras, um Susalvino sempre hilário contando seus causos ultra-engraçados – que mesa de bar sem isso não é mesa de bar – e Carlinhos Veloz ouvindo pela primeira vez (e já prometendo incorporar ao repertório – vai ficar bonito, tenho certeza!) o belíssimo fado Devoluto, com letra de Sérgio Natureza e música de Kleber Albuquerque e interpretação deste em Música, o mais recente livro-disco de Celso Borges – ausência sentida, posteriormente justificada via SMS, entre os amigos que confirmaram presença –, que ir ao Bar do Léo e não se surpreender com algo novo, desconhecido e bonito, não é ir ao Bar do Léo.


[Brinde “devoluto”: Carlinhos Veloz e o blogueiro. Foto: Gildomar Marinho]

ÓTIMA NOTÍCIA: OLHO DE BOI CHEGOU!

“Um olho de boi chegou lá do Maranhão
num retrato em preto e branco
e trouxe um recado, um bilhete, uma saudade colorida”

“Lembra aquele disco
que na minha pindaíba me custou dois mil?”

Turma: chegou!

O tão aguardado disco de estreia de Gildomar Marinho chegou. Olho de Boi ‘tá quentinho, recém-saído do forno, onde estava sendo gestado há mais de vinte anos (só que eu conheço Gil já lá se vão dez aninhos).

Para avisar, trechos das letras da faixa-título e de nossa parceria, Lembra?, eu que ainda me meto onde não sou chamado fazendo o texto de apresentação do disco e assinando, com Beto Nicácio (Dupla Criação), o projeto gráfico.

Em breve avisaremos por aqui do show de lançamento (rolou avant-premiére no Clube do Choro). Adquira já o seu, de qualquer lugar do Brasil: pedradecantaria@gmail.com

BOAS NOVAS DO CINE-MA

O curta Reverso, do cineasta maranhense Francisco Colombo, foi selecionado para o Curta Kinoforum – 20º. Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, que acontecerá entre 20 e 28 de agosto.

O filme de Colombo integrará o programa Escritas do Cinema, composto por exibições, debates e encontros, com a presença de Jacques Kermabon, editor da revista BREF, e Bernard Payen, coordenador de curtas da Semana da Crítica de Cannes.

Trocadilho infame, eu diria que o sucesso de Reverso é “irreversível”, o que começou a ser sinalizado, justiça, no próprio Guarnicê.

Outro filme maranhense que constará da programação do Kinoforum é Pelo ouvido, de Joaquim Haickel.

TRISTE, TRISTE, TERRÍVEL NOTÍCIA

Acabo de retornar de uma viagem de trabalho e, correndo contra o tempo para resolver um porrilhão de coisas, deparo-me, ao tentar atualizar a leitura de meus blogues prediletos, com esta triste, triste, terrível notícia que colho de Ricarte Almeida Santos: o Bar do Léo tem 48 horas para acabar (agora menos, que já li a notícia tardiamente).

Já sabia da intimação e de todo o parangolé armado pela não renovação da licença que permitia a Leonildo o uso daquele espaço que se tornou referência turística e cultural da capital maranhense, sem dúvidas uma de suas sete maravilhas, se é que aqui há sete maravilhas…

Uma aberração! O nosso destino, enquanto amantes da boa música e das culturas maranhense e brasileira como um todo, está em jogo. O que nos reserva o destino, controlado por burocratas do naipe dos que teimam em não renovar a licença para que o Bar do Léo permaneça no Hortomercado do Vinhais, onde está encravado há 30 anos?

Fica registrado o meu protesto. Proteste você também! Podem ser as últimas horas do Bar do Léo. Daqui a pouco, todos lá! Se é que ainda o encontraremos aberto. Oh, desgraça!

CRIOL(IN)ANDO EM SAMPA

Outro cartaz bonito pra caramba. Dando conta da apresentação que o Criolina (leia-se: os talentosíssimos Alê Muniz e Luciana Simões) faz quinta-feira pras bandas de lá.

Já andei ouvindo coisas do disco novo do duo maranhense. Só tenho a avisar que: vem mais coisa fina por aí! Preparem-se! E aguardemos…

VOLTANDO HOJE

Voltando à Tribuna Cultural, após dois domingos “fugindo do assunto” – por uma boa causa.

O título da coluna de hoje (no Tribuna do Nordeste), faz alusão ao autógrafo no livro que o Rodrigo me mandou: “Ao Zema Ribeiro, um pedaço do meu caos. O abraço amigo do Rodrigo. 27.11.08”

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TRIBUNA CULTURAL
por Zema Ribeiro*

UM PEDAÇO DO CAOS DE RODRIGO DE SOUZA LEÃO

Indicado ao prêmio Portugal Telecom 2009 por sua novela Todos os cachorros são azuis, se o carioca Rodrigo de Souza Leão for um dos vencedores, o título já será póstumo, infelizmente.


[O escritor, na orelha de Todos os cachorros são azuis]

Subiu, no último dia 1º. de julho o poeta Rodrigo de Souza Leão, vítima de ataque cardíaco provocado por doses excessivas de medicação. No entanto, não gostaria de transmutar esta humilde resenha em obituário ou coisa que o valha. O carioca, nascido em 1965, publicou, ano passado, um dos melhores livros que li – o que já está se tornando clichê dizer, embora seja a mais absoluta verdade, sem essa de “poeta bom = poeta morto” – a novela Todos os cachorros são azuis [7Letras, 2008, 78 páginas, R$ 25,00], finalista do prêmio Portugal Telecom este ano.


[Todos os cachorros são azuis. Capa. Reprodução]

Rodrigo estica uma corda bamba por sobre e atravessa um perigoso vão onde se incluem autobiografia, linguagem inovadora, estreia – escreveu a novela, mas era, antes de tudo, poeta, embora não seja meu papel rotulá-lo ou coisa parecida – e coragem. De se despir, inclusive: Todos os cachorros são azuis é autobiográfico e trata, sem medos ou fugas, da experiência do poeta em internações em clínicas psiquiátricas por conta da esquizofrenia. E isso não é dado de bandeja ao leitor.

O protagonista narrador da primeira obra em prosa do carioca vive entre alucinações e tem como companhias um Rimbaud e um Baudelaire frutos de sua imaginação – como bom escritor, Rodrigo era, antes, um grande leitor –, entre outras figuras que circulam pelo hospício, mas “soa” bastante lúcido em determinadas passagens: “Todo dia antes de dormir eu rezava a ave-maria. Todo o dia eu pedia a Deus que me tirasse dali o mais rápido possível e que o mais rápido possível fosse o dia seguinte. Depois eu não acreditava nem em Deus e nem na Ave Maria, mas eu rezava. Não custava nada rezar. Não pagava nada para pedir. Algum cristão, num dia de domingo, aparecia bem perto da minha cela e deixava um folhetinho. Eu olhava e lia quando as doses não eram altas e me deixavam ler, depois rasgava o papel. Meu Deus! Os crentes estão ganhando o mundo. Até aqui eles vinham para angariar os fodidos. A religião virou uma sacanagem do caralho. Acho que sabiam que havia muitos alcoólatras lá dentro. A religião não é só o ópio do povo. Mas é o que mantém o povo feliz. Triste do povo que precisa da religião para se apoiar. É pior do que um louco que tem cura, mas precisará sempre de um apoio de outra pessoa para ser feliz. É melhor ser louco incurável” (página 23).

Rodrigo de Souza Leão era um dos escritores de internet brasileiros com mais experiência: editava desde 1996 – quando a web brasileira ainda engatinhava – o e-zine Balacobaco, enviado por e-mail a interessados (este colunista incluso), e escrevia constante e sofregamente no blogue Lowcura.

Outra passagem da novela: “Não beijei a primeira garota que amei. Fui beijar outra menina pra aprender e só depois beijar de um modo melhor a que eu amava. A que eu amava viu e me deu o pé na bunda” (página 44).

“Rodrigo foi um poeta visceral; ele não buscava apenas soluções estéticas. A criação, para ele, era uma forma de iluminar o próprio caos. Ele escrevia com as entranhas. Poesia confessional? Sim. Apesar disso, deixou obras notáveis, como a novela Todos os cachorros são azuis e o livro de poemas O caga-regras”, escreveu sobre ele o poeta, tradutor, ensaísta e editor Cláudio Daniel, um dos maiores conhecedores da matéria no Brasil, em texto publicado no site Cronópios.

Cada gol é uma medalha no peito. O general tem muitas medalhas e nenhuma guerra. Em São Paulo, certa vez, uma mulher-super-poderosa disse que eu tinha sido soldado em outra encarnação. Muitas guerras a serem vencidas. Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones. Vietnã. Na veia. Helicópteros por todo o lado. Napalm. Gás mostarda. Baionetas enfiadas nos corpos. Injetando alguma química feroz” (página 65). Ganhando ou não, postumamente, o Portugal Telecom, Rodrigo de Souza Leão já tem seu lugar garantido na galeria do que há de melhor na literatura brasileira produzida neste início de século.

*Zema Ribeiro escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com

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Feliz aniversário, Joisiane Gamba! Deus continue iluminando seus passos pelo bom caminho que você optou trilhar, nos levando juntos. Seguimos juntos, firmes e fortes, por aquilo que consideramos justo. Parabéns, Jô! Um grande abraço!

MAIS UMA CHANCE


[Foto: ZR]

O cantor e compositor Cesar Teixeira (foto) reapresenta seu Forró do Corta Jaca na esticada do arraial da Praça Maria Aragão. No show, que acontece amanhã (11), às 21h, o autor de clássicos como Boi da Lua, Namorada do Cangaço, Parangolé, Bandeira de Aço, Mutuca e muitos outros, será acompanhado de Pedrinho Vila Nova (sanfona), Moisés Profeta (contrabaixo), Quintino Neto (bateria) e Zé de Nazaré (percussão), contando ainda com as participações especiais de Júlio e Tiago nos metais.