FLÁVIA BITTENCOURT EM SEXTA E SÁBADO DE DOMINGOS

Um atraso do amigo que me arranjaria o segundo ingresso para Todo Domingos [Teatro Arthur Azevedo, 21h, ontem (24)], show de lançamento do segundo disco de Flávia Bittencourt, dedicado à obra de Dominguinhos, deixou-me nervoso. Pelo celular, descobri que ele demoraria pelo menos vinte minutos para chegar até a porta do teatro, onde já estávamos, eu e minha mulher; faltavam cinco para as nove, hora marcada para o início do show.

Um balcão no bolso, uma plateia por chegar. Iríamos assistir ao show em lugares diferentes, eu e minha mulher. Cambistas ofereciam ingressos. Pensei em oferecer uma plateia por um balcão, sem volta, proposta certamente irrecusável – para eles. Desisti da ideia.

A produção não anunciou, mas a noite de ontem era só para convidados. Um par de amigas tentou comprar ingressos para a primeira sessão de Todo Domingos, sem sucesso. Não poderiam hoje, motivo de viagem. Penso que a estratégia tenha dado errado: além de cambistas oferecendo ingressos, disfarçadamente na porta do teatro, antes do início do espetáculo, a casa não estava completamente cheia (bueno, sobraram apenas algumas galerias completamente vazias).

O show teve o início atrasado em cerca de três quartos de hora (antes disso, o amigo do segundo ingresso havia chegado), o que começava a causar reações na plateia, que ensaiou imerecidas vaias por duas vezes. Silenciaram diante da voz que anunciava o espetáculo para “dentro de alguns instantes”. Mais um pouco e o público presente começava a bater palmas energicamente, como a forçar Flávia Bittencourt e banda a subirem logo ao palco.

O lustre do TAA, com aquela música breguíssima, subiu. A cortina se abriu e Flávia surgiu – rimas também breguíssimas, as deste observador – entoando Lamento sertanejo (Dominguinhos/ Gilberto Gil), que abre também o disco. A “bandominguinhos” era formada por Leandro Saramago (violão sete cordas), Rogério Fernandes (contrabaixo), Luiz Cláudio (percussão), Netinho Albuquerque (percussão), Dudu Oliveira (flauta e bandolim) e Wladimir (sanfona e teclado), com o perdão pela possibilidade da memória falhar.

Interpretando a obra de Dominguinhos, que transita sem choques entre o sofrimento nordestino – segundo Flávia Bittencourt, um estereótipo rechaçado pelo compositor – e a alegria do mesmo nordestino, a maranhense oscilava entre a timidez, não mera mise-en-scène, e a leveza descontraída dançante.

Eu só quero um xodó (Dominguinhos/ Anastácia), Contrato de separação (idem), única música que ela cantou sentada, Sete meninas (Dominguinhos/ Toinho), coco que ganhou ares de funk na levada dupla de percussões, Diz amiga (Dominguinhos/ Guadalupe), com a participação especial virtual de Dominguinhos que aparece tocando sanfona e cantando num telão, Arrebol (Dominguinhos/ Anastácia), pérola menos conhecida e rebuscada do repertório do pernambucano resgatada pela pesquisa de Flávia, Quem me levará sou eu (Dominguinhos/ Manduka), Retrato da vida (Dominguinhos/ Djavan), Tenho sede (Dominguinhos/ Anastácia), São João bonito (idem), tema junino, como entrega o título, mas de ares carnavalescos, Flávia se solta, dançante, pulante, contagiante, no palco.

Até aí, lembro da ordem do disco, sem bloco de anotações ou gravador à mão, ontem. No meio disso tudo, De volta pro aconchego (Dominguinhos/ Nando Cordel), música que não está no disco, com a plateia fazendo coro contente. Um abraço no Romeu (Dominguinhos) é o tema instrumental que Flávia anuncia que “estes músicos maravilhosos vão tocar. Eu volto daqui a pouco”. E volta, primeira troca de roupa.

Manda Seu Domingos (Flávia Bittencourt), composta por ela em homenagem ao compositor, quando ainda estava na pesquisa do repertório do disco, no que ele contribuiu muito, cedendo discos raros e simpatizando da ideia. Abre um parêntese, e toca Vazio (Flávia Bittencourt), música de sucesso radiofônico de seu primeiro disco, Sentido (2004). Sozinha ao violão, entoa Mar de rosas (Rose garden. Joe South, versão: Rossini Pinto), eterno sucesso dos Fevers, em arranjo mais condizente com o romantismo da letra. Um chato, num balcão quase vizinho ao meu começa a gritar gracinhas. Flávia disfarça a falta de jeito para lidar com a situação, sorri, se desconcentra e segue a letra, sem errar. Antes do próximo “você bem sabe” da letra, o imbecil pergunta-grita: “posso descer aí?”. Os seguranças demoram, mas chegam, e chamam o graça amarela para uma conversa. Ele volta, dali a pouco, mas não volta a atrapalhar o show. Se cambistas vendendo ingresso na porta do teatro já eram uma prova inconteste da má seleção de convidados, um perturbado(r) desse naipe será o quê?

Para o repertório do disco – e do show – Flávia Bittencourt pescou também “o único samba de Dominguinhos, pelo menos que eu tenha ouvido na pesquisa”, segundo anuncia: O babulina (Dominguinhos/ Anastácia), que homenageia ninguém menos que Jorge Ben, citando discos e composições como Os alquimistas estão chegando os alquimistas, Negro é lindo, Mano Caetano e País tropical.

Abri a porta (Dominguinhos/ Gilberto Gil), convertido em reggae de salão, fecha o espetáculo. Na melhor acepção da palavra. O bis demora um pouco e aqui e ali ouvem-se gritos de “sovina!”. De onde estavam flores penduradas compondo o cenário, pendem símbolos do bumba-meu-boi maranhense. A dupla de percussionistas surge cada qual com um pandeirão e outros músicos também entram na roda. Flávia Bittencourt ressurge em novas vestes, ainda mais solta que em todo o show, entoando Mimoso (Ronald Pinheiro), em medley com Boi de lágrimas (Raimundo Makarra), esta registrada em seu disco de estreia.

Em Todo Domingos (show e disco, sobre o que ainda escreverei), a obra de Dominguinhos está ainda melhor. Hoje (25) tem outra sessão, no mesmo horário. Os ingressos custam entre R$ 15 e R$ 40,00. Qualquer um que você pague, vale muito a pena.

6 comentários em “FLÁVIA BITTENCOURT EM SEXTA E SÁBADO DE DOMINGOS

  1. Engraçado Zema, parece que vimos shows diferentes!!! Minha emoção era tanta em estar diante de tamanha beleza, seja na voz da Flávia que cantou divinamente quanto do repertório do mestre Dominguinhos que é uma obra prima da MPB, que tudo que você falou passou totalmente desapercebido…
    Achei o show tão fantástico que fui no sabado também, inclusive fiquei no balcão…

  2. Eu não fui ver a flávia mas Deus sabe o quanto eu queria ter isto esse show. Sou fã tiete assumida, mas esse eu perdi. Sigo ouvindo o cd e cantarolando todas as músicas, algumas atéque aprendi a letra.
    Zema, ficou me devendo as imagens :/.
    Beijocas

  3. opa, dani. saí desarmado. mas minha péssimáquina não resolveria meu problema. vi edgar rocha fazendo fotos. devo entrevistar flávia e aí, sim, fotografá-la. só posso dizer que está cada dia mais bonita e a cada dia cantando melhor. abração!

  4. Olá Zema, li agora sua resenha do show de Flávia Bittencourt no Artur Azevedo. Como diretor artístico gostaria de te passar algumas informações.
    Primeiramente em nome de Flávia quero me desculpar pelo balcão. Talvez a visão pessimista que tu tiveste do show mudasse se tu estivesses na platéia. Para tu fazeres teu showzinho basta um computador ligado a internet, mas para a gente não é bem assim, é muita ralação, muito trabalho para fazer uma apresentação linda como aquela e as vezes pequenos detalhes passam como por exemplo o atraso. Nós não estávamos no camarim abrindo um champanhe e dizendo: “a platéia que espere…”. O atraso foi para deixar tudo pronto e digno do talento de Flávia Bittencourt e de um público que merecia assistir um show fantástico como foi.
    Você veja só como é o ponto de vista… Ao invés de tu dizeres que o rapais da platéia se exaltou diante emoção que Flávia o fez sentir preferiu dizer que a produção demorou a tomar as devidas providências e fez Flávia, que segundo você, tem pouca pratica para lidar com a situação, se enrolou. Hehe essa eu não vou nem comentar…
    Acho também que tu deverias tomar cuidado ao mencionar “a musica breguíssima da subida do lustre”, quem não estava lá pode achar que estas se referindo a música do show e as obras do Mestre Dominguinhos estão longe de serem bregas…
    Bem Zema, tenho certeza que 99% da Platéia saiu maravilhada e emocionada com o show “todo Domingos” de Flávia Bittencourt e fico muito feliz com isso, como disse anteriormente fazemos tudo com muito carinho, respeito a obra do Mestre, mas muito sacrifício e trabalho também e estamos sendo recompensado vendo a satisfação no rosto nos presentes. Por isso não poderia deixar de registrar minha tristeza ao ler seu comentário do show de Flávia. Espero que da próxima vez tu consigas ficar na platéia e possa fazer uma resenha mais feliz.

    Um abraço,
    Netinho Albuquerque
    Músico e diretor artístico de “todo Domingos”

  5. netinho: você tem certeza que leu o texto? se sim, acho que não entendeu. eu adorei o show! são realmente uma maravilha, disco e show. traduzo o que vi: houve atraso? houve e acho normal. fiquei emocionado a cada música que flávia cantou, mas nem por isso gritei ou fiz gracinhas e acho que flávia saiu-se bem diante do mala, que estava tirando a paciência dos que estavam por perto (ouvi comentários nos balcões ao lado e no meu).
    a música da subida do lustre é “breguérrima”. antes fosse o urro do boi de coxinho ou o hino do maranhão ou qualquer tema mais popular (é questão de gosto); tenho certeza que a grande maioria do público presente (e mesmo quem não esteve e por acaso ler meu texto) a “todo domingos” não estava no arthur azevedo pela primeira vez e sabe de que música estou falando.
    depois de ver o show, ouvi o disco, depois de ouvir o disco, entrevistei flávia bittencourt, ontem. show, disco e entrevista só fazem crescer minha admiração por esta grande artista que só tem evoluído com o passar do tempo. já estou, aliás, ansioso por seu terceiro disco, sobre o que ela falou de leve, ontem.
    no mais, só me resta dar a você (a ela já dei) os parabéns pelo belo espetáculo que é “todo domingos”.
    grande abraço!

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