CIAO, KOISA NOSSA

Há diversas situações que me deixam lerdo: beber demais, adoecer etc. Apesar do início de gripe e das três – três, e não quatro, como me cobraram e eu paguei – cervejas que tomei, eu não podia (ainda) ser considerado um bêbado ou um doente ou a soma das duas coisas num corpo só, há pouco.

O fato é que após uma reunião de trabalho, desci à Praia Grande para uma merecida cerveja. Sem perguntar o preço, saberia depois que a unidade custa quatro reais, num bar que não cobra couvert artístico nem dez por cento – “chapéu de otário é marreta”, já rezava a sabedoria popular –, o Koisa Nossa (sic). Fome, e o jantar, um pífio prato de carne (filé é o anunciado no cardápio) com macaxeira (pedi que substituíssem as batatas) morre em dezesseis paus.

Antes, perguntamos, eu e minha esposa: que cartão vocês recebem? “Mastercard”. Débito? A resposta é repetida. Terminado o “jantar” e as três cervejas (paguei quatro), trinta e dois reais a conta. Minha esposa saca o cartão e eu preciso “ir bem aqui do lado digitar a senha”. Bem aqui ao lado é a Cia.Paulista, outro bar. Quem me lê de São Luís e conhece minimamente a Praia Grande, sabe do que estou falando. A distância é pequena, sei. Mas se fosse para digitar senha de cartão em outro bar, teria ido beber no bar que tivesse a maquininha. Enfim.

A máquina da Cia. Paulista estava com defeito e eu brinco com o garçom – sei que nessas horas só lhes resta o medo de perder o emprego: “rapá, então vai ficar fiado, tu sabes quem eu sou, onde trabalho”. A resposta me tira do sério: “é só deixar um documento aí”. Retruco: “sim, vou deixar o número da identidade”. “Não, o número não, a identidade mesmo”, ouço de volta. Querendo me sair logo da constrangedora situação, em vez de ir ao gerente – havia um, descobri depois – reclamar, avisei minha esposa de que iria até o caixa eletrônico sacar a grana de pagar a conta. Passo entre as mesas que ocupam as calçadas dos vizinhos Papagaio Amarelo e Antigamente e me dirijo ao Banco do Brasil – novamente: quem me lê de São Luís e conhece minimamente a Praia Grande sabe do que estou falando. Quando estou passando em frente ao trailer da Polícia Militar, olho para trás a um grito de “ei!”: eu deveria ir falar com o gerente – só aí descobri que havia um. Prestes a perder a paciência (o que devia ter acontecido há tempos), simplesmente disse ao garçom, que virou as costas e voltou ao posto de trabalho: “rapaz, minha mulher ficou no bar. Estou indo sacar um dinheiro para pagar a conta”.

Continuei o percurso, na escuridão do trecho que vai do Teatro João do Vale à agência do BB e por ali mesmo voltei. Paguei a conta: quatro em vez de três cervejas. Nunca mais ponho os pés no Koisa Nossa. Nem com dinheiro no bolso, muito menos com cartão. De crédito ou débito.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

2 comentários em “CIAO, KOISA NOSSA”

  1. Zema,eu escrevi sobre isso lá no blog!!Esse negócio de débito ou crédito eh phoda realmente.Pior, são esses bares errando descaradamente a conta.Sempre pensam que NÓS é que somos os enganadores!

  2. o problema lá nem foi crédito ou débito (sobre o que havia lido lá no humor sutil): foi não ter nem uma coisa nem outra e eu ter que ir digitar senha noutro bar. bom, perderam um cliente que ia lá de vez em quando há um tempão. abração!

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