O BOMBÁSTICO BALEIRO E SUA CONSTANTE EXPLOSÃO DE CRIATIVIDADE

Colagem de (poucas) opiniões do blogueiro, (muitas) falas de Zeca Baleiro durante a coletiva concedida em 23 de dezembro no Grand São Luís Hotel – entre os salgados do coquetel não havia bombas – e (alguns) trechos das novas canções, publicada com exclusividade neste humilde blogue.


[Desprovido de sua pessimáquina fotográfica, o repórter-bomba não explodiu flashes em direção ao ídolo e usa essa imagem de divulgação para ilustrar seu texto. Foto: Marcos Hermes, disponível em http://www2.uol.com.br/zecabaleiro]

Quando se afirma (quase) categoricamente que a indústria do disco e o disco enquanto objeto de arte estão com os dias contados, ele tira um sarro do mercado e lança um disco duplo – dois volumes, lançados e vendidos separadamente. O coração do homem bomba, volumes 1 e 2, o(s) novo(s) trabalho(s) de Zeca Baleiro, têm no próprio artista sua unidade, já que ali ele lança mão de diversos parceiros – Chico César, Zé Geraldo, Wado, Kléber Albuquerque, Joãozinho Gomes, André Bedurê e Totonho – ritmos, vinhetas, regravações (André Abujamra, Luiz Ayrão) e até mesmo uma faixa escondida, Eu detesto coca light (parceria com Chico César).

SARAVÁ – Sem dúvidas, Zeca Baleiro é, hoje, um dos grandes trabalhadores da música brasileira. Divide-se entre sua própria carreira – discos, shows –, a de produtor (por exemplo o póstumo Balançou no congá, de Lopes Bogéa, que recebeu o Prêmio Universidade FM 2008 na categoria Disco do Ano), a de diretor musical (dividiu com Luiz Jr. e Cao Alves a de Emaranhado, de Chico Saldanha, o disco mais injustiçado de 2008, com um inexplicável silêncio midiático, incluindo este modesto blogue) e a Saravá Discos, por onde, em três anos, já lançou títulos como Cruel (póstumo de Sérgio Sampaio), Ode remota e descontínua para flauta e oboé – de Ariana para Dionísio (em que musica poemas de Hilda Hilst, interpretado por um time feminino de primeiríssima grandeza: Rita Ribeiro, Maria Bethânia, Angela Ro Ro, Ná Ozzetti, Mônica Salmaso e Jussara Silveira, entre outras), as duas trilhas que compôs para os espetáculos de dança Cubo [do Núcleo Lúdica Dança] e Geraldas e Avencas [do Grupo 1º. Ato] – este “ainda em cartaz, chega à São Luís ano que vem”, avisa Baleiro –, O samba é bom (relançamento da até então esgotada estréia de Mestre Antonio Vieira, produzida por Zeca em 2001), além da remasterização de Cabelos de Sansão, de Tiago Araripe, “um disco completamente lado b, que ninguém conhece. O único nordestino da Lira Paulistana, com um sotaque mais tropical, uma dicção que mistura banda cabaçal com rock eletrônico, um disco tão importante quanto o Beleléu…, do Itamar [Assumpção, compositor falecido em 2003]. Hoje, ele [Tiago Araripe] é publicitário em Fortaleza, voltou a compor [tornou-se, inclusive, parceiro de Baleiro]. E tem o Filipe Mukenga, angolano que eu e Nosly [parceiro de Zeca que fará o show de abertura na apresentação do dia 27, na Batuque Brasil] cantávamos muito no começo da carreira, que gravamos, com participação de Martinho da Vila etc., e o Sinceramente [1982, único disco do compositor capixaba ainda não relançado em cd, embora os outros – Eu quero é botar meu bloco na rua (1973) e Tem que acontecer (1976) – estejam esgotados], do Sérgio Sampaio, que ainda estamos resolvendo coisas com a editora, para poder lançar em março”, ótima notícia.

Sobre a Saravá, Baleiro continua: “É um sonho. Eu sou um aficionado por discos, tenho um fetiche muito grande com o objeto. Eu que cuido da parte gráfica dos meus discos. Gosto quando chega a caixinha da fábrica, vou abrir feito criança, encantado com aquilo ali. Gosto dessa relação com o disco objeto, o encarte. Mas é completamente inviável, um projeto fora de timing total. Criar um selo de música alternativa, de discos de acervo, é pedir pra falir”. [O jornalista] Gilberto Mineiro graceja, anunciando-o como um Marcus Pereira [pesquisador, proprietário da gravadora homônima que lançou discos importantes de nomes como Cartola, Chico Maranhão, Renato Teixeira, Canhoto da Paraíba, Altamiro Carrilho e Carlos Poyares, entre muitos outros] contemporâneo. Entre risos, Baleiro responde: “‘Cê viu como o Marcus Pereira morreu, né? Com um tiro na cabeça… se eu tivesse grana sobrando, faria isso com o maior prazer. Mas já é difícil manter o meu próprio trabalho, manter a qualidade do trabalho, do show, ter uma boa equipe, fazer um bom espetáculo, é muito difícil, sofrido aqui no Brasil. Embora eu tenha o maior orgulho daquele catálogo”.

O HOMEM BOMBA – “O homem bomba é um personagem muito intrigante do nosso tempo. Como é a vida do homem bomba antes dele ser a bomba? Tem uma vida, deve ter amores, mulheres, amantes, namoradas, jogou bola, beisebol. Sempre me intrigou pensar no que os leva a isso, qualquer que seja a razão, é uma coisa intrigante, mais que os kamikazes que se atiravam, é uma coisa muito maluca. O homem de hoje é um homem bomba, à beira de uma explosão por qualquer razão que seja, e há muitas razões, aliás, pra se explodir hoje. Pensando nisso eu quis batizar o trabalho, mas se você me perguntar o quê que o disco tem essencialmente a ver com o nome, nada. É só uma reflexão, uma porta aberta para uma reflexão”, provoca Baleiro, que cantarola os versos da faixa que abre o volume 1, vinheta homônima: “o coração do homem bomba faz tum tum/ até o dia em que ele fizer bum”, cantiga de roda dos dias atuais, canção de ninar sobre o trágico personagem.

Para o maranhense “a música popular, a canção ainda pode ser um espaço de esperança, de alegria, dentro de um mundo cheio de horror. O disco se propõe a isso, a fazer as pessoas dançarem, se divertirem, sonharem. Acho que ‘tá precisando de um pouco de sonho, é muito reality show pra todo lado, ‘tá precisando de um dream show”.

SARROS – Mas não o sonho do sarro da letra de Tevê, parceria com Kléber Albuquerque: “comercial de xampu/ cerveja e celular/ modelos para crer/ e credicard/ a consumir (…)/ o olhar (…)”. A “tiração de onda”, aliás, presente nos dois volumes, uma possível diferenciação: o segundo, mais introspectivo – há inclusive um poema de Emily Dickinson musicado e cantado no original, em inglês –, o primeiro, mais dançante, ecos de Baile do Baleiro, nas palavras dele “um bailão, com os músicos da minha banda, amigos que vão dar canjas, uma coisa bem informal, despretensiosa, que virou uma pequena febre, um circuito meio alternativo, um bailão onde se toca de tudo, de Fevers a Benito de Paula, de Titãs a Itamar Assumpção. As pessoas vão, se divertem muito, é muito bacana, um negócio muito despretensioso. Chego lá, dou o tom e o pessoal sai tocando, uma música do Wando, uma música do Roberto Carlos, e com metais, pra dançar, uma coisa muito quente. O disco, principalmente o volume um, é contaminado por essa atmosfera baileira, um projeto que eu ainda vou trazer aqui pra São Luís”.

MERCADO – A crítica especializada – “Não existe crítica especializada. Crítica especializada seria se um compositor de canções, se um Chico Buarque fosse resenhar discos”, provocou o compositor, durante a coletiva – pode até não concordar, mas O coração do homem bomba é, sem dúvidas, projeto ousado e corajoso de Zeca Baleiro, artista contemporâneo que não liga para os ditames do mercado – para uns (quase) um deus –, a quem várias alfinetadas são reservadas ao longo dos dois volumes. Como quase diria Adoniran, vide os versos “a miséria dança/ a miséria grita/ a miséria canta/ a miséria é pop// tanta dor na vida/ da dor se duvida/ o sangue a ferida/ é que dão ibope” (na vinheta Datena da raça). Ou “você não liga pra mim mas eu ligo/ você nunca fica só/ o celular é seu melhor amigo” (em Você não liga pra mim). Ou em Vai de Madureira (com participação especial do Criolina): “se não tem água perrier eu não vou me aperrear/ se tiver o que comer não precisa caviar/ se faltar molho rosé no dendê vou me acabar/ se não tem moet chandon cachaça vai apanhar”. O processo de criação lhe permite: “Os discos foram gravados num estúdio pequeno, modesto, mas limpinho [risos], onde tenho feito os discos da Saravá, o pessoal do Criolina [o duo formado por Alê Muniz e Luciana Simões] mixou lá, num ambiente meu, com banda, técnicos de som, roadie, sem pressão de tempo, prazo, ninguém de gravadora por perto. Isso dá outra liberdade, outra fluência pro trabalho. A coisa foi tão boa que em quinze dias tínhamos umas vinte bases prontas, todas mais ou menos boas. Aí resolvi fazer um disco duplo, pois haviam canções ali naquele magote que já eram canções antigas. Música é como raiva, uma hora tem que sair. Aí pensei: vou fazer um disco duplo. Pra diferenciar fiz um com uma cara mais dançante e pro dois todo o balaio de gato que sobrou”, explica.

E continua: “Quando você se dá bem com alguma fórmula, que funciona, tipo quando eu fiz o Vô imbolá [1999, segundo disco de Baleiro], um disco muito bem sucedido, em todos os aspectos, na seqüência eu quis quebrar aquilo, propus o Líricas [2000, o terceiro] e eles [empresários, gravadora] ficaram chocados. Eles queriam um segundo Vô imbolá, uma segunda Lenha, um outro Samba do approach [faixas do segundo disco], o que é uma coisa muito óbvia, do mercado, sempre foi assim”.

Zeca Baleiro inverteu também outra lógica mercadológica: começou a turnê d’O coração do homem bomba pela região Norte (Manaus, Belém, Macapá e Boa Vista), para só depois chegar ao Rio de Janeiro (Circo Voador e Vivo Rio), Recife, Teresina, Fortaleza, Salvador, São Paulo (Citibank Hall), Porto Alegre, Belo Horizonte, Florianópolis, Brasília (as capitais são aqui citadas na ordem em que aconteceram as apresentações), e agora São Luís, fora cidades do interior, como Imperatriz, onde tocará no réveillon.

A julgar pelo clima dos dois volumes, este será um dos shows de Zeca mais divertidos que já se (ou)viu. Explosões de alegria e boa música estão garantidas, ó o serviço: dia 27, às 22h, na Batuque Brasil (Cohama). Show de abertura: Nosly. Ingressos: R$ 25,00, à venda no local e nas lojas Tim Móbile Store do João Paulo e Cohatrac e dos shoppings São Luís, Tropical e Colonial.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

2 comentários em “O BOMBÁSTICO BALEIRO E SUA CONSTANTE EXPLOSÃO DE CRIATIVIDADE”

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