AM

Determinadas instituições não mudariam em nada se perdessem uma letra de sua sigla. O exemplo prático mais recente – há outros, é claro – que me vem à cabeça é a Academia Maranhense de Letras, cujo L bem poderia deixar de figurar na sigla AML.

A Academia Maranhense nada entende de letras. Na verdade, eu sempre suspeitei de Academias. Eu nem vou citar nomes, ok?, mas que critério as academias usam para selecionar seus quadros de imortais? – vá, dou um desconto, talvez essas casas já tenham merecido respeito um dia.

Como eu disse que não ia citar nomes, também não vou fazer aqui a equação – nacional ou maranhense – do porquê de fulano ou beltrano ser imortal e cicrano não.

A Casa de Antonio Lobo – alcunha da AML – completa em 2008, 100 anos. Arthur Azevedo, grande nome das letras maranhenses, para me contradizer e citar um que certamente teria vergonha de (parte de) seus contemporâneos, completa 100 de falecido.

Aos fatos, chega de blá blá blá. Acabei integrando o júri do III Festival João do Vale de Música Popular, cujas eliminatórias aconteceram dias 4 e 5 de dezembro e a final dia 6, data em que o Batista que batizava a competição completava 12 anos de subida.

Wilson Zara, organizador do festival selecionado em edital público aberto pela Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, certamente na melhor das intenções e, valorizando, respeitando e, talvez, celebrando a AML, escolheu a instituição para fazer o julgamento das letras inscritas, para conferir o prêmio de melhor letra no III Festival João do Vale de Música Popular.

Resumindo: os jurados julgaram apenas a melhor interpretação – Bebé, por sua Reticência – e melhor música – venceu Redemoinhos, interpretada por Lena Garcia, Eline July e Dicy Rocha (não lembro o nome dos compositores e não sei se é assim que se escreve o nome da segunda intérprete, cito aqui de memória), tendo a Reticência de Bebé ficado em segundo lugar e Cláudio Leite, com Vida Incomum, em terceiro.

O que deixou a todos os jurados – e boa parte do público, sem dúvidas – boquiabertos, foi o resultado de melhor letra, responsabilidade única e exclusiva da AML: Sr. José, de Alberto Trabulsi, letra fraquíssima em música razoável, que falava em “chamar pra dançar quadrilha, o pai, a mãe, a tia, o irmão, o filho, a filha” etc., novamente eu citando de memória. Bom, das 24 selecionadas entre as 175 inscritas, havia pelo menos 15 letras melhores. E, por baixo, ao menos 30 letras assim surgem a cada período junino.

Eu não ficaria admirado se adolescentes de “cérebros” oxigenados, ao passar em frente à Academia, buscassem ali turbinar seus corpos, quiçá arrependendo-se, depois, da companhia de senis senhores, “os livros na minha estante/ que nada dizem de importante/ servem só pra quem não sabe ler”, como canta anualmente o organizador do festival, em tributo a Raul.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

6 comentários em “AM”

  1. meus amigos que estávamos lá concordamos com a escolha das músicas e do intérprete, mas a da letra foi ridícula. Não é que nem era ruim (houve bobagens como Eureka ,Eureka, o mundo ficou levado da breca), mas era total sem graça e sem inventividade. Não dêem mais esse tipo de escolha para aqueles velhos, vocês tinham melhores condições pra avaliar do que aquelas múmias.

  2. São Luis perdeu mais uma chance de se desfazer do maldito cadaver que muitos chamam de “cultura popular” (outros de “maranhensidade”)…

  3. pablo, nem acho que seja esse o problema. o primeiro, segundo e terceiro lugares nem tinham lá essas características todas de cultura popular. o resultado do festival, claro, uma soma das notas que cada jurado dá, foi diferente do resultado a que se chegaria caso eu fosse o único jurado. a meu ver, o único problema, mesmo, foi a aml. abraço!

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