Arquivo mensal: setembro 2008

JORNALISTAS ERRARAM

O presidente Lula deveria decretar luto por três dias no Brasil: morreu Waldick Soriano.

Assim, o jornalista Roberto Kenard inicia texto de sua coluna de sexta-feira (5) no Diário da Manhã (reproduzida em seu blogue, onde a li).

Adiante, diz:

Mas Waldick Soriano não era um só. Há este aqui, maravilhosamente pretensioso como o Roberto Carlos de “Detalhes”: “Fica comigo esta noite/ E não te arrependerás”.

Erra o jornalista: Fica comigo esta noite é parceria de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves. Erra também Walter Rodrigues, que copiou o sócio-proprietário do matutino da Rua do Alecrim em seu blogue do Colunão.

Sim, caros leitores: eu poderia ter usado as caixas de comentários deles. Mas dificilmente seria publicado lá, embora eles (talvez) corrigissem a informação, que é o que realmente importa.

A BOSSA DE XANGAI

Há determinados momentos em que São Luís não precisa esperar um resmungo da serpente para acordar. Ontem (4), foi um desses dias. Dois shows bons – fora as merdas da Expoema: no Centro de Convenções, integrando a programação do Circuito Itinerante Centro Cultural Banco do Brasil, Lua em concerto – um olhar erudito sobre a obra de Luiz Gonzaga, com Oswaldinho do Acordeon, Turíbio Santos, Nonato Luiz e Carol McDavit; no Teatro Arthur Azevedo, em caráter beneficente em prol das obras da Unidade Administrativa do Centro Espírita União do Vegetal Pré-Núcleo Sereno do Mar (de São José de Ribamar), Xangai In concert. Os ingressos para o primeiro custavam R$ 15. Para o segundo, com abertura do maranhense Josias Sobrinho, R$ 20.

Mais próximo de minha casa, fui ver mais um show de Xangai. O primeiro em que ele não cantou o ABC do preguiçoso (Ai deu sodade, tema de domínio público recolhido por ele). Explico: entre o bom show de abertura e o do menestrel baiano, dois integrantes do Grupo de Artes Maria Aragão (GAMAR, da Cidade Operária), apresentaram um hilariante esquete que usava a música. Rodou a gravação do Cantoria 1 e Eugênio Avelino – nome de pia de Xangai – não a repetiu ao longo do bom concerto com que nos presenteou.

A “véa da foice” – a morte –, figura que aparece em algumas canções de Elomar Figueira de Melo, mestre sempre reverenciado, merecidamente, por Xangai, teve um bocado de trabalho ontem: subiram o ator Fernando Torres e o cantor e compositor Waldick Soriano. Do último, Xangai cantou Tortura de amor, justa homenagem ao “artista mais carismático com que eu já tive a oportunidade de cantar”, disse.

Lembrei-me de minha infância, menino envelhecido antes do tempo, cantando coisas como A carta, Renúncia, Fujo de ti, Como você mudou pra mim, Justiça de Deus e outros clássicos da música brega, romântica ou seja lá como chamem. Lembrei-me de um livro que li ainda criança, Edições Pasquim, o autor me foge à memória: A vida de Waldick Soriano, que me garantiu (sempre garantiu, sempre que tornei à obra) boas risadas – talvez fosse literatura imprópria para menores, de acordo com as classificações indicativas tão em voga. Eu agradeço.

Xangai mostrou-se sábio (e quem não sabia que ele é?): não sabia como as rádios tocavam tanta porcaria e pouca gente conhecia coisas tão bonitas quanto as que Josias Sobrinho havia cantado no show de abertura. Noutro momento, antes de mandar Na asa do vento (Luiz Vieira e João do Vale), do repertório de João do Vale, afirmou: “podem pegar o baú da bossa nova todinho e só três músicas de João; a bossa nova não chega nem no chulé do nêgo velho”. O que Caetano Veloso dirá dessa heresia?

Corta. Eterna correria, deixei de comentar: o jornalista Jotabê Medeiros escreveu uma crítica sobre o show de Caetano Veloso e Roberto Carlos – de cujo baú Xangai pescou ontem Aquele beijo que te dei (Édson Ribeiro) – em homenagem a bossa nova, só com o repertório de Tom Jobim. Caetano não gostou da crítica, retrucou em seu blogue, Jotabê treplicou. Fico com Jotabê, embora não tenha visto o show (soube que vai passar na Globo; se sim, dependendo de não me atrapalhar outros compromissos noturnos, vejo). Minha pré-opinião é a seguinte: um banco força a barra para fazer propaganda. Dois totens – para usar expressão já usada no meio da confusão – da música popular brasileira, relendo o repertório de outro. Estranho que antes disso, Roberto e Caetano – que tanto já gravaram um ao outro e vice-versa, redundei, professor? – nunca tivessem feito show(s) juntos. Sobre o parangolé todo, mais e melhor escreveu meu amigo Ademir Assunção. O que terá Caetano a dizer sobre o texto de Pedro Alexandre Sanches?

Volta pra Xangai. Sem sair de São Luís, é claro. Erivaldo Gomes faz ponta e toca com ele algumas canções, incluindo a parceria Não rio mais (Erivaldo Gomes e Xangai). Histórias, risos da platéia. “É verdade”, Xangai repete por vezes, fazendo a platéia gargalhar. O Gago grego (Jacinto Silva), no bis. Nem Kukukaya (Kátia de França), nem ABC do preguiçoso. Xangai mostrou ser/ter muito mais que isso.

PINK PANTHER


[Célio e Jair: jazz e bossa e vice-versa. Foto: divulgação]

A melodia vem logo à cabeça, impossível de reproduzir aqui neste teclado de computador. Pã-rã-pã-ram etc. Tosca tentativa. Não dá mesmo. Mas vocês sabem do que ‘tou falando: o clássico dA pantera cor de rosa, tão popular quanto o parabéns a você. A animação, a pantera e o inspetor, explosões e o escambau. Enquanto isso, quem fez o quê no filme, nomes pintam na telinha.

Corta.

Célio Muniz e Jair Torres dispensam apresentações. Em A pantera cor de rosa, os dois e banda se reúnem para mostrar clássicos do jazz e da bossa-nova, além de surpresas ao público. Certamente impagável.

Falar em impagável, não sei quanto custa o couvert, ou o ingresso. Só sei que todas as sextas de setembro, às 23h, a pantera cor de rosa vai sair da toca. E nos tirar das nossas para vê-los/ouvi-los. Clouseau não vai ao Espaço Armazém (Rua da Estrela, Praia Grande), então não vai ter confusão. A diversão está garantida.

PROS DE SP

Nunca escrevi sobre o bom mais recente disco de AlziraE (outrora Alzira Espíndola) e Arruda. É dos vários bons discos sobre os quais não escrevi, mais por falta de tempo que por qualquer outra coisa. Aos amigos de SP, fica a dica para o show em que eles irão homenagear Itamar Assumpção. Sobre o disco, prometo escrever em breve.

BATE-PAPO COM AUTORES DO MA

Programa Conversas Literárias levará escritores e artistas a cidades do interior; hoje, em Matões do Norte, o convidado é Chico Maranhão.

Uma caravana literária composta por um seleto grupo de escritores, artistas e jornalistas maranhenses volta a visitar algumas cidades do interior do estado este mês. A programação, que celebra um ano, integra o roteiro do programa Conversas Literárias, realizado dentro do projeto Biblioteca Aberta, que é desenvolvido pela Sociedade de Amigos da Biblioteca Pública Benedito Leite (Sabip) e pela Biblioteca Pública Benedito Leite. A estréia acontece hoje, em Matões do Norte, com participação do reconhecido cantor e compositor Chico Maranhão e da jornalista Selma Figueiredo, da equipe de O Estado.

O objetivo é favorecer a formação de novos leitores e promover a aproximação entre leitor e autor em um bate-papo descontraído, conduzido por um mediador. A cada edição, há ainda a participação de um escritor de destaque na cena local, indicado pela cidade-sede, e de uma atração cultural na área de teatro, música ou mímica. A proposta é, a partir do mergulho na experiência pessoal de cada autor, proporcionar uma viagem ao mundo do fascínio e paixão pela literatura.

Na pauta, discussões que têm por base a importância da leitura na construção do cidadão. Assim, semana que vem, dia 9, Wilson Marques, Gilson Cesar e Vanessa Serra serão os convidados em Pio XII. Dia 11, será a vez de Paulo Melo Sousa e Domingos Tourinho participarem do evento em Penalva. A programação prosseguirá, com Geraldo Iensen e Eduardo Júlio, dia 15, em Centro Novo do Maranhão. Dia 17, Fernando Abreu, Silvana Cartágenes e Zema Ribeiro são os convidados em Capinzal do Norte. Para fechar, dia 19, José Ewerton, Raimundo Garrone e Rosa Reis participam em Santo Amaro do Maranhão. Dia 22, haverá a culminância dos encontros, na Biblioteca Pública Benedito Leite, em São Luís.

O cantor e compositor Chico Maranhão, atração de hoje em Matões do Norte, conversará com o público, pincelando momentos de sua trajetória e destacando a importância da leitura. “Esse projeto é uma das melhores iniciativas em questão de cultura relativa à biblioteca. Além de ressaltar a função dessas casas como difusoras culturais, as associa a expressões artísticas como a música”, declara Maranhão, que também é arquiteto e nesta área é autor do livro Urbanidade do Sobrado – Um estudo sobre a Arquitetura do Sobrado de São Luís (Editora Hucitec), fruto de seu trabalho de conclusão do mestrado pela UFPE e que traz CD brinde com dois bônus track.

No show que apresentará após o bate-papo com os moradores da cidade, Maranhão diz que priorizará o público infantil. “Meu foco musical serão as crianças, uma geração que está tendo uma experiência enriquecedora com esse projeto”, declara o artista. No repertório autoral, estão composições como O Circo Chegou, Cidade, Velhinho Saliente e Meu São João e muitas outras.

OUTROS PÚBLICOS

Visando estender os resultados obtidos no encontro a outros públicos, o projeto prevê a publicação da revista Conversas Literárias, que trará um balanço das atividades realizadas durante um ano de atividades. O evento, que tem apoio da Secretaria Estadual de Cultura, integra a programação em comemoração aos 179 anos da Biblioteca Pública.

O Projeto Biblioteca Aberta é desenvolvido nas 25 Bibliotecas Municipais implantadas pelo Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e em mais uma modernizada com o apoio do Programa Livro Aberto, do Ministério da Cultura (MinC), em 2007 – num total de 26 municípios contemplados.

É desenvolvido em três módulos, que abrangem a Supervisão de Bibliotecas Municipais, Capacitação de Gestores de Bibliotecas e o Conversas Literárias. A intenção é a dinamização dos espaços e a atualização dos gestores e mediadores culturais, sempre priorizando o incentivo à leitura e buscando o melhor uso das bibliotecas, a qualidade no atendimento ao público e a adequada organização do acervo.

Hoje, 3
Com Chico Maranhão e Selma Figueiredo – Matões do Norte
dia 9
Com Wilson Marques, Gilson Cesar e Vanessa Serra – Pio XII
dia 11
Com Paulo Melo Sousa e Domingos Tourinho – Penalva
dia 15
Com Geraldo Iensen e Eduardo Júlio – Centro Novo do Maranhão
dia 17
Com Fernando Abreu, Silvana Cartágenes e Zema Ribeiro – Capinzal do Norte
dia 19
Com José Ewerton, Raimundo Garrone e Rosa Reis – Santo Amaro do Maranhão
dia 22
Culminância de todos os encontros (artistas a definir) – na Biblioteca Pública Benedito Leite (São Luís)

[página 6 do Caderno Alternativo, O Estado do Maranhão, hoje]

ENTREVISTAS

Na edição de domingo de O Estado do Maranhão, minha amiga Bruna Castelo Branco entrevistou o poeta Ferreira Gullar. Trecho em itálico, uma das respostas dele:

Eu acho que esse tipo de trabalho de aproximar o jovem da literatura, aproximar o jovem da poesia, é uma coisa de uma importância muito grande porque nós vivemos em uma época em que a televisão e o videogame tomam um tempo dos meninos e das meninas e isso os empobrecem do ponto de vista cultural. O que uma pessoa vai ganhar? É só se divertir, ficar jogando videogame ou outro tipo de atividade que é interessante, inteiramente lúdica, mas isso contribui muito pouco ou nada para a formação da pessoa e as pessoas são os valores que elas possuem. Elas são a cultura que elas têm. Quanto menos cultura, menos vale. Não é que o ser humano não valha, mas é que o ser humano é um ser cultural. Ele se situa no mundo como um ser cultural. Na medida em que você ignora a poesia, o romance, a literatura, você ignora as outras coisas, a filosofia, o conhecimento da sociedade. Eu acho que esse trabalho de aproximar as pessoas da literatura é muito importante. É claro que uns vão aproveitar mais e outros menos. Alguns vão se vincular a esse tipo de leitura pelo resto da vida, outros não tanto, mas de qualquer maneira, o trabalho é muito positivo.

Gosto de Gullar. E mais ainda de Bruna (saudades, querida!). E domingo, fiquei contente de ver aquela página inteira.

E antes que desavisados digam algo do tipo: não, não estou elogiando o EMA para tirar a atenção de outra página inteira, nO Imparcial de ontem (31): Pagando para receber, assinada por Carolina Mello, sobre atraso no pagamento do prêmio do Plano Editorial Secma 2007. Também li a matéria, bem escrita.

Mais uma e por hoje é só: gosto muito também de Jotabê Medeiros, que entrevistou o Ministro da Cultura Juca Ferreira.