Arquivo mensal: junho 2008

OUTRA ESTRÉIA DO VETERANO

CULT – E falta ética hoje?
T. Z. – A cada dia tem uma degradação moral mais acentuada em todas as camadas da sociedade. Fico preocupado quando o governo lança a moda do desrespeito moral com o dinheiro, o recurso dos outros. Tudo isso cai como se fosse uma bomba no meu coração. Vejo com aquele olho de infância, né? A moeda mais importante na minha infância era a própria língua. A palavra falada tinha um valor imenso no Nordeste. Um fio de bigode vale mais que um contrato assinado porque ninguém escreve, é um povo analfabeto. E tem uma coisa engraçada, também sou analfabeto como nordestino, só que agora tenho a palavra para definir: sou analfatóteles.

CULT – O que significa isso?
T. Z. – Somos analfabetos de Aristóteles, de Euclides, de Descartes. Veja, outro grande acontecimento como a Internet foi a segunda revolução industrial. Na época do tropicalismo, ela já estava no horizonte como um navio que você enxerga o mastro. As coisas mais importantes dessa revolução eram o processamento de dados, a linguagem do cartaz, a publicidade e a televisão. E éramos analfatóteles, ao contrário de todos os outros compositores do Brasil: Chico [Buarque], Edu [Lobo], até [Geraldo] Vandré, que era nordestino. Como o eixo central da educação deles era a palavra escrita, todos disseram “vade retro satanás” para a segunda revolução, porque pressentiam que ia desbancar a palavra escrita. Mas nós, analfatóteles, ficamos curiosos. “A cor do céu me compõe/ O mar azul me dissolve/ A equação me propõe/ Computador me resolve”. Veja que coisa intuitiva filha da mãe! Não sabia que isso era tão significante na hora que fiz. Ou então eu estava prevendo que ia ser lançado assim pela Trama [risos].

*

Acima, trechos de Pensamento livre, entrevista que Tom Zé concedeu a Filipe Luna, na Revista Cult nº. 125, nas bancas.

“Lançado assim pela Trama” que o baiano fala quer dizer o seguinte: a Trama disponibilizará seu acervo para download gratuito (mediante cadastro e senha de acesso, também gratuitos) e estréia o feito com uma versão ao vivo de Danç-Êh-Sá, mais recente título do tropicalista.

Os discos ficarão disponíveis por tempo limitado, portanto, corra (sem se levantar daí) e baixe logo o seu.

É MINHA!

É hábito os jornais ludovicenses não darem créditos a fotógrafos. Já me acostumei, como já devem ter se acostumado fotógrafos profissionais. N’O Imparcial de domingo (15), a matéria Filmando boas histórias, assinada por Ronald Robson, da equipe do matutino, traz três fotos ilustrando o texto em que ele discorre sobre as produções de Breno Ferreira, Fábio Azevedo e Francisco Colombo, que concorrem na 31ª. edição do Festival Guarnicê de Cine-Vídeo, com Ódio, Juca Pé de Bode — Um conto de carnaval e O incompreendido, respectivamente.

Ilustram a matéria, uma reprodução de cena do filme de Colombo (aquela em que o menino corre na praia, usada para ilustrar o convite que pendurei posts abaixo), uma foto de Breno Ferreira e uma de Colombo. Esta, deste blogueiro, foi usada há quase um ano, para ilustrar matéria minha no A Tarde, onde eu então escrevia. Leia e veja aqui.

VIVA TIM!

Quando este blogue se tornou praticamente um obituário, de uns dias pra cá, a gente fala de mais uma estrela já subida: o saudoso Tim Maia (1942-1998), dez anos de saudades.

Mas Tim está vivo. Seja em seus brazilian souls que ainda invadem as rádios brasileiras, seja em covers em concursos em domingões.

Num sábado do mês passado, em Fortaleza/CE, descobri, lendo um jornal, que Ricardo Maia (sobrenome que não sei se de batismo ou se por conta do ídolo semelhante) prestaria um tributo ao autor de Vale tudo e outros hits, na barraca Crocobeach, na Praia do Futuro.

Fugindo do programa meia boca a que alguns da “trupe em fuga do stress cotidiano” tentavam me convencer — um show de humor com humoristas cearenses sem-graça –, acabei invertendo o jogo e convencendo-os a ir à tal barraca.

Sem graça foi ter que amargar coisa de mais de uma hora (o show atrasou e outro rolava antes) de Cid Guerreiro e um axé tosco (redundância?): é muito azar, pensei. O compositor de Ilariê e outros hits, há bem pouco tempo, vivia em São Luís, onde produzia (ou algo que o valha) a Caravana Cigana de Paulinha Lobão (no dia seguinte, ainda toparíamos com aquela figura de cabelos desarrumados ao vento da praia onde fomos almoçar).


[Ricardo encarna Tim Maia]

Ricardo Maia subiu ao palco agradecendo o público presente, num claro esporro à produção da casa, jogando-lhe (merecidamente) a culpa pelo atraso de seu show, deu esporro em músicos da banda (dois teclados: um fazendo piano, o outro, sopros; guitarra; baixo; bateria; e duas backing vocals), fazendo-me pensar: tudo ensaiado. Ninguém desafinou e conseguimos rir do fino humor do Tim cover.


[Andréia e Salim, dançam, sorriem, enfim, se divertem, ao som de Ricardo Maia e banda]

Apesar do “show de abertura”, os amigos agradeceram-me a idéia. Ao fim do show em que Ricardo Maia desfila praticamente os mesmos sucessos do disco que gravou (o “mela-cueca” Me dê motivo, Primavera, Descobridor dos sete mares e Não quero dinheiro, entre outras), fomos ao camarim, tietar.


[Graziela, Ricardo Maia e o blogueiro no camarim do Tim cover, após o show]

Comprei um disco, em cujo encarte ele autografou: “Zema, um abraço do amigo e mais novo ídolo sexy-pop do momento”. Fiquei de escrever sobre. Demorei a cumprir a promessa e o faço agora, quando finalmente Graziela entregou-me as fotos que estavam na máquina de Andréia e Salim.

Ricardo Maia se apresenta todos os sábados, às 17h (com atraso) na barraca Crocobeach, na Praia do Futuro, em Fortaleza/CE. Se você estiver/passar pela capital alencarina, não perca!

MAIS UMA ESTRELA QUE SOBE…

Morei em Rosário até sete anos de idade, quando vim para a capital onde nasci, estudar. Até algo entre 15 ou 16 anos, visitava a cidade onde moravam meus avós (e Maria Lindôso ainda está por lá) praticamente todo final de semana. Uma piada era freqüente: de tanta gente que morria e era noticiada na “voz” da Igreja Católica Matriz, a gente não sabia como a cidade ainda tinha habitantes. Era comum, em rodas de conversa nos reencontros familiares, ouvir notas de falecimento: fulano de tal morreu disso, beltrano daquilo etc.

Lugar de estrela é no céu, e elas vão subindo: hoje, chego do supermercado e enquanto estou descarregando as compras, mamãe liga a tv, alto e contra a minha vontade, e vejo: Jamelão deixa a Mangueira menos alegre.

Lembro de breves histórias hilárias do homem que não tolerava ser chamado de puxador: “Puxador é de saco, de corda, de fumo… eu sou cantor”, dizia. Do apelido, herdado de uma fruta, sei lá por que, costumava dizer: “Mas eu não sou fruta não!…”. Mas a mais engraçada das historietas era mesmo a das ligas nas mãos. Para o ditado “dinheiro não é problema, o problema é a liga”, Jamelão era a perfeita representação viva. Andava com ligas nas mãos, e dizia: “Sou prevenido. Se aparece um dinheiro, já tenho as ligas”. Impagável!


[Não tenho o crédito da foto. Peguei aqui]

UMA RAJADA DE RISOS

Quem assiste Um tiro no escuro (A shot in the dark, EUA, 1964) só corre um risco: o de morrer. De rir. O atrapalhado Inspetor Clouseau – perdão da redundância, atrapalhado é quase o sobrenome de Jacques – arranca sorrisos cena a cena, na história em que, escalado para investigar um caso, se apaixona pela acusada, Maria Gambrelli, uma bonita empregada da mansão de um milionário, e tenta provar sua inocência. Enquanto isso, pensamos num serial killer e assassinatos vão acontecendo, um após o outro. O desfecho é surpreendente e, para além destes crimes, outras sujeirinhas são retiradas de debaixo do tapete numa averiguação coletiva do – deixem-me redundar novamente – hilário inspetor, personagem clássico – porra, três redundâncias num post tão curto! – que aparece nos outros vários filmes da série A Pantera Cor-de-rosa, donde você certamente lembra de Peter Sellers, o gênio que lhe deu vida. Não dá pra contar mais, se não, quando você for assistir, não terá tanta graça. E tem, quase de graça, nas Americanas, corre lá!

COMO EU IA DIZENDO…

Elogiado por pessoas elogiáveis, perdão da intimidade, Edinho Kumasaka é um baita fotógrafo. Vez em quando descubro uma foto dele ali, outra acolá, nas esquinas incertas da internet — você nunca sabe o que encontrará quando virar. Sua série mais conhecida é Bibelôs em transe, de onde peguei, via Montenegro, a foto aí de cima. Uma imagem dessas já ilustrou capa da Coyote e parte da série foi publicada na revista, que soltou, duma tacada só os números 16 e 17, já encomendáveis no Sebo do Bactéria.

Mas nem era sobre isso que eu ia falar. Não ainda. Ia postar outra coisa quando toca o celular. Era Ramon Bezerra checando uma informação: “Zema, morreu alguma líder da Casa das Minas?”. “Rapá, não sei, mas ‘tou perto, posso ir checar”, disse, já me levantando. Fui e lá, Dona Celeste me deu a informação correta, pendurada no post anterior.

A bruxa ‘tá solta: figuras importantes subindo. O mundo perdendo um pouco da graça, por um lado.

Quase nada a ver umas coisas com as outras, outro dia desliguei telefones e cortei os cabos da internet: um fim de semana prolongado, longe do stress cotidiano. Alívio imediato. Não escrevi nenhum poema, como fez, certeiro como sempre, Ademir Assunção. E, por esse lado, o mundo recupera um pouco da graça. Ele finalmente volta de um auto-exílio necessário, enquanto eu fuçava-lhe o blogue todos os dias, na esperança de um retorno antecipado, tanta falta fazem seus dedos de prosa. Era isso que eu queria avisar: ele voltou.

Aproveitando o ensejo: não quero ser Kumasaka, estou longe de sua magnitude, reconheço-me um péssimo fotógrafo, mas, quando em vez — “falta do que fazer”, diz Venas –, fotografo brinquedos de Andrezza e Mayara, minhas sobrinhas. Abaixo, um abraço dos bonecos, aproveitando para abraçar você, caro leitor, certamente já de saco cheio de ler tudo isso aqui.

O IMPERDÍVEL

Independentemente de ser amigo de Colombo, de ter sido seu aluno e tê-lo como orientador de monografia e mais uma pá de afinidades, eis uma sessão desta edição do Guarnicê que não perco: o lançamento de seu O incompreendido.

A história é, aparentemente, simples: a dum menino que lava pára-brisas em semafóros ludovicenses mas nunca andou de carro e sonha com isso. Mais não digo para não estragar-lhes as surpresas.

Tive o prazer e a honra de assistir uma prova do filme, ainda em fase de montagem. Se ali a coisa já estava bonita, imagino como ficou agora. E me coço para que a data indicada no convite que penduro abaixo chegue logo. Sinceramente: para mim é o grande candidato a grande vencedor deste Guarnicê. E se Colombo inscrever este trabalho, selecionado pelo Programa BNB Cultural 2006, em festivais nacionais e internacionais (o que ele certamente fará), é capaz de voltar ao Maranhão com vários prêmios.

A trilha é do mago Joaquim Santos e, além do próprio ao violão, tem, entre outros, a sanfona certeira de Rui Mário. Não, não se tratam de meros detalhes, informações que dou de memória, perdoem alguma falha.

Bom, o serviço tá aí na figura, cliquem sobre pr’ampliar. Talvez eu consiga dar mais detalhes antes da sessão. Se não, fica o aviso, de já. Quem perder será incompreendido por este blogueiro, que não aceitará desculpas esfarrapadas.

O CANTO DE LENA MACHADO EM QUALQUER CANTO, A QUALQUER TEMPO

[Ouvi Lena Machado cantar pela primeira vez por ocasião do aniversário de 26 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), em fevereiro de 2005, show que co-produzi. Surpreendeu-me seu sair-se bem entre bambas do naipe de Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro, Gildomar Marinho, entre outros. Desde lá, tenho acompanhado, feliz, suas evoluções. Orgulho-me de ter escrito seu primeiro release — para um show apresentado na hora do almoço, o nome do projeto a memória me falha — no SESC Deodoro, em 2006, salvo engano. Ano em que ela gravaria sua estréia, Canção de Vida, tributo ao cinqüentenário da Cáritas. Cometi o abaixo para que ela pendurasse em seu MySpace. Agora que ela se abriu pro mundo, sacrificando inclusive projetos paralelos e acreditando em si e naquilo que quer, ninguém segura essa menina!]

O CANTO DE LENA MACHADO EM QUALQUER CANTO, A QUALQUER TEMPO

Para ser universal, canta tua aldeia. Recrio o lugar-comum da máxima do velho russo para falar (já que eu não canto) do canto de Lena Machado.

“Cantar a aldeia” e jogar-se na rede, a possibilidade (ao menos teórica) de poder ser ouvida em qualquer canto, a qualquer tempo. Um MySpace certamente não lhe é suficiente, tamanho o talento desta moça, filha de Clara Nunes, neta de Elizeth Cardoso, apenas para citar duas influências.

Velas no santuário, Lena recria orações de Cesar Teixeira, João do Vale, Joãozinho Ribeiro e, cantar também é compor, Chico Nô e Ricarte Almeida Santos, entre muitos outros.

Cantar em prol das causas e coisas em que acredita não lhe faz ranzinza. “Se é pecado sambar”, Manoel Santana, Deus dará o perdão.

Palavras não adiantam, ouvi-la aqui é pouco: um MySpace não é suficiente, torno a dizer. Checa aí a agenda e vá ouvi-la e vê-la ao vivo. “Olha o rebolado que ela faz/ não posso mais/ eu vou atrás pra ver”, prenunciava outro mestre, Jackson do Pandeiro, a quem Lena também pede bênçãos.

Abençoada, ela, de canto divino. Abençoados, nós, por podermos ouvi-la.

“E DEIXA A TANGA VOAR!…”


[Tanga de Sereia. Capa. Reprodução]

Não consigo ouvir 200% da música (?) que os imbecis (isto é, os malas) ouvem em porta-malas (sim, inutiliza-se o porta-malas do carro do mala, entupindo-o de alto-falantes e o escambau): sempre a mesma música, variando as letras, mas nem tanto, todas de péssimo gosto. É como ouvir a mesma piada zilhões de vezes: para me fazer rir, quem conta tem que ter algum atrativo, diferencial, mexer em alguma coisa, trejeitos, enfim, enfeites que me façam gargalhar da mesma história (contada de um jeito diferente, repita-se).

Não que eu não goste de brega. Quem não gosta? Mas daí a sentir vontade de ficar surdo, ouvindo uma música horrível, só para que os outros saibam que eu tenho um som possante (eu chamaria de boçal mesmo!) no carro, são outros quinhentos. O lance do status: comprar o que você não precisa, com dinheiro que você não tem, para mostrar aos outros aquilo que você não é. Vá lá, ficar filosofando em casa, analisando as composições, algumas do quilate do créu e “outras” porcarias, também não dá. Melhor ir encher a cara no boteco da esquina, apoiando os cotovelos no áspero e gasto balcão. Sim, é daí que nasce a expressão que batiza o repertório de Lupicínio Rodrigues e outros bambas, agulha vira navalha, te corta!

Utilizando-se de elementos que eu detestaria em outras bandas que tocam ad infinitum onde quer que você esteja (no bar, no ônibus, no sistema de som da loja de eletrodomésticos ou roupas, e até mesmo em casa etc., etc., etc.), a Tanga de Sereia me soa original. É brega, engraçadinha, e me conquistou à primeira audição. Ecos de Waldick Soriano e Reginaldo Rossi aqui, do calipso paraense ali, das serestas de teclado em pontas de rua acolá, alinhavadas pela voz de Danielly, pouco diferente do que ouvimos por aí, mas se equilibrando na medida entre a dor (fingida ou sincera), a safadeza das letras (“primo com prima pode/ era o que ele sempre dizia/ o cara que me desvirginou/ aquele filho da minha tia”, em Primo com prima), o prazer e a diversão, garantida.

Não sei quantos dias dura, mas lá em casa, atualmente, é number one no hit parade. Valeu, Rojão!

"E DEIXA A TANGA VOAR!…"


[Tanga de Sereia. Capa. Reprodução]

Não consigo ouvir 200% da música (?) que os imbecis (isto é, os malas) ouvem em porta-malas (sim, inutiliza-se o porta-malas do carro do mala, entupindo-o de alto-falantes e o escambau): sempre a mesma música, variando as letras, mas nem tanto, todas de péssimo gosto. É como ouvir a mesma piada zilhões de vezes: para me fazer rir, quem conta tem que ter algum atrativo, diferencial, mexer em alguma coisa, trejeitos, enfim, enfeites que me façam gargalhar da mesma história (contada de um jeito diferente, repita-se).

Não que eu não goste de brega. Quem não gosta? Mas daí a sentir vontade de ficar surdo, ouvindo uma música horrível, só para que os outros saibam que eu tenho um som possante (eu chamaria de boçal mesmo!) no carro, são outros quinhentos. O lance do status: comprar o que você não precisa, com dinheiro que você não tem, para mostrar aos outros aquilo que você não é. Vá lá, ficar filosofando em casa, analisando as composições, algumas do quilate do créu e “outras” porcarias, também não dá. Melhor ir encher a cara no boteco da esquina, apoiando os cotovelos no áspero e gasto balcão. Sim, é daí que nasce a expressão que batiza o repertório de Lupicínio Rodrigues e outros bambas, agulha vira navalha, te corta!

Utilizando-se de elementos que eu detestaria em outras bandas que tocam ad infinitum onde quer que você esteja (no bar, no ônibus, no sistema de som da loja de eletrodomésticos ou roupas, e até mesmo em casa etc., etc., etc.), a Tanga de Sereia me soa original. É brega, engraçadinha, e me conquistou à primeira audição. Ecos de Waldick Soriano e Reginaldo Rossi aqui, do calipso paraense ali, das serestas de teclado em pontas de rua acolá, alinhavadas pela voz de Danielly, pouco diferente do que ouvimos por aí, mas se equilibrando na medida entre a dor (fingida ou sincera), a safadeza das letras (“primo com prima pode/ era o que ele sempre dizia/ o cara que me desvirginou/ aquele filho da minha tia”, em Primo com prima), o prazer e a diversão, garantida.

Não sei quantos dias dura, mas lá em casa, atualmente, é number one no hit parade. Valeu, Rojão!

O TALENTO DOS TALENTOSOS

A MPX investe pesado na propaganda da instalação de uma usina termelétrica no Porto do Itaqui, previsto para 2012, conforme o “bonito” (entre aspas e frisando-se o “plasticamente”) material de divulgação da empresa de “soluções integradas de energia”.

Trechos dum texto ruim que li (não consegui identificar se se trata de um folder ou de página arrancada de alguma revista, um amigo me trouxe duas páginas soltas, rasgadas), grifos nossos:

O início da operação da Usina do Porto do Itaqui está marcado para janeiro de 2012, ano do 4º centenário de São Luís.

A cidade, Patrimônio da Humanidade, completará 400 anos com muitas e belas histórias para contar. Histórias de desafios vencidos com garra e coragem por sua gente guerreira.

[…]

Histórias de uma cultura popular exuberante criada pelo talento de artistas talentosos.

[…]

NOITE DE ÊXTASE


[Noites de gala, samba na rua. Capa. Reprodução]

Pode(ría)mos simplesmente torcer o nariz e repetir a pergunta: “mais um tributo a Chico Buarque?”. E, mais que isso, achar fácil fazê-lo, já que material é o que não falta. Mas o resultado conseguido por Mônica Salmaso e pelo grupo Pau Brasil em Noites de gala, samba na rua é algo incrível. O repertório é equilibrado: a turma não se limita aos grandes clássicos buarqueanos, tampouco grava/toca somente o lado b do lado b.

Perfeito o disco, perfeito também o show baseado em seu repertório, apresentado no Teatro Arthur Azevedo, sexta (6) e sábado (7), 20h. Som, luz, repertório, inte(g)ração entre os músicos e a cantora (que também se arriscava numa percussão ocasional) e entre os músicos entre si: musicalmente, eis a perfeita tradução para a palavra perfeição, sem exageros de novela mexicana ou redundâncias do blogueiro.

Novidades a cada canção do repertório, músicos se revezavam no palco, e Salmaso ia trocando intimidades com um e com outro, ficando sozinha com Nelson Ayres (piano), Paulo Bellinati (violões), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Ricardo Mosca (bateria) e trocando até beijinho na boca com o marido Teco Cardoso (sax e flautas). A banda masculina do público presente não ficou com ciúmes, extasiadas que estavam, todas as almas ali presentes.

Mônica contou histórias, falou de sua relação com São Luís, cidade que ilustra em p&b o encarte do disco, agradável surpresa. E se disse feliz pelo patrocínio do Bradesco Prime, que estava oportunizando a turnê que percorreria 21 cidades brasileiras em 42 shows com ingressos a preços populares (na capital maranhense custavam R$ 20,00 e R$ 10,00 — meia para estudantes com carteira –, mas eis o show que você pagaria R$ 100,00 ou mais e não se arrependeria, pode ter certeza). Eu, que não gosto de bater palmas para bancos, tive que me render: feliz iniciativa.

Silenciei quase sempre quando pensei em fazer qualquer comentário com o trio de amigos que me acompanhava: o show não podia ser interrompido por absolutamente nada. Deixei todos os comentários para após o show (desnecessários, nada do que eu diga, traduz) e não os fiz, mesa de bar que não fui após, pra quê serve este blogue?

Nem mesmo cantar, acompanhando a parte mais conhecida do repertório, eu quis. Trincar o cristal da audição com a pedra bruta de minha voz? Nem pensar…

Imperfeição, Graziela tinha compromisso com um curso no horário do show e não pode me acompanhar. Sim, houve um vazio imenso na noite. Mas disso, nem Mônica Salmaso nem o Pau Brasil têm culpa.

LÁGRIMAS POR FAUSTINA


[A Mona Lisa da Praia Grande. Foto: Muriel Lima. A mão que segura o gravador é do blogueiro. Entrevistávamos a personagem para um trabalho da Faculdade de Jornalismo, em equipe que se completava com Andrezza Cerveira. A data que aparece no canto superior direito da foto está errada: a imagem é de 2004 ou 2005, a memória não ajuda]

Eu tenho uma pá de coisas boas sobre o que escrever. Infelizmente, preciso escrever sobre as ruins também. E foi péssimo ter recebido, ainda há pouco, do amigo Gutemberg Bogéa, a triste notícia de que Faustina tinha subido. Fui pego de surpresa e escrevo ainda completamente tomado de emoção. A Praia Grande ganha uma lacuna. A Praia Grande fica vazia.

Há coisas que ninguém nunca conseguirá explicar. A morte, certamente uma delas. E ela chega de repente e leva sem consultar, sem um simples “posso?”. Já era. Nem me venham com “meus pêsames”, “meus sentimentos”… não adianta.

Natural de Alcântara, Faustina Matilde Pereira era resistente comerciante do Centro Histórico ludovicense, onde se confundia, ela própria, com a paisagem. Sentada em uma cadeira no batente do casarão na esquina da Rua do Giz com o Beco da Alfândega, defronte à praça que os boêmios informalmente rebatizaram com seu nome, é essa a imagem que dela quero guardar, junto com seu sorriso.

Cumprimentá-la era como pedir a bênção a uma mãe, profana religião, Faustina era uma deusa. Ou uma Mona Lisa, como cantou Cesar Teixeira em Mona Lisa da Praia Grande, música ainda não registrada em disco. Na Faustina (certos espaços ganham o nome do dono e pronto!) o autor de Flor do Mal realizou um “lava-bruxas”, um dia após o lançamento de seu Shopping Brazil, em agosto de 2004 (com o casarão em reforma e cercado por um tapume, nos espremíamos na outra calçada do Beco, bebendo cerveja tirada de caixa de isopor). Pop(ular), apareceu em videoclipe de Zeca Baleiro: Faustina não precisava de salão de beleza.

Gestos que já lhe garantiriam imortalidade. Mas Faustina não morre, vira azulejo, como decreta Joãozinho Ribeiro, outro poeta-devoto. Nós-todos, santos-sacanas, órfãos de luto e de tantas lutas. Viva, Faustina! Faustina, viva! Faustina, imortal! Faustina, Patrimônio Cultural!