UMA NOITE E OUTRA

Há uma diferença abissal entre o Criolina e o Bumbauê. Isso pode soar o óbvio ululante aos leitores – poucos mas fiéis – habituais deste blogue. Mas pode soar esquisito a quem porventura tenha caído aqui via google, digitando o nome da segunda banda, por exemplo.

Já assisti aos dois shows nesta temporada junina em São Luís. Ambos eletrificam a música popular maranhense, “modernizando”-a. E as semelhanças param por aí.

Alê Muniz e Luciana Simões usam as referências da cultura popular do Maranhão para construir sua obra, conceito já traduzido em seu disco Criolina, sobre o qual já escrevi cá no blogue. Pepê Jr., o homem à frente do Bumbauê, não passa de maria-vai-com-as-outras, adaptando-se aos períodos: se é carnaval canta marchinha carnavalesca, se é São João, vai de toada, se é fora de época, vai de micareta.

É interessante, para dizer o mínimo, numa apresentação do projeto Criolina, ouvir a introdução do reggae Is this love? (Bob Marley) e depois, com o acompanhamento instrumental do ritmo jamaicano, um autêntico João do Vale (salvo melhor juízo, era Na asa do vento).

É chatíssimo, para dizer o mínimo, ouvir um pot-pourri de toadas clássicas do bumba-meu-boi do Maranhão: Boi de lágrimas (Makarra), Boi da lua (Cesar Teixeira), algo do Barrica, um “ponto” de tambor-de-crioula, até iniciar-se o chamamento para uma quadrilha ao som do Frevo mulher (Zé Ramalho).

Lembrei-me de certo “toque” do José Teles (já republicado por aqui; Toques é o nome de sua coluna no JC), que estranhava o fato de jovens não dançarem ao som da saudosa Marinês, um dia, num festival de forró (ou algo que o valha), mas dançarem noutro ao som de algum não-sei-o-que-que-tem-lá do forró: a cantora da “sua gente” não ficava, de cima do palco, comandando o rebanho: bunda pra lá, bunda pra cá, tira o pé do chão!

Certo, a quadrilha do Bumbauê “arrebanhou” uma porção de gente; no show do Criolina, era um casal aqui, outro acolá, e um doidinho dançando solto no meio da praça. São João é alegria? É. E eu não posso ser/estar/ficar alegre parado? Ou dançar só se tiver vontade e não por alguém estar ao microfone fazendo gracinha (sem graça nenhuma)?

Enquanto o Criolina tem um trabalho autoral, liquidificando as influências recebidas – dos cantadores de tambor de crioula de nossa terra ao Led Zeppelin, entre outras –, o Bumbauê (que pode mudar de nome de acordo com a festa: sambauê, bundauê ou outro auê qualquer) limita-se a fazer cópia barata do axé baiano no que ele tem de pior, cadê o grito da galera?

No final das contas, nem dá para comparar. Enquanto um é remédio de bicheira (seus ouvidos, livre-os de larvas), outro tem compromisso apenas com encher a própria burra.

2 comentários em “UMA NOITE E OUTRA

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