angelicalanche


[reprodução capa]

“salta um rilke shake/ com amor & ovomaltine/ […]/ eu peço um rilke shake/ e como um toasted blake”, pediu ele à garçonete, no misto de lanchonete e livraria. depois que farmácias começaram a vender coca-cola, e isso não era tão recente, o comércio de modo geral havia começado a inovar. ali mesmo, naquele salão onde entrou há pouco, era possível ver um velhinho segurando um ás de colete, prestes a anunciar sua vitória em mais uma rodada de um jogo de baralho (literário), sem cartas marcadas. isso mesmo: lanchonete, livraria e salão de jogos. já era o tempo em que “os velhos jogavam damas na praça, professores de tudo que é dor” [léo jaime].

o jovem começou, enquanto encarava seu lanche: “dentadura perfeita, ouve-me bem:/ não chegarás a lugar algum./ são tomates e cebolas que nos sustentam,/ e ervilhas e cenouras, dentadura perfeita./ ah, sim, shakespeare é muito bom,/ mas e beterrabas, chicória e agrião?/ e arroz, couve e feijão?/ dentinhos lindos, o boi que comes/ ontem pastava no campo. e te queixaste/ que a carne estava dura demais./ dura demais é a vida, dentadura perfeita./ mas come, come tudo que puderes,/ e esquece este papo,/ e me enfia os talheres”.

enquanto fartava-se com seu lanche (refeição?) naquela manhã de ressaca e fome conseqüente, corria os olhos por lombadas e deparou-se com um anúncio fixado em uma das paredes: “família vende tudo/ um avô com muito uso/ um limoeiro/ um cachorro cego de um olho/ família vende tudo/ por bem pouco dinheiro/ um sofá de três lugares/ três molduras circulares/ família vende tudo/ um pai engravatado/ depois desempregado/ e uma mãe cada vez mais gorda/ do seu lado/ família vende tudo/ um número de telefone/ tantas vezes cortado/ um carrinho de supermercado/ família vende tudo/ uma empregada batista/ uma prima surrealista/ uma ascendência italiana & golpista/ família vende tudo/ trinta carcaças de peru (do natal)/ e a fitinha que amarraram no pé do júnior/ no hospital/ família vende tudo/ as crianças se formaram/ o pai faliu/ deve grana para o banco do brasil/ vai ser uma grande desova/ a casa era do avô/ mas o avô tá com o pé na cova/ família vende tudo/ então já viu/ no fim dá quinhentos contos/ pra cada um/ o júnior vai reformar a piscina/ o pai vai abrir um negócio escuso/ e pagar a vila alpina/ pro seu pai com muito uso/ família vende tudo/ preços abaixo do mercado”.

anotou o site da editora contido no anúncio – http://www.cosacnaify.com.br/ – e mandou buscar o livro da angélica freitas, lançado há um ano (março, 2007), para comemorar o dia da poesia, ontem (14).

*

este não é um post autobiográfico. os itálicos acima são (trechos de) poemas de rilke shake, estréia em livro da poeta gaúcha.

3 comentários em “angelicalanche

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