como matei meu pai

sim, é o nome do filme ora em cartaz no cine praia grande [centro de criatividade odylo costa, filho, praia grande, sessões às 18h e 20h30min]. fui assistir, meio que por acaso, sexta-feira passada. entrei no cinema para dar um tempo e poderia ter feito outra coisa, mas o título do filme, o fato de ser francês (risos) e o anúncio como comédia – achei trágico, sinceramente – me chamaram a atenção.

ali estava eu, como quem não quer nada. não pude deixar de rir do “em cima da hora”: quase atrasado, entre resolver um e outro problema antes da sessão, foi uma coisa só eu sentar e os letreiros iniciais tomarem conta da tela: como matei meu pai [comment j’ai tué mon père, frança, 2001].

na parte superior esquerda de minha arcada dentária, algo me incomodava. usava a língua como uma espécie de palito de dentes e concentrava-me entre o filme e o esforço de retirar um suposto resíduo de comida que ali se alojara. passei o filme inteiro tentando fazer isso, sem sucesso e, que bom!, sem prejuízo ao entendimento da trama. ainda bem que o pequeno público presente não percebeu as manobras que tanto irritavam a mim mesmo.

em resumo, a história, é a seguinte, pescada daqui: jean-luc é um quarentão que se deu bem na vida, pelo menos em aparência. médico respeitado, casado com a belíssima isa, ajuda seu jovem irmão que é ator, empregando-o na sua bela casa burguesa. mas a vida de jean-luc e seus próximos é abalada no dia em que seu pai retorna, após um exílio voluntário de muitos anos.

imediatamente lembrei-me de meu pai, separado de minha mãe desde meus dez anos de idade. colocava-me no lugar do protagonista e tentava entender as razões do velho de barba e cabelos compridos e grisalhos que já havia deixado outras famílias anteriormente. seu distanciamento, seu silêncio, a incerteza de sua vida ou morte no sudeste-“maravilha”. um filme inteiro passou em minha mente, como se eu fosse um moribundo. percebo, no entanto, que minha vida está apenas começando. deus queira.

apesar dos momentos que justificam “como matei meu pai” como comédia e das poucas risadas de alguns poucos presentes, aquilo me doía fundo. mas permaneci na sala escura até o final da sessão. e valeu a pena.

pouco depois, entre um gole e outro da pouca cerveja que me permiti tomar – restos de gripe ainda me povoam – comentava uma “visita” (entre aspas, pois, a rigor, nem se tratava disso) inusitada que recebi. na hora em que abri a porta, meu irmão não estava em casa. parado na calçada de casa, um homem falava ao celular e gesticulava para mim, dando a entender que lhe esperasse terminar o assunto, que iria falar comigo. era o senhor de quem supostamente meu irmão alugaria uma casa e de quem eu, até ali, tinha apenas ouvido falar. trajava jeans e camisa pólo colocada por dentro, tinha cabelos médios e barba. pensei estar diante de meu pai, achando aquele homem tão parecido com alguém que há anos eu não via. na memória, fotografias que há tempos já não vejo. dava os descontos desse tempo, para o meu lado que pensava “não, não pode ser”. e o lado que pensava “e se for?” decidia-se entre o tomar a bênção, bater-lhe a porta na cara ou sair de casa levando a chave do jeito que eu estava no momento.

não posso negar minha curiosidade por papai. não chamaria o que sinto de saudades. não sei, sinceramente, como reagiria a um eventual encontro nosso – digo eventual por não saber se acontecerá ou não. se pode acontecer ou não, já disse de minhas dúvidas. e é dúvida minha também saber se ele tem alguma curiosidade por mim, por meus irmãos e/ou por suas duas netas (minhas sobrinhas), que nem sei se ele sabe que já tem.

como matei meu pai? papai se suicidou em mim.

2 comentários em “como matei meu pai

  1. cara, eu quiz sair da sala de cinema a todo momento. por sinal vai ser meu proximo post, acho q já digeri. e vou ver de novo.

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