bônus overmundo

a tarefa não era fácil, embora nós mesmos tenhamos, democraticamente, nos pautado. sebos. uma matéria sobre esses espaços raros em são luís, ilha ora em crise de identidade, tentando elaborar um (mini-)guia. luiz henrique silva, ricardo milan e este blogueiro dividiram as tarefas e caíram em campo. o resultado do trabalho (a bênção, larissa leda, gracias, gracias!) pode ser conferido no overmundo. para a árdua, embora prazerosa atividade (prazerosa embora árdua?), este blogueiro fez duas entrevistas, que seguem abaixo.

as entrevistas – conversas entre amigos – mantêm toda a informalidade das ocasiões. no chico discos tomei duas cervejas com o proprietário e comprei o bbc sessions, do led zeppelin, além de um vinil de elizete cardoso com o zimbo trio. do papiros do egito, saí com dança dos escravos e música de sobrevivência, ambos de egberto gismonti. não sem antes presenciar um chato que cobrava uns livros deixados ali, naquela tranqüilíssima manhã de sábado [o chato acabou saindo com um cheque em mãos, que só poderia ser descontado na segunda-feira seguinte].

*

entrevista: chico

francisco de assis leitão barbosa, mais conhecido como chico ou chiquinho, tem um ano e meio de sebo próprio, já que era figurinha fácil entre o poeme-se e o papiros do egito, sebos de onde tirou parte de seu acervo particular. o chico discos, misto de sebo e locadora de dvds fica na rua do ribeirão, 319, centro (fonte do ribeirão).

zema ribeiro – chico, quando foi que te deu “o estalo” de abrir um sebo?

chico – eu já tinha muito dvd em casa. daí resolvi juntar com uns livros, que eu tinha também, vinis… comecei o sebo só com coisas minhas.

zr – foi mais ou menos dar utilidade ao acervo que tu tinhas em casa?

c – exatamente. depois as coisas começaram a funcionar, e aqui já aumentaram bastante [refere-se à quantidade de dvds, cds, livros etc.]. dvd é o que mais cresce, eu tenho que comprar toda semana.

zr – o pessoal exige novidades, não é? o nome chico discos remete a sebo, mas a maioria das pessoas freqüenta o espaço por causa da locadora de dvds, não é isso?

c – sim. são luís não tem uma grande circulação de livros. às vezes as pessoas vêm vender, mas são coisas que não me interessam muito: livros escolares, por exemplo. dá um bom dinheiro, mas dá muito trabalho. tem um pessoal que vem locar dvd, há pessoas que eu conhecia do poeme-se, do papiros [sebos de são luís, até hoje freqüentados por chico]. com relação ao nome, ia ser cine discos, eu já tinha até mandado fazer a placa, quando [o poeta] dyl pires disse: “não, rapaz, não bota não! bota chico discos”. aí eu botei.

zr – numa coluna de betinho [o jornalista herbert de jesus santos, colunista do jornal pequeno], li algo sobre sua resistência a colocar um apóstrofo e americanizar o nome. conte-nos essa história.

c – quando eu fui mandar fazer os recibos, a pessoa disse que deveria ser “chico’s discos”. e eu disse: “rapaz, não, eu sou só um” [risos]. até hoje betinho passa aqui e puxa essa história [risos].

zr – chico, em um ano e meio de sebo, o teu espaço já é uma referência da, digamos, “intelectualidade alternativa”, fora dos círculos da academia maranhense de letras, por exemplo. os poetas encontram-se aqui, fazem recitais, ainda que, ou melhor assim, bastante informais. os escritores agora o tomaram como ponto de encontro para elaboração de propostas de políticas públicas que deverão ser entregues ao novo secretario de estado da cultura. o quê que tu achas disso? dá um charme para a casa, ajuda a vender, ou as duas coisas?

c – as pessoas estão sempre por aqui. jovens, pessoas mais velhas. dá charme e ajuda o comércio. eles compram muito, são consumidores ávidos, vorazes.

*


[a organizada bagunça do papiros do egito. foto: zema ribeiro]

entrevista: moema alvim

farmacêutica com mestrado em parasitologia e especialização em entomologia, moema de castro alvim (64) abriu o papiros do egito (rua da cruz, 150, centro) como passatempo. em 14 anos como sebista, tem, hoje, em são luís, uma das casas mais respeitadas do ramo, freqüentada por “tribos” diversas: intelectuais, estudantes, jornalistas, entre outros.

zema ribeiro – sabemos de sua trajetória como professora universitária, hoje aposentada. como surgiu a idéia de abrir um sebo?

moema alvim – há 14 anos, eu abri o sebo papiros do egito, com esse nome para reforçar o endereço, que ficava na rua do egito. lá, em dois anos, o ambiente ficou pequeno para tantos livros; de lá fomos para a rua dos afogados e em mais dois anos, o mesmo problema. nós procuramos um espaço maior, aqui na rua da cruz, mantendo o nome papiros do egito, sempre. aqui também, hoje, já está pequeno. nós tempos cerca de 12 mil livros, três mil cds e sete mil elepês. como professora, eu viajava muito. estudei no rio, em brasília, em belo horizonte, e também não podia comprar livros em livrarias. aí comecei a freqüentar os sebos, principalmente no rio e em belo horizonte e fui juntando muitos livros. quando me aposentei e não quis ficar parada, vi que a única coisa que acumulei ao longo dos anos foram livros. daí a idéia: como faltavam sebos, aqui em são luís só havia o poeme-se, pensei, há espaço para mais um. de 14 anos para cá, surgiram cerca de 20 unidades de ensino superior e fecharam cerca de sete livrarias, uma pena muito grande, inclusive a espaço aberto [que tinha como sócio o compositor josias sobrinho], que era uma livraria muito tradicional.

zr – qual o público que mais freqüenta o papiros do egito?

ma – estudantes e professores universitários, vestibulandos, e profissionais, principalmente advogados.

zr – o que é mais vendido?

ma – as obras de autores maranhenses. eu sempre digo que nós nos deitamos, nos acomodamos com o título de atenas brasileira, que não fazemos mais por merecer. as pessoas não sabem mais freqüentar sebos. hoje é um sábado, em que só dois clientes apareceram por aqui. os alunos procuram mais o sebo na época em que estão elaborando suas monografias, por que eles não encontram essas obras em livrarias e/ou bibliotecas.

zr – há certa tentativa de suprir essa ausência, então…

ma – sim, mas nós estamos convivendo com a geração internet, a geração xerox. ao lado de cada biblioteca de universidade, seja privada, seja pública, há uma máquina de xerox. é proibido fazer cópias de livros, isso é um contra-senso.

zr – o que a senhora acha do mercado de são luís para sebos?

ma[enfática] péssimo! péssimo e não só para sebos: é para livros. os grandes empresários abrem franquias de roupas, tênis, móveis. mas quem abre uma livraria é um idealista, que vai ficar com livros acumulados. os professores também são culpados, por virem [de mestrados e especializações fora do estado] com títulos de livros que não são encontrados aqui. o livreiro é geralmente um comerciante de médio ou pequeno porte que não tem dinheiro para se abastecer de milhares de títulos.

zr – as pessoas também não têm prazer em conversar, não é? essa que é a principal característica dos sebos, já que às vezes se chega numa grande rede, loja de discos, livraria e o vendedor está ali, mas não entende de nada. no sebo, geralmente o proprietário conhece um pouco de tudo o que vende. o que a senhora acha disso?

ma – o jovem, o cliente, quando vem aqui, às vezes vem atrás de lançamentos, o que significa que ele não entende o que é um sebo. se jô soares diz no programa dele que livro tal é bom, ou se sai a relação dos mais vendidos na veja ou na istoé, sei lá, em outras revistas, pode ser no dia anterior, ter sido lançado ontem, eles vêm procurar. chegam e querem ser atendidos como se fosse uma livraria. eles querem que eu dê o título dos livros, entregue o livro na mão, talvez até no capítulo em que lhes interessa. eles não sabem procurar livros em sebos. dão o título dos livros como se estivessem numa farmácia, entregando uma receita ao farmacêutico. o grande charme dos sebos é atirar no que se vê e acertar no que não se vê. as pessoas vêm procurar determinado título e acham outro, que já buscavam há tempos e precisavam.

zr – a partir do que a senhora está falando, dá para fazer um paralelo entre os sebos e a internet, por exemplo. aqui os clientes deveriam entrar procurando uma coisa e, às vezes, sair com outra. é a coisa dos links em textos na internet: você está numa trilha certinha, de repente clica em um link, começa a ler outra coisa e às vezes não volta ao texto em que se estava…

ma[interrompendo] eu sou totalmente tecnófoba. não deveria ser. nós inclusive começamos a catalogar o acervo para colocar num site. na realidade, abri esse sebo para resolver um problema meu. seria muito fácil para o cliente chegar aqui, apertar uma tecla e achar livro “x” ou “y”. eu quero que ele chegue e procure, que se envolva com essa magia.

zr – com isso de querer que as pessoas descubram, se envolvam, voltamos à questão do idealismo. a senhora se considera, portanto, uma idealista?

masim, uma idealista. os primeiros objetos que eu tive em mãos, com coisa de quatro, cinco anos de idade, quando eu estava sendo alfabetizada, o que na época era, de certa forma, considerado precoce, foram livros. livros foram meus primeiros brinquedos e era o que eu gostava. passei muito tempo trabalhando na universidade, mexendo com livros. não pensava em literatura, eu quase não tinha tempo, eram mais livros técnicos voltados para minha área. sinto-me gratificada. conheci muitos autores, outros autores através destes. creio até que contribuo mais para a educação aqui do que quando eu era professora. alunos vêm aqui buscar material para suas monografias, se eu não tenho, procuro ajudar, informar onde ele encontra, ou mandando buscar no rio de janeiro.

3 comentários em “bônus overmundo

  1. Ola zema.muito boa essa reportagem sobre os sebos…semana passada passei no papiros e seria um pecado nao trazer um titulo, entao trouxe um de Jorge Amado. o mais interesante que a Moema falou na entrevista foi sobre o site, essa era uma perguta que tinha a muito tempo em minha mente, por que nao modernizar? gostei do argumento dela, se fosse assim tão fácil não teria graça, não seria sebo….abraços

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