da série “resenhas fora de época”

[o título do post somente se justifica pela resenha aqui publicada não estar no “calor” do lançamento da obra. nada mais. a “série” foi iniciada aqui]

A poética do reengajamento pela linguagem: espaços e tempos do local e do universal

por Valmir de Souza*

Volto a S. Luís pela pena escrita de Joãozinho, o grande de coração, de entendimento das urgências da vida e da tradição lenta de uma cidade que permanece através dele em nós. O autor que tanto opera pelos outros e abre caminhos, agora faz a sua leitura de mundo, a sua des-leitura da cultura engendrada pelo tempo histórico e social dos que querem eternizar a memória dos poucos. João está com os muitos, convive com muitos, seus outros tão seus próximos ainda pela palavra.

Mas o poeta também volta ao seu lugar, ou melhor, faz da cidade sua paisagem, se confundindo com ela. Essa revisitação da vida em forma literária faz do livro o próprio poeta.

Já pela capa vemos o tempo na paisagem, São Azulejos de Luís. A presença do tempo marcada pelas pequenas ruínas nas flores azulejadas de verde.

O título “Paisagem feita de tempo” nos envia à temporalidade e ao espaço vistos do ponto de vista poético. Ler esse livro é de enorme prazer em ver o registro da cultura marcando o olhar.

A memória silenciosa presente em versos como “Toda inquietude do silêncio / Tendo vez e voz / Nesta paisagem / Que eu crio e transformo / De fruto do meu corpo / E semente da minha crença / Em pés do meu destino” (p. 18). O poeta luta na revisão de seu calendário, ainda que não seja de fácil operação.

O livro percorre espaços-ruas das cidades dentro da cidade, mas também a trajetória do sujeito poético-cultural que é Joãozinho. A história da cidade se confunde com a do poeta-sujeito-histórico. Que convive com quem fez a história a seu modo: bêbados, prostitutas, benzedeiras etc. O lirismo dos bêbados cheios de poesia e música de Isidoro Damasceno com sua “santa bebedeira” (p. 22). “No coração do Centro Histórico” projetos de moradia, ironia em relação ao desnorteio daqueles que viveram no centro da cidade, das cidades.

A visão do expurgo feito pelo trabalho das máquinas que tanto encantam as crianças, mas que é resultado de “projetos de modernização”. Assim se constata nos versos: “Até deparar com as garras / Dos tratores sangrando a terra / E soterrando os encantos / Da Praia do Boqueirão”. (p.43)

O poeta se apropria da cidade que é sua e de todos. “Cidade és minha paisagem / Feita de tempo e de mim / Feita de tudo que somos / E do que seremos, enfim.” (p.100)

O poeta escuta a cidade invisível inscrita nos interstícios da memória, contra o “mundo caduco” da modernização, fazendo sua resistência cultural.

Um livro feito de palavras e ilustrações. Estas, de uma sensibilidade que nos leva à infância do ser Joãozinho e do ser de todos nós, brasileiros e universais. O pipa-papagaio-pandorga-capucheta que leva ao sonho; a tia vendendo mingau de milho; uma chaminé, uma pessoa e uma fábrica; o gato Inocêncio na goiabeira; as duas “aranhas”; cidades etc.

Gostei.

(*) Professor universitário, pesquisador cultural, coordenador do projeto “Café Filosófico” na cidade de Guarulhos/SP

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rola, internet afora, um manifesto defendendo o nome de joãozinho ribeiro (que trouxe de são paulo, na bagagem, o texto acima) para a secretaria de estado da cultura. manifesto legítimo, diga-se, encabeçado pelo grupo independente de teatro amador (grita), laboratório de expressões artísticas (laborarte), fóruns intermunicipal e municipal de cultura e instituto pólis, entre outros. haverá, nesta quarta-feira (22), às 19h, um manifesto político onde este apoio será publicizado. anote aí: será no laborarte (rua jansen müller, 42, centro). os interessados em declarar apoio, podem fazê-lo enviando nome, endereço, profissão e rg ou cpf para o e-mail elizandra.rocha@yahoo.com.br e/ou elizandra_31@hotmail.com e/ou comparecendo ao ato supra.

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acontece amanhã, a abertura do 8º congresso de música do maranhão (convento das mercês); a primeira “palestra” do dia (8h30min) será ocupada pelas “propostas de políticas culturais do governo jackson lago”. representando oficialmente o governador eleito, estará joãozinho ribeiro, elaborador do programa de governo para a área.

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há um tempinho não nos falávamos. ela que detesta quando eu desato a falar de política (nem sei se chegará até aqui na leitura). mas foi bom vê-la mandar-me um beijo da janela do ônibus, enquanto eu, oh! exagero, quase morria atropelado ao atravessar a cajazeiras e (tentar) retribuir, desajeitado, o gesto.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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