vacância ferida

Abrindo uma encomenda que acabara de receber das mãos do carteiro, sentiu uma das lâminas da tesoura cortar-lhe o dedo. O dedo de dar dedo – diria, se ainda fosse criança – da mão esquerda. Só, em casa, não sabia o que fazer. Havia interrompido um trabalho para atender a porta. Ganhava a vida escrevendo. Ficção. Espécie rara hoje em dia, frisava, sempre que possível, em conversas informais pelos botequins, onde era admirado pelos que compunham sua mesa. Tinha prestígio e o dinheiro, se não era muito, dava para o essencial.

No papel ou na tela em branco do computador – já que não via problema nenhum em aderir às novas tecnologias, embora não fosse um entusiasta do corre-corre insano que viu acometer a humanidade nos últimos tempos – gostava dessa coisa de brincar de ser deus, de saber o destino dos personagens e, poder, ao menos sobre eles, sempre interferir.

Alguém havia levantado para abrir a porta, em sua ficção – que seria publicada em alguma revista – quando a campainha soou. Riu da coincidência, levantou-se para abrir, hoje não era dia de a empregada vir arrumar sua modesta residência de homem solteiro, era o carteiro. Um pacote, talvez livros, talvez discos, talvez prazer, talvez trabalho. Assinou o recibo, desejou um bom dia – sincero – ao homem de amarelo, fechou a porta, foi caçar uma tesoura para abrir a encomenda, cheia de fitas adesivas, lacres e selos.

Se de sua cabeça brotavam histórias aguardadas por seus leitores – muitos – com uma ansiedade, angústia talvez ininteligível, ao contrário das histórias que contava, de seu dedo brotou um líquido viscoso, de cor forte, “a própria menstruação”, pensou. Sua primeira reação foi levar o dedo à boca, numa tentativa de estancar o sangramento.

Chupando o dedo feito criança a ponto de dormir, ainda teve a paciência de procurar, entre as várias pilhas de discos que ocupavam parte considerável da casa – assim como livros – um Pablo Milanés: os versos de Yo pisaré las calles nuevamente encheram a sala, enquanto ele arrumava um curativo. Com uma só mão, no entanto, era difícil curar a outra. O telefone começou a tocar, insistentemente. Deixou os vários trins misturarem-se à música na sala vazia, dedo na boca, deitou-se em sua cama, masturbou-se, dormiu e não concluiu o texto.

[acima, meu “quintal poético” na edição de outubro do almanaque jp turismo, já nas bancas]

2 respostas para “vacância ferida”

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