algumas das afiadas 394 maneiras de não se esquecer são luís

O homem caminha a cidade ou a cidade caminha o homem que caminha em direção a um lugar que vive mudando de lugar. A cidade é um bicho doido de sete ou de incontáveis cabeças que cresceu para todos os lados, alimentando-se das coisas que homens que desgovernam cuspiram no seu ventre frágil e cheio de limites. A cidade não é mais romântica, seus pés de cinderela agora são de concreto armado e ratos desfilam pelas entranhas da Praia Grande enquanto que notívagos bêbados e meninas prostituídas na infância oferecem o sexo adolescente para os gringos cheios de euros. A violência explode na periferia, da Liberdade inexistente ao Coroadinho sem Cristo, na Olímpica miragem onde até os deuses mais imprudentes não colocam os pés ou na Operária onde o trabalhador amarga a duras penas um transporte urbano precário e que vive caindo aos pedaços.

Meninos sem futuro se arrastam nos sinais de trânsito do Renascença ou do São Francisco, cheirando cola de sapateiro e abreviando a própria existência desprovida de sentido. Não há vagas para pais desesperados e mães solteiras desinformadas, analfabetas de amor que deixam os próprios filhos em casa para caírem na gandaia das noites. Mas o carnaval, o São João, o Marafolia e os shows de forrós continuam cheios de pessoas vazias que gastam o último centavo para curtir um gole de alegria.

A cidade também se alimenta da lascívia do Tambor-de-Crioula, do agarradinho do reggae, do frenesi das discotecas, da cachaça e do uísque importado, da poesia dos intelectos e da imbecilidade dos pobres de espírito, dos desfiladeiros das escadarias do Centro Histórico com suas escorregadias e inebriantes pedras de cantaria, da gastança burguesa nos Shopping Centers, onde a modernidade dos cinemas revela um mundo que não está ao alcance de todos os dedos, das grifes da vida e dos hambúrgueres cancerígenos e deliciosos. A vida dura o tempo de um palito de fósforos queimando, então, porque não aproveitar o brilho e o calor da chama? As igrejas estão aí, os terreiros estão aí, os templos estão aí, e cada crença acredita que a sua crença é A crença, enquanto que a crença do outro não passa de loucura e pecado. Mas o pecado maior é a ignorância, e “ quem dentre vós que não tiver pecado que atire a primeira pedra”, antes que a Ilha exploda de gente saindo pelo ladrão, cercada de politiqueiros podres e de desvario por todos os lados.

São Luís é uma Babilônia, Górgona pós-moderna, com enésimas faces à espera de uma identidade cada vez mais distante, fragmentada na própria ausência de planejamento, onde a politicagem gelatinosa busca a todo custo raspar as sobras do tacho, onde a instalação de grandes indústrias, um equívoco alicerçado na idéia de um progresso manco que só convence os idiotas de plantão e os desinformados crônicos continua a crescer como doença leucêmica a sugar a essência sanguínea dos seus rios poluídos e mortos, onde os homens descarregam seus dejetos sem tratamento e que vão parar nas praias contaminadas pelos coliformes fecais de uma sociedade alienada ou paralisada pelo medo ou pela própria conivência com as arbitrariedades.

Mas temos que comemorar porque comemorar é preciso, com praças sendo reformadas, escolas sendo inauguradas, turistas chegando e carregando para a Europa meninas pobres, de preferência negras, mais exóticas na sexualidae segundo os padrões dos nórdicos. Porém, não existe tragédia que não possa ser esquecida pelo calor das bebidas, pelo frenesi das festas intermináveis e pela perpetuação da distribuição das migalhas, das “pérolas aos porcos”. Vamos comemorar, sim, que ninguém é de ferro, e não há mal que dure para sempre… ou será que a proposição está equivocada? Não, não existe a pretensão de ser palmatória, principalmente do mundo. Lembrança rápida do poeta John Cage: “não tente melhorar o mundo, você só tornará as coisas piores”. Nessa babel cosmopolita na qual São Luís se transformou, quase todos não falam a mesma língua, mas todos se entendem ou entendem a inevitável necessidade da falta de entendimento. Nada de choro, pois entre mortos e feridos, todos seremos salvos… ou não! Ainda bem que existe muito sangue bom lutando pela cidade. A todos que sairem destas palavras, por favor, não se esqueçam de acender a própria ou a próxima luz…

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Acima, texto de Paulo Melo Sousa, o Paulão.

É o editorial do Suplemento JP Turismo (encartado às sextas-feiras no Jornal Pequeno) do dia em que São Luís completou 394 anos. Paulão tem dado uma valiosa contribuição ao jornalismo cultural e ambiental “cometidos” no Maranhão. Além do Suplemento, ele escreve no Almanaque JP Turismo (onde este blogueiro assina o “Quintal Poético“) e iniciou recentemente colaboração com a (nova) revista ComCiência Ambiental (mensal, Editora Casa Latina), já no segundo número, nas bancas.

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Sonho interrompido por guilhotina“, de Joca Reiners Terron: daqui a um mês, como ele já avisou em seu blogue, link ao lado.

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Altamente recomendável a leitura dos posts de hoje e ontem no blogue de Idelber Avelar, lúcido como sempre, link ao lado.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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