benditos sejam maria e seus filhos

[antes, um off-topic, que sem chatice não é zema: no diário da manhã de ontem, uma nota sobre o armazém da estrela foi somada ao texto original da coluna do zema. nada contra o local, que já divulguei em outras ocasiões, nem contra o jornal, mas preciso esclarecer até onde e o que escrevi. dito isso, vamos ao que interessa]

referências são fundamentais. eu já disse isso e cito, sempre que posso e devo, e até quando não posso e não devo, as minhas. em seu “crônica: modo de usar”, xico sá cita algumas das dele: joão antonio, joão do rio, bukovsky e antonio maria, não necessariamente nessa ordem.

xico pratica, hoje, um jornalismo e uma literatura únicos. e para além dos “modos de macho & modinhas de fêmea, amores platônicos & phodas homéricas, jornalismo picareta & gonzolendas, fábulas & carapuças”, consegue escrever sobre política, sem ser chato. quem não acreditar (até agora), pode conferir a ponte aérea sp, no no mínimo. (aí ao lado, mais xico: além do blogue, o blônicas, antes desta ponte aérea).

abaixo, antonio maria, bendito seja!, no original. última hora (rj) de 8 de junho de 1960. [“benditas sejam as moças: as crônicas de antônio maria” / joaquim ferreira dos santos, organização. – rio de janeiro: civilização brasileira, 2002].

[antes de maria, outra fala deste outro maria, zé maria, zema, o blogueiro: o texto, entre tantos outros tão bons, foi escolhido por conta da frase, certeira, de manoel de barros, que ainda me martela a cabeça: “o que é bom para o lixo é bom para a poesia”]

poesia perdida

não sei onde deixei minha poesia. deve ter sido em um desses bares, por aí. ou no olhar, na carne, no breve dia feliz da mulher amada. sei que a perdi e, se era tão pouca, foi bom que se perdesse, porque poesia é como areia – só merece menção quando é muita; exemplo: praia e deserto.

que me lembre, senti-a pela última vez em um amanhecer do cais de hamburgo. era a noite curta de um fim de primavera e, já às três da madrugada, começava a clarear. aos nossos pés, faxinando o seu barco, um marujo cantava uma canção de palavras engroladas, mas muito bonita, a canção. a alguma distância sobre o horizonte do amanhecer, a silhueta de bismarck. foi a última madrugada da minha poesia.

deus, bem haja as viagens que me deste!

de lá para cá, as coisas têm acontecido fora de mim. sinto-as imensamente mas nada nasce, como outrora nascia, dentro do meu coração – um universo à parte. ao contrário do que possam pensar, essa mudança não me desgasta. digo-me, muitas vezes: que bom não ser poeta! que alívio interior, que descanso, o de não gerar! a poesia é, agora, o acontecimento fugaz e ocasional em minha volta. eu só o temo, depois de escolher.

mas há uns dois ou três dias, distraído, ia-me encrencando com um desses acontecimentos exteriores. era uma festa. a porta se abriu e entrou uma mulher. bem, já tem havido isso, de portas se abrirem e, por elas, entrarem mulheres. mas, embora a porta fosse igual a todas as outras, a mulher não era. as mulheres deviam ser como os caranguejos – todas iguais. entanto, para desgraça nossa, não o são. é verdade que é bom ter-se uma mulher por quem se faça barba todos os dias, por quem se mande fazer um terno azul de casimira, por quem se encomende uma gravata na dominique france, por quem se deixe de comer pão, arroz, batata e manteiga. todavia…

quando a porta se abriu e aquela mulher entrou, porque ela fosse alígera ou, simplesmente, míope, uma sensação já minha conhecida vibrou no peito esquerdo. algum mal estaria me acontecendo: poesia ou burrice? deus queira que tenha sido este último… poesia só leva ao que não serve.

2 comentários em “benditos sejam maria e seus filhos

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