Arquivo mensal: maio 2006

até!

tou viajando no domingo. depois conto mais. sem internet em casa, é bem provável que eu só volte a ler e-mail, usar o messenger e atualizar o blogue na quinta-feira. deixo vocês com um aviso: dia 18 (quinta-feira, repito) acontece em bh, o lançamento do primeiro número da revista de autofagia, maiores informações aqui, aqui e/ou aqui. o amigo (ex)-blogueiro maranhense reuben tem narrativas na revista. repito: na volta conto mais.

Diário Cultural de hoje

Um texto “fraquinho”. Não sei se a greve de ônibus atrapalhou a apresentação de ontem; espero que não. Nossa torcida também para que tudo corra bem na de hoje. E que Marcelo Nova chegue logo à Ilha.

Duplo Xangai

Xangai em duas apresentações em São Luís: uma ontem, outra hoje, PUB e Armazém da Estrela, respectivamente. A Ilha, de diversos shows marcados e não-realizados recebe (mais uma vez) o cantador que imortalizou o “ABC do preguiçoso” e “Kukukaya” (de Cátia de França), que não são seus únicos “sucessos”.

Quando São Luís parece ter se transformado na capital brasileira onde mais se marcam shows que não chegam a se realizar – consigo lembrar-me de Cidade Negra, Nação Zumbi, Chico César, Marcelo Nova e Billy Paul –, ouço burburinhos sobre uma apresentação – duas, na verdade – de Eugênio Avelino, mais popularmente conhecido como Xangai, artista importantíssimo na formação “musical” deste que vos escreve. Ele tocaria no PUB, em 10 de maio, ontem, e no Armazém da Estrela (Rua da Estrela, Praia Grande) no dia seguinte, hoje, data desta coluna. A primeira casa, agora em novo endereço (Av. Beira-Mar, próximo ao posto de gasolina, em frente ao plantão central da RFFSA), contribui com a lista acima, já tendo marcado por duas vezes a vinda de Marcelo Nova à Ilha. Para quem não sabe, o roqueiro baiano nunca tocou em São Luís, com ou sem o Camisa de Vênus.

Não sei de quem é a culpa: se falta público (não creio), se falta uma “ajudinha” da mídia para divulgar (estamos aqui, companheiros, o espaço é de vocês!) ou outro motivo qualquer. O fato é que essa rotina já está ficando chata e a coluna (fechada sempre até às 16h do dia anterior à publicação) torce para que o show no PUB tenha acontecido e que o de hoje aconteça e que corra tudo bem em ambas.

Memória ligeira sobre outra apresentação de Xangai na Ilha

Compositor bissexto e intérprete inspirado/ousado, Xangai (Eugênio Avelino) é um artista muito maior que “o ABC do preguiçoso”, adaptação sua para tema de domínio público que muitos chatos insistem em pedir-lhe em shows deste o instante em que ele adentra o palco. Pedido inútil já que ele sempre apresenta a música em questão. O escriba aqui já presenciou o fato (e não só uma vez): em sua última vinda, no Circo da Cidade, Xangai interrompeu o script (lembremos Elomar) – que andava lá pela segunda ou terceira música – e anunciou: “ela é a última música que toco no show; se você quiser, posso tocá-la agora…” O chato teve que calar-se: o povo queria mais. E (muito) mais tinha Xangai a mostrar. De Elomar a Jackson do Pandeiro, de Luiz Gonzaga a Cátia de França, de João do Vale a Renato Teixeira: a arte de Xangai, plural e coerente.

Xangai ganhou projeção nacional a partir dos discos “Cantoria” (1984, Kuarup Discos), gravados por ele com os menestréis Elomar, Geraldo Azevedo e Vital Farias. É certo que ele não vende como quem vai ganhar discos de ouro, mas tem público cativo, se não em quantidade, em qualidade. Fiel, ele – o público – estará lá. Sempre, pois Xangai segue a máxima de outro compositor, Milton Nascimento: “todo artista tem de ir aonde o povo está”.

Que disco mudou sua vida?

Diário Cultural de hoje. E você: que disco mudou sua vida?

Uma coluna com defeito de fabricação

Plagiando – sem combinação (?) – o jornalista Pedro Alexandre Sanches, o colunista escreve sobre “o disco que mudou sua vida”. O texto abaixo reúne duas “teorias” tra[du]zidas na obra em questão: a estética do plágio e os diversos defeitos de fabricação (e estrada) que tornam este colunista humano.

Ao ler “O homem da gravata florida” no blogue de Pedro Alexandre Sanches, corri para casa e me botei a ouvir Jorge Ben, “A Tábua de Esmeralda” (1974), coisa que faço sempre, de vez em quando – e não há, aqui, contradição. E pensei em fazer a mesma coisa: “que disco mudou a sua vida?”, perguntei-me.

Ano passado, numa saudável “brincadeira” proporcionada pelo blogue do professor Idelber Avelar, elaborei uma lista com “os dez melhores discos de música brasileira produzidos entre 1950 e 2005”. A lista, bastante pessoal e apaixonada, conforme afirmei à época – e reafirmo hoje –, era cheia de falhas e trazia algumas ausências injustificáveis: Nelson Cavaquinho, Cartola, Caetano Veloso, Tom Zé e o próprio Jorge Ben ficaram de fora.

Corta. Ano 2000. O escriba aqui era estagiário do Banco do Nordeste e, à época, apenas sonhava em um dia estudar jornalismo. Algo que eu gostava muito de fazer – ainda hoje – é visitar o sebo Papiros do Egito, da amiga Moema (Rua da Cruz, 150, Centro); lembro de freqüentar o espaço desde criança, quando, em 1992 fui morar no Centro da Ilha. Sempre foi garantia de bom papo estar ali. Nesse aspecto, pouca coisa mudou de lá para cá.

Quem também tinha um sebo também na Rua da Cruz era o professor Carlos Menezes, aficionado por música, fã extremado dos Beatles e colecionador de discos de bumba-meu-boi que, para não se desfazer de certas paixões – este(s) ou aquele(s) disco(s) – colocava preços altos em suas mercadorias. O sebo, também ambiente de boa conversa sobre música – quase sempre vazio, o que garantia diálogos ainda melhores –, fechou pouco depois.

Numa dessas tardes mágicas, vi um disco que, inicialmente, julguei caro: ainda no plástico original, da loja, com reproduções de opiniões de veículos como New York Times, Rolling Stone e Village Voice, estava lá, acenando para mim o “Com Defeito de Fabricação” (1998), Mr. Tom Zé. Já estava mais que na hora de eu conhecer o autor de “Parque Industrial”, cuja versão com Gil, Gal, Caetano e Mutantes eu já conhecia. Sem pestanejar, peguei o disco, paguei, levei, ouvi. Dali a sair, louco, procurando tudo o que encontrasse de Tom Zé, foi um pulo só. Corta, para uma fala ligeira da (minha) imodéstia: o relatado aqui foi “meu primeiro tom zé”; hoje, tenho todos os discos do baiano lançados em formato digital.

Mais que um disco, “Com Defeito de Fabricação” é um conceito; defende-se a idéia de que somos operários terceiro-mundistas mais baratos que robôs fabricados na Alemanha ou Japão, porém cheios de defeitos para o patrão primeiro mundo; alguns deles – catorze – as canções do disco (na ordem): O Gene, Curiosidade, Politicar, Emerê, O Olho do Lago, Esteticar (Espinha Dorsal), Dançar, Onu: Vendem-se Armas, Juventude Javali, Cedotardar, Tangolomango, Valsar, Burrice e Xiquexique. O disco trazia ainda as faixas bônus “Curiosidade”, em remix de Amon Tobin, e “O Olho do Lago”, esta reinventada por Sean Lennon, sim, o filho do beatle.

Outro conceito defendido no conceito que é o disco, é a estética do plágio: “podemos concluir, portanto, que terminou a era do compositor, a era autoral, inaugurando-se a era do plagiocombinador, processando-se uma entropia acelerada”. Na pauta do dia – hoje, 2006 – a discussão sobre os “creative commons”.

A partir dos “arrastões” – nome dado a uma técnica de roubo urbano muito em voga no Brasil há alguns anos – Tom Zé re(cria) sua obra e a de outros nomes: Martinho da Vila, Gilberto Gil, Caetano Veloso, a poesia concreta, Alfred Nobel (sim, o homem com que batizaram o prêmio), o músico que toca na noite paulistana (e, por que não?, brasileira) e outros e outros mais.

Engraçado este disco de Tom Zé – ou qualquer outro, genial que ele sempre é, rima não-intencional – não ter figurado entre os do meu top10. No encarte do “disco que mudou minha vida”: “A arte de tecer foi uma grande ousadia. Pensar sempre será”.

Óbvio: este texto foi escrito ao som de “Com Defeito de Fabricação” (Luaka Bop, 1998), de Tom Zé.

três

na verdade, quatro, mas um já foi (re-)publicado por aqui anteriormente: “o barulho da navalha na veia da literatura” saiu, ontem, no diário da manhã.

abaixo, três textos meus, os dois primeiros publicados no número dois do colunão, que chegou ontem às bancas e assinantes (alô!: assine já, ligando para (98) 3235-5530).

o primeiro, uma nota sobre o prêmio visa de música brasileira, publicada (sem assinatura) no senadinho, seção de “idéias & toques sem muita formalidade” do colunão (alô!: mande sua idéia ou toque para wr.walter@uol.com.br e/ou zemaribeiro@gmail.com).

o segundo, “o des-exílio de tom zé”, fiz para a página de cultura, editoria que começa a se desenhar no semanário independente e que, neste segundo número, conta com a presença ilustríssima de joãozinho ribeiro. o trecho em itálico do texto não foi publicado no jornal, por conta de espaço; vai aqui com exclusividade para os leitores do blogue, espécie de bonus track.

o terceiro, um desabafo, um tanto quanto piegas e mal-escrito, motivado pelo assalto que sofri, acompanhado da namorada na quinta-feira última. alô: (alô o quê?) estou sem celular; para me encontrar: e-mail e/ou caixa de comentários deste blogue. estou tentando resolver logo o problema e em breve aviso amigos e inimigos por aqui.

1.
Chamada aos músicos

A nona edição do Prêmio Visa de Música Brasileira está com inscrições abertas. O já tradicional prêmio é fruto de uma parceria entre a administradora de cartões de crédito e a Rádio Eldorado, e hoje é reconhecido como um importante espaço de fomento à criação musical no país. A edição deste ano premiará compositores (a categoria muda a cada ano, podendo premiar também cantores e instrumentistas etc.). Podem se inscrever artistas de todo o país. Os trabalhos devem ser enviados via internet ou correios até o dia 22 de maio e a premiação pode chegar a até R$ 110.000,00 (cento e dez mil reais, valor bruto com imposto de renda a ser deduzido na fonte e CPMF a ser recolhida pelo banco), além do contrato para a realização de um disco pela Gravadora Eldorado. Outras edições do prêmio já contemplaram nomes como Chico Saraiva, Mônica Salmaso, Renato Braz e Yamandu Costa, entre outros. Não há necessidade dos trabalhos serem inéditos. Para ler o regulamento, ficha de inscrição e maiores informações, acesse http://www.premiovisa.com.br

2.
O des-exílio de Tom Zé

“Nave Maria”, único disco de Tom Zé ainda não reeditado em cd chega finalmente ao mercado em formato digital; na série Som Livre Masters, pelas mãos de outro bruxo: Charles Gavin, incansável garimpeiro de sons brasileiros.

É inegável e impagável a contribuição que o titã Charles Gavin tem dado à música popular brasileira nos últimos anos. Iniciado com o relançamento de diversos títulos em cd, os famosos dois em um (dois elepês em um cd), recolocaram nas gôndolas das lojas de discos e de departamentos, nomes como A Cor do Som, Belchior, Guilherme Arantes, Novos Baianos, Secos e Molhados, Tom Zé e Walter Franco, entre outros. Os discos (cd’s) reproduzem as artes dos encartes originais, com a limitação imposta pelo novo formato.

“Fuçando”, literalmente, os arquivos da Som Livre, Gavin acaba de recolocar à disposição do público – em parte saudoso, em parte curioso, noutra parte ávido por bons sons, tão raros hoje em dia – vinte e cinco títulos de diversos artistas brasileiros importantes.

Acaba de me chegar às mãos o único título de Tom Zé lançado na década de oitenta do século passado, “Nave Maria” (1984). Incrível como o “gênio de Irará” – seja isso o que for: clichê, lugar-comum, chavão – possa ter ficado tanto tempo no ostracismo – outro clichê, chavão, lugar-comum, quando se fala dele –, entre o lançamento de “Correio da Estação do Brás” (1978) e o de “Brazil Classics 4 – The Best Of Tom Zé” (1990), após David Byrne tê-lo (re)descoberto para o mundo.

A história: em fins da década de oitenta, David Byrne, em visita ao Brasil, comprou dezenas de discos de música brasileira, levando entre eles o “Estudando o Samba” (1975), de Tom Zé. Ouvindo-o, achou genial, organizou a coletânea citada e, pela Luaka Bop, gravadora do ex-Talking Head, (re)colocou o baiano – que quase desiste da música para ser frentista no posto de gasolina de um sobrinho em sua terra natal – nos estúdios. De lá para cá, Tom Zé é namorado pela imprensa nacional e mundial, celebrado que é, a cada lançamento que faz, pós-carreira americana.

Inacreditável ostracismo – Quem diz não crer/entender n/os motivos que relegaram Tom Zé ao ostracismo, tem boas razões. Senão vejamos este relançamento. A faixa-título, que abre o disco, está na coletânea organizada por David Byrne, celebrada por cabeças pensantes ao redor do mundo e Brasil afora/adentro. E diversas outras faixas já foram regravadas, no todo ou em parte, pelo próprio Tom Zé – plagiocombinador de si mesmo – em discos pós-EUA: “Su Su Menino Mandú” teve trechos melódicos usados em “Defeito 14: Xiquexique”, parceria com letra de José Miguel Wisnick e voz de Arnaldo Antunes em “Com Defeito de Fabricação” (1998); “Identificação” ganhou roupagem voz e violão e teve versão ao vivo incluída em “Imprensa Cantada” (2003); “Conto de Fraldas” foi regravada por Tom Zé em “Jogos de Armar – Faça Você Mesmo” (2001) e no homônimo disco de estréia do Tianastácia (2000), prova de que nem só de skanks e jota-quests vive o pop mineiro contemporâneo.

Em “Nave Maria” já aparece a idéia dos arrastões: classificações dadas pelo autor de “São São Paulo” baseadas no trabalho anterior de outro(s) compositor(es) (lá ainda não citados). O disco é feito, pois, de bugue-samba, baião-xaxá, baião-barbeiro, sambatutu, baião-través, fanque-enredo e frevo-roque.

A “cozinha” é sempre boa companhia: além do compositor, aparecem como instrumentistas no disco, Reinaldo Barriga (violão), Milton Belmudes (violão, cavaquinho e percussão), Oswaldinho do Acordeão (um dos maiores sanfoneiros do país), Sérgio Sá (de Sá, Rodrix e Guarabira, depois só ele e o último, teclado), Silvia Maria e Eliana Estevão (vocais); por lá também Charles Furlan (baixo, cavaquinho e teclado; com ele Tom Zé gravou “No Jardim da Política” (1998), vozes e violões) e Lauro Lélis (bateria e percussão, ainda hoje na banda do “Tropicalista lenta luta”).

O que o levou ao ostracismo, ninguém sabe. Mas que bom que ele conseguiu sair dessa. Vivo. Ave, Gavin! Nave, Maria! Sem instante, maestro! Viva, Tom Zé!

3.
Eu e minha namorada vestidos de utopia

A reação era praticamente unânime entre amigos e familiares: “mas vocês vacilaram!”, “o trecho ali é perigoso…”, “São Luís tá um perigo…” e por aí vai/ia (vaias para nós, “chapéu de otário é marreta”, hein?). Tudo vai/ia (de novo!) contra a minha opinião, cheia de certeza: a Ilha é uma cidade pacata, como não poderia não ser uma província. E falo isso sem nenhum ranço de ódio ou qualquer outro sentimento negativo em relação à terra natal, ilhéu convicto que sou.

O fato: minha namorada e eu caminhávamos pela Rua Grande – entre a Caixa d’água e o Canto da Fabril, nesse sentido – por volta das 19h do dia 4 de maio, quinta-feira. Eu, atrasado, rumo à aula, na Faculdade São Luís. Ela me acompanhava e de lá iria para casa. Fato absolutamente normal, não? Não fosse a abordagem de um cidadão armado com um revólver que reluzia, apesar da pouca iluminação do local (alô, Cemar!); cidadão esse que era esperado por outro, montado numa bicicleta, do lado oposto da rua. Após “rasparem” minha pochete e a bolsa da namorada, pedaladas tranqüilas os levaram rumo ao Diamante. Na pochete e na bolsa: celulares, dinheiro e documentos.

Minutinho depois, surgem, no sentido Canto da Fabril-Caixa d’água, duas motos do grupo de choque da Polícia Militar: informados por nós sobre as características do homem armado e seu companheiro ciclista, pediram-nos que esperássemos e partiram em busca dos dois, nada encontrando e retornando depois para nos dar esta satisfação e tomar nossos números de telefones, para um eventual contato, já que as buscas continuariam.

Depois de um assalto, é absolutamente normal fazer o relato a conhecidos, parentes etc. e ouvir outros relatos em resposta: “fulano já foi assaltado ali”, “beltrano já foi assaltado assim”, “cicrano, assado”. Todo mundo conhece alguém, ou conhece alguém que conhece alguém que já foi assaltado. Demos sorte, entre aspas, de encontrar as motos com os policiais. Menos sorte tiveram eles – e nós – que não encontraram nossos pertences.

Pelos relatos de parentes, amigos etc., soubemos: todos os dias ocorrem assaltos naquele trecho: além de mal-iluminado, conta com pouco policiamento (alô, polícias civil e militar!, alô, governo do estado!). Algo que deveria ser melhorado, observando-se que aquele pedaço do início do grande shopping aberto ludovicense, é “habitado” por escolas, cursos, faculdade etc. (alô, diretoria e DCE da Faculdade São Luís!, alô, diretores de escolas!, alô, donos de cursos!); os alunos destes, em sua maioria, têm que caminhar rumo ao Canto da Fabril ou à Praça Deodoro em horários inóspitos para tomar ônibus de volta para casa.

Ao registrar queixa para termos em mãos o boletim de ocorrência, a fim de tomar providências necessárias (bloqueio de celulares, segunda via de documentos, constar nas estatísticas etc.), o vazio da delegacia me soava ironicamente engraçado: ninguém na permanência, o telefone começa a tocar; alguém aparece e o atende; nem parecia que estávamos ali; ele pede um instante a quem está do outro lado da linha, vai até a porta, volta. A ligação era para alguém que não se encontrava no estabelecimento no momento, presumi pelo que ouvi pela fala do lado aqui da linha, enquanto espero um segundo aparecer e nos perguntar o que desejávamos… (de novo: alô, polícia civil!, a greve já acabou…)

Este texto é, lógico, motivado pelo que se deu conosco ontem. “Dos males o menor”, prefiro pensar. Bens materiais podem ser recuperados, documentos podem ser re-tirados e, exceto a violência do “berro” apontado em nossa direção e o nervosismo normal do momento, não sofremos (absolutamente) nada.

Não há, de nossa parte, nenhum sentimento de vingança. Não, não ficaríamos felizes se o batalhão pegasse os dois rapazes e os “enchesse de porrada” para recuperar nossos pertences. Mas não deveria ser garantido o direito de ir e vir dos cidadãos, seja lá em que local isso se dê? Idiota, infantil, inocente, utópico, ou o que quer que seja. Nós não desistimos/desistiremos de acreditar – e lutar por – (n)uma sociedade melhor e mais justa. Para todos!

Notas:

1. O título do presente texto, escrito na manhã de 5 de maio de 2006 foi extraído da música “Utopia”, de Chico César, registrada pelo compositor paraibano em seu disco “De Uns Tempos Pra Cá” (Biscoito Fino, 2005).

2. Boca da noite de hoje (vide data que escrevi o texto, nota acima), o ônibus em que minha avó retornava à Rosário, onde mora, foi assaltado: três homens armados levaram pertences dos passageiros. O fato aconteceu por volta das 18h, entre o posto da Polícia Rodoviária Federal (Pedrinhas) e Estiva.

Lena Machado canta no SESC; o Som segue, Mará adentro

Som do Mará

A turma do Som do Mará, leia-se Betto Pereira, Celso Reis, Daffé, Gerude, Josias Sobrinho, Marco Duailibe, Ronald Pinheiro e Tutuca, continua sua turnê pelo interior do estado. Desta vez, chegando às cidades de Santa Inês (hoje, dia 5), Bacabal (sábado, 6) e Pedreiras (domingo, 7). O projeto tem o incentivo do Ministério da Cultura através da Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobrás. E mais, vamos avisando por cá.

E quem se apresenta hoje ao meio dia no SESC Deodoro é minha amiga Lena Machado. Para ela, escrevi o release abaixo.

Lena Machado: da missa à mpb

Lena Machado nasceu em Zé Doca, interior do Maranhão, onde começou a cantar; inicialmente, nas missas e celebrações comunitárias; depois, voltada às lutas por um mundo melhor, inseriu-se na caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Daí sua relação com a música ter estreitas ligações com movimentos sociais. Talvez por isso, Lena tenha deixado uma carreira mais profissional em segundo plano até hoje, tempo que espera recuperar agora – se é que foi perdido – a partir da insistência de amigos.

Influenciada pelo canto de nordestinos – Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho – e sambistas – Dona Ivone Lara, Antonio Vieira, Candeia – não pretende, no entanto, rotular-se. “Espero, além de cantar nomes consagrados, ajudar a descobrir novos compositores, que, como eu, ainda não mostraram a cara para a Ilha e para o mundo”, diz.

Lena Machado já participou de eventos e manifestos estaduais e nacionais, mas, em São Luís, onde hoje vive e trabalha na Cáritas Brasileira, suas aparições públicas no cenário musical são restritas. Destaque para o show de comemoração de 26 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos – quando dividiu o palco com os bambas Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro e Gildomar Marinho – e a abertura do show de Antonio Vieira, na comemoração do Jubileu da Cáritas no Maranhão, ambas no ano passado.

Consciente das dificuldades que músicos enfrentam no Maranhão – e no Brasil como um todo – Lena afirma “acreditar profundamente na capacidade e na criatividade de sua gente”. Sua apresentação no SESC, dia 5 de maio, traduz esse espírito e foi batizado de “Acreditar”. Na ocasião, uma homenagem ao samba, com clássicos maranhenses e brasileiros: Milhões de Uns (Joãozinho Ribeiro), Ray Ban (Cesar Teixeira), Na Linha do Mar (Paulinho da Viola), O Mar Serenou (Candeia), entre outros.

No palco Lena estará acompanhada de um time de primeira linha: Celson Mendes (violão), Júlio Pinheiro (flauta), Arlindo Carvalho e Léo Capiba (percussão).

Serviço

O quê: show “Acreditar”
Quem: Lena Machado (voz), com acompanhamento de Celson Mendes (violão), Júlio Pinheiro (flauta), Arlindo Carvalho e Léo Capiba (percussão).
Quando: 5 de maio, sexta-feira, às 12h
Onde: SESC Deodoro – Área de vivência
Quanto: entrada franca

O que deveria ter sido o Diário Cultural de terça-feira. Ou de hoje.

[O texto abaixo deveria ter sido publicado no Diário da Manhã de terça-feira, 2 de maio. Deveria. O jornal não circulou. Assim, deveria ter sido publicado hoje, que é dia de minha coluna novamente. Deveria.]

O barulho da navalha na veia da literatura

Quase quarenta anos após ser proibida pela censura, “A navalha na carne”, de Plínio Marcos ganha luxuosa reedição graças ao trabalho do Azougue Editorial. A obra, em capa dura e papel Couché Matte reproduzem o mesmo projeto gráfico dos fins dos anos sessenta do século passado. A peça, clássica à época, clássica hoje e sempre.

Quando me chegou às mãos um exemplar de “A navalha na carne” (Azougue Editorial, 2005, preço sob consulta em http://www.azougue.com.br/), do teatrólogo Plínio Marcos, impressionou-me de imediato, a qualidade gráfica do livro: um ensaio fotográfico com a encenação da peça, proibida, em fins da década de sessenta do século passado pela censura vigente à época. O autor, que teria completado setenta anos em 2005, ano de reedição desta obra prima do teatro nacional, subiu em 1999, vítima de diabetes.

Deparo-me com a peça toda fotografada, dentro do livro, e penso: genial. Faço, de mim para mim, elogios a Sergio Cohn, editor do Azougue Editorial – poeta e editora sobre os quais já falei anteriormente. E descubro – embora isso não lhe(s) tire o mérito – que o que vejo ali no livro, existe desde 1968, quando ele, Cohn, nem era nascido.

A idéia de fotografar a peça e publicá-la em forma de livro foi do jornalista Pedro Bandeira, hoje reconhecido autor de livros infantis. Conforme ele explica em “A navalha na carne: história de uma encenação fotográfica”, depoimento publicado nesta reedição do livro: “(…) na época, a censura era feroz contra os jornais, contra o cinema, e principalmente contra o teatro, mas os livros ficavam mais ou menos de fora da sanha controladora dos novos donos do poder. Então… que tal fotografar a peça inteira, usando as artes gráficas, o tamanho do corpo e a forma dos tipos das letras para dar a ênfase necessária ao embate cruel dos protagonistas, uma prostituta, seu cafetão e um frágil homossexual? (…)”.

Mais à frente, no mesmo texto, Pedro Bandeira observará que a coisa não era tão simples como hoje, onde se obtêm resultados como esse mais facilmente, a partir do advento do computador. Fico ainda mais impressionado com a qualidade do projeto gráfico de “A navalha na carne”.

Enredo

A prostituta Neusa Sueli precisa deitar-se com outros homens para garantir seu sustento e o de Vado, seu cafetão, que precisa do dinheiro dela para divertir-se com outras mulheres; Veludo, o homossexual viciado – também – em maconha, que rouba dinheiro dos dois para garantir as atenções de um rapaz e um cigarro de maconha. Uma rede de dependência entre os personagens, estas figuras marginalizadas que existem aos montes no Brasil – talvez por isso, a peça tenha sido censurada à época. Eis o mote da trama, que pode parecer comum, dadas as figuras que a compõem. Mas não é – ou ao menos deveria ser – essa uma das missões da arte: imitar a vida?

Além da montagem fotográfica e do depoimento inédito de Pedro Bandeira, esta reedição de “A navalha na carne” presenteia os leitores com textos críticos sobre o clássico pliniomarquiano, publicados à época de sua proibição – mesmo exibições privadas não seriam permitidas, absurda e abusivamente, à época –, através das penas de Anatol Rosenfeld, Sábato Magaldi, Yan Michalski, Eneida, João Apolinário e Décio de Almeida Prado.

Há obras que se tornam clássicos instantâneos. Neste rol, podemos incluir “A navalha na carne”. Com a palavra, novamente, Pedro Bandeira: “Que bom que você agora pode ver esta edição histórica!”. E luxuosa, acresço.

Serviço – ficha técnica

Com a censura vigente à época, usou-se o artifício de fotografar a peça “A navalha na carne” e publicá-la em forma de livro. A obra é reeditada agora pela Azougue Editorial (http://www.azougue.com.br/, para maiores informações e pedidos, preço sob consulta no site).

A ficha técnica: Walter Hüne (interpretação e realização gráfica), Yoshida (fotografia e laboratório), Fortuna & Cia.ltda. (tipos), Ruthineia de Morais (como Neusa Sueli), Paulo Villaça (como Vado) e Edgard Gurgel Aranha (como Veludo).

algumas

1. hoje é o dia mundial da liberdade de imprensa. no brasil, e especialmente no maranhão, há pouco para comemorar. por cá, agora, há o colunão, que voltou com força.

2. o segundo número do semanário independente editado por walter rodrigues (link ao lado) circula no próximo dia 7; o primeiro teve (ainda alguns) atropelos e falhas, que a equipe está se empenhando em corrigir. a partir da próxima edição, ele ganha regularidade, sendo publicado semanalmente aos domingos. a quem interessar possa, assinaturas podem ser feitas no (98) 3235 5530 e/ou wr.walter@uol.com.br

3. os discos “cruel” (póstumo) de sérgio sampaio e “ode descontínua e remota para flauta e oboé – de ariana para dionísio” (poemas de hilda hilst musicados por zeca baleiro), lançamentos que inauguram a saravá discos já estão à venda em são luís. na livraria poeme-se (rua joão gualberto, 52, praia grande, (98) 3232 4068). custam r$ 35,00 cada. no site, os mesmos estão sendo vendidos a r$ 30,00 + frete.

Vida, amor e morte. Não necessariamente nessa ordem

Breve etílica memória ressacada do lançamento de “Paisagem Feita de Tempo”. A subida de Guilherme de Brito. “Navegar é preciso!”, aí, no texto.

[sábado fui beber com Joãozinho Ribeiro, que nem estava bebendo. Um grupo de amigos reuniu-se em seu apartamento para celebrar seus cinqüenta e um anos. Ele, o amigo Reinaldo (técnico da Receita Federal) e Cesar Teixeira revezaram-se ao violão, lembrando sambas seus e dos bambas citados no Diário Cultural de domingo, abaixo. Ah!, o livro ficou lindo. Quem quiser comprar pode deixar recado aí na caixa de comentários ou mandar um e-mail. Neste e noutros endereços, completei, dia 28 de abril, dois anos de blogue]

“Já sei a notícia que vens me trazer”. Os versos que abrem “Notícia”, de Nelson Cavaquinho, Norival Bahia e Alcides Caminha – ele, o Zéfiro, dos Catecismos, assunto para outra coluna – parecem anunciar a coluna de hoje: leitores adivinharão que escreverei uma lembrança ressacada do lançamento do livro de Joãozinho Ribeiro, sexta-feira última. “Também”, caros leitores, mas não “somente”.

Há vinte anos – em 1986 – o Brasil perdia Nelson Cavaquinho, autor de clássicos como “A flor e o espinho”, “Quando eu me chamar saudade”, “Folhas secas”, “Mulher sem alma”, e “Pranto de poeta” – esta última gravada por Cartola –, entre outras. Um importante compositor (de samba) popular.

Em 2006, quarta-feira passada – uma espécie de quarta-feira de cinzas fora de época –, o Brasil perdia Guilherme de Brito, parceiro mais constante de Nelson Cavaquinho. Parceiro dele em todas as músicas citadas acima. Não li nada no noticiário. Confesso que às vezes até fujo de ler jornais. O motivo? Também é assunto pra outra coluna.

Análise acertada fez Pedro Alexandre Sanches, em seu blogue: o jornalismo cultural é fácil na morte. “Poeta bom, meu bem, poeta morto”, diria Zeca Baleiro.

Com a palavra os parceiros, eles, finados Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, mais vivos que nunca, na letra de “Quando eu me chamar saudade”: “Sei que amanhã quando eu morrer / os meus amigos vão dizer / que eu tinha bom coração / alguns até hão de chorar / e querer me homenagear / fazendo de ouro, um violão / mas depois que o tempo passar / sei que ninguém vai se lembrar / que eu fui embora / por isso é que eu penso assim / se alguém quiser fazer por mim / que faça agora”.

A morte, tema recorrente em suas parcerias. Ainda que (talvez) Nelson fosse mais dolorido. A filosofia – “barata”, podem dizer uns; “de botequim”, outros –, certeira.

Nelson Cavaquinho é um dos compositores prediletos do também compositor Joãozinho Ribeiro – eu disse que iria abordar o assunto. Joãozinho que tem um pé no samba, outro no choro. Joãozinho que lançou anteontem o livro “Paisagem feita de tempo”. Livro que fala (muito) na morte. Mas que celebra (muito) a vida. Joãozinho que já andou perto dela – da morte –, mas que resiste. A mais recente: na semana anterior ao lançamento, o poeta submeteu-se a um cateterismo. Ainda não foi dessa vez. Ele a quem os médicos deram sobrevida de cinco anos quando, aos cinco anos, descobriram-lhe um câncer, completou 51, ontem. ‘Güenta, João! Parabéns!

A Casa do Maranhão estava cheia na sexta-feira. Enorme sensação de prazer tomou conta de mim na ocasião: além de ver parido um filho que ajudei a fazer – o livro, que se não ajudei a escrever, pronto desde 1985, com uma mexida aqui outra ali dum nunca satisfeito Joãozinho, tem por lá minha modestíssima parcela de culpa –, foi bom – é bom – reunir parte (pequena) da família, reencontrar amigos que há muito não via e/ou outros que vejo (quase) diariamente. Uma pena a namorada ter viajado a trabalho.

A cabeça dói enquanto escrevo. Dois comprimidos analgésicos não resolveram – ainda – o problema. Enquanto escrevo ouço – alto – discos de Nelson Cavaquinho, os “Quatro Grandes do Samba” – eles, Nelson e Guilherme, mais Elton Medeiros e Candeia –, Jair do Cavaquinho e Argemiro Patrocínio, também já falecidos; também assuntos para outra(s) coluna(s).