E lá vamos nós de novo!

Os leitores deste blogue tomaram conhecimento, hoje, posts abaixo, de uma “discussão” minha com a jornalista Aulinda Lima por conta de nota publicada por ela em sua coluna (Diário Social) no Diário da Manhã. Na mesma data em que enviei e-mail à “colega”, enviei outro ao colunista de O Estado do Maranhão, Pergentino Holanda, por conta de nota publicada por ele anteontem, em sua coluna “diária”. A nota, intitulada “Jornal”, afirma que “jornal semanal não é jornal”. Como Ed Wilson Araújo transcreve a nota integralmente em seu artigo (leiam abaixo), não o farei aqui.

Sabendo que PH “não perderia seu tempo” em me responder, encaminhei o e-mail ao jornalista Walter Rodrigues (link ao lado), que me respondeu assim: “Logo, pela lógica ‘francesa’ deles, quem trabalha em semanário não é jornalista… E ninguém pode embarcar num automóvel, porque automóvel não é barco. Nem cavalgar uma moto, que não é cavalo. (…) Eles nunca ouviram falar em analogia e metáfora, meu caro poeta, nem tampouco em semântica.”

Abaixo, transcrevo o e-mail que enviei ao PH e o texto de Ed Wilson Araújo.

O e-mail que enviei ao PH

De: Zema Ribeiro <zemaribeiro@gmail.com>
Para:
ph@mirante.com.br
Data: 29/03/2006 12:31
Assunto: Jornal

Pergentino,
espero que leias meu e-mail, já que já tivemos problemas antes (você deve lembrar de minha resposta “atrevida”, via e-mail, quando você reclamou do “excesso de e-mails recebidos por colunistas”. Lembras?).

Sobre nota publicada em sua coluna ontem, com o título “Jornal”: espero que o que está ali escrito traduza “apenas” o que está ali escrito.

Antes de qualquer má-interpretação, não me considero “o tal” ou coisa parecida. Sou “apenas” um estudante de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, da Faculdade São Luís, agora no quinto período, “ainda”. Mas como deve se imaginar, um estudante de jornalismo não é um leitor comum de jornais: está (ou ao menos deveria, modestamente) acima da média da massa semi-analfabeta (infelizmente é a verdade) que compra o “embrulha-peixe” diariamente. Tem (ou deveria) uma visão crítica das coisas.

Voltando à nota: li, nas entrelinhas, um ataque (enrustido, disfarçado) ao Colunão, de Walter Rodrigues, com volta, independente, prevista para o início de abril.

Apesar de meu bom relacionamento com o editor do Colunão, ele não sabe que estou, agora, te escrevendo. Se você não sabe, escrevo para o jornal Diário da Manhã (portanto sem compromissos “profissionais” com WR) aos domingos, terças e quintas-feiras (faço uma coluna chamada Diário Cultural). Não digo isso para “aparecer” ou coisa parecida. Apenas para te perguntar: ele (o DM) não circula às segundas-feiras. Portanto 1) não é diário?, 2) não é jornal?

Espero, sinceramente, estar enganado, mas vindo de você, não sei. Sinceramente, repito.

Cordiais e respeitosas saudações,
Zema Ribeiro
http://olhodeboi2.zip.net
(98) 9112-1959

Jornalismo com problema de junta

por Ed Wilson Araújo*

“JORNAL – Semanário não é jornal. Esta, pelo menos, foi a conclusão a que chegaram alguns presidentes de Juntas Comerciais no término de seu encontro realizado em Belém do Pará, na última sexta-feira. A discussão surgiu depois que um palestrante informou que a Justiça de seu Estado não aceitava a publicação obrigatória de atos em semanários, embora de grande circulação, mas apenas em jornais diários. Alguns presidentes se levantaram informando que semanário também é jornal, mas ouviram a explicação: jornal vem do francês jour, que significa dia. Portanto, jornal tem que ser diário. Logo, semanário não é jornal.”

A nota acima foi publicada em 28 de março, na página editada pelo colunista social Pergentino Holanda (PH), no jornal O Estado do Maranhão. Não é estranho que presidentes de juntas comerciais queiram intrometer-se em questões conceituais da área de Comunicação Social, diante de tantos estranhamentos que rondam o espectro midiático. Ocorre que o silogismo dos “juntistas” extrapolou o bom senso, o senso comum e, principalmente, a paciência de tantos pesquisadores que vêm esforçando-se para tentar compreender o jornalismo como área de conhecimento.

Se semanário não é jornal, vamos emendar o soneto de PH: notícia é ata, reportagem é relatório, entrevista é bate-papo, editorial é bula de remédio e o jornal, todinho, é um grande boletim de ocorrências!

Seria o caso também de mandar paralisar toda a mobilização que vem sendo feita no Brasil para celebrar os 200 anos da Imprensa, em 2008, cujo ícone é o “Correio Brasiliense”, editado em Londres por Hipólito José da Costa e enviado clandestinamente ao Brasil. Nelson Werneck Sodré, na obra “História da Imprensa no Brasil”, fala sobre o tema: “O jornal de Hipólito destinava-se a conquistar opiniões; esta era sua finalidade específica. Mensalmente (grifos nossos), reunia em suas páginas o estudo de questões mais importantes que afetavam a Inglaterra, Portugal e Brasil, questões velhas ou novas, umas já postas de há muito, outras emergindo com os acontecimentos.” (Fonte: A Imprensa do Brasil: de D. João a FHC. Revista comemorativa do XXIII Congresso Mundial dos Jornalistas, Fenaj, 1998.)

Mas os dados históricos nem são os argumentos mais fortes para rebater a máxima proposta pelos presidentes de juntas comerciais. É o fator tempo no jornalismo o foco do debate. De Hipólito José da Costa ao jornalismo on line, a periodicidade interfere na forma e no conteúdo das produções noticiosas. Com a Revolução Industrial, estas produções passam a agregar a lógica da mercadoria, necessitando de uma “embalagem” apropriada. É assim que se aperfeiçoa o lide (lead), geralmente o primeiro parágrafo da notícia, que corresponde ao núcleo singular da informação.

No jornalismo semanal aprofundam-se as particularidades. É o que fazem as revistas, porque a periodicidade elástica possibilita, entre outros aspectos, um trabalho de investigação mais apurado, que nem sempre é possível na efervescência dos diários.

Os fatos de interesse jornalístico, ao percorrerem o discurso midiático, sofrem abordagens vinculadas às singularidades, às particularidades e à universalidade, ensina Adelmo Genro Filho. É neste tripé que os jornalistas procuram dar conta da totalidade dos acontecimentos, situando os textos em  contextos. A periodicidade serve, entre outras funções, para classificar as empresas jornalísticas (diários, semanários, quinzenários etc).

Estamos ainda engatinhando nos estudos de Comunicação. A caminhada é longa; requer tempo e esforço. Nossas modestas observações visam esclarecer o leitor que, por trás destas interpretações das juntas comerciais há fortes interesses. A reviravolta filosófica dos “juntistas” foi proferida em Belém, onde o polêmico jornalista Lucio Flavio Pinto, editor do quinzenário “Jornal Pessoal”, sofre uma intensa perseguição judicial patrocinada pela família Maiorana, expoente do coronelismo midiático no Pará. Curioso também é que a nota do PH tenha sido publicada na semana que antecede o retorno do semanário “Colunão”, editado pelo jornalista Walter Rodrigues, agora em vôo solo, nas bancas e para assinantes.

Dizer que semanário não é jornal deixa o jornalismo capenga. Um conceito assim, feito a foice, não fica bem para o requintado e sofisticado estilo do colunista social de O Estado do Maranhão. No mais, vida longa ao PH, ao “Jornal Pessoal”, ao “Colunão” e à liberdade de expressão.

Ed Wilson Araújo é jornalista e professor universitário.
edwilson_araujo@yahoo.com.br

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