Que porra, Maria!

por Cesar Teixeira *
Da janela da casa do meu pai, na rua São Pantaleão, espiava a vizinha Marly jogando beijos para me deixar sem graça. Eu era um pirralho de sete ou oito anos. Pouco depois, na tarde de 31 de março de 1964, vi quando a normalista morena e atlética entrou correndo com uma bandeira vermelha pela sua porta.

“Comunista”. Já conhecia o termo, que nessa época estava associado à figura da médica Maria José Aragão, cuja generosidade era tão difundida quanto a sua audácia diante dos poderosos. Nunca a tinha visto. Marly, que depois daquele dia desapareceu, com seu hálito de batom, provavelmente sim.

Soube, então, que Maria havia sido presa no sobrado onde morava, no início da São Pantaleão nº 126, ocasião em que fez um bravo discurso contra o golpe militar de uma das janelas.

Em 1969, aos 16 anos, participei de uma passeata juvenil, depois de fazer a caricatura de Médici com uma caneta azul na camisa do Liceu, onde quase fui reprovado por divulgar num jornalzinho teses sobre a epistemologia da indignação e a emergência de reconstrução do mundo a partir da merda total.

Desde então, Maria me acompanhou feito um fantasma.

Na volta da Zona

Meados da década de 70, sem data. Ao retornar amanhecido das ruínas da boate Bela Vista, na Zona boêmia da cidade, não resisti quando vi a porta de sua casa aberta, na rua de Santana (ela não tinha casa própria, sempre alugava uma), onde imaginei ver a placa: “Drª Maria José Aragão”.

Precisava conhecê-la, embora ainda não fossem sete horas. Entrei na casa.

Ninguém no consultório. Atravessei o corredor que dava para a varanda, em que havia uma grande mesa com café, leite, cuscuz, frutas etc. “Deve morar muita gente aqui”, pensei. Bati palmas, mas, arrependido da petulância, já me punha em retirada quando ouvi sua voz: “Sente aí, rapaz, vamos tomar café. Você, está muito magrinho…”

Falou assim, como se me conhecesse há muito tempo.

Sentei. Vi que morava só. Mas logo chegaram mulheres e crianças, que eram convidadas a ocupar as cadeiras vazias, antes de começarem as consultas. E então, em meio à animada conversa, as dificuldades de todos nos preencheram. Creio que aquilo ali já era o início de uma terapia. O fantasma diluiu-se no café como uma bola de açúcar.

Depois daquela manhã, nos veríamos em outras oportunidades tão ricas e proveitosas quanto aquela, não com freqüência. Até hoje, adoto a crença de que há certas pessoas especiais que não se deve visitar todos os dias, para não gastá-las. São raridades.

Lágrimas da Fome

Sua história poderia ser contada de revestrés, ou de trás para frente. Daria na mesma. Ela mantinha igual postura para entrar e sair da prisão, de um debate, de uma campanha bem sucedida, ou fracassada. Trazia costurada no peito a esperança feito camisa sem avesso.

A infância ficou mais pobre ao sair do Engenho Central para São Luís, com seis irmãos. O pai, Emídio, vivia a itinerância de guarda-fios dos Telégrafos, enquanto Rosa, a mãe analfabeta, colocava a educação dos filhos acima da fome. Maria estudou à base do mingau de farinha seca, mas concluiu o curso Normal.

Pegou o navio para o Rio de Janeiro, em 1934, com a mãe doente de câncer, que lá viria a falecer. Decidiu ficar para estudar na Escola de Medicina e Cirurgia, interrompendo o curso no 4º ano, devido à fome e ao trabalho árduo. Em 1942, formou-se em Pediatria e também chorou a morte da primeira filha, Clarice, aos dois anos, no Rio Grande do Sul, onde conseguiu o primeiro emprego como médica.

O comício de maio de 1945, realizado pelo Partido Comunista Brasileiro, no Estádio São Januário, foi decisivo em sua vida. No palanque, ao lado do poeta chileno Pablo Neruda, viu pela primeira vez Luís Carlos Prestes, anistiado após nove anos de prisão. Impressionada, entrou para o PCB.

Logo foi orientada a voltar para o Maranhão e aqui reforçar o Partido. Expôs-se nas portas das fábricas e viajou pelo interior do Estado, onde era tratada como prostituta e besta-fera por alguns padres, que também espalhavam que ela “comia criancinhas”. Na cidade de Codó, chegou a ser apedrejada.

A Luta Encarcerada

Ela foi presa pela primeira vez no final da Greve de 1951, quando o povo revoltou-se contra a política de Vitorino Freire, espécie de capitão-do-mato que, à sombra do Marechal Dutra, promovia atos de violência e fraudes eleitorais. Mas não era poupado pelo jornal “Tribuna do Povo”, dirigido por Maria, que, antes de ir em cana, atingiu os colhões de um policial com uma joelhada e puxou a barba do Chefe de Polícia, Edison Freitas Diniz.

Viajou, em 1961, para a União Soviética, onde participou de cursos de formação política, retornando ao Maranhão no ano seguinte. No natal de 1964, presa no 24º BC, recebeu uma caixa de biscoitos do poeta Bandeira Tribuzi com uma estrofe escrita no papel de embrulho: “Pastores junto a Maria / Neste Natal de ansiedade / Vemos que a estrela anuncia / O Cristo da Liberdade”.

Em maio de 1973, foi levada pela Polícia Federal para Fortaleza e ali barbaramente torturada, só voltando em agosto para São Luís. Julgada e condenada, em 1976, a um ano e um mês de prisão, foi libertada sob condicional, no início de 1977, mas o Superior Tribunal Militar determinou nova pena de 11 meses de reclusão.

Saiu do quartel da Polícia Militar para a Penitenciária de Pedrinhas, tendo que passar o natal novamente presa. Foi solta em 8 de março de 1978, data que, aliás, daria título ao movimento de mulheres encabeçado por Maria Aragão a partir de 1982 – o Grupo de Mulheres “8 de Março”.

Toda vez que era anunciada a sua prisão, ela ocupava-se em deixar as contas pagas e dinheiro suficiente para as necessidades de seus filhos adotivos. Durante e após a sua passagem por vários presídios, lutou contra a tortura, a fome, as humilhações e pelos direitos dos encarcerados.

Gracias a la vida

Maria tinha uma estreita relação com a arte, e, sobretudo, respeito e admiração pelos músicos – coisa incomum numa sociedade conservadora como a nossa, onde a própria esquerda os vê com olhos de direita: parasitas sociais, vagabundos, drogados, mas bastante úteis como animadores culturais em campanhas políticas.

Gostava de música brasileira, européia e latino-americana, popular ou erudita, desde que a emocionasse. Entre os autores preferidos, Gonzaguinha, Milton, Taiguara, Baden Powell e Violeta Parra, mas também Tchaikovsky e Carlos Gomes. Curtia com igual zelo o Lp “Uma Noite em Moscou” (Wal Berg e sua Grande Orquestra, da Barclay), Mercedes Sosa e o Boi do Maracanã.

Quando adoeceu gravemente, não fui ao hospital, temendo ver em pedaços o delicado vidro, através do qual nos comunicávamos, e sair dali ferido. Durante o trajeto ao cemitério, em 23 de julho de 1991, todos cantaram as suas músicas prediletas. Fiquei mudo.

Também não quis ver seu rosto no caixão. Resolvi guardar a sua imagem com a boca suja das feijoadas que promovia nas suas campanhas contra o câncer em mulheres. Muitas vezes ajudei a vender convites e toquei violão para arrecadar fundos, inclusive para a CUT, onde ela foi Tesoureira durante anos. Mas não freqüentava a “boca livre” que promovia todas as quintas-feiras em sua casa provisória, onde gregos se diziam troianos.

A única bronca que dava nos companheiros era quando, terminadas as reuniões ou noites culturais, queriam levá-la para casa, logo ela que gostava tanto de uma caipirinha, de um vinho, de uma cerveja… Tinham que ouvir sua artilharia: “Vocês vão para onde? Eu vou também, filhos da puta”.

Com ela, aprendi a doçura dos palavrões, que ainda causam arrepios em cinco gerações de falsos moralistas e estacionários.

O fogo da memória

Flores amarelas lembrarão sua passagem em minha vida, como fogo tênue. Não sei ainda se no Memorial Maria Aragão – tendo em conta a bílis que reveste as cortes transitórias feito papel de parede – o espaço do acervo, com suas xícaras, livros, jornais, fotos e púcaros, não correrá o risco de virar almoxarifado, ou balcão de maquetes das obras municipais com catálogos para turistas.

O Instituto Maria Aragão, de cujas hostes partiu a idéia do Memorial projetado por Oscar Niemeyer, tem um pé na história, mas o Palácio de La Ravardière está atento. O próprio Daniel deve ter pensado: “É melhor deixar que organizem o acervo, temos recursos. Nada como mão-de-obra gratuita e idéias vigiadas. Por outro lado, trata-se de um ano eleitoral…”

Por essas e por outras, tenho saudades do beijinho quente de Marly, arrumado nas pontas dos dedos, como pirão de farinha seca, e mais ainda do sorriso comunista, gordo e faceiro de Maria, que, a despeito do ritual de vaidades, ameaçando a fogueira de São João, lá nas alturas, deve estar mandando uma bela poorrrrrrrrrrrrrraaa!

* publicado originalmente na edição 84 do Suplemento Cultural e Literário J P Guesa Errante (link ao lado), em 2004, encartado quinzenalmente no Jornal Pequeno [fico devendo a data de publicação]

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