Arquivo mensal: dezembro 2005

mais 2 toques (esses virtuais)

1. além d”o trompetista gago”, linkado aí do lado, reuben agora está escrevendo emhttp://barulhos.zip.net; lá, ele escreve especificamente sobre poesia. sabe do que fala e o faz bem;

2. quarta-feira passada foi lançado o anuário iii do suplemento cultural e literário j p guesa errante; apareço lá com dois textos: “shopping brazil: boa música na praça de alimentação (ou de como cesar teixeira nos presenteia ao completar 51 anos)” e “música maranhense na paulicéia desvairada”, respectivamente sobre o lançamento do disco que batiza este blogue e sobre uma apresentação, em agosto de 2004, em palcos paulistas, de joãozinho ribeiro, josias sobrinho e chico saldanha. na ocasião do lançamento do anuário, foram apresentados os novos sites do jornal pequeno e do guesa (este já devidamente linkado aí ao lado).

Sete toques, sete dicas ligeiras

[Diário Cultural, ontem]

1m: O Bagdad Café é invadido agora, às terças, por blues. E jazz.  Edson Travassos Trio e convidados agitam as noites, a partir das 20h. Na Rua Portugal, Praia Grande. Couvert artístico: R$ 3,00.

D2is: Uma boa opção para as noites de sexta-feira é ver Zara no Crepes Bier Hauss (Ponta do Farol). Com repertório variado (esqueçam essa história de “Raul cover”!), ouve-se de Pink Floyd a Genésio Tocantins, de Bob Dylan a Erasmo Dibell, entre outros, além de canções autorais, de seu disco de estréia “É Assim Mermo…”

T3ês: Nova opção para a fidalguia boêmia da Ilha é o Bar Teatro Dom Calamar. Confira a programação para este fim de semana: hoje, 20h30min: Sandro e Pantoja, em “Sons do Brasil”; sexta, 9/12, às 22h: Jurandir Vieira em “Sentimental Demais”; e sábado, 10/12, no mesmo horário: Dedé Ferreira em “Tom Zé de Abreu” (sic). O endereço do novo espaço é Av. Daniel de La Touche, nº 01, loja 04, em frente à Pizzaria One. Dom Calamar na internet: http://domcalamar.multiply.com

Qu4tro: Entre os dias 8 e 10 de dezembro acontece o I Encontro Norte-Nordeste de Comunicação e Cultura, na Universidade Federal do Maranhão. Debates, palestras, mini-cursos etc. Promoção do Instituto Chamamaré de Comunicação e Cultura. Maiores informações e inscrições: Coordenações dos cursos de Comunicação Social da UFMA e Faculdade São Luís, (98) 3232-6320 e http://www.chamamare.org

C5nco: Já noticiado nesta coluna, vale a pena lembrar. “Direitos Humanos: O Avesso da Impunidade”. Seminário anual promovido pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Pe. Marcos Passerini (CDMP). Dias 9 e 10 de dezembro, no auditório Che Guevara do Sindicato dos Bancários (Rua do Sol, Centro). Informações e inscrições: Rua Sete de Setembro, 160, Centro, (98) 3231-1601, 3231-1897 e/ou smdh@terra.com.br

6eis: “O Acompanhamento”, peça com os atores César Boaes, Jorge Choairy e direção de Marcelo Flecha. Dias 12 e 13 de dezembro, às 19h, na Associação Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, 140, Centro, ao lado do TAA). Ingressos: R$ 6,00 (metade para estudantes com carteira).

7ete: Dica de presente de natal: o ótimo disco “Rebelião na Zona Fantasma”, do poeta Ademir Assunção. Poesia e(m) música na medida certa. Participações especiais de Edvaldo Santana e Zeca Baleiro. Pedidos pelo e-mail zonafantasma@uol.com.br e/ou sitehttp://zonafantasma.sites.uol.com.br

Rádio comunitária Conquista é lacrada pela segunda vez

por Ed Wilson Araújo *
A Polícia Federal e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) retomaram a repressão contra a rádio Conquista FM. A emissora comunitária do bairro Coroado foi novamente lacrada na manhã de 1 de dezembro, em uma operação que contou com a participação de um delegado e quatro agentes da Polícia Federal (PF), cumprindo mandado de busca e apreensão expedido pela Justiça Federal.

Os agentes levaram a mesa de som e o gerador de estéreo. Segundo os comunicadores da emissora, a operação foi monitorada por telefone pelo diretor da Anatel no Maranhão, Tomaz Francisco Estrela Filho. O presidente da associação mantenedora da Conquista, Magno Cruz, recusou-se a assinar o documento de lacre apresentado pelos policiais.

O fechamento ocorreu um ano após a primeira investida da PF/Anatel na emissora. Em dezembro de 2004, uma megaoperação lacrou 13 comunitárias na região metropolitana de São Luís.

A diretoria da associação está obtendo apoio jurídico do advogado Dimas Salustiano, que vai impetrar mandado de segurança para tentar reabrir a emissora e recuperar os equipamentos. Após o lacre, um grupo de 12 militantes da rádio teve uma reunião com Tomaz Estrela. Ele disse que reconhece o papel da Conquista, mas está cumprindo a lei.

Sem fins lucrativos, a rádio Conquista foi inaugurada em 2001 e vem desenvolvendo um trabalho educativo junto aos moradores do Coroado e adjacências. As decisões na emissora são tomadas através de um conselho que permite a participação de todos os integrantes da associação mantenedora. O desempenho da rádio é reconhecido por diversas instituições e a ação da emissora já foi tema de várias monografias de estudantes de Comunicação Social.

A Conquista passa por várias dificuldades financeiras, mas sobrevive graças ao empenho dos militantes e às parcerias que consegue firmar com sindicatos e entidades dos movimentos populares.

A direção da rádio está convidando os apoiadores para uma reunião dia 11 de dezembro (domingo) para fazer modificações no estatuto da associação e definir os próximos passos da reorganização da emissora, com a disposição de reabri-la.

* jornalista e professor universitário

Tributo a João do Vale no Rio

[release recebido, via e-mail, do jornalista Cesar Teixeira]

João do Vale será homenageado no Rio de Janeiro nesta terça-feira, 6 de dezembro, quando completa 9 anos do seu falecimento. A programação será realizada a partir das 19h no auditório do Clube de Engenharia (Av. Rio Branco, 124 – 25º andar), com o lançamento do documentário recém premiado em Gramado “João do Vale – muita gente desconhece”, do cineasta Werinton Kermes.

O tributo prestado ao compositor no Rio, onde é considerado como “o mais carioca dos maranhenses”, ocorre no momento em que se comemora os 40 anos do revolucionário Show Opinião, espetáculo idealizado por Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, com direção de Augusto Boal, que mesclava a força da música de raiz ao impacto performático da representação teatral.

Após a exibição do documentário sobre João do Vale, haverá um debate com a participação de Werinton Kermes, Sérgio Cabral e Márcio Paschoal, autor do livro “Pisa na fulô, mas não maltrata o carcará”, um envolvente resgate da vida e da obra do compositor maranhense, lançado em 2000 pela Lumiar Editora. A programação será encerrada com um  show de Geraldo Azevedo.

Direitos Humanos: O Avesso da Impunidade

[na coluna Diário Cultural, jornal Diário da Manhã, hoje]

Dia 10 de dezembro é celebrado o aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1948. Já é tradição, constando portanto no calendário cultural e acadêmico da capital maranhense, a realização do Seminário Anual de Direitos Humanos, promovido pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Pe. Marcos Passerini (CDMP), entidades filiadas ao Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH).

Com apoio do Fórum DCA, Fórum Estadual de Direitos Humanos, Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos, Dupla Criação Publicidade e Design, Solar Consultoria, Fórum de Erradicação do Trabalho Escravo do Maranhão (FOREM), além do MNDH, o seminário acontece nos próximos dias 9 e 10 de dezembro, no Auditório Che Guevara, do Sindicato dos Bancários (Rua do Sol, Centro). Para inscrições e maiores informações, entre em contato: (98) 3231-1601, 3231-1897 e/ou smdh@terra.com.br. Diário Cultural publica, a seguir, a programação completa.

Programação

9 de dezembro

Manhã – 8h: Abertura

Conferência: “Direitos Humanos: Um Desafio Ético e Político na Construção de um Novo Mundo e os Condicionantes do Mundo Globalizado”. (Coordenação da Mesa: CDMP; conferencista: Wanderlino Nogueira, Procurador de Justiça aposentado/BA, Assessor Jurídico do Conselho Estadual da Criança/CE, Conselheiro da Associação Nacional dos Centros de Defesa).

Tarde – 14h: Mesa Redonda: “Direitos Humanos: Entre o Universal e o Respeito às Diferenças”. (Coordenação: SMDH; Expositores: Ieda Batista, Grupo de Mulheres da Ilha; Nelma Pereira da Silva, CDMP; Dilson Jr., Fórum das Entidades de Pessoas Portadoras de Deficiência e Patologias; Maria do Socorro Ramos Ferreira, Conselho do Idoso; Antonio Vieira dos Santos, Centro de Cultura Negra/MA; Ayrton Ferreira, Grupo Gayvota).

Debates.

Recital: “Direitos Humanos: O Avesso da Impunidade”; Entrega do Prêmio de Mérito Profissional; Lançamento do Prêmio de Redação Estêvão Rafael de Carvalho e de publicações; Distribuição do Kit Campanha “Sem Segurança Não Há Futuro”.

10 de dezembro

Manhã – 8h: Celebração Ecumênica: “Em Defesa da Vida”.

Exposição: “O Balanço dos Direitos no Brasil e no Maranhão”. (Expositores: Joisiane Gamba, advogada da SMDH, Coordenadora do MNDH e vice-presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos-CEDDH; Sálvio Dino, Secretário de Estado de Justiça e Cidadania, presidente do CEDDH).

Oficinas:

1. Por Um Projeto Auto-sustentável no Baixo Parnaíba (Nair Barbosa e Rosiane Gomes Dias, da SMDH)

2. Ações Pela Dignidade dos Condenados à Privação de Liberdade – Campanha Nacional Permanente Contra a Tortura (Márcio Thadeu Marques, Promotor de Justiça do Estado do Maranhão, Coordenador do Comitê de Combate à Tortura do MA)

3. Trabalho e Dignidade Humana: Combate ao Trabalho Escravo (Cândida Costa, Professora da UFMA, Relatora para o Direito Humano ao Trabalho, Plataforma DHESCAs)

4. Uma Experiência de Construção Coletiva – Fórum Municipal de Cultura (Joãozinho Ribeiro, poeta, compositor, professor universitário)

Tarde – 14h: Apresentação dos Resultados das Oficinas.

Apresentação Cultural: CCN/MA

Direitos Humanos 100% já!

[sexta e sábado, 9 e 10/12, acontece o Seminário Anual de Direitos Humanos, promoção da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Pe. Marcos Passerini (CDMP). No clima, este blogue reproduz o artigo abaixo, publicado no jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS), em 2/12]

Paulo César Carbonari *

Direitos Humanos é uma daquelas questões que não se coaduna com meias verdades, com posicionamento neutro e, muito menos, com realização parcial. Por isso, direitos humanos 100% já, como quer a campanha coordenada pelo Instituto de Acesso à Justiça (IAJ). Por quê?

Porque não dá para defender direitos humanos somente dos humanos direitos. Ora, direitos humanos são direitos de todas as pessoas ou não são direitos humanos. Afinal, direitos humanos são universais. São direitos de toda gente, de todo tipo de gente, de gente sem tipo, simplesmente gente.

Mas, reconhecer a diversidade e a pluralidade é o desafio. Ora, é possível respeitar a todos/as e a cada um/a em sua singularidade, sua particularidade e sua universalidade. Afinal, cada ser humano é um sujeito de direitos que se faz sujeito na interação concreta com os outros humanos.

Porque não dá para sustentar que há direitos líquidos e certos e direitos que dependem da vontade dos governos ou das sobras do superávit primário. Ora, todos os direitos humanos (civis, políticos, econômicos, sociais, culturais, ambientais e .) são direitos humanos, indivisíveis e interdependentes. Afinal, direitos humanos são de cada pessoa, intransferíveis e indisponíveis.

Mas, é possível compreender que a realização dos direitos humanos ocorre no contexto histórico, suscetível aos conflitos e às contradições nele existentes. Ora, direitos humanos são, a um só tempo, patrimônio normativo, parâmetro político e exigência histórica a orientar os arranjos sociais e políticos. Afinal, identificar conflitos, ponderar demandas e pactuar prioridades são necessidades permanentes, nunca para protelar ou para ignorar.

Porque não dá para aceitar que os direitos humanos sejam lembrados somente quando há vítimas de sua violação. Ora, os direitos humanos exigem vigência permanente na vida de cada uma e de todas as pessoas, ou não estarão sendo respeitados. Afinal, direitos humanos exigem realização integral, com promoção de todos os direitos, proteção dos direitos dos vulneráveis e reparação/restauração às vítimas das violações.

Mas, é também necessário aprender da própria prática. Ora, monitorar e avaliar compromissos em direitos humanos é papel chave da sociedade civil; é dever exigir do Estado que respeite e realize os direitos humanos. Afinal, é assim que se poderá avançar na construção de condições mais propícias para efetivar todos os direitos humanos.

Defender direitos humanos 100% já é manter mobilizada a indignação e a solidariedade, bases de uma cultura de direitos humanos capaz de gerar novas subjetividades e novas institucionalidades, a fim de afirmar e confirmar sujeitos de direitos. Este é o desafio maior para todos/as quantos/as não abrem mão de dizer, cada vez com mais força: Direitos Humanos 100% já!

* professor de Filosofia (IFIBE) e Coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH).

No Ceará tem disso, sim!

[nossa coluna no Diário da Manhã de ontem]

A cantora e compositora Cy D’Olímpio, cearense, estréia em disco. Um punhado de canções autorais, amadurecidas no bom tempo da noite fortalezense, regravações de Cátia de França e Mano Borges. Nem Jazz, Nem Jeans. Jazz, jeans, quem disse que no Ceará não tem disso não?

Para quem (ainda) pensa que a música cearense se resume a dinossauros do quilate de Belchiores, Ednardos e Fagners (e por favor, entendam dinossauros como um elogio!) ou as desgraças que assolam as rádios (e conseqüentemente nossos ouvidos, a sofrer como penicos) – a que chamo “carinhosamente” de geração pós-mastruz-com-leite (ei, devo admitir: o Mastruz Com Leite era até bonzinho quando surgiu) – recomendo o disco de estréia da cearense Cy D’Olímpio.

“Nem Jazz Nem Jeans” é um disco assim: nem tanto ao mar, nem tanto a terra, como devem ser as coisas nas plagas de Iracema. Misturando elementos vários, com várias influências. A noite de Fortaleza/CE presente.

Faixa a faixa

Ela começa: “enfrentei fantasmas, becos, marginais / vou continuar seguindo até sentir / as suas digitais”, em “Fotossensor de Novela”, faixa que abre o disco. Passo as mãos no encarte, um luxo. Nem jeans, nem seda, algo macio, guardada uma certa aspereza, quase nada: o próprio canto de Cy D’Olímpio. E continua: “teu corpo aquarela me perdi”, em “Cá Dentro de Mim”. Quem nunca se perdeu um dia? E ela regrava “Você é Tudo”, de Mano Borges. Cy é “tudo e muito mais”.

“Absoluto”: “Toda mágoa acaba” (ainda bem, penso); “Todo amor tem direito” (à correspondência, completo). “Toda canção melodia” (eu que o diga, ouvindo este disco). Em “Taí o Samba”, inevitável citação à Noel Rosa, uma das influências da moça. Babal. Sim, o cara que fez versão de Bob Dylan com Geraldo Azevedo. Sim, regravação dele. A voz dela e um piano. Eu nunca tinha visto ninguém gravar Babal só com um piano. Agora posso dizer: “Exceto” a Cy.

A faixa-título tem belíssimas imagens (ta, talvez eu seja, por demais, saudosista): “já não vemos mais aqueles velhos lindos filmes” (agora é só a violência banalizada), “Janis Joplin já cansou de rir nessa parede” (agora é o riso falso de falsas atrizes ou cantoras, o que não é o caso de Cy), “não tem mais condição / sem Elis nem jeans / cadê nossa ilusão / viver de sombra e de tesão?” (é preciso dar vazão, meu povo!, viva Cy!) Em “Encontros”, “a arte cala tudo / e fala fundo ao coração”. É, com a verdadeira arte é assim. Fico em silêncio e prossigo ouvindo a cearense.

Em “Lembro de Ti”, “só tenho um cigarro / como companhia”. Se o gaúcho Caio Fernando Abreu, antes de subir, tivesse ouvido a estreante (estreante em disco, é bom que se diga!), ele com certeza escreveria um conto e avisaria: “para ler ouvindo Cy D’Olímpio”. “Em Cima do Tempo”, “nada vale se não for real”. E “Lá Vem Batista” fechando o disco. Cátia de França revisitada com competência, “mistura de carcará com sina de lampião”.
Então, caro leitor, você pode até “querer nem ovo”, como diz o ditado cearense, mas se quiser “Nem Jazz Nem Jeans”, eis o caminho das pedras (que dão leite): pelos telefones (85) 8855.5583, 8858.7073, e-mail gzmundodeoz@yahoo.com.br

Em tempo

Sobre a nota publicada aqui em 29/11 passado, que dava a triste notícia do falecimento de “Tia Marta”, Susalvino Viana (assíduo leitor deste blogue, e único parente que o lê com freqüência, atualmente), lembra: faltou dizer que Tia Marta, na década de 70 do século passado exerceu um mandato como vereadora em Santa Rita/MA, chegando a ser presidente da Câmara Municipal. Recado dado.

Resenha

[o texto abaixo foi feito para “nota”. Explico: trata-se de atividade da disciplina Laboratório de Mídia Impressa III, ministrada pelo mestre Marcos Fábio Belo Matos (link ao lado). Confesso que não gosto de escrever para conseguir nota. Isso me castra. E confesso que sempre desconfio de livros indicados por professores. Talvez seja o trauma do ensino de literatura (de modo geral) praticado no ensino brasileiro (de modo geral). Mas Marcos Fábio tem bom gosto: foi o meu primeiro contato com a obra de José Saramago, confesso a ignorância, (im)perdoável talvez. E o professor me emprestou também, depois, o Cabeça a Prêmio, do Marçal Aquino. E vou pegar, agora, o Famílias Terrivelmente Felizes. E todo mundo diz que Marçal é melhor contista que romancista. Então deve ser ótimo: eu gostei do romance que li. Bom, basta. A resenha, pois.]

O Homem Duplicado, José Saramago

Se o mérito para se ganhar um prêmio Nobel de literatura for tão somente a literatura, eis aí um nome que o merece: José Saramago. Engenhoso, o autor consegue criar um estilo de escrita em que, no próprio texto, por vezes adverte o leitor de que aquilo é somente ficção. JS nos faz penetrar no(s) universo(s) de suas personagens, que parecem ganhar vida (ou morte) própria, apesar das advertências do mago (ou bruxo?) português ao longo da narrativa.

Dono de um estilo a que particularmente chamo “literatura de fôlego”, só percebido por mim em leituras anteriores no paulista Raduan Nassar [entre outros, Lavoura Arcaica (1975), que deu origem ao filme homônimo], JS sabe apropriar-se (e bem) de pontos e vírgulas, entremeando diálogos sem o uso de travessões, contando a história com a sofreguidão (mas nunca o nervosismo) de um assaltado ao pé do balcão duma delegacia (com o péssimo atendimento que temos cá nas nossas).

E por falar em “cá nas nossas”, vale frisar que para os países de língua portuguesa, as obras de JS não são traduzidas: vêm no português de Portugal (oh! intencional redundância…). Excentricidade? Se sim, isto é permitido ao homem que batizou o próprio cachorro com o nome Pepe, para não ser assim chamado por onde mora, na Espanha [como no Brasil todo José é Zé, por lá, todos são Pepes].

“O Homem Duplicado” [Companhia das Letras, 2002] é um mergulho profundo na(s) trágica(s) história(s) de Tertuliano Máximo Afonso, pacato professor de história em uma escola de ensino médio (classificação esta dada aqui nestas plagas). Pacato até o dia em que um amigo seu, professor de matemática na mesma escola, recomenda-lhe assistir a um filme onde Máximo Afonso [assim o protagonista prefere chamar-se] vê-se refletido: há um ator que é sua cópia fiel no vídeo, que agora mais se parece um espelho.

A partir daí, a vida de Tertuliano Máximo Afonso [e aqui repito o nome inteiro para valer-me de recurso por demais usado por JS durante o contar/correr (d)os acontecimentos] torna-se uma verdadeira obsessão por identificar, conhecer e descobrir todas as semelhanças possíveis e imagináveis (ou não) entre ambos.

Angústias, tragédias, loucuras. Surpresas a cada página. JS consegue ser folhetinesco, prendendo a atenção do leitor, despertando-lhe a vontade de seguir adiante a cada capítulo, sem dar descanso aos olhos, mente e alma: o tom detetivesco de JS em seu “O Homem Duplicado” garante a vontade de seguirmos seguindo [intencional re-redundância] os passos de homens e mulheres, flores e espinhos nascidos da fertilidade criativa de JS.

Chegou Dezembro! A Rebelião continua!

Dezembro é o mês em que faço aniversário. 24 anos dia 19 que vem. Belo presente foi saber da “inauguração” do site Rebelião na Zona Fantasma, dedicado ao disco homônimo do poeta Ademir Assunção. Tá uma beleza! Por lá é possível ler o texto que fiz sobre o disco (publicado em 10 de setembro passado no jornal O Estado do Maranhão). E é possível também ouvir três faixas do disco (vale a pena, galera!). E é possível também comprar o disco. E… vão lá clicando aqui!

Chegou Dezembro!

[texto e nota que fazem nossa coluna de hoje no Diário da Manhã; o primeiro foi publicado ainda em dezembro do ano passado no blogue que fazia antes de mudar-me para este endereço; de tanto a imprensa local recusar-se a publicá-lo, coloquei lá; como agora tenho liberdade na Diário Cultural, achei por bem reproduzi-lo. Em tempo: à época eu disse sobre O Natimorto: “a melhor ficção lida por mim em 2004”]

O “Risco: Ruído” nada Natimorto da DBA Editora

Conhecida pela produção de livros institucionais, a DBA Editora entrou certeira no mercado da (ótima) literatura de ficção. Lançou em São Paulo, ainda em 2004, sua coleção “Risco: Ruído”, cujos dois primeiros volumes são as luxuosíssimas edições de “O Natimorto”, de Lourenço Mutarelli e “Gozo Fabuloso”, de Paulo Leminski, último volume da obra do poeta paranaense deixado organizado pelo autor para publicação. Alice Ruiz, sua ex-companheira, revisou-o e assinou o prefácio.

A coleção “Risco: Ruído” tem curadoria de quatro grandes nomes da ótima – a redundância é intencional – literatura produzida atualmente no Brasil: Joca Reiners Terron, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira e Ronaldo Bressane.

O Natimorto

Fumante inveterado e viciado em cafeína, O Agente, protagonista de “O Natimorto” – mais recente título de Lourenço Mutarelli [SP, 1964] a chegar ao mercado – tenta adivinhar a própria sorte através das imagens contidas nos maços de cigarro, fazendo destas figuras, cartas de um estranho tarô de nossos tempos.

O Agente (que não age) apaixona-se por uma cantora – A Voz – que não canta. História de amor e ódio, ele confina-se num quarto de hotel, após abandonar a esposa, que não aceitando a sua tentativa de tornar-se um ser assexuado, o trai constantemente.

Um musical silencioso escrito por um desenhista. Poderia ser apenas mais um “livro na minha estante, que nada diz de importante”, mas não é. Cinema? HQ? Poesia? Música? Teatro? Literatura? Absurdo? Trágico? Engraçado? Intrigante? Tudo isso e mais um pouco, num caldeirão fervente, temperado com a experiência mutarellica de “O cheiro do ralo” [romance de estréia do autor, Editora Devir, 2003, que está sendo filmado, como já noticiou esta coluna], que já venceu seis edições do Prêmio HQ Mix, o mais importante do gênero no país.

Se você fuma ou é viciado em café, compre este livro! Se fizer os dois, melhor ainda. Se não é nem uma coisa, nem outra, compre assim mesmo e vicie-se em ótima literatura contemporânea.Você compra os livros da DBA Editora no site da mesma:www.dbaeditora.com.br ou pelo telefone (11) 3062 1643.

Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira

E o prêmio vai para Amílcar Bettega Barbosa! Com “Os lados do círculo” (contos, Editora Cia. das Letras), ele faturou a edição de 2005 do prêmio. O escritor Joca Reiners Terron, comentou assim a vitória: “Palmas para o júri, pela coragem em investir num autor novo e por consagrar o prêmio à literatura, e não aos resultados de vendas”.

A coluna Diário Cultural torce para que isso se torne uma tendência, necessária, diga-se de passagem. Que tal se isso chegasse até a academia brasileira de letras (em minúsculas mesmo)? Por lá, o mérito menos importante para se tornar um imortal é a literatura.