No Ceará tem disso, sim!

[nossa coluna no Diário da Manhã de ontem]

A cantora e compositora Cy D’Olímpio, cearense, estréia em disco. Um punhado de canções autorais, amadurecidas no bom tempo da noite fortalezense, regravações de Cátia de França e Mano Borges. Nem Jazz, Nem Jeans. Jazz, jeans, quem disse que no Ceará não tem disso não?

Para quem (ainda) pensa que a música cearense se resume a dinossauros do quilate de Belchiores, Ednardos e Fagners (e por favor, entendam dinossauros como um elogio!) ou as desgraças que assolam as rádios (e conseqüentemente nossos ouvidos, a sofrer como penicos) – a que chamo “carinhosamente” de geração pós-mastruz-com-leite (ei, devo admitir: o Mastruz Com Leite era até bonzinho quando surgiu) – recomendo o disco de estréia da cearense Cy D’Olímpio.

“Nem Jazz Nem Jeans” é um disco assim: nem tanto ao mar, nem tanto a terra, como devem ser as coisas nas plagas de Iracema. Misturando elementos vários, com várias influências. A noite de Fortaleza/CE presente.

Faixa a faixa

Ela começa: “enfrentei fantasmas, becos, marginais / vou continuar seguindo até sentir / as suas digitais”, em “Fotossensor de Novela”, faixa que abre o disco. Passo as mãos no encarte, um luxo. Nem jeans, nem seda, algo macio, guardada uma certa aspereza, quase nada: o próprio canto de Cy D’Olímpio. E continua: “teu corpo aquarela me perdi”, em “Cá Dentro de Mim”. Quem nunca se perdeu um dia? E ela regrava “Você é Tudo”, de Mano Borges. Cy é “tudo e muito mais”.

“Absoluto”: “Toda mágoa acaba” (ainda bem, penso); “Todo amor tem direito” (à correspondência, completo). “Toda canção melodia” (eu que o diga, ouvindo este disco). Em “Taí o Samba”, inevitável citação à Noel Rosa, uma das influências da moça. Babal. Sim, o cara que fez versão de Bob Dylan com Geraldo Azevedo. Sim, regravação dele. A voz dela e um piano. Eu nunca tinha visto ninguém gravar Babal só com um piano. Agora posso dizer: “Exceto” a Cy.

A faixa-título tem belíssimas imagens (ta, talvez eu seja, por demais, saudosista): “já não vemos mais aqueles velhos lindos filmes” (agora é só a violência banalizada), “Janis Joplin já cansou de rir nessa parede” (agora é o riso falso de falsas atrizes ou cantoras, o que não é o caso de Cy), “não tem mais condição / sem Elis nem jeans / cadê nossa ilusão / viver de sombra e de tesão?” (é preciso dar vazão, meu povo!, viva Cy!) Em “Encontros”, “a arte cala tudo / e fala fundo ao coração”. É, com a verdadeira arte é assim. Fico em silêncio e prossigo ouvindo a cearense.

Em “Lembro de Ti”, “só tenho um cigarro / como companhia”. Se o gaúcho Caio Fernando Abreu, antes de subir, tivesse ouvido a estreante (estreante em disco, é bom que se diga!), ele com certeza escreveria um conto e avisaria: “para ler ouvindo Cy D’Olímpio”. “Em Cima do Tempo”, “nada vale se não for real”. E “Lá Vem Batista” fechando o disco. Cátia de França revisitada com competência, “mistura de carcará com sina de lampião”.
Então, caro leitor, você pode até “querer nem ovo”, como diz o ditado cearense, mas se quiser “Nem Jazz Nem Jeans”, eis o caminho das pedras (que dão leite): pelos telefones (85) 8855.5583, 8858.7073, e-mail gzmundodeoz@yahoo.com.br

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM). Coautor de "Chorografia do Maranhão" (Pitomba!, 2018) e autor de "Penúltima página: Cultura no Vias de Fato" (Passagens, 2020). Antifascista.

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